Uma piada local e recorrente aqui é que os holandeses não tem culinária típica. É um negócio tão disseminado que no nosso livro texto de língua holandesa (Taal Vitaal, pra quem estiver curioso) tem um cartum, no capítulo 6, mostrando um garçom rindo e falando pra colega, sobre o pedido de um casal na mesa (alarme de piada fraca citada apenas para ilustrar o ponto):
- Hij heeft naar een Nederlandse specialiteit gevraagd. (Ele pediu um prato típico holandês.)
- Gekke toeristen! (Turistas doidos!)
Har, har. Enfim, especialidade holandesa não é a culinária. Quando pressionados muito pra citar um prato típico eles mandam, após pensar muito, o erwtensoep, que nada mais é do que sopa de ervilhas. A Carla estranhou:
- Sopa de ervilha?! Mas isso eu comia no Brasil! Minha mãe fazia! Tem em todo lugar!
- É? É? Mas… mas… a da sua mãe tinha bacon? Hm? Hein?
- AMHAM!
- Hm, nossa. Sua mãe é holandesa?
Outras iguarias exclusivas e orgulho da culinária holandesa são… hm… a batata frita. Não, sério. O cúmulo do desinteresse pela comida como forma de arte fica evidente numa peculiaridade holandesa: a parede de comida. É, tentem imaginar uma parede cheia de forninhos. Cada forninho tem um buraco pra receber moedas e contém uma iguaria deep-fried requentada. Às vezes xis-burgueres. Croquete, sempre, eles amam croquete (sem maldade, gente). Acho que só a visão de semelhante absurdo causa enfarte num italiano ou francês (o resto do mundo tem que efetivamente comer as tranqueiras pra enfartar devido ao alto índice de colesterol). Contemplem, senhores, a culinária holandesa em toda sua glória (segundo o livro Undutchables):
De lekkerste quer dizer “O mais gostoso”.
Bem, mas isso tudo não quer dizer que na Holanda não tenha coisas gostosas e típicas pra comer. Sim, tem. Vamos à lista.
1. Appelgebak met slagroom (Torta de maçã com chantili)
Vamos logo começar pelo melhor. A torta de maçã holandesa é um clássico que não deve ser perdido quando você se pilhar rolando pelas terras baixas. Recomendo acompanhar de um café espresso e mandar ver. A torta em geral vem acompanhada com slagroom (céus, você quer mesmo pronunciar isso? Tão tá. Vá neste site e digite slagroom na caixinha. Selecione Dutch no menu, e clique em say it. Repita. Boa sorte.), mas fica muito boa também com ijs (sorvete, se pronuncia éis) ou mesmo pura. Em basicamente qualquer lugar se vende a famosa appeltaart (outro nome da appelgebak), da mais fuleira espelunca ao pico mais chique. Eu e Carla particularmente gostamos da do Ovidius, um bar que fica no famoso Magna Plaza, o ex-escritório central dos Correios holandeses hoje transformado em Shopping Center de moda, que fica atrás do De Dam, a praça central de Amstedam.
Vá lá: Ovidius Café junto ao Magna Plaza
Endereço: Spuistraat 139, Amsterdam
2. Haring (Arenque)
O já clássico arenque cru! Quem acompanha o Ducs em Amsterdam do começo já ouviu falar dessa iguaria. O arenque é um peixe marinho que é comido por aqui cru, em geral acompanhado de cebolas e picles. Os mais típicos comem o treco semi-inteiro (eles tirama cabeça e limpam o peixe, mas ele está em um pedaço só), segurando pela cauda e segurando o bichinho acima da cabeça. Bem, vejam por si mesmos. Os coxinhas e turistas podem pedir o tradicional haring maculado ao ser cortado em pedacinhos e servido no prato, com delicados palitinhos para comer (e aguente as piadinhas e risadinhas sarcásticas dos holandeses quando você arregar de comer “do jeito certo”). Ou, horror dos puristas, no pão. De toda a maneira fica muito bom. Recomendo superar o preconceito e efetivamente experimentar. É forte, sim, mas muito gostoso. A época ideal para comer é no começo de junho, quando há o celebrado “Hollandse nieuwe”, o arenque da estação. No resto do ano ele é conservado congelado. É bom ainda, mas o da estação é muito melhor. Onde vende? Procure pelo cartaz com a loira vestida de holandesa típica comendo o arenque. Está em toda parte. Mas o mais legal é comprar nas barraquinhas na rua. É o “jeito certo”
3. Batata frita com maionese
Calma, calma, DONT PANIC! Respire, respiiireee… isso… pronto. vamos começar de novo. Batata. Certo? O que há de mal em batatas? Todo mundo gosta de batatas. E fritas, nossa, batatas fritas são um sucesso. Não há o que errar com batatas fritas. Nem mesmo… eu sei que é difícil de aceitar a idéia, assim, no seco, mas confie em mim, nem mesmo com maionese. Um clássico holandês, as batatas fritas com maionese, citadas na famosa cena das “little diferences” do Pulp Fiction, são realmente gostosas. Nos bares e restaurantes (especialmente nos pra turistas) elas são vendidas em pratinhos que vem, no lado, um potinho de maionese pra você mergulhar. Mas na rua elas são vendidas num cone de papel onde se derruba um sblorb de maionesão em cima da coisa toda. Céus, eu posso ouvir os franceses e italianos se revoltando daqui (o horror, o horror), mas dê uma chance às Vlaamse Frites (pode pedir por french fries mesmo, sua chance de ser entendido passa de zero pra 100%, porque é ponto de honra na Holanda não entender e reagir como se tivesse ouvido sânscrito pra qualquer tentativa de um turista falar qualquer coisa em holandês, mesmo que seja um “hallo”), nem que seja pelo engraçado da coisa.
Todos os guias recomendam: Vleminckx
Endereço: Voetboogstraat, 33 (perto da Kalverstraat e da Spui)
Se quiser uma batata menos tradicional, não a famosa Vlaamse Frites no coninho de papel, vá no V&D La Place (Rokin, 160), que serve no prato e é muito gostosa.
4. Laticínios
Queijos! Iogurtes! Sorvetes! Oh, entre em qualquer supermercado e compre um Gouda, ou um dos milhares de tipos de queijo. Ou de iogurte. o Albert Heijn tem um iogurte de baunilha orgânico que é uma delícia. Sempre compramos pra impressionar as visitas do Brasil. A propósito, orgânico em holandês é biologisch (biolórrich). As vaquinhas holandesas são famosas no mundo todo e eu descobri aqui que é com inteira e justificada razão. Os holandeses podem não ligar pra culinária, mas laticínio eles sabem fazer direito e se orgulham disso. Descole um vla, se tiver a oportunidade. Vá na prateleira de laticínios no supermercado e pegue um da Campina.
E se você quer comer um sorvete realmente, mas realmente bom, vá na Australian (há, eu aprecio a ironia do nome). Os sorvetes deles não tem conservantes nem sabores artificiais, são feitos praticamente na hora e são, oh, uma delícia. Não perca, tem uma pertinho da Leidseplein.
Australian Homemade
Endereço: Leidsestraat 101, 1017 NZ, Leidseplein, Amsterdam
5. Stroopwafel
-
E por enquanto é isso, pessoal. Ainda tem mais coisas, como o famoso stroopwafel, muito bom com café (UPDATE: ganhou um post só dele), e o drop (que já mereceu post por aqui), mas com isso já dá pra ter uma idéia. Depois tem mais.
Ah, e por aí, na sua cidade, o que tem de típico e legal pra comer? Escreva um post e avise aqui nos comentários. Estou morrendo de curiosidade.
Leia mais:
- Comer na rua em Amsterdam (não tem nada a ver com o Red Light district)
- Rotterdam
- O homem que sabia javanês, o Orkut e o arenque
- The little diferences
Tags: café, comer em Amsterdam, comida, comida típica na Holanda, culinária holandesa










August 18th, 2008 at 4:00 pm
“Os sorvetes deles não tem conservantes nem outras coisas químicas, ” … entendo .. entendo .. são sorvetes totalmente nao quimicos, feito com o mais puro vácuo sideral!
ok, ok … vc sabe .. é mal da profissao …
August 18th, 2008 at 4:05 pm
Corrigido.
August 18th, 2008 at 4:34 pm
bah - a idéia nem era essa … grunfs
August 19th, 2008 at 1:28 pm
“Um sblorb de maionesão” Hahahaha!
Muito bom o post.
Eu vergonhosamente não conheço muito das comidas aqui de Auckland e isso por dois motivos:
1. Pura preguiça.
2. Meus flatmates são franceses e bicho, é clichê, eles sabem o que fazem quando o assunto é comida.
Mas a Nova Zelândia tem uma resposta fácil para comida típica, é o fish & chips. Vou roubar a descrição que consta no Portal da Oceania:
“Fish & Chips nada mais é do que filé de peixe empanado servido com batata frita, tudo frito numa banheira de óleo fervente que só Deus sabe a quanto tempo está lá.”
E pra finalizar, deixo aqui o comentário de rodapé na página sobre impostos e taxas na Nova Zelândia, retirado do mesmo Portal da Oceania:
“Desde o ano passado Luizão está tentando calcular a taxa de gordura e óleo existentes nas Fish & Chips. Até o momento já gastou dois jornais e um rolo de papel absorvente, mas a comida continua escorregadia.”
August 19th, 2008 at 4:30 pm
@bruno: então quer dizer que a NZ segue a tradição dos seus descobridores (os holandeses, ora! Bom e velho Tasman. Zeeland, terra do mar, é uma província na Holanda, e essa era Nova Zeeland) e passa ao largo da culinária como arte, hm? Go for the brit way, chips and fish, hm? E como os neozeland…, ah, screw it, os kiwis fazem pra manter a forma com tanta graxa? Aqui o segredo é conhecido: bicicletas
August 20th, 2008 at 6:11 am
Delicioso o post!
Os holandeses devem ter umas artérias tipo Conexões Tigre. Fala sério, tudo tem doses cavalares de gordura.
Me diz uma coisa: é verdade que os zômi engolem o tal arenque sem mastigar? Li recentemente um conto de uma autora canadense passado na… calma… na Bélgica (eu sei que Holanda não é Bélgica, mas convenhamos, são paisezinhos afundados e tal…) e ela fica relatando os meses de treino que precisou até conseguir engolir o peixe sem engasgar, com o namorado ajudando a segurar o pescoço dela.
Eu já sou chata com peixe, não suporto peixe cru, esses salgados, então, nem pensar! (Posso trocar meu arenque por uma porção extra de fritas com maionese?)
Ah, eu queria tanto ter tempo para fazer um post legal assim sobre o Canadá… Ainda estou devendo um sobre aquelas diferenças culturais. Um dia eu chego lá.
Por aqui (Toronto), é difícil fugir dos bagels/donuts e maple syrup. Tem pub por todo canto e muito fish & chips (o máximo que consegui foi entrar no fish & chips mais arrumadinho que achei e permanecer na porta uns 5 segundos até ser enxotada pelo cheiro de peixe frito). A herança inglesa é muito forte.
Mas daqui a uns dias vamos conhecer Montreal, onde parece que o quesito gastronomia está em outro patamar.
August 20th, 2008 at 12:34 pm
@Carol:
É um dos mistérios da Holanda, pra onde vai tanta graxa que eles comem. Sim, tudo tem doses cavalares de gordura. Pra mim, é a prova da eficiência da bicicleta como exercício.
Quanto ao arenque sem mastigar eu nunca vi. Mas vi, sim, comendo ele inteiro segurando na cauda do bichinho. Vou perguntar e conto a resposta, se ele vão dizer que é coisa de belga, só mesmo um belga pra ter uma idéia dessas, ou se é coisa de holandês e esses belgas não sabem mais o que fazer do que imitar eles.
Aliás, você sabia, né, que a Bélgica era parte da Holanda (assim como Luxemburgo).
Os posts seus e do Gus são muito legais! Nós adoramos eles! Aguardamos o de Montreal
Bjs.
August 21st, 2008 at 3:57 am
Rapaz, vou seguir tua dica da torta de maçã, com certeza. Essa rua é a mesma de um bar que eu adoro. Mas o arenque… Tem uma casa aqui do lado que vende. Até meus amigos holandeses fazem graça disso.
Abraços
August 21st, 2008 at 6:55 am
Fala Dani,
pois é, se você está reclamando da holanda é porque você não veio passear aqui no Canadá. Aqui, eles têm orgulho da herança cultural inglesa, e culinária também é cultura, certo? Pois bem, o comida típica deles (aliás, a resposta para essa pergunta é quase sempre uma risadinha e uma cara do tipo “pô, cê tá louco, isso aqui ;e o Canadá, nenhuma comida típica é boa…”) segue os padrões culinários da Grã-Bretanha, ou seja, abaixo da crítica. Se não eles não tivessem a influência francesa em Quebec e muita imigração, o negócio aqui ia ser sinistro.
Alguns pontos culinários de relevo (veja bem, relevo pode ser para cima ou para baixo, certo? O Grand Canyon também é parte do “relevo dos EUA) aqui em Toronto (não podemos falar de Quebec ainda, hehehe):
Altos:
a) qualquer coisa não “inglesa”: o mais comum de achar por aqui é a culinária chinesa, vietnamita ou tailandesa. Há ainda muitos restaurantes de comida indiana e afins (bangladeshi, nepalesa, “Srilanquesa”, etc. - ah, não olhei no dicionário como escreve não). Comida italiana e portuguesa também é comum. O maior problema com a comida chinesa et al. é que, em geral, quanto mais furreca o lugar, melhor a comida. Tá, parece fácil, mas vai entrar no restaurante com patos laqueados e pedaços de porco BBQ (um porco meio defumado com molho agri-doce tipo barbecue) pendurados na vitrine. Argh. Outro problema com os orientais é que eles usam coentro para tudo, e eu odeio coentro. Tenho sempre que pedir para tirar. Mas comi muito bem e barato em uns restaurantes vietnamitas (mas não me aventuro no Pho, o sopão-cabe-tudo-que-você-tem-na-geladeira deles). Comemos também am restaurantes indianos bons…
b) Diversidade: bom, há imigrantes de todos os lugares do mundo aqui, então há restaurantes com comida de tudo que é lugar. Comemos em um restaurante iraniano bem legal, e o pessoal da universidade volta e mexe vai em um restaurante etiope lá perto…
c) Carole’s Chessecake: Cara, esse lugar é um must…
d) Donuts: bom, há controvérsias se donuts são bons ou não… além disso, alguns canadenses dizem que os donuts foram inventados no Canadá (os americanos começam a rir quando eu menciono isso). Os donuts do Tim Hortons (O McDonalds canadense) são bem gostosos.
e) produtos frescos de Ontario: hortaliças e frutas da região são muito bons. As berries são deliciosas.
f) derivados do leite: parecem bons, mas a verdade é que tenho intolerância à lactose e não dá para sair experimentando. A vantagem é que quase tudo você pode comprar “lactose free”.
Neutros:
a) Maple Syrup: bom, se você gosta, gosta, se não gosta, não gosta. Não tem jeito. O Maple syrup é feito da resina da maple tree, aquela árvore cuja folha está na bandeira e é o símbolo do Canadá (tudo aqui é maple alguma coisa), mas há diversas variedades de maple e não sei se qualquer uma dá essa resina.
b) Café (e afins) do Tim Hortons: bom, isso também é controverso. Faz parte da identidade nacional do canadense andar com o copinho de café na mão, principalmente no inverno. Mas eu acho ruim. Tem gente que acha bom. A Carol adora o Mocca (metade café, metade chocolate) deles, eu acho fraco…
c) restaurantes italianos: comemos em uns bons restaurantes, mas em geral são muito caros (cadê as cantinas??? tá cheio de italianos aqui nessa cidade!!).
d) Poutine: o poutine é uma especialidade de Quebec, nada mais sendo do que batatas fritas, queijo derretido por cima e molho suspeito. Me juraram de pés juntos que quando bem feito, é bom. Até agora, não vi nada bem-feito.
e) ginger ale: refrigerante canadense, com gosto de… ginger ale. é fraco. A Carol gosta.
Baixos:
a) pizza: é possível estragar a pizza? Pois aqui, sim. Primeiro, quase não vem queijo. Depois, os sabores normais são muuiiiiito bizarros (tipo hamburguer, carne seca, abacaxi, champignon e maple syrup). Vai entender.
b) restaurantes franceses: se você quiser, é bom vender um rim antes de entrar em um deles. Aparentemente, há restaurantes com chefes de renome por aqui, mas como vivo abaixo da linha da pobreza, não são para o meu bico.
c) restaurantes japoneses: também muito caros, e fraquinhos.
d) comida canadense: se você gostar de carne dura e sem gosto, acompanhada de batata, repolho e Yam (um tipo de tubérculo) cozidos e sem sal, então sinta-se em casa.
e) frutas importadas: nenhuma fruta importada aqui é boa. Zero. Nenhuma mesmo. Mangas, bananas… tudo sem gosto e meio verde. Deve ser porque são congeladas e trazidas, sei lá. Maior decepção.
Bom, foi mal pelo comentário gigante. Vou repetir essa história no nosso blog com um link para o de vocês…
Abraço,
Gus
August 21st, 2008 at 10:15 am
Oi @Tuca. Vá na torta de maçã sim, que é carinha mas é boooooa. O Ovidius fica ali no Magna Plaza, bem atrás do De Dam. Quanto ao arenque eu tô a par que as gerações mais nova de holandeses não é muito chegada (acho que até falei disso aqui) mas é típica e, bem, eu gosto
Ontem mesmo, lendo o coment;ario da Carol me deu saudades e comi um arenque, hehe.
August 21st, 2008 at 10:29 am
oi Gus
Brigado pelo excelente comentário gigante
Inclusive expandiu o conceito original do meu post (o que é *bom*!).
Aqui os holandeses reagem mais ou menos do mesmo jeito que o os canadenses sobre a culinária típica. Que culinária típica? hehe. Temos vários pontos em comum, aliás, aqui também fruta importada é ruim, e a pizza, don’t get me started on the pizza. Outro dia eu tava andando na rua e me deu uma alucinação de querer uma pizza paulista, daquelas com queijo abundando. Hm. Outubro está ai e vou me acabar no sushi e na pizza (e na coxinha de frango do Frangó, por Tutatis!)
O café daqui, vamos dizer assim: eu trouxe diversos pacotes do Brasil. Eles estão acabando. Estou considerando racionar.
Restaurantes, por aqui tem de tudo que é tipo, sim, mas principalmente indiano e indonésio, depois italiano. Sao razoaveis, mas comer fora aqui é muito caro, e o Albert Heijn é nosso amigo, hehe.
Enfim, valeu de novo pelo comentário, muito legal, eu morria de curiosidade
Abraço!