
Abaixo, trechos do livro “Estrada de Ferro Paranaguá-Curitiba – 100 Anos” SR5 da RFFSA.
As partes transcritas referem-se a uma viagem de inspeção das obras – realizada pelos engenheiros João Teixeira Soares, Guilherme B. Weinschenk e Monteiro Tourinho, encarregados da ferrovia.O viaduto Carvalho – construído pelos irmãos Francisco e Luís Joaquim Condessa – está quase terminado, quando recebem essa visita. A seleção dos trechos transcritos foi feita por mim e faz parte da pesquisa realizada sobre meu bisavô Luiz Condessa.
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“Então, após vararem o túnel de 45 metros, no km 60,374, pararam no km 60,504, para visitarem o célebre viaduto do Rochedo. Essa extraordinária obra de 84 metros, dividida em 6 vãos de 12, 16, 16, 12, 12 e 16 metros, apoiados em 5 pilares de alvenaria de pedra, achava-se em fase de conclusão. Tão logo apearam, o engenheiro Batista apresentou-os ao empreiteiro.
— O arquiteto Joaquim Condessa é o empreiteiro dessa difícil obra de arte; português, filho do arquiteto do mesmo nome. Mal recebeu o grau que lhe foi conferido pela Universidade de Coimbra, deixou pais e irmãos. Veio para o Brasil. Em 1882, empreitou a construção da alvenaria desse viaduto, que, agora, embora nos retoques finais, já permite o tráfego.
— Acostumou-se no Brasil? — perguntou-lhe Monteiro Tourinho.
— Pois se me acostumei? Sim. Mal chegando, casei-me com a moça Carolina, filha do meu patrício António Cândido de Figueiredo, comerciante estabelecido em Morretes. Sei que minha sogra, dona Deolinda França era neta do capitão Floriano Bento Vianna, que andou fazendo algumas estrepolias por aqui…
Dr. Tourinho gostou da franqueza.
— Vosmecê tem razão, doutor Condessa. Bento Vianna foi procurado pelo Sargento-Mor Francisco Gonçalves da Rocha e pelo Capitão Inácio Lustosa de Andrade, para iniciarem uma revolta, com o objetivo de fazer, disto aqui, província apartada da de São Paulo. Combinou-se que os conjurados dariam o grito separatista na ocasião em que o Juiz de Fora, doutor António de Azevedo Mello e Carvalho, proferisse a fórmula de juramento de obediência às bases da Constituição decretada pelas Cortes Cerais Extraordinárias e Constituintes de Lisboa e de vassalagem a Dom João VI, como Rei Constitucional do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, ao Príncipe Regente do Brasil, Dom Pedro, e também à dinastia da Casa de Bragança.O primeiro grito seria o de Bento Vianna, que comandava um batalhão. Os demais conjurados, debruçados nas janelas do Paço, o secundariam.Após a solenidade, realizada no dia 15 de julho de 1821, Bento Vianna deu um passo à frente de sua tropa e dirigiu, à Câmara Municipal, um requerimento verbal, nos seguintes termos:
“Ilustríssimos Senhores. Temos concluído com o nosso juramento de fidelidade, agora queremos que se nomeie um Governo Provisório para que nos governe em separado da Província de São Paulo. Pedimos que deste requerimento se dê parte a Sua Majestade.”
Então aconteceu que os demais companheiros de conjura ficaram de bico calado. O Juiz agiu corretamente. Respondeu que ainda não era tempo e que com vagar se havia de representar a Sua Majestade. Bento Vianna retrucou:
“O remédio logo se aplica ao mal quando aparece. Portanto não há ocasião melhor nem mais oportuna.”
Felizmente, o fato não teve maiores consequências. Bento Vianna nem sequer foi preso. Pouco tempo depois foi promovido a oficial, chegando ao posto de capitão. Em atenção aos seus serviços, foi condecorado com. a Comenda da Ordem da Rosa…
Após essa conversa amistosa, o arquiteto Condessa mostrou a obra aos engenheiros visitantes. Pilares de granito esquadrejado, de até 30 metros de altura, a base,engastada na rocha virgem, sustentando
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os seis vãos/vencidos com vigas de ferro de alma cheia. Ao regressarem, ao carro de passageiros, Monteiro Tourinho disse, ao engenheiro Batista:
— Com toda justiça, essa magnífica obra d’arte devia chamar-se Viaduto Condessa…
Teixeira Soares prosseguiu.
— Quando, em janeiro de 82, assumi a direção dos trabalhos, já havia muita coisa feita… embora bastante por fazer. Entre Paranaguá e Morretes, corria o trem. A 1 .a Seção fora inaugurada no dia 5 de outubro de. 1881. Entre Morretes e o Alto da Serra, a situação era diferente. A l.a Subdivisão tinha assentado mais 2 km de trilhos, além de Morretes. Estava concluída a ponte sobre o rio Jardim, assim como muitos aterros e cortes.
Na 2°, atacados os túneis do Cari e da Sanga Funda, assim como grandes muros de arrimo e algumas pontes. O viaduto do Rochedo, em obras. Deram-lhe o nome de Viaduto Carvalho, em homenagem ao Presidente Carlos de Carvalho, que nos visitou em 1.° de abril de 1882…
— Injustiça. Devia chamar-se Viaduto Condessa…
Almoço no acampamento do empreiteiro Condessa. Bacalhau à moda portuguesa.
A título de aperitivo, o cozinheiro português serviu Vinho do Porto Adriano Ramos Pinto. Então, depois, já acomodados na mesa feita com materiais de fortuna, deliciaram-se com o pratarraz de bacalhau, regado a vinho seco, tinto e branco. O doutor Durão iniciou a conversa.
— Vosmecê deve orgulhar-se do trabalho de cantaria que executou no viaduto do Rochedo — disse, dirigindo-se ao dono da casa.
O arquiteto Condessa sorriu satisfeito.
— Em Portugal, há obras de cantaria em abundância. Paredes, muros, pilares. Em Lisboa e na Extremadura, o calcáreo é a pedra de cantaria por excelência. No Porto, no norte do país e nas Beiras, usamos granito existo…
— Na ponte do rio dos Papagaios, usei arenito. Era só o que havia — interveio Monteiro Tourinho.
Certo! — aprovou Teixeira Soares. E argumentou: — Engenharia nao é só ciência. Também arte. Arte de aproveitar os recursos locais…
Condessa continuou:
— Muito interessante os termos peculiares aos aparelhos de cantaria, em Portugal, que herdamos dos romanos. Se os blocos de pedra formam apenas os parâmetros exterior e interior, sendo os vazios preenchidos com pedras irregulares, então o aparelho diz-se opus emplectum. Porém, nos muros de pequena espessura, todos os blocos de pedra são perpianhos, isto é, ocupam toda a espessura dos muros. O opus inertum é feito de pedras irregulares, aparelho poligonal, sem formar fiadas horizontais. Já o opus reticulatum só admite pedras regulares, talhadas em forma de quadrados ou losangos, dispostas de maneira a que suas juntas se correspondam, formando uma rede de malhas quadradas ou romboidais. No opus spicatum, o aparelho toma o aspecto de espinha de peixe. No opus isodomum, as pedras são aparelhadas nas mesmas dimensões, formam fiadas regulares, de altura constante, as juntas verticais se alternando. Finalmente, no opus pseudoisodomum, a altura das fiadas consecutivas é alternadamente desigual…
- Não só no uso da cantaria destacaram-se os romanos — ajuntou Monteiro Tourinho. E explicou:
— Suas vias pavimentadas, tais como a Ápia e a Flamínia, usavam pedras quadradas. De lá para as ferrovias, como hoje as concebemos, foí um passo. Até o nome é quase idêntico: via ferreae, diziam os romanos de suas estradas pavimentadas de pedras bastante duras…
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— As bases de pedra do viaduto do Rochedo são de…
— …opus emplectum — respondeu o arquiteto Condessa, antecipando-se à pergunta do doutor Durão.
— A seção dos pilares é muito grande. Só as paredes externas constituem opus isodomum.
Findo o almoço, deixaram o galpão. Condessa mandou servir café e conhaque.
— Não fosse tão baixa a temperatura, daria licor a vosmecês, para apressar a digestão — desculpou-se. E ajuntou:
— Mas o conhaque, dizem os franceses, que foram os seus inventores… c’est l’eau de la vie…
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“opus emplectum, opus incertum, opus reticulatum, opus spicatem, opus isodomum e opus pseudoisodomum“
são termos que designam a técnica utilizada pelos romanos na construção de muros. (opus=obras). Assim, por exemplo, utilizar a técnica do “opus emplectum”, quer dizer que se construiu primeiro os dois panos exteriores da parede, com pedras talhadas de grande tamanho que servem de cofragem ao recheio interior feito de terra, restos de cerâmica e ou pedra de menor qualidade e uma argamassa rica em cal e de grande consistência. Este ligante era também utilizado nas juntas das paredes que serviam de cofragem. As esquinas do edifício que se conservaram são constituídas à base de grandes blocos de pedra sobrepostos e assentes com junta seca.
(Agradecimentos a Miguel Lobato Duclós)