O menino da Lapa
Ao meu avô Leôncio Lobato
e bisavós Heráclito de Sousa Lobato
Joanna Vilalva Lobato

“Os meninos da vila, quando se referiam à luta que se avizinhava, não escondiam as suas preferências e diziam: “os nossos já vem vindo” (Rocha Pombo)
É possível que entre esses meninos estivesse meu avô, Leôncio Lobato. Quando aconteceu o Cerco da Lapa, o famoso episódio da Revolução Federalista (1893-1895), meu avô estava com nove anos. Foi quando ficou órfão, provavelmente em conseqüência dessa batalha. Essas crianças que brincavam nas ruas do lugarejo, não podiam imaginar o horror que se aproximava.
A pacata localidade da Lapa – onde meu avô nasceu – esteve sitiada e sob fogo cerrado durante 26 dias (17 de janeiro a 10 de fevereiro de 1894). A vila não era legalista, ao contrário, tinha muitos moradores que eram simpatizantes dos maragatos. Resistiu porque o Cel. Antônio Ernesto Gomes Carneiro – foi depois de sua morte que ganhou a patente de general – decidiu enfrentar as tropas revoltosas com pouco menos de 650 homens, entre civis (caboclos recrutados entre os moradores pelo coronel local Joaquim Lacerda) e militares. As tropas lideradas por Gumercindo Saraiva e seu irmão Aparício tinha cerca de dois mil homens, armados com quatro canhões.
A resistência oferecida por Gomes Carneiro terminou por sacrificar inúmeras vidas dos habitantes da Lapa. A Revolução Federalista foi uma guerra civil fratricida, das mais violentas de nossa História. A degola era comum em ambos os lados e a ordem era para que não se fizesse prisioneiros. Talvez por ser uma luta de guerrilha, onde era impossível transportar prisioneiros, o mais comum era que se executassem os oficiais e o resto dos combates eram incorporados às tropas do vencedor.
O Paraná orgulha-se em dizer que o Cerco da Lapa forneceu o tempo necessário para que Floriano Peixoto organiza-se seu exército e assim não caísse a República. O ataque à cidade da Lapa foi um erro de estratégia de Gumercindo Saraiva. Fez com que perdesse um tempo precioso no estado do Paraná, quando deveria ir em frente para o São Paulo onde o exército ainda não estava preparado para a luta.
Os revoltosos gaúchos – aliados com a Segunda Revolta da Armada, liderada por Custódio de Mello – já haviam obtido vitória no Rio Grande do Sul e parte do território de Santa Catarina. Os marinheiros insurretos haviam tomado o porto de Paranaguá e a cidade do Desterro, onde estabeleceram um governo provisório.
Vicente Machado, então governador do Paraná em exercício, abandonou a capital paranaense, fugindo para Itararé junto com o General Pego. A capital paranaense recebeu Gumercindo Saraiva com aplausos e não chegou a ser atacada pelos revoltosos. A rendição foi negociada pelo Barão de Serro Azul, que amealhou dinheiro junto à Associação Comercial para que a cidade não fosse saqueada.
A Lapa era o único local em que a luta continuava. Gomes Carneiro preparou a resistência, cavando trincheiras e colocando barricadas nas ruas. Tomou casas para servirem de fortaleza e a cidadezinha se transformou numa praça de guerra. Gomes Carneiro recusou a tentativa de negociar uma rendição que os comerciantes locais tentaram fazer, à semelhança do que havia ocorrido em Curitiba.
As prisões estavam cheias e muitos foram mortos sob a suspeita de serem simpatizantes dos maragatos. Acreditando-se espionado pelos moradores, Carneiro mandou atirar em qualquer um que parecesse querer desertar ou fugir do vilarejo, incluindo as mulheres. João Prestes e seu compadre João Lourenço foram apanhados, saindo da vila e foram degolados junto a um riacho. É possível que sem saída, muitos moradores tentassem salvar suas famílias e seus lares passando informações para os rebeldes, para que houvesse um desfecho mais rápido de tão funesta resistência.
As mulheres e as crianças refugiavam-se na Igreja e nas casas que consideravam mais seguras. Quem tivesse necessidade de sair era baleado e muitas morreram ali. Explodiam granadas nas ruas e dentro das casas, muitos eram carregados às pressas para uma enfermaria improvisada, com o peito rasgado pelos estilhaços.
. Os federalistas aproveitavam a noite, ocultando-se em casas e quintais de onde podiam atingir de surpresa os sitiados. Os combatentes fuzilavam-se cara a cara, quando não se matavam à arma branca. Famílias inteiras foram mortas. Finalmente morreu o General Carneiro e a Lapa pode se render.
A primeira Revolta da Armada aconteceu em 1891, quando o General da Marinha – Custódio de Mello – abortou o golpe de Estado dado por Deodoro. O primeiro presidente da República do Brasil dissolveu o Congresso e suspendeu às garantias institucionais. Custódio de Mello posicionou os navios de guerra, que estavam sob seu comando, na baía da Guanabara apontando os canhões para o Palácio.
Deodoro renunciou e assumiu em seu lugar o vice-presidente Floriano Peixoto. Previa-se que fossem realizadas novas eleições e fosse restabelecido o Congresso e a Constituição. Mas Floriano Peixoto não pretendia tanto. Foi por esse motivo, que Custódio de Mello desencadeou a Segunda Revolta da Armada, dessa vez articulando-se com a Revolução Federalista no estado gaúcho.
No Rio Grande do Sul, o governador Julio de Castilhos tinha apoiado o golpe de Deodoro. As forças oposicionistas apoiaram Floriano Peixoto e depuseram Julio de Castilhos. Ficaram surpreendidos e revoltados quando Floriano Peixoto apoiou a volta de Julio de Castilhos.

A GUERRA TOTAL
Muito bom post. A tese de que orfandade do avô foi provocada pelo conflito é uma proposta digna dos melhores estudos de História.
A Revolução Federalista foi a explosão de uma situação social que tinha se mantido intacta durante o Império. Comparo, com as devidas ressalvas do tempo e da geografia, com o que aconteceu nos Balcãs, depois do fim da Iugoslávia. Não que tivesse havido uma guerra étnica, mas foi uma mesma guerra fraticida de todos contra todos. As pessoas se fuzilavam cara a cara, se degolavam, saqueavam uns aos outros. Ocorreu em todo o Brasil conflagrado. Não foi uma revolução, foi um acerto de contas sangrento e que deixou marcas profundas na vida nacional. Estudar essa guerra total (que tinha entre seus slogans “não damos nem pedimos quartel”), compreendê-la e curar suas feridas é missão de todos nós.
4: O que foi a segunda revolta da armada e como terminou?
R: Foi uma revolta para exigir novas eleições. Para exigir a renuncia de Floriano Peixoto começaram a atacar o Rio de Janeiro com canhões.
Terminou com a renuncia do Floriano Peixoto.