Filosofadas {linguagem, pérolas}
Preocupaçõeszinhas
- Jú.
- Hum?
- Quando a pessoa cresce não precisa parar de brincar, neeeeeeéh?
- Ah, de maneira alguma.
- Ela pode ser adulta e brincar, neeeeeéh?
- Claro que sim, filha. Quando você crescer vai poder brincar quando quiser, tábom? Não se preocupe. Pode crescer.
- Então vamos brincar?
- Não.
A PRINCESA SAPA
Estava conversando com Maria sobre a princesa Tiana, uma hora ela se irrita e diz:
- Jú! Ela não é princesa não! Ela é uma garçonete.
- Uh? Olha o vestido e a coroa Maria, como não é princesa?
- Isto não é vestido, é só uma fantasia, como qualquer outra, Jú.
Comecei a refletir qual era afinal a mensagem do desenho da Disney. Lembrei que realmente a frase que Maria me disse é dita uma dezena de vezes durante a história. É verdade. Tiana não é uma princesa. Ela não tem sangue azul. Sua origem não é nobre. Pior: Tiana, claramente é uma usurpadora. Uma farsante. E isto é tão claro, que quando ela resolve dar uma bitoca no príncipe transmutado em sapo, pensando assim que iria conseguir o dinheiro para montar seu restaurante, ela se transforma em uma sapa. Não importa que fosse a circunstância que colocasse os dois frente a frente, num ambiente favorável ao engano (não ser intencional) a mensagem está ali!
Depois disto, os dois embarcam numa aventura, e durante esta o príncipe aborrecido repete o que Tiana é. Uma garçonete. Ele a substima por isto, e se aborrece pelo engano que não o tirou de sua situação enfeitiçada. Claro que aos poucos ele vai percebendo os encantos, sonhos e personalidade da menina, e os dois se apaixonam transmutados em sapos.
Mesmo que Tiana se case com um príncipe, com a benção de uma Mãe de Santo, e seja uma empresária de sucesso e consiga realizar todos os seus sonhos, cortando toda a injustiça que lhe é dirigida por sua classe social – e aqui abro um parêntese: seu sonho, a princípio, não é tornar-se uma princesa, e sim trabalhar o bastante para juntar dinheiro e mudar sua situação na América dos anos 50, e lembre-se que a Mãe de Santo, a “bruxa boa” da história, lhe fala que ela deve achar o que precisa, e não o que quer. – ela nunca deixará de ser…uma garçonete. Não sou eu quem diz isto, repito: é esta a mensagem.
Pessoalmente acho que qualquer história possa e deva ser contada, ainda mais com os cenários, personagens e canções maravilhosas dos desenhos da Disney, mas colocar a importância e depositar esperanças de igualdade em cima de Tiana é um erro. Então, por favor, em uma brincadeira, ou atividade dirigida, não me fale em colocar a criança negra como Tiana, a loira uma Cinderela, a de traços orientais a Mulan e assim por diante – aliás Mulan, Pocahontas e Jasmine tem sua origem e berço, não são “sapas”- deixe que as crianças se conduzam, elas são bem mais criativas e espertas.
Claro que em um mercado mundial em que a Disney domina boa parte do imaginário de nossos filhos, não discuto a importância de se ter (ou tentar ter, no caso dos americanos parece-me que há uma barreira em conseguir se colocar ou mesmo entender outras culturas) ou se levantar a questão da diversidade. Mas sem que o produto (DVD, personagem ou livros) se torne o bibelôzinho da elite.
A Princesa e o sapo (The Princess and the Frog, 2009)
obs.: Disney fez alterações no roteiro para ter o cuidado de não ser acusada de racismo, como por exemplo de início Tiana seria uma criada.
Pôneis e arco-íris.
* Florianopolis, janeiro 2010.
Fato curioso é que no dia desta foto ela havia comprado um daqueles livros gosmentos rosa cheios de brilho, com personagens-pôneis de nomes americanos com *rainbow pink flufiflows*- ou algo assim – e me exigiu a leitura. A história era sobre uma princesa pônei que tinha o dever de promover um arco-íris no início da primavera, e perdeu sua varinha mágica, no final ela consegue o feito com ajuda das suas amiguinhas da poneylandia (tipo “a união faz a força”).
No fim da história poneizistica, quando fomos à frente da casa, ele estava lá. Podem imaginar o entusiasmo da garota (eu mesma nunca tinha visto um arco-íris assim). Há algum tempo que ela percebeu que não é o humor que faz os fenômenos naturais, e vive dizendo agora que queria uma varinha mágica para formar seus dias *perfeitos*.
Tentei explicar em vão as causas naturais daquele arco-íris, comum em dias que chove e logo abre o sol, e que esconde em seu final um pote de ouro, bem guardado por um duende. Nada a ver com pôneis purpurinados.
Termos
- Você tem que tomar banho.
- Não temquio.
é inglês. “thank you”. (translate: obrigada). tá? Por isso está em itálico. no problem.
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