Mnemosyne, imigração e ruptura

Sei contadino perchè hai un documento che lo attesta , non perchè vivi il tuo paese.

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A última década do sec. XIX foi uma época definitiva para minha família. Um novo destino ficou decidido quando meus bisavós Iovara/Orsina atravessaram o Atlântico, no navio San Gottardo, em direção ao Brasil. Deixavam definitivamente a Itália e seu passado de “contadino”- na província de Novara – para iniciar uma vida urbana no porto de Rio Grande. Uma decisão extremamente corajosa não só por romper com todos os laços, mas porque não dava para prever o que lhes aguardava no novo país.
É possível que tenham pensado em nós – seus descendentes, filhos de seus filhos – para encontrar ânimo e firmeza para enfrentar tão radical propósito. Não era só uma troca de “paese”, era deixar sua terra, seus familiares, a profissão exercida por séculos por seus ancestrais. Mudar de cultura, nacionalidade, linguagem. E algumas vezes, até o próprio nome da família era modificado. Felice Maria Orsina deixou na Itália seus pais – Genésio e Francesca – e dois irmãos, Giovanni e Francesca.

O destino fecha o cerco

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Ao iniciar-se a última década do século XIX, a Lapa se firmava como uma próspera cidade – sede de município. Tinha sido fundado a Associação Literária Lapeana e se organizado uma biblioteca e inaugurado o Teatro São João. A maioria das ruas do centro já era calçada e a cidade possuía vários jornais.
O recenseamento de 1892 mostra que a Lapa contava com 172 casas habitadas, a matriz de Santo Antônio, a Casa de Câmara e Cadeia, quatro ruas longitudinais, seis transversais, três largos, um cemitério católico, quatro fontes e fogos. Eram 8.709 os habitantes, dos quais 982 urbanos. As principais ruas, traçadas no sentido Norte-Sul, eram quatro e tinham nomes simples: a das Tropas, a da Boa Vista (que permitia se visse a linha do horizonte no descampado, tanto para o Norte como para o Sul), a do Cotovelo e a da Cadeia Velha, sucessivamente denominada do Quebra-Pote, da Cachaça e do Rezende.
 Havia, ainda, o Pátio da Matriz e o Largo das Laranjeiras, a Travessa do Chafariz, que ligava a Rua das Tropas à da Boa Vista, e as travessas do Ferreiro e do Bispo. Os becos levaram o nome das ruas a que serviam. Muitas travessas, becos, e até mesmo novas ruas que depois iriam surgir, são mencionados em documentos apenas como “de fulano de tal”. Em geral, nos becos não havia casas, apenas muros laterais ou, então, cercas delimitando a propriedade erguida sobre a rua principal. Os campos e a floresta acabavam bem junto às ruas-limite do povoado.

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Meus bisavós Joanna Villalba e Heráclito Lobato levavam uma vida pacata. Sua casa – no quarteirão de baixo da Lapa – ostentava graciosas e hospitaleiras cortinas e toalhas de rendas nas janelas. Joanna não sentia saudades da capital paulista onde tinha nascido. Estava perfeitamente adaptada à sociedade local e a grande diversão diária era colocar cadeiras nas calçadas, no final da tarde, para gozar a fresca e assuntar as novidades com os vizinhos. Seu filho caçula – Alceu Lobato – já estava com quatro anos, meu avô Leôncio com oito e Agripina com dez.
Ao encerrar-se o ano de 1893, reinava, entretanto, a apreensão. A guerra fratricida, até então simples noticiário de acontecimentos ocorridos muito distante, estava às portas da cidade, a qual, pela primeira vez em muitos anos, não vira realizar-se a popular festa consagrada a São Benedito, com seus folguedos e congadas.
Desde o início de novembro, o que se via era o tráfego apressado de obuseiros Krupp, arrastados por carretas, a poeira levantada por cavalarianos a galope ou o marchar descadenciado dos soldados do Batalhão Patriótico. Todos a caminho de uma elevação entre o Rio Negro e a Lapa, posição considerada estrategicamente muito boa, com o rio à esquerda e, por trás, a estrada que levava a cidade.
No dia 17 de janeiro 1894 a 22 de fevereiro de 1894, a Lapa foi cercada pelas tropas federalistas e a luta sangrenta contra o exército legalista foi dentro da cidade. Meu avô ficou órfão, a família desaparecida. Até o momento, procuro encontrar o local onde meus bisavós foram enterrados e a forma como morreram.

parana2detalhe.giftropas paranaenses, 1894

One Response to “Mnemosyne, imigração e ruptura”

  1. Nei Duclós says:

    Post revelador. A guerra influindo na vida social. No Brasil, cotumamos achar que a realidade social é pautada pelos tempos de paz, como se as guerras fossem localizadas e sem importância. A guerra total de 1893 marcou profundamente a vida brasileira, pelo que podemos ver neste post. Essa interferência se desdobrou em tempos de paz, atingiu profundamente as famílias, influiu nos hábitos, ajudou a esconder as memórias, a manter feridas abertas. Tudo muito importante demais para ser esquecido.

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