apocalypto later
A propaganda anterior a estréia de Apocalypto (2006) de Mel Gibson nos cinemas passava a idéia de uma super-produção portentosa que fazia uma reconstituição histórica detalhada da civilização maia. Mas não é nada disso, e sim um crime etnográfico porque ajuda a consolidar no imaginário das turbas ignorantes uma visão negativa das civilização pré-cabralinas. É herdeiro do mesmo papel que teve o livro de Hans Staden, sobre sua captura pelos antropofágos tupinambás, na consolidação no imaginário europeu da época. Mais um filme que aborda questões viscerais insinuando um torpe direcionamento ideológico no público espectador mediano, presumidamente incapaz da reflexão crítica e sem arcabouço teórico.
Ora, o objetivo de Gibson é claro, desculpar a civilização ocidental e a Igreja católica pelá barbárie que foi a conquista da América, com populações inteiras dizimadas de forma brutal - com toda espécie de perfídia e traição em vários episódios. Prova disso é que a suposta violência da civilização maia retratada é contraposta, no final do filme, com a chegada dos garbosos espanhóis, carregando do além-mar a verdade da Cruz esculpida na madeira. Isso é bastante óbvio.
É uma visão preconceituosa sobre algo que não se compreende, que resolve tudo de forma tosca, dizendo “esses bárbaros não conheciam a palavra de Cristo”. Aquele menininha vaticinando contra os aprisionadores, dizendo que um povo mais fodástico vai chegar e eles vão se dar mal é um dos piores pontos do filme. O próprio nome “turtle” e a piada final do filme corrobam que a intenção é mostrar o atraso destes ridículos povos da idade da pedra. Muito mais poderia ser dito contra esse filme, que começa com uma cena “escrota” e continua com piada de pênis, já criando um quadro negativo para os personagens que se propõe a retratar, no estilo nós brancos somos machos, os índios não (tanto é que a velha que escarnecia o homem impotente é solta intacta). É uma saudade sensual do ventre indígena, receptivo ao semên do explorador europeu, como notou o Darcy Ribeiro em seu estudo fraco “O Povo Brasileiro”, e como bem ilustra a famosa história da Bartira, a índia que casou com o João Ramalho, maçom português que veio morar em terras brasileiras logo no início, em São Vicente, tendo, segundo dizem, mais de uma centena de filhos mestiços.
E aquela cidade? Não tem nada a ver, é um centro comercial eurasiático repugnante, comercial, que nunca existiu na América Pré-Cabralina. Depósito de corpos? Isso é blasfêmia! A trama é pífia, e a perseguição final longa, totalmente inverossímel. A cena do “buraco” citada não se sustenta, primeiro que com a chuva ela poderia flutar ou nadar até o topo da ravena, segundo que quando ela consegue prender a corda ela mesma sobe, deixando o filho, seria muito mais fácil mandar o moleque que é levinho e ele ajudar a fixar melhor a corda.
A maquiagem é péssima, não respeita a iconografia, aliás, os índios não parecem índios no filme, não acertaram o tom de pele, eles parecem negros ou mulatos. Uma professora de civilização Maia foi atacar o crime de Gibson num evento numa universidade e ele gritou “FUCK OFF”, depois os seguranças a arrastaram para fora. Esse é Gibson, um ser chocho, truculento. O Nei já mostrou de forma magistral como funciona a mente doentia de Mel Gibson e o seu ranço mal-resolvido em relação a Igreja Católica.
Ora, o período colonial é riquíssimo para a abordagem cinematográfica, bastando respeitar a história e a pesquisa - como fez o bom “A Missão” com Jeremy Irons e Robert deNiro e não para fazer um panfleto evangélico pós-moderno. Pode-se argumentar a favor da Igreja Católica de várias formas, como por exemplo no papel que os jesuítas exerceram com a elaboração dos 7 Povos das Missões, uma Utopia que durou mais de 150 anos, lutando contra as coroas espanholas e portuguesa, além dos ferozes bandeirantes paulistas - tudo isto é contado em detalhes pelo jesuíta francês Clóvis Lugon no livro “A República Comunista Cristã dos Guaranis”.
O filme faz um uso mal intencionado dos estereótipos, como o do eclipse, uma lenda que aparece na história de Fernão de Cortéz na conquista do Império Inca e repetida a exaustão, tem até no álbum do Tintim… saber é poder, ciência é magia, povos atrasados e etc. É sempre a mesma abordagem dos índios como cruéis e crus. Pesquisando a palavra “Tolteca” no G1, por exemplo, Precursores de astecas sacrificavam crianças. Na época do o editor no Folha On-line, num esforço de conscientização, escreveu um artigo retratando a cultura indígena com outros olhos.
Don Juan lança outras luzes para entender a glória e a miséria das avançadas civilizações que os Espanhóis encontraram na época do descobrimento. Não se trata de emprestar uma aura idílica ou angelical a eles, maquiando sua ferocida, ou de dar-lhes métodos indevidos. Don Juan admite a superioridade tecnológica dos conquistadores, seu imenso poder de vida e morta sobre os índios. Mas argumenta que este mesmo poder propiciou uma alavanca especial para um tipo raro: o brujo, ou feiticeiro, herdeiro espiritual dos Antigos Videntes. Para Don Juan, o homem moderno nada ou pouco sabia acerca do nagual - era uma civilização capaz de varrer o tonal indígena, mas ela mesma inocente nos caminhos mitológicos que foram desenvolvidos por algumas civilizações pré-cabralinas até suas consequências últimas e fatais. Sobre esta problemática, selecionei alguns trechos do Presente da Águia que indicam como se pode rasgar a cortina escura do tempo para se tentar entender o verdadeiro propósito e significação das pirâmides e monumentos maias e toltecas. Sobre as estátuas de Tula, por exemplo:
"Percebi então que tinha sido mais que curiosidade o que me fizera ir ao ponto arqueológico de Tula. A razão principal de eu ter aceitado o convite do meu amigo foi que quando fiz minha primeira visita à la Gorda e aos outros eles me contaram uma coisa que Dom Juan nunca me contara — que ele se considerava um descendente cultural dos Toltecs. Tula tinha sido o antigo epicentro do império Toltec.
— Vocês acham que as Atlantas caminham durante a noite? — perguntei a Pablito.
— É claro que caminham — disse ele. — Aquelas coisas exis¬tem há anos. Ninguém sabe quem construiu as pirâmides; o próprio nagual Juan Matus me disse que os espanhóis não foram os primeiros que as descobriram. Disse que houve outros antes deles. Só Deus sabe quantos outros.
— O que você acha que aquelas quatro figuras representam? — perguntei.
— Não são homens, são mulheres — disse ele. — Aquela pirâmide é o centro da ordem e da estabilidade. Aquelas figuras são seus quatro cantos; são os quatro ventos, as quatro direções. Elas são a fundação, a base da pirâmide. Têm de ser mulheres, mulheres masculinizadas, se quiser chamá-las assim. Como você próprio sabe, nós homens não somos quentes assim. Somos uma boa liga, uma cola que mantém as coisas grudadas, mas é só isso. O nagual Juan Matus disse que o mistério da pirâmide é sua estrutura. Os quatro cantos foram elevados para o alto. A própria pirâmide é o homem sustentado pelas guerreiras femininas; o macho que elevou suas sustentadoras ao lugar mais alto. (...)
As Atlantas são o nagual; são sonhadoras. Representam a ordem da segunda atenção transportada; é por isso que são tão ameaçadoras e misteriosas. São criaturas em conflito, mas não destroem. A outra fileira de colunas, as retangulares, representa a ordem da primeira atenção, a tonal. São espreitadoras, por isso são cobertas de inscrições. São muito pacíficas e sábias, o oposto da fileira da frente.”
E sobre as pirâmides como gigantescos templos de não-fazer:
"— Dom Juan lhes contou mais algumas coisas sobre as pirâmi¬des, Pablito? — perguntei.
Minha intenção era desviar a conversa sobre a questão específica das Atlantas e ao mesmo tempo ficar próximo dela.
— Disse que uma certa pirâmide lá em Tula era uma guia — replicou Pablito ansiosamente.
Pelo tom da sua voz deduzi que ele realmente queria falar. E a atenção dos outros aprendizes me convenceu de que, dissimuladamente, todos queriam trocar opiniões.
— O nagual disse que era uma guia da segunda atenção — continuou Pablito — mas que foi explorada e que destruíram tudo. Ele me falou que algumas pirâmides eram gigantescos lugares de não fazer. Não eram moradas, mas lugares dos guerreiros desenvolverem seus sonhos e exercitarem sua segunda atenção. O que quer que fizessem era registrado em desenhos e figuras nas paredes.
“Depois, uma nova espécie de guerreiros deve ter aparecido, uma espécie que não aprovava o que os feiticeiros da pirâmide tinham feito com a segunda atenção, e destruíram a pirâmide com tudo o que havia dentro.
“O nagual acreditava que os novos guerreiros deviam ser guerreiros da terceira atenção, como ele próprio era; guerreiros que ficavam horrorizados com o mal da fixação da segunda atenção. Os feiticeiros das pirâmides estavam ocupados demais com sua fixação para perceberem o que estava acontecendo. Quando perceberam, era tarde demais."
Vemos, portanto, que a abordagem das religiões índigenas continua inocente, ou mal intencionada, ou mal aparatada. O que tenho visto são sempre mitos absurdos, que soam demasiadamente primitivos para serem levados a sério. Ou então brutais, no estilo de sacríficios de crianças para o grande deus da chuva uga-buga, como mostra a matéria. Como se o sacrício e o pior, o canibalismo, não tivesse existido em várias culturas antigas! Basta ler os livros clássicos do Ocidente e Oriente para comprovar que em matéria de brutalidade, não há como nenhum povo ganhar do outro. Havia uma enquete da comunidade de História do Orkut que questionava sobre as religiões, dando diversas opções, inclusive engraçadas ou pitorescas, como “Tutti-frutti” ou “jedi”.Mas nenhuma alternativa era dada em relação às religiões índigenas - as africanas e asiáticas já são assimiladas e aceitas. Este problema aparece também na imagem satírica a seguir que elenca as “religiões mundiais”:

Contudo, de alguma forma, estas mitologias e religiões continuaram, inclusive se modificando e aceitando elementos ocidentais. A figura de São Tomé, por exemplo, é às vezes identificada com o mitológico Sumé, um homem que teria vindo ao Brasil antes dos colonizadores e ensinado o Evangelho, além de vários outros aperfeiçoamentos, aos índios. O caminho de Peabiru é também associado a Sumé, o que aliás é cantado pelo rock psicodélico de Lula Cortês e Zé Ramalho no LP cult “Paebiru”, da cena de Recife dos anos 1970, que foi resgatado pelo mp3 da Internet. Vejamos por exemplo o fantástico poema que faz a letra de uma das faixas da obra:
"Quando as tiras do véu do pensamento
Desenrolam-se dentro de um espaço
Adquirem poderes quando eu passo
Pela terra solar dos cariris
Há uma pedra estranha que me diz
Que o vento se esconde num sopé
Que o fogo é escravo de um pajé
E que a água há de ser cristalizada
Nas paredes da pedra encantada
Os segredos talhados por sumé
Um cacique de pele colorida
Conquistou docilmente o firmamento
Num cavalo voou no esquecimento
Dos saberes eternos de um druida
Pela terra cavou sua jazida
Com as tábuas da arca de noé
Como lendas que vêm do abaeté
E como espadas de luz enfeitiçada
Nas paredes da pedra encantada
Os segredos talhados por sumé
Cavalgando trovões enfurecidos
Doma o raio lutando com plutão
Nas estrelas-cometas de um sertão
Que foi um palco de mouros enlouquecidos
Um altar para deuses esquecidos
Construiu sem temer a Lúcifer
No oceano banhou-se na maré
E nas montanhas deflorou a madrugada
Nas paredes da pedra encantada
Os segredos talhados por sumé
Sacrifique o cordeiro inocente
Entre os seios da mãe-dÂ’água sertaneja
Numa peleja de violas se deseja
É que o sol se derrube lentamente
Que a noite se perca de repente
Num dolente piado de guiné
Nos cabelos da ninfa salomé
Nos espelhos de tez enluarada
Nas paredes da pedra encantada
Os segredos talhados por sumé” (Zé Ramalho & Lula Cortês - Os Segredos Talhados por Sumé)
Outro link interessante traz uma versão sobre a origem do mundo por Nhanderu Éte, o herói criador dos Guaranis,”Deus de forma humana cujos olhos refletem a infinidade das cores”. A reportagem é de Ozias de Sousa e foi recolhida entre numa tribo de Biguaçu, Santa Catarina, e também traz elementos mesclados, aceitando a figura de Jesus Cristo como chave na história humana:
A saga dos deuses guaranis
http://oziasjornalismo.blogspot.com/2007/11/saga-dos-deuses-guaranis.html. Depois não venham com aquela do professor judeu que tomou Ayhuasca ( o chá do santo daime ) na selva com os índios e voltou para Israel para formular a “brilhante” tese que Moisés estava alucinado quando recebeu os 10 mandamentos.
Vídeo mostra os Atlantes Toltecas de Tula.













