Archive for February, 2010
A diferença está no olhar
A diferença em “Azur e Asmar” está nos olhos. No início, em um diálogo entre os irmãos, ainda meninos na França, Azur garante a Asmar: “Sou o mais bonito!” Este rebate que “Suas roupas são mais belas, você não”. Azur retruca: “Meus olhos são azuis, eu pareço um anjo!”.
Os dois foram amamentados e criados por Janine, babá de Azur e mãe de Asmar. São irmãos. “O sangue daquela sarracena ainda corre em suas veias” – Diz o pai de Azur já adulto, quando o repreende por anunciar que vai seguir em uma aventura para libertar a fada dos Djians, no outro lado do mar. A lenda fora contada por sua babá, que depois foi expulsa pelo pai do menino quando este atingiu certa idade. Chegando ao outro lado mar ele naufraga e logo descobre que não é bem vindo. Os mesmo olhos azuis que lhe dão um aspecto de anjo, ali, acreditam que causam enorme azar. Ele decide então fechá-los, e é assim, como um cego, um andarilho humilde, que vai adentrar nas terras ainda desconhecidas por ele.
No caminho conhece o calejado e a princípio pouco escrupuloso Crapoux, também um estrangeiro, mas morador há 20 anos. A paisagem vai se descortinando e mostrando suas riquezas, sempre narradas desdenhosamente por Crapoux. As descrições que ele dá ao companheiro, no entanto vão contrariando o que o nós (espectador) estamos vendo. E também o que Azur vai sentindo conforme vai avançando; através do som da água nos canais de irrigação, das doces melodias exóticas que eles ouvem no caminho, do cheiro da feira de temperos variados quando já se encontram na cidade, do gosto da comida que lhe oferecem e das vozes da moças que lhe dão esmolas.
Então Azur ouve a voz de sua babá e a reencontra. Janine não o reconhece e alega que seu filho, que ficou do outro lado do mar, não era cego. Azur abre seus olhos.
O encontro é também um confronto. Na cena, fica claro que fomos levados à questão da diferença étnicas e culturais pelo olhar, e não pela cor da pele ou pela linguagem, já que quase não percebemos que o árabe não nos é traduzido, sendo possível compreender tudo e sem que isto nos faça alguma falta.
O menino vê sua babá junto com todo o esplendor do lugar. Janine o acolhe e avisa: ela conhecera duas culturas, duas religiões; por isto enquanto os outros perdiam tempo com supertições, ela agia e se destacava. Nesta fala ela está afirmando que a supertição, na verdade é um pré-conceito, portanto uma ignorância que causa atraso; Janine também mostra que não guarda ressentimento desta mesma ignorância, em que foi vítima no ocidente, está acima do preconceito, se mostrando uma mulher sábia.
Vale citar aqui a personagem da princesa Chamsous-sabah. Ela é uma criança, e segundo Janine, a esperança do lugar. Ela conhece todas as coisas, porém vive apenas dentro de seu palácio, não pode sair por questões de segurança. Faz um pedido especial à Azur: que o leve em um passeio noturno para conhecer a cidade. Ele, mesmo liberado de sua falsa cegueira, não pôde ainda andar pelas ruas sem um capuz, que lhe proporcionava uma visão apenas parcial, como a cena em que olha os sapatos das pessoas extremamente coloridos.
Se Azur não fosse obrigado a entrar nestas terras com humildade e com os olhos vendados, o oriente não se abriria para ele. Quando os dois irmãos estão próximos de atingir o objetivo de sua busca, a dificuldade os une (os dois irmãos são desde crianças rivais e concorrentes, apesar de Janine dar-lhes sempre “o mesmo pedaço de torta”, ou seja, a mesma dedicação) e é impossível dizer ao final, quem foi o mais corajoso, o mais honrado. E mesmo o mais belo. Não importa , a solução está na integração, na tolerância e no reconhecimento mútuo.
(Juliana Duclós)
fotos: Michel Ocelot e cena de Azur e Asmar
A PRINCESA SAPA
Estava conversando com Maria sobre a princesa Tiana, uma hora ela se irrita e diz:
- Jú! Ela não é princesa não! Ela é uma garçonete.
- Uh? Olha o vestido e a coroa Maria, como não é princesa?
- Isto não é vestido, é só uma fantasia, como qualquer outra, Jú.
Comecei a refletir qual era afinal a mensagem do desenho da Disney. Lembrei que realmente a frase que Maria me disse é dita uma dezena de vezes durante a história. É verdade. Tiana não é uma princesa. Ela não tem sangue azul. Sua origem não é nobre. Pior: Tiana, claramente é uma usurpadora. Uma farsante. E isto é tão claro, que quando ela resolve dar uma bitoca no príncipe transmutado em sapo, pensando assim que iria conseguir o dinheiro para montar seu restaurante, ela se transforma em uma sapa. Não importa que fosse a circunstância que colocasse os dois frente a frente, num ambiente favorável ao engano (não ser intencional) a mensagem está ali!
Depois disto, os dois embarcam numa aventura, e durante esta o príncipe aborrecido repete o que Tiana é. Uma garçonete. Ele a substima por isto, e se aborrece pelo engano que não o tirou de sua situação enfeitiçada. Claro que aos poucos ele vai percebendo os encantos, sonhos e personalidade da menina, e os dois se apaixonam transmutados em sapos.
Mesmo que Tiana se case com um príncipe, com a benção de uma Mãe de Santo, e seja uma empresária de sucesso e consiga realizar todos os seus sonhos, cortando toda a injustiça que lhe é dirigida por sua classe social – e aqui abro um parêntese: seu sonho, a princípio, não é tornar-se uma princesa, e sim trabalhar o bastante para juntar dinheiro e mudar sua situação na América dos anos 50, e lembre-se que a Mãe de Santo, a “bruxa boa” da história, lhe fala que ela deve achar o que precisa, e não o que quer. – ela nunca deixará de ser…uma garçonete. Não sou eu quem diz isto, repito: é esta a mensagem.
Pessoalmente acho que qualquer história possa e deva ser contada, ainda mais com os cenários, personagens e canções maravilhosas dos desenhos da Disney, mas colocar a importância e depositar esperanças de igualdade em cima de Tiana é um erro. Então por favor, em uma brincadeira, ou atividade dirigida, não me fale em colocar a criança negra como Tiana, a loira uma Cinderela, a de traços orientais a Mulan e assim por diante – aliás Mulan, Pocahontas e Jasmine tem sua origem e berço, não são “sapas”- deixe que as crianças se conduzam, elas são bem mais criativas e espertas.
Claro que em um mercado mundial em que a Disney domina boa parte do imaginário de nossos filhos, não discuto a importância de se ter (ou tentar ter, no caso dos americanos parece-me que há uma barreira em conseguir se colocar ou mesmo entender outras culturas) ou se levantar a questão da diversidade. Mas sem que o produto (DVD, personagem ou livros) se torne o bibelôzinho da elite.
A Princesa e o sapo (The Princess and the Frog, 2009)
obs.: Disney fez alterações no roteiro para ter o cuidado de não ser acusada de racismo, como por exemplo de início Tiana seria uma criada.
A própria.
Resolvi acordá-la da sesta tardia na rede para evitar a falta de sono à noite. Com a, digamos, falta de receptividade à minha iniciativa materna, tratei de me retirar para que ela se aprumasse. Veio atrás de mim, com um olho meio fechado tal qual um pirata, e desgarregou toda a fúria infantil em um grito acusador: VOCÊ é a própria cara-de-pum. A PRÓ-PRIA!
fiquei arrasada.
Pôneis e arco-íris.
* Florianopolis, janeiro 2010.
Fato curioso é que no dia desta foto ela havia comprado um daqueles livros gosmentos rosa cheios de brilho, com personagens-pôneis de nomes americanos com *rainbow pink flufiflows*- ou algo assim – e me exigiu a leitura. A história era sobre uma princesa pônei que tinha o dever de promover um arco-íris no início da primavera, e perdeu sua varinha mágica, no final ela consegue o feito com ajuda das suas amiguinhas da poneylandia (tipo “a união faz a força”).
No fim da história poneizistica, quando fomos à frente da casa, ele estava lá. Podem imaginar o entusiasmo da garota (eu mesma nunca tinha visto um arco-íris assim). Há algum tempo que ela percebeu que não é o humor que faz os fenômenos naturais, e vive dizendo agora que queria uma varinha mágica para formar seus dias *perfeitos*.
Tentei explicar em vão as causas naturais daquele arco-íris, comum em dias que chove e logo abre o sol, e que esconde em seu final um pote de ouro, bem guardado por um duende. Nada a ver com pôneis purpurinados.
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