Published by Leandro on 25 Oct 2004
Terras selvagens.
Vocês são meus amigos, certo? Posso falar um completo absurdo aqui e vocês ainda vão gostar de mim, certo?
Tá bom.
Eu odeio a Zona Leste. Mesmo. Para mim, a civilização ocidental termina onde começa a Radial Leste.
Acabei de passar um fim de semana inteira trabalhando em um evento de cunho completamente eleitoreiro no Parque da Móoca (nem pergunte). Em apenas dois dias, fui insultado por gente da qual, em condições normais, eu desviaria para não pisar em cima, para não sujar o sapato; conheci um cara que dizia que tinha sido pasteurizado por alienígenas, que o curaram de AIDS; ouvi que estava de má-vontade e que me achava melhor que os outros funcionários públicos (lembrei do Dude e da eleição…); fui englobado pelo papo de um bêbado que passou pelo menos meia hora me contando como ele é bandido (meia hora porque eu cansei e chamei os policiais que estavam fazendo a ronda para sumir com o cara); tive que chamar a segurança para evitar um arrastão nomeio do evento; tive que administrar o atendimento de meia dúzia de alunos que acham que já são profissionais e que o atendimento agendado pode ser modificado da maneira que eles acharem melhor; e tudo isso sabendo que o meu final de semana de trabalho vai ser usado como plataforma eleitoreira do PT.
E por que isso? Porque eu tive a idéia revolucionária de que as pessoas não merecem ficar esperando um atendimento de pé em uma fila, no sol ou na chuva (e os dois extremos aconteceram). E instituí um agendamento. Que, obviamente, terminou ao meio-dia, com todos os horários preenchidos. Assim, as pessoas podiam passear pelo evento, até ir para casa, se quisessem, e retornar na hora de serem atendidas.
Seria lindo. Se não fosse por alguns detalhes.
1. Quem trabalha no evento acha que o agendamento é para o público, não para eles. E que você tem a obrigação de atendê-los fora de ordem, deixando quem agendou seu horário há 5 horas esperando na fila. Paradoxalmente, estes mesmos indivíduos são os primeiros a reclamar quando qualquer coisa atrasa, ou da corrupção no país. Falta de raciocínio lógico me irrita, já mencionei?
2. Quando você tenta explicar que, por incrível que pareça, você não vai abrir uma exceção, porque (porra!) é injusto com as outras pessoas, o ser acima sai pisando duro e desferindo impropérios (deduzidos pelo tom de voz; sou incapaz de entender o que eles chamam de português por lá.)
3. O público em geral é incapaz de entender que, chegando às 4 da tarde, não vai conseguir marcar um horário para as 4:30, se o agendamento começou às 10 da manhã. E que o agendamento só foi feito para a comodidade deles, não para a minha; eu estava na sombra e sentado. Aparentemente, no enevoado “raciocínio” dessa interessante raça, isso tudo cai sob o epíteto de “má-vontade”.
4. Ninguém tem o mínimo apreço pelo horário marcado; afinal, tudo que é gratuito não tem valor. Mesmo quem veio cedo e marcou horário não se sente na obrigação de realmente honrar o compromisso assumido; explicando adicionalmente porque este país é esta merda que nós conhecemos. Resolvi isso parcialmente, encaixando pessoas sem horário marcado nas faltas de quem marcou horário. Parece perfeito, não?
5. Não é. Me recusei a fazer uma lista de espera, só para evitar ter que ficar gritando 10 nomes de pessoas que não estão lá a cada meia hora. Encaixe, apenas para os presentes. Se houver vaga. Conceito simples, não? Não. Aparentemente, a frase “Volte daqui a meia hora para averiguar se houve alguma desistência.” pode retornar para você como “Mas você me mandou voltar agora que haveria uma vaga!”. Incompetência minha, reconheço; subestimei as barreiras lingüísticas.
A única coisa que me diz que eu não morri, e não fui para o inferno, é que hoje eu estou no laboratório de novo. Mas, se um dia eu acordar lá novamente, e o evento não terminar, saberei que estou recolhendo minha punição pelos meus delitos nesta encarnação.
Mas aprendi. Da próxima vez, todos na fila, sob sol e chuva. Já que eu tenho que ouvir desaforos de proto-símios, que eles pelo menos tenham razão de reclamar.