No coração do Dão
José Lopes e Rosa Buonomo, avós da Carla Alonzo Duclós
José Lopes veio para o Brasil quando tinha nove anos, em 1917. Junto com seus pais – Manuel e Maria Alves – desembarcou no porto do Rio de Janeiro, trazendo consigo o nome de sua terra natal, Viseu, em Portugal – agora tão distante. Em sua nova pátria cresceu, casou-se com Rosa Buonomo e deixou – entre seus numerosos descendentes – uma linda neta, Carla Alonzo Duclós.
Foi assim que descobri essa história: minha nora, Carla, pediu uma ajuda para encontrar o lugar exato onde seu avô nasceu. Em seus documentos brasileiros e na memória familiar, uma só palavra: Viseu.
Era um território muito grande para localizar a exata freguesia da família Lopes. Esse sobrenome é muito antigo na região e encontra-se inúmeras ocorrências com o mesmo nome em todo o distrito.
Distrito de Viseu
Viseu é um distrito de Portugal com uma área de 5007 km² com uma população residente de (2006) 394 844, sua sede é a cidade de mesmo nome (Viseu). Pertence à tradicional província da Beira Alta, mas incluí alguns concelhos do Douro Litoral e do Trás-os-Montes e do Alto Douro. Limita-se ao norte com o Distrito do Porto, o Distrito de Vila Real e o Distrito de Bragança, a leste com o Distrito da Guarda, a sul com o Distrito de Coimbra e a oeste com o Distrito de Aveiro. É o único distrito português que não faz fronteira nem com o mar nem com Espanha.
O distrito de Viseu subdivide-se nos seguintes municípios: Armamar, Carregal do Sal, Castro Daire, Cinfães, Lamego, Mangualde, Moimenta da Beira, Mortágua, Nelas, Oliveira de Frades, Penalva do Castelo, Penedono, Resende, Santa Comba Dão, São João da Pesqueira, São Pedro do Sul, Sátão, Sernancelhe, Tabuaço, Tarouca, Tondela, Vila Nova de Paiva, Viseu, Vouzela.
O Concelho de Penalva do Castelo
Com muita paciência, fui cruzando as listas de antigos registros de batismos referentes ao distrito de Viseu, até encontrar uma concidência, os nomes dos avós de José Lopes – Henriqueta e Alexandre Lopes – nascidos no mesmo local, na freguesia de Insua, concelho de Penalva do Castelo, em datas aproximadas:
Henrequeta Pinto Ferreira
11 Abril 1865
batisada: 19 Abril 1865 Sao Genesio, Insua, Viseu, Portugal
pai Manoel Pinto Ferreira mãe: Maria Emilia
Alexandre Lopes
17 JAN 1862
batisado: 26 JAN 1862 Sao Genesio, Insua, Viseu, Portugal Insua,
pai Luiz Lopes mãe: Luzia de Asumpacao
O concelho de Penalva do Castelo está situado em pleno coração da Beira Alta, estende-se por uma área de 140 quilómetros quadrados que reúne 13 freguesias – Antas, Castelo de Penalva, Esmolfe, Germil, Ínsua (Penalva do Castelo), Lusinde, Mareco, Matela, Real, Sezures, Pindo, Trancozelos e Vila Cova do Covelo.
Penalva do Castelo recebeu foral em 1240 e a referência ao Castelo vem de uma torre de onde se avistava o rio Dão. Foi entre este e o rio Côja, que se desenvolvei o primitivo núcleo populacional.
Durante a Reconquista Cristã, as Terras de Penalva eram um ponto estratégico muito importante, e foram escolhidas para a construção do primeiro da Ordem do Santo Sepulcro em Portugal. A 10 de Fevereiro de 1491, D. Manuel I, o Venturoso, atribui-lhes o Foral Novo, e renova-lhes os anteriores direitos e privilégios.
0 primitivo núcleo da vila ter-se-á situado nas margens do rio Om, atual Dão, entre este e o rio Coja. Segundo alguns estudiosos, os restos da antiga vila misturam-se com as ruínas (na Quinta do Mosteiro, em Trancozelos) do templo da ordem monástica do Santo Sepulcro, talvez o primeiro da Península, sob proteção de D. Afonso Henriques e de sua mãe. Assim, ficou conhecida por Vila Nova do Santo Sepulcro.
Há, igualmente, vestígios que comprovam os povoamentos celta e romano. A antiga sede do concelho localizava-se em Castelo de Penalva, documentada já em 1058. Castendo recebeu carta de foral de D. Sancho II em 1240 e D. Manuel I outorgou-Ihe novo foral em 10 de Fevereiro de 1514.
Primitivamente Castendo, passou a designar-se pelo nome atual por decreto de 4 de Agosto de 1957. Ainda hoje, porém, e costume algumas pessoas, sobretudo as mais idosas, referirem-se à Vila pelo nome antigo, principalmente pelos mais antigos.”Vou à feira a… Castendo” é uma frase frequente às sextas-feiras, dia de movimentado mercado e feira no centro da vila.
O território do Dão é marcado por seu relevo peculiar, circundado por um conjunto de serras: a leste a belíssima Serra da Estrela, a norte a Serra da Nave (que protegem a região do rigor do clima continental), ao sul as Serras do Buçaco, Açor e Lousão, e a oeste a Serra do Caramulo (que evitam a entrada do ar úmido vindo do Atlântico). No centro desta redoma está o Dão, formado por colinas onde se formam inúmeros microclimas propícios à viticultura, com altitudes entre 400 e 700 metros. Todos os vinhos desta região são muito bons. Dois vinhos notáveis do Dão: o Grão Vasco, da Sogrape , e o Aliança, da Caves Aliança.
quinta típica da região, com parreira na cerca
O clima é temperado, com influencia mediterrânea – invernos chuvosos e verões quentes e secos, com cerca de 2.600 horas de sol e 1000 mm de chuvas por ano. O clima é irregular e a qualidade dos vinhos pode variar bastante de ano a ano.
O solo marcante – falar de Dão é falar de granito. Cerca de 97% dos vinhedos do Dão fica em solo granítico, que é pobre, de textura pedregosa, com ótima drenagem. O granito aqui vai além dos vinhedos e também marca a arquitetura da região. Tudo ali é de granito: casas, muros, fontes, lagares…
Santuário de Nossa Senhora de Lourdes. 
Trata-se de um concelho essencialmente agrícola, além das culturas de vinha (produção de vinho do Dão) e cultiva-se maçãs (realce para a “Bravo de Esmolfe”, qualidade bastante apreciada e originária desta aldeia) e a pastorícia (fabrico de queijo da Serra da Estrela). Existe ainda uma larga tradição no campo artesanal, nomeadamente a latoaria e a cestaria/esteiraria.
Uma última referência para a gastronomia típica do concelho, a qual se insere na da região: feijão branco com carne de porco, arroz de grelos com chouriço, arroz de favas com costeletas em vinha de alhos, feijão com couves, torresmos à Beira Alta, bacalhau assado no forno com batata a murro…
Essa receita de bacalhãu no forno com batata, tive o prazer de saborear na casa de D. Dirce – filha de José Lopes – uma iguaria portuguesa num lar paulistano. Aproveito esse momento para agradecer pelo carinho com que nos recebeu.
Freguesia de Insua
Na vila de Castendo, em Ínsua, freguesia de Penalva do Castelo, encontra-se instalada a sede do concelho. O mais importante monumento da vila é a Casa da Ínsua ou Solar dos Albuquerques, cuja data de construção remonta ao século XVIII. É uma das mais belas casas solarengas das Beiras, constituída por um jardim em dois patamares no centro de uma grande exploração agrícola com bonita mata e o Santuário de Nossa Senhora de Lourdes.
Esta casa senhorial, mandada construir no âmago da Beira Alta por iniciativa de Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres (1739-1797), governador de Mato Grosso, data da segunda metade do século XVIII (c. de 1770-80). A autoria deste projeto arquitetónico é atribuída a José Francisco de Paiva (1744-1824), do Porto. Pois existem pormenores que estabelecem ligações estilísticas com monumentos deste arquiteto – o desenho das varandas em ferro forjado, muito utilizado por ele, ou os frontões ondulados e semelhantes aos da Igreja do Convento de S. Bento de Avé Maria do Porto.
São três os portões de acesso à vasta propriedade agrícola, em pedra de feição classicizante (datáveis de 1900), havendo um outro junto à casa, rente a um pátio arborizado e rodeado por paredes brancas. A entrada principal ostenta um frontão curvilíneo e é ladeada por uma série de canhões com datas entre 1776 e 1797. No andar térreo, as janelas são protegidas por grades de ferro e as do segundo andar apresentam gelosias em forma de diamantes, a par das características guilhotinas. Das janelas mais altas parecem pender, nos cantos, rolos de pergaminho atado, em pedra escura. Numa das extremidades do terreiro fica a capela e, à esquerda, uma série de dependências de serviço.
Esta disposição, que define um tipo de casa constituída por um corpo longo delimitado por dois torreões, em voga desde o século XV, adquire o seu aspeto mais emblemático na fachada sobre o jardim.
Os torreões, de ameias ornadas de flores-de-lis, revelam a permanência de um arcaísmo puramente formal e realçam o exotismo do verde exuberante. As goteiras em canhão adquirem o mesmo significado. Dotada de grande simetria, a fachada possui uma galeria de três arcadas, ao nível do andar intermédio dos torreões (a do lado direito foi fechada no século anterior), corpo central com janelas de frontão triangular, com os cantos inferiores em rolo de pergaminho, sobrepujando outras de dimensão inferior, gradeadas e envoltas por cantaria, que se prolongam sob as galerias dos torreões.
Estes torreões apresentam um outro piso que se eleva acima do corpo central, também eles com séries de três janelas de frontões angulares. O jardim sobranceiro divide-se em dois terraços com sebes de buxo e cameleiras, e ainda com um tanque povoado de nelumbos. O jardim inglês, ligeiramente afastado, é rico e extenso, de tal modo que se atribuíram nomes às ruas que foi formando, entrecruzadas com inúmeras clareiras, fontes e até um altar ao ar livre, que é enriquecido por uma terracota de Leopoldo Battistini (1909).
A Casa da Ínsua, beneficiada no século XIX, possui um valioso espólio documental na sua rica biblioteca, relativo ao Brasil setecentista. No seu interior destaca-se a escadaria com corrimão de pedra espiralada, de carácter marcadamente cénico, decorada por troféus de parede, e a lareira de um dos salões superiores, enquadrada por figuras alegadamente mitológicas. Tal como a Casa de Sezim, possui no seu interior decoração de papéis de parede pintados, fabricados por Z. Zuber (1827) e decorados por J. M. Gué. Presentemente, esta propriedade agrícola é também residência da família descendente do fundador.
December 8th, 2008, by Ida Duclos

























tropas paranaenses, 1894























