Blog do Miguel

12 Aug

apocalypto later

A propaganda anterior a estréia de Apocalypto (2006) de Mel Gibson nos cinemas passava a idéia de uma super-produção portentosa que fazia uma reconstituição histórica detalhada da civilização maia. Mas não é nada disso, e sim um crime etnográfico porque ajuda a consolidar no imaginário das turbas ignorantes uma visão negativa das civilização pré-cabralinas. É herdeiro do mesmo papel que teve o livro de Hans Staden, sobre sua captura pelos antropofágos tupinambás, na consolidação no imaginário europeu da época. Mais um filme que aborda questões viscerais insinuando um torpe direcionamento ideológico no público espectador mediano, presumidamente incapaz da reflexão crítica e sem arcabouço teórico.

Ora, o objetivo de Gibson é claro, desculpar a civilização ocidental e a Igreja católica pelá barbárie que foi a conquista da América, com populações inteiras dizimadas de forma brutal - com toda espécie de perfídia e traição em vários episódios. Prova disso é que a suposta violência da civilização maia retratada é contraposta, no final do filme, com a chegada dos garbosos espanhóis, carregando do além-mar a verdade da Cruz esculpida na madeira. Isso é bastante óbvio.

É uma visão preconceituosa sobre algo que não se compreende, que resolve tudo de forma tosca, dizendo “esses bárbaros não conheciam a palavra de Cristo”. Aquele menininha vaticinando contra os aprisionadores, dizendo que um povo mais fodástico vai chegar e eles vão se dar mal é um dos piores pontos do filme. O próprio nome “turtle” e a piada final do filme corrobam que a intenção é mostrar o atraso destes ridículos povos da idade da pedra. Muito mais poderia ser dito contra esse filme, que começa com uma cena “escrota” e continua com piada de pênis, já criando um quadro negativo para os personagens que se propõe a retratar, no estilo nós brancos somos machos, os índios não (tanto é que a velha que escarnecia o homem impotente é solta intacta). É uma saudade sensual do ventre indígena, receptivo ao semên do explorador europeu, como notou o Darcy Ribeiro em seu estudo fraco “O Povo Brasileiro”, e como bem ilustra a famosa história da Bartira, a índia que casou com o João Ramalho, maçom português que veio morar em terras brasileiras logo no início, em São Vicente, tendo, segundo dizem, mais de uma centena de filhos mestiços.

E aquela cidade? Não tem nada a ver, é um centro comercial eurasiático repugnante, comercial, que nunca existiu na América Pré-Cabralina. Depósito de corpos? Isso é blasfêmia! A trama é pífia, e a perseguição final longa, totalmente inverossímel. A cena do “buraco” citada não se sustenta, primeiro que com a chuva ela poderia flutar ou nadar até o topo da ravena, segundo que quando ela consegue prender a corda ela mesma sobe, deixando o filho, seria muito mais fácil mandar o moleque que é levinho e ele ajudar a fixar melhor a corda.

A maquiagem é péssima, não respeita a iconografia, aliás, os índios não parecem índios no filme, não acertaram o tom de pele, eles parecem negros ou mulatos. Uma professora de civilização Maia foi atacar o crime de Gibson num evento numa universidade e ele gritou “FUCK OFF”, depois os seguranças a arrastaram para fora. Esse é Gibson, um ser chocho, truculento. O Nei já mostrou de forma magistral como funciona a mente doentia de Mel Gibson e o seu ranço mal-resolvido em relação a Igreja Católica.

Ora, o período colonial é riquíssimo para a abordagem cinematográfica, bastando respeitar a história e a pesquisa - como fez o bom “A Missão” com Jeremy Irons e Robert deNiro e não para fazer um panfleto evangélico pós-moderno. Pode-se argumentar a favor da Igreja Católica de várias formas, como por exemplo no papel que os jesuítas exerceram com a elaboração dos 7 Povos das Missões, uma Utopia que durou mais de 150 anos, lutando contra as coroas espanholas e portuguesa, além dos ferozes bandeirantes paulistas - tudo isto é contado em detalhes pelo jesuíta francês Clóvis Lugon no livro “A República Comunista Cristã dos Guaranis”.

O filme faz um uso mal intencionado dos estereótipos, como o do eclipse, uma lenda que aparece na história de Fernão de Cortéz na conquista do Império Inca e repetida a exaustão, tem até no álbum do Tintim… saber é poder, ciência é magia, povos atrasados e etc. É sempre a mesma abordagem dos índios como cruéis e crus. Pesquisando a palavra “Tolteca” no G1, por exemplo, Precursores de astecas sacrificavam crianças. Na época do o editor no Folha On-line, num esforço de conscientização, escreveu um artigo retratando a cultura indígena com outros olhos.

Don Juan lança outras luzes para entender a glória e a miséria das avançadas civilizações que os Espanhóis encontraram na época do descobrimento. Não se trata de emprestar uma aura idílica ou angelical a eles, maquiando sua ferocida, ou de dar-lhes métodos indevidos. Don Juan admite a superioridade tecnológica dos conquistadores, seu imenso poder de vida e morta sobre os índios. Mas argumenta que este mesmo poder propiciou uma alavanca especial para um tipo raro: o brujo, ou feiticeiro, herdeiro espiritual dos Antigos Videntes. Para Don Juan, o homem moderno nada ou pouco sabia acerca do nagual - era uma civilização capaz de varrer o tonal indígena, mas ela mesma inocente nos caminhos mitológicos que foram desenvolvidos por algumas civilizações pré-cabralinas até suas consequências últimas e fatais. Sobre esta problemática, selecionei alguns trechos do Presente da Águia que indicam como se pode rasgar a cortina escura do tempo para se tentar entender o verdadeiro propósito e significação das pirâmides e monumentos maias e toltecas. Sobre as estátuas de Tula, por exemplo:

"Percebi então que tinha sido mais que curiosidade o que me fizera ir ao ponto arqueológico de Tula. A razão principal de eu ter aceitado o convite do meu amigo foi que quando fiz minha primeira visita à la Gorda e aos outros eles me contaram uma coisa que Dom Juan nunca me contara — que ele se considerava um descendente cultural dos Toltecs. Tula tinha sido o antigo epicentro do império Toltec.
— Vocês acham que as Atlantas caminham durante a noite? — perguntei a Pablito.
— É claro que caminham — disse ele. — Aquelas coisas exis¬tem há anos. Ninguém sabe quem construiu as pirâmides; o próprio nagual Juan Matus me disse que os espanhóis não foram os primeiros que as descobriram. Disse que houve outros antes deles. Só Deus sabe quantos outros.
— O que você acha que aquelas quatro figuras representam? — perguntei.
— Não são homens, são mulheres — disse ele. — Aquela pirâmide é o centro da ordem e da estabilidade. Aquelas figuras são seus quatro cantos; são os quatro ventos, as quatro direções. Elas são a fundação, a base da pirâmide. Têm de ser mulheres, mulheres masculinizadas, se quiser chamá-las assim. Como você próprio sabe, nós homens não somos quentes assim. Somos uma boa liga, uma cola que mantém as coisas grudadas, mas é só isso. O nagual Juan Matus disse que o mistério da pirâmide é sua estrutura. Os quatro cantos foram elevados para o alto. A própria pirâmide é o homem sustentado pelas guerreiras femininas; o macho que elevou suas sustentadoras ao lugar mais alto. (...)
As Atlantas são o nagual; são sonhadoras. Representam a ordem da segunda atenção transportada; é por isso que são tão ameaçadoras e misteriosas. São criaturas em conflito, mas não destroem. A outra fileira de colunas, as retangulares, representa a ordem da primeira atenção, a tonal. São espreitadoras, por isso são cobertas de inscrições. São muito pacíficas e sábias, o oposto da fileira da frente.”

E sobre as pirâmides como gigantescos templos de não-fazer:

"— Dom Juan lhes contou mais algumas coisas sobre as pirâmi¬des, Pablito? — perguntei.
Minha intenção era desviar a conversa sobre a questão específica das Atlantas e ao mesmo tempo ficar próximo dela.
— Disse que uma certa pirâmide lá em Tula era uma guia — replicou Pablito ansiosamente.
Pelo tom da sua voz deduzi que ele realmente queria falar. E a atenção dos outros aprendizes me convenceu de que, dissimuladamente, todos queriam trocar opiniões.
— O nagual disse que era uma guia da segunda atenção — continuou Pablito — mas que foi explorada e que destruíram tudo. Ele me falou que algumas pirâmides eram gigantescos lugares de não fazer. Não eram moradas, mas lugares dos guerreiros desenvolverem seus sonhos e exercitarem sua segunda atenção. O que quer que fizessem era registrado em desenhos e figuras nas paredes.
“Depois, uma nova espécie de guerreiros deve ter aparecido, uma espécie que não aprovava o que os feiticeiros da pirâmide tinham feito com a segunda atenção, e destruíram a pirâmide com tudo o que havia dentro.
“O nagual acreditava que os novos guerreiros deviam ser guerreiros da terceira atenção, como ele próprio era; guerreiros que ficavam horrorizados com o mal da fixação da segunda atenção. Os feiticeiros das pirâmides estavam ocupados demais com sua fixação para perceberem o que estava acontecendo. Quando perceberam, era tarde demais."

Vemos, portanto, que a abordagem das religiões índigenas continua inocente, ou mal intencionada, ou mal aparatada. O que tenho visto são sempre mitos absurdos, que soam demasiadamente primitivos para serem levados a sério. Ou então brutais, no estilo de sacríficios de crianças para o grande deus da chuva uga-buga, como mostra a matéria. Como se o sacrício e o pior, o canibalismo, não tivesse existido em várias culturas antigas! Basta ler os livros clássicos do Ocidente e Oriente para comprovar que em matéria de brutalidade, não há como nenhum povo ganhar do outro. Havia uma enquete da comunidade de História do Orkut que questionava sobre as religiões, dando diversas opções, inclusive engraçadas ou pitorescas, como “Tutti-frutti” ou “jedi”.Mas nenhuma alternativa era dada em relação às religiões índigenas - as africanas e asiáticas já são assimiladas e aceitas. Este problema aparece também na imagem satírica a seguir que elenca as “religiões mundiais”:

religiões do mundo

Contudo, de alguma forma, estas mitologias e religiões continuaram, inclusive se modificando e aceitando elementos ocidentais. A figura de São Tomé, por exemplo, é às vezes identificada com o mitológico Sumé, um homem que teria vindo ao Brasil antes dos colonizadores e ensinado o Evangelho, além de vários outros aperfeiçoamentos, aos índios. O caminho de Peabiru é também associado a Sumé, o que aliás é cantado pelo rock psicodélico de Lula Cortês e Zé Ramalho no LP cult “Paebiru”, da cena de Recife dos anos 1970, que foi resgatado pelo mp3 da Internet. Vejamos por exemplo o fantástico poema que faz a letra de uma das faixas da obra:

"Quando as tiras do véu do pensamento
Desenrolam-se dentro de um espaço
Adquirem poderes quando eu passo
Pela terra solar dos cariris
Há uma pedra estranha que me diz
Que o vento se esconde num sopé
Que o fogo é escravo de um pajé
E que a água há de ser cristalizada
Nas paredes da pedra encantada
Os segredos talhados por sumé
Um cacique de pele colorida
Conquistou docilmente o firmamento
Num cavalo voou no esquecimento
Dos saberes eternos de um druida
Pela terra cavou sua jazida
Com as tábuas da arca de noé
Como lendas que vêm do abaeté
E como espadas de luz enfeitiçada
Nas paredes da pedra encantada
Os segredos talhados por sumé

Cavalgando trovões enfurecidos
Doma o raio lutando com plutão
Nas estrelas-cometas de um sertão
Que foi um palco de mouros enlouquecidos
Um altar para deuses esquecidos
Construiu sem temer a Lúcifer
No oceano banhou-se na maré
E nas montanhas deflorou a madrugada
Nas paredes da pedra encantada
Os segredos talhados por sumé

Sacrifique o cordeiro inocente
Entre os seios da mãe-dÂ’água sertaneja
Numa peleja de violas se deseja
É que o sol se derrube lentamente
Que a noite se perca de repente
Num dolente piado de guiné
Nos cabelos da ninfa salomé
Nos espelhos de tez enluarada
Nas paredes da pedra encantada
Os segredos talhados por sumé” (Zé Ramalho & Lula Cortês - Os Segredos Talhados por Sumé)

Outro link interessante traz uma versão sobre a origem do mundo por Nhanderu Éte, o herói criador dos Guaranis,”Deus de forma humana cujos olhos refletem a infinidade das cores”. A reportagem é de Ozias de Sousa e foi recolhida entre numa tribo de Biguaçu, Santa Catarina, e também traz elementos mesclados, aceitando a figura de Jesus Cristo como chave na história humana:

A saga dos deuses guaranis

http://oziasjornalismo.blogspot.com/2007/11/saga-dos-deuses-guaranis.html. Depois não venham com aquela do professor judeu que tomou Ayhuasca ( o chá do santo daime ) na selva com os índios e voltou para Israel para formular a “brilhante” tese que Moisés estava alucinado quando recebeu os 10 mandamentos. :-)


Vídeo mostra os Atlantes Toltecas de Tula.

11 Aug

os olhos cintilantes da deusa…

Glaukôpis (γλαυκώπις)

Relevo de Burney (Mesopotâmia)É o epíteto de Atena na Ilíada e Odisséia. As traduções para o termo variam muito, tanto na nossa língua quanto em outras que andei pesquisando. O Jaime Bruna e outros preferem dar ao termo sentido de cor: “deusa de olhos verde-mar”. Carlos Alberto Nunes faz uma tradução literal: “deusa de olhos glaucos”. Poderíamos perguntar: se existe a palavra glauco em nossa língua, por que não usar na tradução do epíteto? Mas o que significa esse glauco? Vejamos o que diz o Houaiss (cuja etimologia, aliás, parece seguir a do clássico dicionário de Bailly):
________________________
Datação1634 cf. BPPro
Acepções adjetivo 1 esverdeado, verde-claro 2 de tom verde-azulado

Etimologia gr. glaukós,ê,ón ‘verde-pálido, verde-cinzento, verde-azul, azul-esverdeado, azul-verde’, originalmente ‘brilhante, cintilante, resplandecente (falando do mar); sem qualquer idéia de cor’, pelo lat. glaúcus,a,um ‘verde, de cor verde-mar, verde-claro, tirante a verde, esverdeado’; ver glauc(o)
____________

Repare que no sentido original, parece que não era relativo à cor. Então, a tradução “olhos brilhantes” parece ter uma interpretação acertada. Ela é corrobada por outras em inglês que usam “flashing-eyed” e “bright-eyed”. Outras versões em português usam garços (palavra espanhola) e pulcros (para dar uma noção de resplendor delicado, aí já acho que foge totalmente).
Esse brilho parece fazer sentido, é o brilho da inteligência, Atena, a deusa da sabedoria, que guiava seus protegidos. Outras traduções que vi preferem “owl-eyed” ou “owl-faced” fazendo a ponte com o glaux (coruja), símbolo da deusa, a ave cujos olhos brilham no escuro, e que também o símbolo da filosofia porque “apreende a escuridão com a inteligência”.

Alguns textos associam também ao brilho do ramo da oliveira sobre o vento, e ao brilho do planeta Vênus, que numa acepção primitiva é associado com essa cor verde-azulada, da pedra de jade, a mesma associação do deus maia Quetzalcoatl (?).
Outro texto que li faz a associação do glaukôpis como uma característica masculina, a deusa teria olhos de homem.

O Haroldo de Campos quando se deparou com essa questão, optou por traduzir por “brilho de olhos azuis” em alguns trechos e olhicerúlea em outros, nisso seguindo o Odorico Mendes:

E a deia olhicerúlea: “Vim, de acordo
Com Juno albinitente, amiga de ambos,
Comedir-te e amansar. Anda, em palavras
Tu desabafa, a lâmina embainha.
Por esta injúria, to predigo certo,
Inda haverás em triplo insignes prémios.
Sê-nos pois dócil, a paixão modera.”

Esta pode ser também uma decisão bastante consciente, que une as duas ‘interpretações’ e as associar, pois o brilho seria o dos olhos claros, a caesia latina, já que o glaukómmatos se contrapunha ao melanómmatos, de olhos escuros.

De qualquer forma, parece-me que essa associação com a cor é tardia, o sentido do glaukô foi mantido por exemplo, na palavra glaucoma.

O epíteto, então está envolto no mistério do tempo e uma armadilha da linguagem, que depende da interpretação: algo relativo à cor verde-azulada dos olhos ou relativa ao brilho intenso que deles emanava? E admitida essa via entram outras questões, como a associação do brilho com inteligência ou também este brilho com o dos raios de Zeus.

E o brilho é o do olhar da coruja? Nesse caso, contrapõe-se ao olhar da deusa Hera, que tinha um olhar ‘bovino’, segundo o epíteto…? No thread que iniciei no orkut sobre o assunto, responderam: “O grego “glauk” para “coruja” vem justamente dos olhos claros e espantados desse animal. O termo tem a ver com claridade e não com o matiz da claridade (azul, cinza ou qualquer que seja).”

A coruja é a ave de Atena, ou a ave minervina, na mitologia romana. Atena sai adulta e armada diretamente da fronte de Zeus, que havia engolido sua mãe receoso de uma profecia. Atena é a deusa da sabedoria, que guia seus protegidos dentro do labirinto do mundo. Tem invejável poder de persuasão e influência junto ao pai.

Como dissemos, A coruja é uma ave noturna. A coruja apreende a escuridão com a inteligência. Isso é também uma analogia da atividade filosófica, da passagem da elaboração mítica, na noite escura do tempo, para a interpretação racional, sob a luz natural.

Hegel oficializou a coruja de minerva como símbolo da filosofia num famoso trecho do prefácio da Filosofia do Direito. “Quando a filosofia pinta cinza sobre o grisalho, então uma forma de vida já envelheceu. E com o cinza sobre cinza não se pode rejuvenescer, somente envelhecer. A coruja de minerva alça seu vôo somente com o início do crepúsculo” (tradução livre).

Findas as revoluções, vem a reflexão sobre elas. O mundo da vida é premente, é urgente, pede atenção e envolvimento de forma preponderante. A filosofia exige o ócio (questões de subsistência resolvidas), a contemplação, a meditação, o retiro. As dúvidas céticas (acadêmicas), como aponta Hume, perdem sua força no ‘dia-a-dia’. Porém, não são facilmente derrubadas em seu próprio meio.

Tem mais debate sobre isso neste link que foi citado nesta outra discussão do orkut.

Na lojinha on-line que configurei no Consciência aprovei esta problemática no motivo de uma das camisetas lançadas: uma image de coruja extraída de um dracma da época clássica com o final da citação do texto do Hegel. Na outra face da moeda, vinha o rosto de Atena.

Camiseta da Coruja de Minerva

Camiseta da Coruja de Minerva

10 Aug

Andinas votando

Uma imagem interessante publicada pelo Portal UOL hoje para ilustrar a votação no referendo do presidente Evo Morales:

As duas estão vestidas de forma característica e trazem a força do regionalismo. Aliás, belo chapéu hein? :-)

10 Aug

Írio de Paula - Tristeza

Mais um fantástico instrumentista brasileiro:

Pesquisando no Youtube e vendo nos relacionados, é possível encontrar bem mais coisa, claro, como essa matéria aqui que saiu com o mineiro Renato Andrade, outro mestre:

10 Aug

Arte Rupestre na Inglaterra

Notícia interessante: Arquéologos ingleses acharam estranhas formações e esculturas deixadas por algum povo primevo que habitou aquelas ilhas há milhares de anos. É interessante tanto pela descoberta em si e suas implicações, que alargam as margens de instigantes pesquisas, quanto pelo fato de ser em plena Inglaterra, terra revirada de tudo que é jeito há muito tempo… ainda tem coisas assim lá, ocultas… :

Prehistoric art discovered in volunteer project

Esculturas de 5 mil anos são achadas na Inglaterra

Imagens das esculturas encontradas na Inglaterra

Imagens das esculturas encontradas na Inglaterra

10 Aug

Matrix e Castaneda

Como é sabido, os cineastas freqüentemente se valem da inspiração literária do mundo de Carlos Castaneda para tirar idéias para seus filmes, sem no entanto, dar o devido crédito. Os livros, aliás, são prato cheio para uma competente adaptação cinematográfica, que tarda e quase ocorreu quando o escritor aceitou ceder sua história para o amigo e cineasta, o italiano Federico Fellini. No entanto, não agradou a Castaneda a indiscrição solar de Fellini, que levou todo o seu circo para a filmagem e fez Castaneda desistir do propósito e sumir do mapa. Isto é relatado nos escritos de Fellini e nos quadrinhos “Viagem a Tulum” de Milo Manara. Quando interpelado sobre este assunto pela entrevistadora Carmina Fort, revelou muito cuidado e disse “Não gostaria de ver Antonny Quinn como Don Juan”.

Recentemente lembro de dois filmes que tem pontos em comum com o universo conceitual de Castaneda: Kung-Fu Panda e o Indiana Jones e a Caveira de Cristal. No Kung-Fu Panda, dos mesmos criadores da animação Shrek temos a figura de
Oogway, tartaruga mestre oriental:

Oogway Kung-Fu Panda

Oogway Kung-Fu Panda

A tartaruga depois de cumprir sua missão em relação ao problema do discípulo, desaparece no ar numa cena bastante bonita, levada pelas folhas do pessegueiro e indo unir-se às estrelas - e isto é mais ou menos equivalente ao conceito de “Fogo Interior”. Também no filme de Lucas & Spielberg “O fogo interior” aparece quando o alienígena ilumina a vilã russa, e o conhecimento torna-se demais para ela, até ela se “consumida a partir de dentro”. Só que o Lucas, que já declarou a influência direta de “Porta Para o Infinito” na elaboração de Guerra nas Estrelas, faz uma coisa muito feia, medonha, ao abordar o fogo interior dessa forma. O filme, que alegadamente foi feito após uma extensa pesquisa de anos, traz problemáticas reais da arqueologia, revelando ao grande público a existência das Linhas de Nazca no Peru e outros temas. A América Latina é retratada como um quintal sujo para a ação do mocinho branco. A prisão em Nazca e a cidade em si trazêm todos os clichês de colônia espanhola nojenta em cima de povos atrasados - com a presença misteriosa da igreja católica como agente repressor e civilizador. Os índios do filme estão piores do que no horrível Apocalypto de Mel Gibson, caem como moscas ao tentarem salvaguardar aquilo que seria a Utopia de El Dorado na Amazônia. Cenas de guerra na Amazônia são filmadas sem que haja nenhuma menção ao Brasil - é a comemoração do novo território ianque, com suas riquezas cobiçáveis a disposição…

Para fechar, informo que coloquei no site de Castaneda que mantenho um texto que existia na web, mas cujo site saiu do ar, com uma comparação meticulosa das semelhanças entre o filme Matrix do irmãos Wachowski e o universo conceitual de Castaneda. Este conteúdo está em inglês. Estas relações nunca são enfatizadas por demais, já que sabidamente o Matrix traz inúmeras referências culturais em seu roteiro, mas o que tem sido apontado são somente as relações com a sabedoria clássica tanto do ocidente (ah, o mito da caverna…) quanto do oriente - e a sabedoria tolteca ou indígena, como sempre, é como se não tivesse nunca existido. Para celebrar os 40 anos de “A erva do Diabo” (The Teachings of Don Juan) traduzi e postei também uma carta de Castaneda a Gordon Wasson, que era o grande especialista em cogumelos alucinógenos, autor de vários estudos.

10 Aug

Entrevista com Naomi Klein

Minha mãe está empolgada com a leitura de um livro presenteado pelo meu irmão: A DOUTRINA DO CHOQUE: A ASCENSÃO DO CAPITALISMO DE DESASTRE, de Naomi Klein. Naomi é uma jornalista, ativista de esquerda, anti-globalização, que tem se notabilizado desde a publicação do seu livro de estréia, “No logo”, que ficou por tempos na lista de best-sellers divulgada pelo New York Times. Foi também uma das estrelas do Fórum Social Mundial em Porto Alegre. É mais material para nos informarmos sobre o Circo de Horrores que os donos do poder político e econômico estão planejando e efetivando no mundo.

Esta entrevista postada no site Oestrangeiro dá um bom panorama do livro, que conta também com um vídeo de divulgação:

10 Aug

mais ebooks

Mais um site com ebooks, pena que os melhores livros só estão disponíveis no proxy da biblioteca da Universidade da Califórnia:

http://www.escholarship.org/editions/search?style=eschol;subject-join=exact;subject=Philosophy;startDoc=1

Outros que uso bastante quase todo mundo conhece, mas caso não seja este seu caso, aí vai:

http://www.esnips.com

e http://www.4shared.com

Ambos apresentam a opção de procurar por tags e títulos, o que é bastante útil.

10 Aug

Wilson Martins e Sartre

O tradicional site Jornal de Poesia de Soares Feitosa traz em seus arquivos uma preciosa coleção de artigos do grande crítico literário Wilson Martins autor da obra “História da Inteligência Brasileira” em 7 volumes. Estão ali abordados vários temas interessantes, como a condenação injusta do parnasianismo, a briga entre os modernistas e Monteiro Lobato, o culto exagerado em torno do Poeta Paulo Leminski, polêmicas com Daniel Piza e Carlos Nejar.

Mas o que queria falar é que a Camy notou que no artigo sobre Sartre ele chama “A náusea” e “O muro” de Jean-Paul de “contos”. Que critério ele teria usado para aplicar esta classificação? O problema do gênero literário é um pouco complexo, e eu abordei isso num seminário sobre o gênero conto que escrevi para a UFSC. Mas “A Náusea” é considerado o primeiro romance de Sartre. Certamente o livro, que tem como protagonista Antoine Roquentin tem extensão para tanto, já que tem a dimensão aproximada da Idade da Razão, do mesmo autor, apontado como romance por Martins, parte integrante da trilogia Caminhos da Liberdade.

Talvez seja a ausência de mais focos narrativos e personagens dentro da trama. Porém, observando o artigo, notamos que é bastante crítico a Sartre, valendo-se inclusive de experiências pessoais quando da visita deste ao Brasil e de causos pitorescos de sua vida amorosa para taxar a filosofia de Sartre essencialmente como um marxismo ultrapassado. Talvez esta intenção de minimizar tenha influído na classificação do livro, embora isso seja discutível, já que o “conto” não é necessariamente inferior ao romance, só um outro gênero literário. Parte da crítica de Martins é compreensível pelo triste papel de adulação com que se comportou a intelectualidade brasileira durante a visita do proeminente intelectual. Isto é apontado no texto e em outras histórias: Nelson Rodrigues, por exemplo, teria tirado sarro porque um dos que acompanhavam Sartre ofereceu-se para recolher os caroços de jaboticaba escarrados por Sartre, que estava experimentando a fruta brasileira. Sendo Martins erudito na produção intelectual brasileira, certamente não gostou deste tratamento colonial oferecido e respaldado durante a viagem.

Sartre, Simone e Che Guevara

Sartre, Simone e Che Guevara

10 Aug

China

As menções à China tem crescido, ainda mais agora que está sediando os Jogos Olímpicos. É uma boa oportunidade para conhecer mais deste país que está ficando muito influente economicamente: sua indústria nos invade de forma impositiva. Aqui tenho vários produtos vindos da China, câmera digital, placa de vídeo etc.

O perigo, porém, é o de cair nas armadilhas ideológicas que emprestam uma carga negativa tão aguda ao país que simplesmente pensar nele ou mencioná-lo torna-se uma coisa cansativa. Recentemente me perguntaram o que eu achava da política da China, querendo empurrar a “bandeira libertária” que traz as acusações de praxe de que lá é um país com internet censurada (reportagem de TV mostrou-me que os chineses driblam facilmente a tosca censura estatal), opressora do Tibete (sou pró-Tibete, mas isso é desculpa esfarrapada do bloco Ocidental que inclusive instala suas fábricas lá para se aproveitar da mão-de-obra barata Por exemplo, olhe aqui logo quem reclamando dos direitos humanos e liberdade de expressão na China. Aliás, no cinema de Hollywood a China tem sido citada com frequência. “Os Infiltrados”, aquele filme horroroso do Martin Scorcese, por exemplo, é engraçado. É uma adaptação de um longa chinês, “Internal Affairs”, mas ridiculariza os chineses em mais de um momento e também traz a curiosa afirmação de que os EUA se preparam para entrar em guerra com eles em 40 anos. Outra acusação engraçada veio de um amigo do MSN, de que aos antípodas chineses querem “engolir o Ocidente”.

Para ficarmos só na contemporaneidade, esta preocupação já tem dezenas de anos. É uma das previsões contidas, por exemplo, no romance “O Presidente Negro ou o Choque das raças” de Monteiro Lobato (1926), onde, avançando no futuro, o professor constata que os asiáticos dominariam o planeta, simplesmente por se “reproduzir mais e comer menos”. Karl Jaspers no livro Introdução ao pensamento filósofico de 1960 também já traz uma preocupação dos alemães em relação a China no contexto do pós-guerra.

Então dei a minha resposta de por quê eu não odeio a China, apesar dos pesares: é um país vital e irrevogável, uma parte grande da terra e da humanidade, por quê não iria vê-lo como natural? Eu não, odiar faz mal :-) .O positivo nisso, como disse, é a oportunidade de ver o debate intensificado e as informações sobre o país circularem mais, evitando esta armadilha idelógica. Nesse sentido, gostei de ter visto o filme
“Still Life” ou Natureza Morta (2006) de Jia Zhang-ke, que é um quase documentário sobre as desapropriações que o governo fez para constuir as barragens da represa para a Usina Hidrelétrica de Três Gargantas, que desbancou Itaipu e tornou-se a maior do mundo. O filme mostra uma China sem nenhum “glamour milenar”, com uma história humana se desenrolando num cenário de miséria e devastação.

Algumas imagens interessantes sobre a realidade chinesa:
Comida “exótica” chinesa, sempre lembrada pelos fetichizadores da comida, mas que é também o resultado de uma cultura de escassez, que não admite nenhum desperdício de alimentos. (No nosso país acontece o contrário, existe uma cultura de fartura, apesar do crime que se impõe contra a população, forçando o consumidor a concorrer com o mercado mundial e impondo baixa qualidade e altos preços para o mercado interno - mas isso é outro assunto)






( via Catarro Verde )

Imagem bonita de Hong-Kong, atual possessão chinesa, paraíso do livre mercado e do capitalismo mundial, revelando um aspecto bem “high-tech”.

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