“São Paulo de meus amores”
O Poema da Casa Que Não Existe
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *Onde a cidade acaba em chácaras quietas
e a campina se alarga em sulcados caminhos
achei a solidão amiga dos poetas
numa casa que é ninho, entre todos os ninhos.Térrea, branquinha, com portadas muito largas,
desse azul português das antiquadas vilas
e uma decoração de laranjas amargas
que perfumam da tarde as aragens tranqüilas.Ergue-se no pendor suave da colina,
escondida por trás dos eucaliptos calmos;
tem jardim, tem pomar, tem horta pequenina,
solar de Liliput que a gente mede aos palmos …Neste ponto, a ilusão, a miragem, se some;
olho para você, eu triste, você triste.
Enganei uma boba! O bairro não tem nome,
a estrada não tem sombra, a casa não existe!
Afonso Schimdt* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Para Joanna das Dores Villalva, minha bisavó que me deixou uma porta aberta em São Paulo e meus filhos *Daniel&Carla, Miguel e Juliana

No tempo do Império, São Paulo não passava de uma vila pouco desenvolvida e sem muitos recursos. As ruas estreitas formavam um emaranhado de vielas que cresciam sem planejamento algum. Os Conventos de São Francisco, São Bento e São Carmo eram a bases do triângulo que formava o espaço da cidade. Era onde ficava o Pátio do Colégio, o Palácio do Governo, a Assembléia Provincial, o Correio e as repartições Fiscais.
Nas ruas Direita, São Bento e 15 de Novembro, no Vale do Anhangabaú - chamado na época de “Vale Intransponível” - se concentrava a maior parte da população e a segregação sócio-espacial não estava ainda bem definida. Isso só aconteceu depois da aprovação da lei de Terras de 1850 - projeto elaborado pelo fazendeiro e Senador do Império Nicolau dos Campos Vergueiro, que definia que todas as terras devolutas eram propriedade do Estado, sendo que a sua ocupação ficaria sujeita à compra e venda. As terras livres passaram a ser propriedade do Estado que poderia vendê-las a quem tivesse condições de pagar. A lei acabou por influenciar no aumento do valor dos terrenos na área urbana da cidade.
Nessas ruas centrais, sobrados de dois e até três pavimentos foram construídos para abrigar as pessoas abastadas. Muitos fazendeiros, mantinham casas na área urbana. Essas residências de taipa de pilão tinham, na maioria das vezes, sacadas de ferro, balcões e janelas adornadas. As cores das fachadas variavam entre o branco, o amarelo e o rosa-pálido. No térreo, funcionavam casas comerciais.

Embora fossem luxuosas, essas residências eram precariamente iluminadas por candeeiros de azeite e óleo de mamona. Não havia abastecimento regular de água potável, e as ruas, além de muito escuras à noite, tinham péssimos calçamentos, feitos com pedras mal aparelhadas e irregulares. A falta de iluminação pública, obrigava aos moradores que se arriscavam sair á noite, a andar com lanternas.
Queixa-se, em 1870, o presidente da Província de São Paulo ao Inspetor de Obras: “a capital da Província não tem iluminação que preste, não tem água para satisfação dos habitantes, não tem praças ornadas, chafarizes, monumentos ou edifícios públicos”. Quanto ao transporte, as pessoas precisavam alugar tílburis ou carros de boi para perfazer as grandes distâncias. Só mais tarde e que começaram a trafegar os primeiros bondes de tração animal pela cidade.
Nessa época, a população paulistana era estimada em cerca de 20 mil habitantes. Houve um aumento demográfico devido à presença de estudantes que vieram estudar na Academia de Direito, escravos de família que os acompanharam e fazendeiros que passaram a viver na capital da província.
Mas, apesar do crescimento populacional, a vida urbana, na expressão do poeta Álvares de Azevedo - que, depois de alguns anos no Rio de Janeiro, voltara a São Paulo para estudar na Faculdade de Direito -, permanecia um “bocejar infinito”. Na sua opinião, “não há passeios que entretenham, nem bailes, nem sociedade”.
Em uma de suas cartas, Álvares de Azevedo pedia que lhe mandassem da Corte (Rio de Janeiro) vidros pequenos, que servissem no seu candeeiro; quatro anos depois fazia um pedido igual: o vidro de seu candeeiro tinha se quebrado, e esse era um artigo que não se encontrava aqui “nesta santa terrinha”.
CARTA À MÃE (Álvares de Azevedo)
S. Paulo, 12 junho de 1849
Tenho a vista a sua de 3 de corrente q. com mto prazer recebi.
Enquanto no Rio reluzem esses bailes a mil e uma noites, com toda a sua mania de fulgências e luzes, por aqui arrasta-se o narcótico e cínico baile da concórdia Paulistana.
Nunca vi lugar tão insípido, como hoje está S. Paulo – Nunca vi coisa mais tediosa – e mais inspiradora de spleem [enfado, melancolia] – se fosse eu só que pensasse, dir-se-ia q. seria modéstia – mas todos pensam assim – a vida é um bocejar infinito.
Não há passeios que entretenham, nem bailes, nem sociedades – parece isto uma cidade de mortos – não há nem uma cara bonita em janela, só rugas, caretas desdentadas – e o silêncio das ruas só é quebrado pelos ruídos das bestas sapateando no ladrilho das ruas.
Esse silêncio convida mais ao sono que ao estudo – enlanguesce, e entorpece a imaginação e pode-se dizer que a vida aqui é um sono perpétuo.
Passam dias e dias sem que eu saia de casa – mas que hei de eu fazer? As calçadas não consentem que um par de pés guarnecidos de um par de calos – como os meus – possam andar vagando pelas ruas – Fico em casa, e contudo por isso não estudo mais do q. qdo. no ano passado eu ia todas as noites conversar em alguma casa de família, ou num baile.
Estudo sempre, contudo – porém é como a martelo, é unicamente a força de vontade.
Diga a Nhanhã que as obras vão andando e q. prometeram-me por qualquer destes dias a toalha.
Basta por hoje, mtas. lembranças a todos – a Exma. Sra. Nhanhã, a Marianinha, Quinquins etc. etc. e lance sua benção sobre
Seu f. do coração.
Maneco.
Por aqui não há novidades, que lhe interessem além do nascimento de uma filha de Bella. Quinta-feira aqui houve teatro. Nunca vi coisa tão ruim.
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Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo: 1862-1887
* MILITÃO AZEVEDO (1837-1905)*
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Em 1862, Militão fotografou uma série de vistas da capital paulista para a Photographia Academica, de Carneiro & Gaspar, em São Paulo. Em 1887, 60 fotografias originais sobre papel albuminado integraram a obra Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo: 1862-1887, no qual o fotógrafo contrapôs vistas dos mesmos logradouros realizadas nessas duas datas, criando assim um modelo de fotografia paisagística urbana de enfoque comparativo.
Vista da ladeira São Francisco para o Largo da Memória, 1860

Vista em direção ao Largo São Francisco,1860

Ladeira do Ouvidor-Largo São Francisco,1860

Mosteiro de São Bento, 1862
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*Paróquia de Nossa Senhora Assunção e São Paulo (Catedral da Sé)*
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foto de Marc Ferraz,1904
JOAQUIM JOZE VILLALVA
Casado com: JOAQUINA MARIA DAS DORES
Data e local do casamento: 09 SEP 1849 Catedral da Sé, São Paulo
(pais da minha bisavó Joanna das Dores Villalva Lobato)
.
A primeira referência à construção de uma Igreja Matriz em São Paulo consta das Atas de 7 de fevereiro de 1588, na ocasião em que o povo e os vereadores foram convocados à sessão da Câmara. Diz o documento: “Oficiais e povo logo praticaram sobre o fazer-se a igreja e todos foram de parecer que se faça hygrega matriz”.
No ano seguinte, o povo reuniu-se novamente na Câmara para tratar do mesmo assunto: a construção da Matriz. Decidiu-se que ela seria edificada entre as casas de Diogo Teixeira e André Mendes, em terreno escolhido pelo cacique Tibiriçá, chefe dos guaianás.
Em 1598, a Câmara convocou os empreiteiros para fazer “corpo de igreja” e capela matriz. Dois anos depois, entretanto, as obras estavam tão atrasadas que a Câmara obrigou os moradores a fornecerem escravos “para as taipas da igreja”, sob pena de multa.
Foi somente em 1616 que a Catedral da Sé ficou pronta. Mas teve curta duração, pois, em meados do século XVIII, encontrava-se em ruínas. No ano de 1754, o antigo templo do Largo da Sé foi demolido e, à custa de esmola dos fiéis, foi possível edificar um outro aproximadamente no mesmo local. O seu frontispício só ficaria concluído em 1764.
A edificação da torre de pedra foi motivo de muita preocupação, já que não havia arquiteto que quisesse se responsabilizar pela obra. Recorreu-se então a Joaquim Pinto de Oliveira, por alcunha Thebas, mestiço e escravo alforriado, perito em construção feita de pedra, o que era raro na cidade feita em taipa de pilão.
A antiga Sé foi demolida em 1911 para obras de ampliação da Praça da Sé. A partir de 1913, a catedral metropolitana, elevada à sede da arquidiocese, começou a ser reconstruída em granito com projeto neogótico do arquiteto alemão Maximilian Emil Hehl. Em 25 de janeiro de 1954, por ocasião do IV Centenário, a Sé foi inaugurada, mas com suas torres principais inacabadas.

*Gabinete Topográfico: Precursor no ensino da engenharia em São Paulo*
Em 1835, a Assembléia Legislativa da Província de São Paulo criou um curso especial de “engenheiros de estradas”. Atenderia essa escola à necessidade da construção de novas estradas e à conservação das já existentes. Ela foi a primeira manifestação do ensino das ciências exatas em São Paulo, cujo objetivo era atender ao clamor público da necessidade da conservação de pontes e estradas, pois, sem elas, a economia da Capitania e posteriormente da Província estariam aniquiladas.
“Infelizmente a experiência do Gabinete Topográfico teve curta duração, apesar de ser um “Instituto tão necessário para o real desenvolvimento do paiz não podia medar naquelle regimen de ficções e de enfezada centralização. Por isso, apesar da grande falta que então se experimentava, de homens práticos, capazes de bem delinear e executar as estradas, já n’aquela época reputadas indispensáveis para a prosperidade de São Paulo, após a extinção daquella modesta tentativa, que alias já ia produzindo excellentes fructus, nada mais se ensinou entre nós d’aquelle gênero.”
Taunay, Affonso Escragnole


O
janeiro 12th, 2008, by Ida Duclos






tropas paranaenses, 1894


























































