A 2ª Revolta da Armada

Relatório do Comandante Custódio de Mello invasão de Paranaguá
04.02.1894
Ao sr. 1 º tenente Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha.
De volta a esta Capital, onde cheguei às 11 horas da manhã do dia de hoje, passo a relatar-vos os principaes incidentes da gloriosa e recente expedição ao Estado do Paraná, lastimando que a escassez das partes officiaes, relativas às operações.
A 13 ainda do mez de janeiro de 1894, isto é, 7 dias antes da capitulação de Ambrosios, a esquadra libertadora investio o porto de Paranaguá.
`As 7 horas da manhã seguinte, os cruzadores URANO e ESPERANÇA pela barra do norte, emquanto o REPUBLICA pairando na do sul protegia-lhes a passagem, vivo combate travou-se entre os nossos navios e a fortaleza da Ilha do Mel.
A fortaleza da Ilha do Mel – Essa vetusta fortaleza, a princio enérgica e disposta a luta, fora pouco a pouco espaçando o seu canhoneio até que, por volta das 3 horas reconhecendo a ineficácia da sua resistencia, ao decimo oitavo tiro com que respondeu a nossa agressão, calou os seus fogos fugindo toda a sua guarnição para as matas dos arredores.
Já n’esse tempo os dois primeiros cruzadores dando cumprimento às instrucções recebidas, despejavam na PONTA DO BICHO os contingentes de desembarque.
Em menos de dez minutos foi ladeada a distancia que os separava do seu objectivo, penetrando sem a menor resistencia no recinto da fortaleza, onde, em substituição ao pavilhão nacional, hastearam a bandeira branca da paz e da concórdia.
Ahi foram aprehendidos dois canhões Krupp em perfeitissimo estado de conservação e limpeza, com setenta tiros, onze peças de alma lisa, das quaes duas ainda carregadas, alguma munição, muitos projectis esphericos, setenta carabinas de diversos systemas com cerca de 30 mil cartuchos, seis barris de polvora, velas mixtas e outros appetrechos de menor valia.
Emquanto se procedia o arrolamento do material abandonado, os fugitivos, em perseguição dos quaes seguiram alguns destacamentos, se foram apresentando, de modo que em poucas horas de pesquiza haviamos feitos cincoenta prisioneiros, entre os quaes o commandante da praça, Alferes JOAQUIM SEVERIANO DA SILVA FILHO, sem esquecer dois sargentos e um cabo e seis soldados de 3 º Regimento de Artilharia, que declararam estarem promptos a servir a revolução, a que só por dever de disciplina combatiam até então.
O resto d’esse dia, como todo o correr do seguinte, foram empregados em arrecadar o material transportavel, restabelecer com a nossa gente o serviço da fortaleza e dispor os elementos de ataque à cidade de Paranaguá.
Às 8 horas da manhã de 15, ordenei aos navios que deixassem o fundeadouro que haviamos tomado na tarde anterior em frente à Ilha das Cobras e seguimos avante em direção àquella cidade, collocado o REPUBLICA na vanguarda da linha de combate, o URANO pela alheta de boreste, com ordem de forçar a margem e ir tomar posição conveniente para bater as trincheiras do porto d’Àgua, seguindo o ESPERANÇA à distancia a pôpa do REPUBLICA afim de entreter os fogos com as baterias situadas mais proximo.
Logo que os navios se puzeram a descoberto da Ilha da Cotinga, vivo fogo rompeu de terra.
A nossa resposta não se fez esperar.
A luta tornou-se renhida então de parte a parte, e assim se menteve emquanto durou a nossa passagem, lenta e propositalmente demorada, diante das 6 bocas de fogo que defendiam o litoral.
Em meio do combate o General de Divisão Antonio José Maria Pego Junior, que se achava occasional ou propositalmente em Paranaguá, esquecido dos deveres inherentes ao alto cargo de commandante em chefe do districto militar, desappareceu inesperadamente, seguindo caminho de Curityba em um trem expresso com todo o seu estado maior e a quasi totalidade dos officiaes da guarnição daquella cidade.
Cousa não menos digna de nota é que, ao passo que as nossas bombas causavam sensíveis prejuizos em terra, ceifando vidas e ocasionando não pequenos estragos materiaes…..
Às 11 horas da manhã ainda do dia 15 transposta a ultima trincheira do porto d’Água, mandei cessar o fogo, para que as guarnições repouzassem e tomassem a sua primeira refeição.
Ao meio dia tendo chegado o IRIS, com um reforço de cento e cincoenta homens, voltamos de novo a carga, d’esta vez resolvidos a não abandonar a luta emquanto não houvesse realisado o desembarque que projectava.
N’esse sentido dispuz-me a bater o adversário por partes, começando o ataque pela trincheira levantada à direita da estação do caminho de Ferro, quasi ao desembocar de uma estreita rua, traçada em continuação à ponte do Lloyd.
Pela má configuração d’essa trincheira, que, alem de outros defeitos, possuia uma única canhoneira voltada para a Ilha das Cobras, restricto e limitado era o campo de tiro de canhão que a guarnecia.
Aproveitando-me d’essa particularidade, aliás muito propícia aos fins que tinha em vista, vim collocar-me com o REPUBLICA em posição tal que a pudesse ferir pelo flanco, sem que fosse attingido pelas balas adversárias.
Em menos de um quarto de hora do mais nutrido fogo contra aquelle reducto de areia, foi elle abandonado, refugiando-se no matto os poucos dos seus defensores que ainda puderam escapar com vida ao mortífero e certo fogo de nossa artilharia.
N’esse interim o cruzador URANO, que tivera ordem para approximar-se o mais possível de terra, veio collocar-se a uns sessenta metros da praia, fazendo largar de bordo os seus escaleres atopetados de officiaes e valorosos soldados dos batalhões FERNANDO MACHADO, 25 de INFANTARIA e CORPO POLICIA DE DESTERRO, respectivamente commandados pelo coronel NEPOMUCENO DA COSTA, tenentes CARPES e Alferes ANNIBAL GONÇALVES.
Antes que os escaleres abicassem à terra, partiram do matto fronteiro successivas descargas de fuzilaria, que para logo tiveram respostas condigna das metralhadoras do canhões de tiro rápido do URANO e do REPUBLICA.
Dois magnificos disparos de bomba partido d’este ultimo cruzador, cahindo precisamente no lugar em que maior parecia a concentração dos nossos adversários, pol-os em completa debandada, deixando após si muita arma e munições, alem de alguns de seus companheiros que cahiram na luta para não mais se erguerem.
Dada esta circumstancia, de todos os navios partiram escaleres com restante do pessoal de desembarque, perfazendo um total de 316 homens assim divididos, cento e cincoenta do exercito libertador ao mando do coronel FRANKLIM CUNHA, noventa e seis do BATALHÃO FERNANDO MACHADO, vinte do CORPO DE POLÍCIA DO DESTERRO e cincoenta do BATALHÃO DE MARINHA sob o commando do 1 º tenente HONORIO DE BARROS.
Todos estes contingentes tinhão por commandante em chefe o CORONEL PAHIM.
Fácil tornou-se o seu desembarque.
Senhores do litoral, os nossos soldados avançam para a cidade pela estrada do CAMINHO DE FERRO, seguindo na vanguarda os bravos e intrepidos marinheiros, a cuja approximação os nossos adversários temerosos da sua tradicional ousadia e temeridade, abandonam o campo da luta e fogem desordenadamente, deixando dois canhões que foram trazidos para bordo do URANO por alguns soldados do BATALHÃO FERNANDO MACHADO.
Ao penetrarem porem em Paranaguá tiveram os nossos de suspender a marcha para repellir o ataque dos dois canhões Krupp, retirados do litoral para defeza interna da cidade. (Portão da estação da estrada de ferro).
O combate tornou-se pouco e pouco desesperado, mas os nossos marinheiros, n’um dado momento, zombando da metralha inimiga, avançam resolutos a peito descoberto, como quem desprendidos da vida busca na morte o meio honroso de perpetuar as suas gloriosas tradições.
A fortuna os guia n’esse tranze arriscado e os canhões, até então em actividade, são tomados a mão e feitas prisioneiras as suas guarnições.
Batidos ainda uma vez, os nossos adversários pensam ainda poder resistir nos arredores da cadeia, acobertados do infortunio de quarenta e dois prezos políticos e em cujo número contava-se o 1 º tenente da armada FRANCISCO DE SOUZA MELLO.
Que se enganaram, porem, bem demonstrou o cerco que lhes puzemos e ante o qual não tiveram remédio senão render-se, humilhados da sua propria franqueza. O general EUGENIO DE MELLO, comprehendendo que a resistencia por mais tempo seria inútil, recolhia-se a sua habitação quando foi feito prisioneiro, sendo immediatamente conduzido, para bordo do URANO.
Assim foi que a cidade de PARANAGUÁ defendida por cerca de ……noventa homens de infantaria e artilharia e guardada por seis canhões modernos, foi occupada, perdendo AS NOSSAS FORÇAS APENAS SEIS HOMENS, EMQUANTO DOS CONTRÁRIOS CAHIRAM POR TERRA CERCA DE CENTO E CINCOENTA, além de muitos feridos.
Acto contínuo à nossa occupação as portas da cadeia foram aberta de par em par para deixar passar, aos applausos da população, QUARENTA E DOIS criminosos políticos, victimas da insólita prepotencia do marechal dictador.
Na cidade e seus arredores foram apprehendidos seis Krupp com cem tiros, trezentas e poucas carabinas de diversos systemas com cerca de oitenta mil tiros, cem espadas, alguns reflez, quarenta bestas de cargas, dois caixões, um com uniforme para soldados e outros com calçado.
À 16 de Janeiro fiz seguir o cruzador IRIS para Antonina, a cuja presença a cidade rendeu-se à discripção, fugindo os seus defensores, que desorientados deixaram o armamento em abandono.
Pouco depois de haver o IRIS fundeado seguio para MORRETES um destacamento de cincoenta praças sob o commando do tenente CARPES, à cuja approximação, essa cidade, a exemplo da precedente tambem rendeu-se.
N’uma e n’outra cidade, apprehendemos dois canhões KRUPP, com sessenta e seis tiros, um caixão com polvora, cento e vinte carabinas com trinta mil tiros, noventa e quatro refles, oitenta e quatro cinturões, quarenta e oito patronas e quatro espadas.
À semelhança de ANTONINA e MORRETES, CURITYBA rendeu-se no dia 17, sem a menor resisitencias à simples approximação de um contingente de cem praças ainda sob o commando do tenente CARPES, fugindo para a fronteira do Estado o ex-governador DR. VICENTE MACHADO, o commandante do Districto, general de Divisão ANTONIO JOSÉ MARIA PEGO JUNIOR e grande numero de officiaes.
Eis pois como em concissos termos se effectuou a conquista do Estado do Paraná.
Congratulando-me com o Governo por tão auspiciosa victoria, faço votos pelo próspero triumpho da causa que defendemos
CUSTÓDIO DE MELLO
Contra-Almirante.





