Sumi por uns tempos porque tive uma efetiva promoção no que tange ao número  de tarefas rotineiras por aqui … Mas hoje, meus amigos, vim contar uma história que prova que essas coisas não ocorrem só comigo.

Porque eu sou feia e boba, porque meu chefe não me ama, não importa o porquê, o fato é que sou presidente da CIPA na  atual gestão da empresa e portanto, como é de lei, eu preciso organizar uma semana interna de prevenção de acidente pro acá. E foi essa semana.

Eu queria fazer uma coisa diferente, legal, divertida e útil. E foi assim que eu resolvi que, ao invés de palestras chatas sobre amortecedores, eu deveria falar sobre …. economia doméstica … Afinal, foi num workshop deste tema que aprendi a lidar com dinheiro. O profissional dessa área entende de orçamento doméstico e de como administrá-lo. E essa é uma ciência – sim, é uma ciência e até um curso superior – preconiza que nós podemos o que quisermos, desde que saibamos nos organizar financeiramente.

No dia anterior havíamos organizado uma palestra com o Fabio Costa, o popular Tio Fio, que é um cara simplesmente fantástico que faz um trabalho lindo sobre prevenção a acidentes ligados a eletrecidade.

Enfim, palestra agendada para as 15:30, as 13 horas toca o telefone:

-Barts, o cara da palestra chegou, vem receber

-WTF? A essa hora, será que eu não avisei ao cara o horário da palestra?

Fui recebê-lo, o cara de terno, segurando a gravata e com uma case de notebook a tira-colo. Eu me apresente. Levei-o ao auditório e, porque tínhamos MUITO tempo, perguntei se ele gostaria de almoçar, ou que eu pedisse um lanche, uma água, qq coisa. Meu deus, por que eu fui fazer isso?

Neste exato momento o cara começou  a me contar que havia feito uma cirurgia complicada a 62 dias atrás, e tava sob recuperação, com dieta bastante restrita. Eu, claro, educadamente dei atenção.

Da vesícula com cálculo passamos ao tamnho da próstata do cidadão, a uma descrição detalhada do dia da sua cirurgia, depois aos sintomas do problema de próstata, a um câncer benigno…

-Um tumor, o senhor quer dizer

-Não … câncer mesmo … só que benigno

-AHn..

…Passamos por todos os exames pré-operatórios, com diversas menções ao tamanho da cicratiz da vesícula e de várias mímicas sobre onde estava a cicratiz da próstata … E a isso tudo [daniduc] a música de twilight zone só aumentando [/daniduc].

Cada detalhe da internação, dos sintomas da síndrome tumoral, do exame visual das pústulas extraídas, do estado do sistema urinãrio do cara com TODOS os orgãos envolvidos … tudo isso eu ouvi …

Foi mais ou menos quando entramos no assunto “como anda o meu xixi” – incluindo detalhes da cor do sangue – que eu achei que enough is enough e que devia sair dali o mais rápido possível. Ele me disse rapidamente que a esposa havia ficado no carro e eu agarrei-me a essa âncora como um náufrago em alto mar. Pretextando ir oferecer ‘a mulher um local para ficar, eu disse que precisava sair … E ele, para meu desespero disse

-Mas como eu ia dizendo…

E, ao falar, o cara comecou a abrir a camisa… E eu pensei, isso não ta acontecendo. Pois é meus amigos. Sem que eu proferisse uma só palavra desde o tumor benigno até o “vou perguntar a sua esposa se ela não prefere esperar aqui dentro”, o cara resolveu achar que que eu queria ver a cicratiz dele … e tirou a camisa. Ato contínuo, começou a mostrar por mímicas onde ficava a cicratiz da próstata ocasiao em que – sem gracíssima – aproveitei a chegada de um colega,  levantei e fui embora.

Fui até o estacionamento e lá encontrei uma situação chocante, sobre a qual falarei mais tarde.

Na volta, peguei um laptop porque o moço, a despeito do case para laptop não tinha um. O colega que havia ficado com o palestrante me encontrou e disse

-Barts, vai fazer sala, lá eu não fico mais

-Ora fulano, seja homem, o cara só é chato, só isso

-Chato? Ele acabou de tirar a camisa pra me mostrar uma cicratiz e, se eu não corro, ele já tava tirando a calça pra mostrar a outra.

Bom. Eu voltei lá e expliquei as regras éticas da empresa. Não julgamos pessoas, nem escolhas e nem decisões. Não criticamos crenças ou opções. E haíamos tido no dia anterior uma excelente palestra sobre eletricidade. Pule essa parte e atenha-se a economia doméstica

-Falando nisso, voce sabia que já existia faculdade disso?

-Pera ai, eu contratei o senhor acreditando veementemente que o senhor ERA economista do lar ….

-Nah, sou diretor de duas empresas …

Chegou o momento. A fábrica se mobilizou. Mais do triplo do normal de pessoas. Pessoas saindo pelo ladrão.

E o cara começou a palestra. E minha cara, assim como ocorreu com Therezinha de Jesus na antiga cantiga de rodas durante uma queda, foi ao chão.

Não é que o cara falasse errado. Ele so falava uma lingua diferente da minha. A impressão que eu tive é que ele abriu, duas horas antes de chegar, a página da uol economia e tirou dicas básicas. Algumas obsoletas. Disse que ele era dono de duas empresas, que tinha um absurdo salário de R$5000,00 reais, como excelente executivo que era.  Parava palavras no meio pra galera completar, ao estilo de liderança dos anos 50. Chegou a dizer

- Desculpa gente, mas eu sou diretor de duas empresas, eu tenho que falar

-Minha casa tem oito comodos, todas tem tv e pc.

-Tem gente que compra um uisque 12 anos … Pra que? Isso é besteira ( e a base da economia doméstica é: faz o que quiser, compra o que quiser, desde que voce planeje)

-Minha empresa vale 1 milhão de reais.

Nessa hora minha mente se voltou para experiência ocorrida no estacionamento, uma hora atrás. Ao ir procurar o carro do homem, com o objetivo de convidar a esposa para esperar na sala própria para este fim. Eu me deparei com um portentoso monza 82, com 4 pessoas dentro, com um farnel aberto no chão, tirando flores com raiz dos canteiros de dentro da grade que separava o estacionamento da área interna e – claro – tentando esconder. Meu, por que caráleos  um cara com duas empresas, uma delas valendo um milhão,  empresãrio bem sucedido, me decide ter um monza???

No final da palestra, eu agradeci morrendo de sem gracisse, dei ao cara uma caneta bastante ajeitada (presente para todos os palestrantes),  pedi a ele que escolhesse alguns números e, com base na lista de presença, sorteei alguns brindes pros participantes. O cara virou e falou – ué, e eu, não ganho nada??

Nota – a palestra foi paga a peso de ouro..

Eu disse que ia ganhar o certificado, puxei a MINHA caneta, assinei o dito cujo e ouvi

-Que linda caneta, é igual a minha

E eu, não, a sua é social, essa é caneta simples.

Ao que ele respondeu, e eu posso ficar com essa?

Meu, a caneta do cara era roller e foi cara para uma caneta. A minha era, não obstante ser da empresa, usada e bem mais simples.

Eu levei o cara embora e, ao final, ele ainda me puxou pra um canto e disse

-Te certeza que nao quer ver a cicratiz?  Olha que é maior, hein ….