June 21, 2008 – 8:20 pm
© ali ckel

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Imagens: São Paulo, 21 de Junho de 2008. Todos os direitos reservados a © ali ckel.
Neste mês foi inaugurada a nova ponte em São Paulo, chamada Octavio Frias de Oliveira, em homenagem ao publisher da Folha, que morreu este ano aos 94.
Não vou falar sobre as vantagens desta nova edificação, mas sim sob um ponto de vista mais crítico de um projeto super-valorizado, que se constrói em um contexto mais amplo. O motivo pelo qual prefiro não abordar estas questões de ordem prática é, simplesmente, porque elas já são anunciadas em qualquer noticiário: diminuir o fluxo de veículos das demais pontes da região, o formato que permite ao carro não freiar para acessá-la etc, podem ser encontrados nos jornais. Portanto, falarei aqui sobre a criação da Berrini no contexto atual.
A ponte Octavio Frias de Oliveira é um projeto que não tem apenas uma função prática, mas também um papel importante como marco arquitetônico da cidade. Está localizada em uma das regiões de São Paulo que hoje mais se valorizam. Na década de 1990, a transferência da Paulista para a Berrini como o grande centro gestor-empresarial da cidade transformou esta parte da zona Sul, caracterizado por velhas indústrias e galpões, em um moderno centro business. Os prédios espelhados, estruturados para otimizar o funcionamento das próprias construções, com fiação e encanamento instalados de modo a facilitar reparos, a potencial flexibilidade de mudanças ou transformações no interior destes edifícios, existência de helipontos e heliportos, tudo isto está presente de forma intensa na região da Berrini.
Junto com esta organização de caráter empresarial, vêm também o comércio e demais estruturas que compõem este contexto: shoppings, hotéis, restaurantes etc.
A atividade turística que mais movimenta a cidade de São Paulo é a de business. A Berrini torna-se, assim, um espaço a ser usado não pelo paulistano, mas por uma parcela muito reduzida de citadinos e, primordialmente, pelos turistas. Não qualquer turista, falo daqueles vinculados aos negócios.
E quando eu digo que é um espaço não usado pelo paulistano, quero dizer que as pessoas que ali trabalham, em grande parte dos casos, não são as que usufruem destes ambientes e serviços. O paulistano, obviamente, não se hospeda no WTC hotel, não frequenta os restaurantes mais caros e nem compra no shopping D&D. Ele frequenta no dia-a-dia o ambiente de trabalho, usufrui de uma rede de serviços especializada a ele: restaurantes por quilo, cabeleireiros, papelarias, bancas de jornais etc. Mas as grandes companhias, estas são de certa forma exclusividades dos empresários.
A Berrini está inserida, portanto, em uma nova configuração de espaço construída para servir a uma nova demanda da cidade: a dos negócios. Há uma intrínseca relação que esta porção do território estabelece com o mundo. A maior parte das empresas ali localizadas são empresas globais, transnacionais, que mantém um centro gestor na cidade de São Paulo, mas com importante vínculo com as sedes mundiais, por exemplo.
A construção desta ponte se realiza neste contexto: o de transformação de um antigo espaço em um espaço cada vez mais moderno e global. Complexos comerciais de alto padrão surgem ao redor: Daslu, Shopping Cidade Jardim, Complexo World Trade Center, condomínios no Panamby. O próprio projeto de criação de um jardim à margem do rio Pinheiros faz parte desta lógica.
Depois da inauguração da ponte, uma pesquisa apontou que a procura pelos quartos de hotéis voltados para o rio aumentou consideravelmente (vou ficar devendo a fonte desta notícia), mostrando que o objetivo de tornar este ponto da cidade em um novo cartão postal está tendo êxito.
A minha pequena contribuição para pensar a nossa cidade vem na tentativa de ver o que é belo, bonito, mas de também pensar criticamente no que significa este espaço. Em outra oportunidade, pretendo escrever sobre a higienização realizada na Berrini. Muitos dos lugares onde hoje estão estes prédios, foram antes ocupados por moradias irregulares. Desapropriados, moradores foram transferidos para outros lugares e deram espaço ao que hoje conhecemos como o mais moderno de São Paulo.
Referências:
- Barroso, Daniella Almeida. Projeto urbanístico Panamby: uma ‘nova cidade’ dentro de São Paulo? - análise do parcelamento e loteamento da Chácara Tangará. 2006. Dissertação de Mestrado em Geografia Humana. USP, São Paulo. (Faça o Download)
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