Cotidianas {diariamente}
Zip-A-Dee-Doo-Daa
Inspirada pela vida no moinho dos Ducs fiz um poema:
Paraíso, lareira e torno
Preparo a argila na varanda
com a brisa quente
do fim da tarde
Minha filhota desenha calmamente no chão
(agora invadido pela luz solar)
Cheiro de café – forte - no ar, toca o telefone:
acabei de vender um quadro por mil reais.
As rosas e a laranjeira crescem
Vou dar uma caminhada na Beira-Mar
Se esfriar, abro um vinho e faço pinhão.
A própria.
Resolvi acordá-la da sesta tardia na rede para evitar a falta de sono à noite. Com a, digamos, falta de receptividade à minha iniciativa materna, tratei de me retirar para que ela se aprumasse. Veio atrás de mim, com um olho meio fechado tal qual um pirata, e desgarregou toda a fúria infantil em um grito acusador: VOCÊ é a própria cara-de-pum. A PRÓ-PRIA!
fiquei arrasada.
Arte Anterior.
Maria começou a desenhar letras no ar. Achei que ela estava a assimilar suas formas, interiorizando o novo aprendizado. Porém esta manhã depois de passar um pano na mesa, ela começou a rabiscar sua superficie com o dedo enquanto narrava suas criações: um vaso de flores (e pintado de laranja), um arco-íris e etc.
Achei interessante e parei o que estava fazendo para colocar um pouco mais de água, para que assim ela pudesse visualizar os seus “desenhos”. Ela então protestou, acusando-me de ter estragado sua obra.
Isto me deixou intrigada, pois quando tenho uma imagem ou sentimento em mente isto me martela a cabeça até que saia algo concreto, que ganhe própria vida material.
Parece-me que para as crianças é preciso apenas imaginação. Esta não falta em alguns artistas:

* Em 1949, o fotógrafo da LIFE Gjon Mili visitou Pablo Picasso
“Quando eu tinha essa idade sabia desenhar como Rafael, mas precisei uma vida inteira para aprender a desenhar como as crianças“. Pablo Picasso.
autoterapia

.
Levo a pequena a todo lugar, nos fins de semana qualquer saída é passeio: como uma ida ao mercado. Para enfeitar, pegamos ruas paralelas, compramos um doce para o caminho, identificamos os números das casas. (Pode soar estranho se você não tem filhos, mas se é pai ou mãe sabe que criança em casa all day é inviável).
Ontem, domingo estava caminhando ao seu lado quando meu ouvido, mais rápido que minha visão, foi alarmado por gritos de pânico ao meu lado. Costumo ficar calma nestas situações e identificar o que esta acontecendo para agir. Procurei com os olhos, já preparada para matar aranhas gigantes, tirar gafanhotos da roupa, ou tentar alcançá-la o mais rápido em meu colo. Finalmente vejo o motivo: um pequeno e fofo filhotinho de cachorro com o rabinho abanante. Ela corria e o cachorrinho ia atrás pensando estar abafando na brincadeira.
Tento fazê-la parar com comando de voz ou pegá-la em meus braços, mas é inutil. Finalmente o cachorrinho desiste e chegamos à rua. Ela sem doce (que caiu no chão) e ainda um pouco nervosa. Parece que não fui só eu a alarmada, umas 15 cabeças apareceram para fora da janela e da porta na vizinhança, alguns com pedaços de pau prontos também a matar aranhas gigantes e gafanhotos ETs, já possivelmente chamando a policia. Sorriso amarelo. “Esta tudo bem, era um cachorrinho, ela tem, bem, um pouco de medo.
Na verdade Maria tem fascínio por eles, já cansou de pedir um e tem em casa uma pequena coleção dos de pelúcia. Depois do acontecido ela juntou a coleção e brincou o dia todo com eles. Casinhas, hora do lanche, conversas, pra La e pra Ca com os bichinhos. Os de pelo curto, os de orelha grande, os grandes e os pequenos. “Não precisa ter medo bebe” – dizia-me. Percebi que a brincadeira era como uma terapia para ela assimilar o que lhe aconteceu e trabalhar o seu medo exagerado.
Pensando sobre isto, cheguei à conclusão que ela faz esta autoterapia em outras brincadeiras também, quando se coloca em meu lugar, por exemplo: dá-me comandos, broncas e pede que eu, “a filhinha” faça-lhe birra. Ou os monstros imaginários, que servem para assumir maldades alheias, medo do desconhecido, ou pequenas maldades em si.
Sobre o ocorrido, como não sou psicóloga, apenas lhe li:
Levava eu um jarrinho
P’ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P’ra comprar pão:
E levava uma fita
Para ir bonita.
Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p’ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita…
Vejam que desdita!
Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Pra ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.
Fernando Pessoa
*Imagem: Página do livro Comboios, Saudades e Caracóis, de Fernando Pessoa
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