Blog do Miguel

27 Jun

Guerreiros da Liberdade – Documentário sobre os índios guarani de SC

Estou vendo este documentário sobre os índios Mbyá guarani de Santa Catarina, postado no youtube com uma boa qualidade e indicado pelo Férias Floripa. Na parte 1, várias coisas já ~são dignas de atenção. Por exemplo, além dos belos cantos tradicionais, há uma sessão legítima de relato de um mito, o Mito do Herói Criador, o Nhanderu dos Guaranis, que já falamos aqui. O mito, através do ritual e da fala, reacende e passa adiante, para não ser esquecidos, uma certa gama de conhecimentos ancestrais que dificilmente sobreviveriam na palavra escrita, já que requerem todo um entorno ritualístico.

“Essa é uma história real e não inventada”, diz o pajé daquela aldeia, revelando novos dados da fé de como Nhanderu teria criado o mundo. A terra, naquele tempo primevo (”faz muito, muito, muito tempo”, diz ele) era sem vida e coberta de água salgada. Nhanderu desce de sua morada secreta para criar todas as coisas com sua “varinha mágica”. Seu poder e vontade ativa se contrapõe à imensidão do mar e fúria das marés. Com a força canalizada através desta pelo influxo criador, ele abre o mar e separa inicialmente uma pequena porção de terra, onde só caberiam seus pés. Com esta base Nhanderu deixa sua marca e emana o Plano Magistral da criação das formas de vida terrestre. Esta pequena porção, depois, irá formar os continentes. Há realmente algo de esquecido e atávico nesta imagem, à parte do óbvio paralelismo com Moisés abrindo o Mar Vermelho (cena está, aliás, que no cinema marcou profundamente muitas pessoas).

Porém, Nhanderu vira palavra morta na boca do cacique, uma vez que este incorpora um discurso político de reinvidicação e faz uma mitologia da felicidade num tempo bem mais recente, da terra sem males para antes da chegada do europeu, causador da dissipação e ruína do seu povo, usurpador de uma terra deixada para eles pelo criador. Aqui é interessante notar que esta mitologia confirma a tese do autoctonismo dos povos. Os índios, portanto, acreditam que estão na América desde o princípio de tudo.

Apesar da evidente miscigenação e de outros fatores de aculturamento, a integração com o Brasil, é pois, negada para a sobrevivência da tradição cultural própria, expressa, principalmente, pela língua. De fato, muitos guaranis não falam português, e mesmo vêem a língua de Camões ainda como algo alienígena. O tupi-guarani é louvado como legado cultural no Paraguay, onde é uma das línguas oficiais, falado pela população em liberdade.

O cuidado e respeito com a alimentação e com as plantas tradicionais é lembrado. Porém, o cacique esquece que a melancia não é nativa, e sim africana. Os guaranis cultivam vários tipos de milho – esta sim planta nativa americana, usada também pelos incas, ao passo que no nosso mercado temos só um, aquele milho amarelo. Também aludem a uma preocupação com “benzer” o alimento antes do consumo (Igreja Católica?). Neste ponto, há um paralelo com D. Juan, que recomenda que agradeçamos às plantinhas que nos alimentam e peçamos a elas desculpas, dando como garantia o próprio corpo, que um dia virá a alimentá-las. Dessa forma, cria-se um mecanismo de humildade e anulação do ego vaidoso, necessário para que nossa constituição psicológica sobreviva ao contato com o mistério desconhecido, que o guerreiro procura avidamente.

Os guaranis do vídeo também expressam de forma interessante a preocupação com o fim das espécies que não são utilizadas nem respeitadas. O significado da existência do mundo é o uso, e o que não se usa, vai embora, segundo a velha lei do universo. Desta forma, autorizando uma teoria do uso do mundo pelo homem, os guaranis afirmam que estas plantas negligenciadas terão seu “espírito levado embora” por Nhanderu.

22 May

Avatsiú: A linguagem dos pássaros – Mito índigena do Kuarup, coletado pelos irmãos villas-boas

Avatsiú: A linguagem dos pássaros (Kamaiurá)

Certa vez uma mulher brigou com o marido. Este, desgostoso, resol­veu abandonar a casa. Preparou dois charu­tos e saiu mata aden­tro. Lá no meio do mato, encostou a um pé de camiuá e falou:

Tamãi [vovô], eu quero ficar igual a você.

Você não vai agüentar, meu neto. Ser árvore é muito duro. Tem que ficar sempre acordada, se dormir morre e acaba de uma vez — respondeu o camiuá.

O moço, então, continuou vagando e falou a mesma coisa quando encontrou o ivurapaputã:

Tamãi, eu quero ficar igual a você.

Não. Não pode, meu neto. Você não vai durar muito. Todo mundo que quer fazer arco virá cortar você. Nós vive­mos pouco — respondeu o ivurapaputã.

O moço ouviu e saiu andando de novo. Mais à frente pas­sou por uma fumacinha que estava subindo ao lado dele. Depois de andar mais um pouco resolveu voltar para ver de quem era a fumaça. Voltava dizendo consigo mesmo: "Quem será que mora aqui?" Mais de perto viu que eram os passarinhos que estavam queimando capim e continuou a andar até onde eles estavam. Ao chegar, os passarinhos perguntaram:

— O que você está fazendo, vovô?

Nada. Estava passeando e parei para ver vocês.

Então vamos sentar — convidaram os passarinhos.

Sentaram todos. Enrolaram charutos e começaram a con­versar. No fim da palestra os passarinhos disseram:

Você tem que ir conosco lá na nossa aldeia. Aqui é a
nossa roça. Nós estamos limpando um pouco.

O moço aceitou o convite e saiu com os passarinhos. To­dos os pássaros ficaram alegres com a chegada de gente nova, gente da aldeia de Avatsiú, a quem eles queriam matar. Os pássaros não gostavam de Avatsiú, porque Avatsiú estava sem­pre matando gente deles: gavião, arara, papagaio, tucano e mui­tos outros. No dia seguinte o Chefe dos pássaros disse para a gente dele:

Amanhã nós precisamos fazer nossa visita ficar igual a
nós.

O Chefe repetiu isso diversas vezes. Falou de manhã e de tarde também. Os passarinhos que tinham encontrado e tra­zido o moço disseram, então, a ele:

Você não durma não, nem de noite nem de dia, por­que é muito perigoso.

No outro dia bem cedo os pássaros todos pegaram penas e foram colocar no rapaz. Passaram primeiro leite de pau no corpo dele, e depois começaram a grudar as penas. Primeiro grudaram as do peito e das pernas. Em seguida colocaram as grandes, do rabo e das asas. Todas as penas eram do gavião grande. Quando o moço ficou todo emplumado, mandaram que ele sacudisse a plumagem, para ver se caía alguma pena. Ele sacudiu e não caiu nem uma. Mandaram que sacudisse de novo. Desta vez, caiu uma. Vendo isso, disseram os pássaros:

Esse rapaz não vai viver, não. Vai cair na mão de Avatsiú.

Depois dessa observação, levaram o moço para o lugar onde eles treinavam. Chegaram junto de uma árvore que tinha um cupim bem no alto. Chegando lá, mandaram que o moço voasse e arrancasse o cupim. O moço voou mas errou o alvo, não acer­tou o cupim, e voltou ao chão. Mandaram que voasse de novo. Ele voou, deu uma volta ao redor da árvore e ficou preso quan-


do agarrou o cupim. Os pássaros, então, mandaram que, lá do alto da árvore, voasse para baixo, pegasse e suspendesse uma pedra colocada no chão. O moço voou para o chão, mas não acertou a p^dra. Pediram que repetisse o vôo, e ele errou de novo. Aí os pássaros falaram:

Não adianta treinar mais. Ele é muito ruim.

Dito isso voltaram para a aldeia. Os passarinhos que ti­nham trazido o moço tornaram a recomendar a ele:

Olha, não vá dormir não. É preciso passar a noite acor­dado.

Na manhã seguinte, os pássaros saíram com o moço para tentar pegar Avatsiú. Avatsiú estava cantando quando os pás­saros chegaram à aldeia dele. Os pássaros pousaram no lugar onde estavam acostumados a ficar. De lá eles ouviram Avatsiú cantando dentro de casa. O moço estava junto com os pássaros, sentado nas árvores. Ficaram lá esperando Avatsiú sair para fora. Diziam os pássaros:

É preciso esperar que ele saia de casa.

"Espera. Espera", eles estavam sempre recomendando ao moço, que a todo momento ameaçava voar. Avatsiú parou de tocar e apareceu na porta de casa para sair. O moço voou para pegar, mas errou a direção e foi agarrado por Avatsiú. Avatsiú agarrou-o, puxou para dentro da casa e o matou. Os pás­saros voltaram para a aldeia tristes e com vergonha por ter morrido o moço. De tarde os pássaros reuniram-se para con­versar. Perguntaram aos passarinhos que tinham trazido o mo­ço para a aldeia se ele tinha filho. Os passarinhos informaram que tinha um menino. Todos ficaram contentes com isso, dis­seram que era preciso ir buscar o menino. Arar aura [sangue de boi] foi incumbido disso. No dia seguinte araraurá saiu para a aldeia de Avatsiú onde morava o menino. Chegando lá, sen­tou no jirau do terreiro, bem em frente da casa. Quando a mãe dele saiu para jogar lixo e viu o passarinho sentado no jirau, gritou para o filho:

Aqui tem um passarinho vermelho. Vem ver.

O menino saiu da casa depressa com o arquinho e as fle-chinhas dele. Ao se aproximar do jirau, o araraurá voou para uma árvore ao lado. Quando o menino chegou perto da árvore, o passarinho voou para uma outra mais afastada. E assim o passarinho, de um ponto' para outro, foi se afastando da aldeia, à medida que o menino ia atrás dele. Quando o araraurá viu que já estava longe das casas, tirou a roupa, virou gente e se aproximou do menino, dizendo:

Eu vim buscar você, para matar Avatsiú.

— Vou sim — disse o menino. — Mas primeiro quero falar com minha mãe.

Pode ir. Eu fico esperando aqui.

O menino foi e contou à mãe que tinham vindo buscá-lo para matar Avatsiú. Ao ouvir o que o menino falava, a mãe começou a chorar e disse, depois que parou:

Você pode ir, meu filho. Mas olha aqui, quando você vier para matar Avatsiú, não venha pela frente dele não, seu pai morreu por isso. Venha por trás, que você mata.

Antes de sair o menino pediu três esteiras para guardar penas. A mãe deu e ele saiu para encontrar araraurá. Araraurá vestiu o menino com a roupa que tinha levado para isso, e dali saíram os dois voando para a aldeia do primeiro. Chegando ao destino, araraurá levou o menino para a casa dele. Todos os pássaros foram vê-lo. Iam chegando, um a um, e cumprimen­tando:

Pareça piá. Pareça piá. [Como vai, meu filho?]
Depois dos cumprimentos disse o Chefe dos pássaros:

Agora, filho, você tem que vingar a morte do seu pai, matando Avatsiú.

Como vocês estão querendo matar Avatsiú? Se chegarem pela frente, e ele quem vai pegar vocês — disse o menino. E concluiu: — Temos que chegar por trás. Assim é mais fácil e é mais certo.

No outro dia pela manhã os pássaros foram vestir o me­nino. Passaram leite de pau no corpo dele e em seguida come­çaram a grudar as penas do uirapê [harpia], o gavião grande. Depois do corpo do menino todo coberto com as penas meno­res, os pássaros colocaram as grandes, as asas e do rabo. Tudo pronto mandaram o menino sacudir a plumagem para ver se caía alguma pena. Não caiu. Mandaram sacudir de novo e nenhuma se desgrudou. Estavam firmes nos seus lugares. À tarde, os pássaros levaram o menino para o lugar do treino. Lá, como fizeram com o pai, mandaram que ele voasse até ao alto da árvore e arrancasse o cupim. O menino voou e arran­cou o cupim. Mandaram depois que, lá do alto da árvore, voasse, pegasse e suspendesse a pedra. O menino flechou num vôo para o chão, agarrou a pedra e, quando estava levantando com ela, três gaviões grandes foram ajudá-lo. Levaram a pedra até muito alto e lá de cima soltaram. A pedra espatifou-se no chão. To­dos os pássaros, nessa hora, ficaram alegres e disseram: "Esse menino vai matar Avatsiú mesmo".

Antes de sair para a aldeia de Avatsiú, os pássaros alerta­ram o menino, dizendo repetidas vezes que ele tivesse cuidado


porque Avatsiú era muito perigoso. Quando chegaram à aldeia, Avatsiú estava cantando e dançando, ele è os filhos, e enquanto dançavam iam quebrando as panelas da casa, porque estavam adivinhando que iam morrer. No canto Avatsiú dizia: "Eu te­nho inimigo de unha grande que me vai matar". Logo que che­gou o menino perguntou aos companheiros onde ele ia ficar. Os gaviões mostraram o lugar e ele não achou bom. "Não vou ficar lá não. Vou ficar atrás da casa". Voou para o lugar que escolheu e os pássaros o acompanharam. Avatsiú dentro da casa dele continuava cantando, cantando sem parar. Enquanto isso os pás­saros empoleirados nas árvores aguardavam o momento dele sair para fora. Quando Avatsiú, cantando com o chocalho na mão, surgiu na porta da casa, o menino no mesmo instante flechou sobre ele, segurando-o duro com as unhas e levantando-o um pouco do chão. Os gaviões, que estavam assistindo, ao perce­berem que sozinho o menino não ia poder alçar de uma vez Avatsiú, correram para ajudar. Avatsiú, assim seguro por mui­tos, foi sendo levado para cima, cada vez mais alto. Na mes­ma hora os outros pássaros pegaram a mulher e os filhos de Avatsiú, e fizeram o mesmo. Quando o menino e os gaviões atingiram grande altura, soltaram Avatsiú, e ele foi caindo ate se espatifar lá embaixo.

Feito isso, os pássaros começaram a descer até pousar no chão, onde tinha caído Avatsiú. Aí o Chefe dos pássaros es­colheu dois entre o pessoal dele, e mandou convidar uma outra aldeia de parentes, para vir ajudar a trabalhar o sangue de Avatsiú. Os pariát [mensageiros] foram a pomba e o beija-flor. Os dois saíram para fazer o convite e voltaram logo dizendo que o pessoal da outra aldeia já vinha vindo perto. Logo de­pois chegaram os convidados, conversando na língua de gente. Nenhum tinha língua própria, língua de ave mesmo. Com o sangue de Avatsiú iam fazer novas linguagens para cada um deles. Os primeiros que adquiriram fala própria, tirada do san­gue de Avatsiú, foram os gaviões iapacaní e uapaní. Antes, co­mo todos os outros, eles falavam a língua de gente. Os convi­dados iam chegando, pegavam logo do sangue e passavam a manipular novas falas. O beija-flor começou a falar na lingua que preparou, e as anhumas também, mas viram que as lín­guas não estavam calhando muito bem para eles. O beija-flor estava falando muito grosso e a anhuma muito fino. Resolve­ram trocar. A anhuma ficou com a do beija-flor e este ficou com a língua dela. A pomba também trocou a sua com o mutum. A da pomba era muito grossa e a do mutum, muito fraca. Tanto um quanto o outro ficaram satisfeitos com a troca. Por fim disse o mutum: "Agora, sim-, sempre que o dia clarear nós vamos cantar e vai ficar muito bonito". Terminada a preparação das línguas, os pássaros voaram para a aldeia deles. Che­gando lá disseram: "Agora vamos levar o nosso amigo para a casa dele". Antes tiraram deles mesmos muitas penas e deram de presente ao menino. Quando chegaram à aldeia disseram à mãe do menino: "Viemos trazer seu filho. Já está aqui de volta. Ele matou Avatsiú para vingar o pai dele". Entregaram o fi­lho à mãe e voltaram para a aldeia deles. O menino contou na aldeia toda a história para o pessoal. Tudo que aconteceu com ele até a fabricação das línguas com o sangue de Avatsiú.

FONTE DO MITO ÍNDIGENA: (VILLAS-BOAS, irmãos. XINGU, os índios, seus mitos Editora Kuarup, 1985)

21 May

Episódio do urubu-rei no Lado Ativo do Infinito de Castaneda e no mito da Conquista do Fogo dos Í­ndios do Xingu.

Em mais uma tentativa de livre associação e paralelismo, coloco abaixo dois trechos que chamam a atenção por sua semelhança. No Lado Ativo do Infinito, um dos últimos livros de Carlos Castaneda, o autor pretende reunir uma coleção de história memoráveis em sua vida, desde a tenra infância, alegadamente passada num sítio no interior de São Paulo e na cidade interiorana próxima, no Vale do Paraíba, e com isso ilustrar alguns conceitos do “xamanismo tolteca”. Uma destas historietas, um episódio de caça ao urubu, orientado por uma experiente mateiro é bastante parecida com o mito coletado pelos sertanistas Villas Boas no alto Xingú. Postei o mito inteiro e a parte final, que interessa, em negrito. Resta saber se Castaneda conhecia o mito, desta fonte ou de outra, e o copiou para narrar sua história, o que acalantaria a velha discussão sobre a veracidade do relato, ou se é algo comum entre os mateiros, podendo portanto haver repetição.

Tentei convencer meu avô do absurdo de sua queixa. O senhor Acosta não tinha porque roubar galinhas. Ele tinha ao seu comando a vastidão daquela floresta. Ele conseguia retirar dela o que quisesse. Mas meus argumentos fizeram meu avô ficar ainda mais furioso. Percebi então que meu avô secretamente tinha inveja da liberdade do senhor Acosta, e esta percepção transformou, para mim, o senhor Acosta, de um caçador excelente na expressão última daquilo que era ao mesmo tempo proibido e desejado.
Tentei reduzir meus encontros com o senhor Acosta, mas a atração era muito grande para mim. Então, um dia, o senhor Acosta e três de seus amigos propuseram que eu fizesse uma coisa que o senhor Acosta nunca fizera antes: pegar um urubu vivo, sem feri-lo. Ele explicou para mim que os urubus da região, que eram enormes, com 1,5 a 1,8 m de ponta a ponta de asa, tinham sete tipos de carnes diferentes em seus corpos, e cada um deles servia para um propósito específico de cura. Disse que o ideal seria que o corpo da ave não estivesse ferido. O urubu teria que ser morto com um tranqüilizante, não com violência. Era fácil atirar neles, mas nesse caso, a carne perdia seu valor curativo. Assim a arte seria pegá-los vivos, uma coisa que ele nunca fizera. Havia compreendido, entretanto, que com a minha ajuda e a ajuda de seus três amigos solucionaria o problema. Garantiu-me que essa era uma conclusão natural a que chegara depois das centenas de vezes em que observou o comportamento dos urubus.
“Necessitamos de um burro morto para realizarmos a proeza, e temos esse burro morto,” declarou ele todo animado.
Olhou para mim, esperando que eu fizesse a pergunta do que seria feito com o burro morto. Desde que tal questão não foi formulada, ele prosseguiu.
“Removemos os intestinos e colocamos umas escoras dentro, para manter a redondeza da barriga.
“O líder dos urubus perus é o rei; ele é o maior, o mais inteligente”, continuou ele. “Não existe nenhuma outra vista tão aguda. É isso que faz dele o rei. Será ele o primeiro a ver o burro morto e o primeiro a pousar nele. Ele descerá a favor do vento que levará até ele o cheiro do burro morto. Os intestinos e as vísceras que tirarmos da barriga serão empilhados próximo do rabo, do lado de fora. Desse modo ficará parecendo que algum gato do mato já comeu parte da carniça. Assim, tranqüilamente, o urubu aproximará do burro. Não terá nenhuma pressa. Ele chegará pulando e voando, e depois pousará na anca do burro morto e começará a perfurar seu corpo. Ele viraria a carcaça não fossem as estacas da estrutura para manter o corpo, que também fincaremos no chão. Ele ficará sobre a anca durante uns instantes; essa será a dica para que outros urubus desçam e pousem na vizinhança. Somente depois que ele tiver 3 ou 4 companheiros pousados nas proximidades iniciará o urubu rei o seu trabalho.”
“E qual seria o meu papel em tudo isso, senhor Acosta?” perguntei.
“Você ficará escondido dentro do burro”, disse ele com a cara mais inexpressiva do mundo. “Nada mais que isso. Vou te dar um par especial de luvas de couro, e você ficará sentado lá dentro, esperando até que o urubu rei comece a rasgar o anus do burro morto, abrindo-o com seu enorme e poderoso bico e enfie a sua cabeça no buraco para começar a comer. Você então o agarrará pelo pescoço e não deixará que escape.
“Eu e meus três amigos estaremos montados a cavalo, escondidos num barranco profundo. Acompanharei toda a operação com binóculos. Quando vir que você pegou o urubu rei pelo pescoço, nós iremos a todo galope e nos jogaremos em cima do urubu e o domaremos.”
“Você conseguirá dominar este urubu, senhor Acosta?” perguntei-lhe. Não que duvidasse de sua habilidade, queria apenas ter certeza.
“É claro que conseguirei!” disse ele com toda a confiança do mundo. “Todos nós estaremos usando luvas e polainas de couro. As garras do urubu são muito poderosas. Elas conseguem quebrar a canela da gente como se fosse um galhinho.”
Eu não tinha como sair daquela. Fui apanhado, tornando-me presa de uma excitação sem par. Minha admiração pelo senhor Leandro Acosta, naquele momento, não tinha limites. Via-o como um caçador de verdade – engenhoso, astuto, instruído.
“OK, mãos à obra, então!” disse eu.
“É isso aí, meu garoto!” disse o senhor Acosta. “Eu sabia que podia contar com você.”
Ele colocou um cobertor grosso atrás da sela e um de seus amigos levantou-me, colocando-me na garupa, sentado no cobertor.
“Segure na sela”, disse o senhor Acosta, “e ao segurar nela, segure o cobertor também.”
Saímos num trote despreocupado. Cavalgamos durante cerca de uma hora até chegarmos a uma região plana, seca e desolada. Paramos próximos a uma tenda que parecia com uma banca de venda do mercado. Tinha um teto plano como cobertura. Sob ele jazia o burro marrom morto. Ele não parecia muito velho; parecia um burro adolescente.
Nem o senhor Acosta e nem seus amigos explicaram-me se haviam encontrado o burro morto ou se o mataram. Esperava que eles dissessem isso para mim, mas não iria perguntar. Enquanto eles faziam os preparativos iniciais, o senhor Acosta explicou que a tenda fora colocada porque os urubus estavam de espreita a grandes distâncias dali, voando em círculos, lá no alto, fora do alcance da nossa vista, mas certamente capazes de perceber tudo o que ocorria cá em baixo.
“Essas criaturas são criaturas que só vêem,” disse o senhor Acosta. “Elas têm péssimo ouvido, e seus narizes não são tão bons quanto seus olhos. Teremos que obturar todos os buracos de sua carcaça. Não quero que você fique espiando pelos buracos, porque eles veriam seus olhos e nunca desceriam. Eles não devem ver nada.”
Eles colocaram algumas estacas na barriga do burro e as cruzaram, deixando espaço suficiente para que eu me esgueirasse para dentro. Em certo momento, fiz a pergunta que estava morrendo de vontade de fazer.
“Diga-me, senhor Acosta, este burro certamente morreu de alguma doença, não é mesmo? O senhor acha que sua doença poderá afetar-me?”
O senhor Acosta levantou os olhos para o céu. “Ora, o que é isso? Você não pode ser tão tonto assim. As doenças dos burros não podem ser transmitidas para os homens. Vamos viver esta aventura sem nos preocuparmos com detalhes estúpidos. Se eu fosse menor, eu mesmo estaria dentro da barriga. Você sabe o que é caçar o rei dos urubus busardos?”
Acreditei nele. Suas palavras foram suficientes para cobrir-me com uma confiança inigualável. Eu não iria ficar doente e perder o evento dos eventos.
O momento temido chegou quando o senhor Acosta colocou-me dentro da barriga do burro. Depois cobriram a estrutura com o couro e começaram a costurá-la, deixando uma abertura na parte de baixo para a circulação do ar. O momento horrendo para mim foi quando a pele ficou totalmente fechada sobre minha cabeça, como a tampa de um caixão. Respirei forte, pensando apenas no excitamento de agarrar o urubu rei pelo pescoço.
O senhor Acosta deu-me as instruções finais. Disse que me informaria com um assobio, parecendo com o canto de passarinho, quando o urubu rei estivesse voando pelas proximidades e quando tivesse pousado, para que eu ficasse informado e não ficasse nervoso ou impaciente. Depois ouvi quando eles desmontavam a tenda, e em seguida, ouvi o galope dos cavalos afastando-se. Foi uma coisa acertada não deixar nenhum buraco pelo qual pudesse olhar para fora, pois isso era exatamente o que eu faria. A tentação de olhar para cima e ver o que estava acontecendo era quase irresistível.
Passou um longo tempo durante o qual eu não pensei em nada. Ouvi então o assobio do senhor Acosta e presumi que o urubu rei estivesse voando em círculos nas proximidades. Minha suposição transformou-se em certeza quando ouvi o bater de poderosas asas, e depois, de repente, o corpo do burro morto começou a balançar como se estivesse sob uma ventania. Em seguida senti um peso no corpo do burro e percebi que o rei dos urubus havia pousado e não mais se movia. Ouvi o bater de outras asas e o assobio de longe do senhor Acosta. Preparei-me então para o inevitável. O corpo do burro começou a balançar quando algo iniciou a rasgar sua pele.
Depois, repentinamente, uma cabeça enorme e feia, com uma crista vermelha, um bico de todo o tamanho e um olho aberto perscrutador surgiu na minha frente. Eu gritei assustado e agarrei o pescoço com as duas mãos. Penso que deixei o urubu rei meio atordoado pois o mesmo ficou alguns instantes sem reagir, o que me deu a oportunidade de agarrar seu pescoço com mais força ainda, e depois o inferno todo caiu sobre mim. Ele não mais estava atordoado e começou a puxar com tal força que eu fiquei espremido contra a estrutura, e no instante seguinte estava parcialmente fora do corpo do burro, da estrutura e tudo, agarrando o pescoço da besta invasora para salvar minha vida.
Ouvi o cavalo do senhor Acosta galopando à distância. Ouvi seus gritos, dizendo, “Largue o bicho, rapaz, largue o bicho, ele está voando e levando você!.”
O rei dos urubus, realmente, iria voar comigo agarrado ao seu pescoço ou iria rasgar-me todo com a força de suas garras. A razão pela qual ele não conseguia atingir-me era que sua cabeça estava mergulhada até a metade da distância entre a estrutura e as vísceras. Suas garras ficaram escorregando nos intestinos soltos e realmente não me tocaram por nenhuma vez sequer. Outra coisa que me salvou foi o fato de que todo o esforço do urubu rei estava concentrado em libertar seu pescoço das minhas mãos e não podia mover suas garras o suficiente para alcançar-me. A próxima coisa que percebi foi o senhor Acosta saltar em cima do urubu rei no exato momento em que minhas luvas de couro soltaram-se de minhas mãos.
O senhor Acosta não cabia em si de tanto contentamento. “Conseguimos, meu rapaz, conseguimos!” disse ele. “Da próxima vez, usaremos estacas mais longas e montaremos a estrutura de modo que o urubu não consiga puxar você para fora, pois ela será como uma barreira”.
Meu relacionamento com o senhor Acosta durou o bastante para pegarmos o urubu. Depois meu interesse em procurá-lo desapareceu tão misteriosamente como surgira e eu nunca realmente tive a oportunidade de agradecer-lhe por todas as coisas que ele me ensinara.
Don Juan disse que ele ensinara-me a paciência de um caçador na melhor época para que seja aprendida; e acima de tudo, ele ensinara-me como retirar do fato de se estar sozinho todo o conforto de que um caçador necessita.

(CASTANEDA, Carlos O lado Ativo do Infinito. Nova Era, 1998)



KANASSA: A conquista do fogo (Kuikúru)

Os índios não tinham fogo. Kanassa resolveu procurar. Saiu contornando uma grande lagoa. Levava na mão fechada um vagalume. Cansado da caminhada, resolveu dormir. Abriu a mão, tirou o vagalume e pôs no chão. Como estava com frio, se acocorou para se aquentar à luz do vagalume. De manhã Kanassa chegou na terra do murum e encontrou ele preparando enfeites de pena. O mutum, percebendo a aproximação de alguém e reconhecendo Kanassa, disse:

— ó Kanassa, tem índio bravo aparecendo aqui.
— Nada disso. Eu vim de lá e não vi nada. Lá só tem o meu pessoal. Não há nada não.
— Estou fazendo este enfeite para quando índio bravo aparecer e eu brigar com ele.
— Onde você vai usar isso?
— Na cabeça mesmo.
— Então ponha que eu quero ver.

O mutum pôs o enfeite na cabeça e saiu andando para Kanassa ver. Kanassa estendeu a mão na direção do mutum e falou baixinho: “Esse enfeite não vai mais sair da cabeça dele, vai ficar sempre assim”. Depois disso Kanassa saiu apressado. O mutum quis tirar o enfeite da cabeça mas não conseguiu. E daí em diante todo mutum tem enfeite na cabeça. Kanassa continuou andando até que chegou na terra do cuiará, o jacarezi-nho do cerrado. O cuiará, vendo Kanassa, disse:
— Ó Kanassa, você está passeando? Olha, tem índio bravo andando por aí, cuidado.
— Não. Não tem nada, não. É só o meu pessoal que anda por aí.

O cuiará estava fazendo um ralo para mandioca quando Kanassa perguntou:

— Onde é que você vai carregar esse ralo?
— Nas costas.
— Então ponha para eu ver. Ponha em cima do rabo. Nas costas não fica direito.

O cuiará, como sugeriu Kanassa, pôs o ralo na cauda e saiu andando para que o visitante visse. Kanassa estendeu a mão na direção do cuiará e falou baixinho: “Esse ralo não vai mais sair do rabo dele. Vai ficar toda a vida assim”. Daí em diante todo cuiará tem o rabo chato e áspero como ralo. Dito isso Kanassa saiu apressado, deixando bravo o cuiará, que insistia em tirar o ralo da cauda. Kanassa andava sempre com o vaga-lume na mão fechada. Era a única luz que ele tinha. Kanassa continuou viajando até que chegou num porto. Aí encontrou à sua parenta saracura. Kanassa ficou contente com o encontro. Olhando a água, Kanassa perguntou para a parente:

— Como é que vou fazer para atravessar a lagoa? Acho que vou fazer uma canoa de barro.
E assim fez. Feita a canoa grande, embarcou ele mais a saracura. Fizeram remo de barro e saíram. Lá adiante encontraram o pato, que vinha com toda a família — mulher e cinco filhos — atravessando também a lagoa, numa pequena canoa de casca de jatobá. Encontraram-se no meio da viagem, bem no centro da lagoa, na hora que estava começando o banzeiro. Um pouco de água já estava entrando na embarcação do pato. Kanassa gostou da canoa do pato mas não disse nada, só pensou: “Eu vou dar um jeito de tomar essa canoa”. E falou:

— Onde vão vocês? Eu estou com medo que essa sua canoa afunde com toda essa gente. Se você quiser trocar, eu troco. A minha é grande e firme. Essa aí está muito perigosa.
— Eu aceito e fico muito satisfeito. Você é muito bom, Kanassa — respondeu o pato.
O pato não reparou que a canoa de Kanassa era de barro. Kanassa, ajudado pela saracura, pegou a canoa de casca e saiu remando com força. Kanassa de longe esticou o braço na direção da canoa do pato, soprou e disse:
— Afunde canoa. Afunde já. Banzeiro, pode ficar duro.

A canoa do pato não resistiu e foi para o fundo. O pato, bravo, gritava.

— Kanassa, traga a minha canoa. Você mentiu para mim. Esta aqui não presta, é de barro.


O pato e sua gente tinham muito medo de água. Não sabiam nadar. Quando a canoa começou a afundar eles gritaram muito, mas foram tenteando em cima da água. De repente eles perceberam que não iam para o fundo e começaram a gostar. Hoje todo pato gosta de ficar na água. Kanassa e a saracura chegaram ao outro lado da lagoa. Kanassa desenhou uma arraia no barro da beira da água, mas como estava escuro ele não viu e pisou no próprio desenho e por ele foi ferrado. Feito isso a arraia fugiu para dentro d’água. Kanassa ficou danado com a arraia e reclamou:

— Eu acabei de fazer ela agora mesmo e ela já me machucou. A culpa é do vagalume que não clareia nada.
Kanassa fez um gesto para jogar fora o vagalume mas lembrou e disse para a saracura:
— Sopre o fogo.
— Que fogo? Aqui não tem fogo coisa nenhuma. O fogo está lá com o seu dono.

— Quem é o dono do fogo?
— É o ugúuu-cuengo [urubu-rei].
— Como é esse ugúvu-cuengo?
— É um tipo de uruágui [urubu comum], muito grande e difícil de ser encontrado. Ele tem duas cabeças. Só fica em lugar bem alto. E só desce para comer gente.
— Como é que a gente faz para segurar ele?
— O único jeito é matar um veado grande, um cervo, esconder embaixo da unha dele até ele apodrecer. Quando o ugúvu-cuengo chegar, o jeito é segurar a perna dele e só soltar quando ele der o fogo.

Kanassa resolveu seguir o conselho da saracura mas não precisou matar o veado. Kanassa desenhou um veado grande, entrou embaixo da unha e ali ficou escondido.

Três dias Kanassa ficou dentro da carniça esperando o dono do fogo. Passado algum tempo começaram a chegar os urubus comuns. Numa árvore grande e seca sentou o ugúvu-cuengo. Os urubus, numa algazarra enorme, gritaram para ele:
— Pode vir. Está tudo bem. Estamos só esperando você chegar para começar a comer.

O ugúvu-cuengo, desconfiado, lá de cima examinava a carniça, torcendo o pescoço para enxergar melhor. Lá embaixo os outros continuavam a gritar:
— Pode vir. Está tudo bem. Vem logo que estamos com fome.

Ugúvu-cuengo então gritou:
— Arrastem a carniça pra bem perto do tronco.
Os urubus obedeceram mas na hora de arrastar a carniça eles viram Kanassa escondido. Kanassa falou baixinho:
— Psiul Não falem nada. Façam ele vir até aqui.
Os urubus continuaram a insistir, até que o ugúvu-cuengo voou da árvore alta até ao chão. Junto com ele veio uma grande claridade. O ugúvu-cuengo no chão examinou bem a caniça, e, não vendo nada, começou a comê-la. Mandou que todos comessem com ele. O veado era grande e todos começaram a comer da parte traseira para a dianteira. Quando chegaram na parte dianteira, Kanassa, que estava escondido na unha do veado morto, agarrou a perna do ugúvu-cuengo, e disse:
— Ó anéto [chefe], eu estou pegando você porque minha gente está precisando do fogo, e só você sabe onde tem. Não tenha medo. Eu não vou fazer nada com você. Eu só quero que você me ensine onde está o fogo. Você é o dono do fogo.

Ugúvu-cuengo ficou zangado só um pouquinho. Aí ele chamou o filho, um passarinho preto, e falou:
— Ó meu filho, é preciso você ir buscar fogo para nós lá do céu. Eu estou seguro aqui pelo Kanassa que quer saber onde tem fogo. Vá buscá-lo no céu. Ponha fogo numa embira de pindaíba e venha devagar. Se voar depressa o fogo apaga.

O passarinho foi buscar o fogo lá no céu e veio descendo devagarinho para que ele não apagasse. Mas só trazia brasa. Quando ele chegou, o ugúvu-cuengo mandou que ele soprasse a brasa e acendesse o fogo. Feito isso ele deu a Kanassa, que na mesma hora soltou o ugúvu-cuengo. Quando o fogo já estava aceso e quente, começou a chegar uma porção de sapos saídos da água.
— De onde apareceu isso? Quem trouxe? — perguntaram todos.

Os sapos tinham água na boca. Na hora de ir embora, sopraram água no fogo e fugiram para a água. O fogo não chegou a apagar. Kanassa o reavivou rapidamente.

Outra vez saíram os sapos de dentro da água mas, antes que chegassem perto do fogo, Kanassa os espantou. Ugúvu-cuengo já tinha voado de volta para a árvore seca ali perto. De lá, antes de ir embora para longe, ele disse:

— Kanassa, quando o fogo apagar, quebra uma flecha em pedaços, racha no meio, amarra bem uma sobre a outra e firma bem no chão. Feito isso, procura uma varinha de urubu e com ela, apoiando uma das pontas nos pedaços da flecha, gira com força até o fogo surgir.

Lá do alto ugúvu-cuengo ainda gritou para Kanassa. Estava muito longe, quase ninguém ouviu:

— Procura um cipó da beira da água, abre e deixa secar. É muito bom para ajudar a acender fogo.

Agora Kanassa precisava levar o fogo para o outro lado do rio. Para isso chamou todas as cobras, venenosas e não-venenosas, para que levassem o fogo para o outro lado da lagoa. As cobras entraram na água levando o fogo, mas no meio da travessia uma a uma foi cansando e perdendo o fogo no banzeiro. Só uma, muito ligeira, conseguiu chegar até o outro lado: a itóto. Kanassa também atravessou a água e lá no outro lado deu bebida, mingau e beiju para itóto — a cobra que conduziu o fogo.
(VILLAS-BOAS, irmãos. XINGU, os índios, seus mitos Editora Kuarup, 1985)

18 May

O olho de Hórus e o olho do vidente sem forma

O Olho de Hórus é uma imagem popular relacionada ao Egito Antigo, um símbolo de proteção relacionada a divindade, no caso o deus falconeiforme Hórus, cujo olho consegue tudo abranger, no panorama e fixar a atenção aguçada, igualmente, em qualquer detalhe. Lembramos que os olhos, como órgãos externos, tem grande importância na religião, mesmo na semítica, em que há também há o símbolo do olho de deus em torno da pirâmide. Castaneda enfatiza que a principal ligação dos olhos não é com o mundo sensível, e sim com o intento, e chega mesmo a descrever alguns exercícios de mudança de foco e atonalidade afim de suscitar uma quebra na atenção cotidiana, ou estados específicos de atenção mais propícios para conseguir “ver”.

horus-oog
Este símbolo é usado pelas tradições mágicas modernas, pela maçonaria, e mesmo pelos médicos, tendo sido usado com seu poder evocativo de cura e amuleto, como é explicado abaixo:

Hórus, o deus falcão, irá se tornar mais tarde o deus da arte de curar; e o “Olho de Hórus”, um amuleto protetor muito utilizado cuja ação terapêutica derivava da interpretação da luta mitológica acima, de uma certa maneira chegou até nossos dias de uma forma insuspeitada para muitos de nós médicos. O estilizado olho do falcão transformou-se no símbolo da intenção da medicina – restaurar a saúde. Assim como o olho e a visão de Hórus foram restaurados, assim fazem os médicos, recuperando a saúde dos pacientes. TEXTO COMPLETO: http://www.historiadaoftalmologia.com.br/artigos/artigo.asp?cod=14

Mais pode ser lido aqui, aqui, aqui e aqui

Mas se você se deparar com o “documentário” Olho de Hórus do picareta Fernando Malkun, por favor evite, já que é demasiado desonesto intelectualmente.

Abaixo um trecho do Segundo Círculo do Poder de Carlos Castaneda, que pode, talvez, oferecer nova luz para a interpretação da mitologia em torno deste símbolo.

— O que mais você sentiu, Gorda, quando perdeu a sua forma, além de não ter bastante energia?
— O Nagual me disse que um guerreiro sem força começa a ver um olho. Eu via um olho na minha frente sempre que fechava os olhos. A coisa chegou a um ponto que eu não podia mais descansar: o olho me acompanhava por onde eu fosse. Quase enlouqueci. Por fim imagino que me tenha acostumado. Agora eu nem noto, pois tornou-se parte de mim.
— O guerreiro sem forma usa aquele olho para começar a sonhar. Se você não tiver uma forma, não tem de adormecer para sonhar. O olho na sua frente o puxa toda vez que você quiser ir.
— Onde exatamente fica esse olho, Gorda?
Ela fechou os olhos e mexeu a mão de um lado para outro, bem em frente do rosto, abrangendo o espaço do rosto dela,
— Às vezes o olho é muito pequeno e às vezes é enorme — continuou ela. — Quando é pequeno, o seu sonhar é preciso. Quando é grande o seu sonhar é como voar sobre as montanhas e não ver grande coisa. Ainda não sonhei muito, mas o Nagual me disse que aquele olho é o meu trunfo. Um dia, quando eu realmente me tornar sem forma, não verei mais esse olho; o olho se tornará igual a mim, nada, e, no entanto estará ali, como os aliados. O Nagual disse que tudo tem de ser peneirado através de nossa forma humana, Quando não tivermos forma, então nada tem forma e no entanto tudo está presente. Eu não podia compreender o que ele queria dizer com isso, mas hoje vejo que ele tinha toda a razão. Os aliados são apenas uma presença e o olho também será. Mas a essa altura o olho é tudo para mim. Aliás, tendo esse olho, eu não devia precisar de mais nada a fim de provocar o meu sonho, mesmo quando estou desperta. Ainda não consegui isso. Talvez eu seja como você, um pouco obstinada e preguiçosa.

18 Apr

Educação X espontaneidade na psicologia infantil

Abaixo, texto de autor independente sobre o tema.

Como é possível perder uma individualidade? A traição, ignorada e inconcebível, começa na infância, com nossa secreta morte psíquica… é um perfeito crime duplo, no qual ele — isso não é apenas este simples assassinato de uma psique (sic) … a pequenina personalidade toma parte, gradual e inadvertidamente. Não foi aceita conforme ela é. Oh, eles a “amam”, mas querem que seja, ou forçam-na a ser, ou esperam que se torne diferente! Por conseguinte, deve ser inaceitável Ela própria aprende a acreditar nisso, e por fim aceita tal coisa como verdade incontestável. Ela realmente se entregou. Não importa se presta obediência a eles, se fica junto deles, se desobedece ou se se afasta — seu comportamento, sua atuação, isso é tudo o que importa. Seu centro de gravidade está “neles”, não em si mesma — contudo, se chegasse a reparar nisso, pensaria que isso é bastante natural. E a coisa toda é inteiramente plausível; toda ela é invisível, automática e anônima!
Este é o paradoxo perfeito. Tudo parece normal; não houve intenção de cometer nenhum crime; não há cadáver, não há culpa. Tudo o que podemos ver é o sol nascendo e desaparecendo no poente, como de costume. Mas o que aconteceu? Ela foi rejeitada, não apenas por eles, mas, por si mesma. (Realmente, está sem uma personalidade.) O que perdeu? Simplesmente, a única parte verdadeira e vital de si mesma; seu próprio sentimento de auto-afirmação, que é sua própria capacidade de desenvolvimento, seu sistema básico. Infelizmente, porém, não está morta. A “vida” continua; portanto, ela deve continuar. A partir do momento em que se rende, e na medida dessa rendição, começa, sem ter nenhum conhecimento disso, a criar e manter uma pseudopersonalidade. Mas isto por pura conveniência — é uma personalidade sem desejos. Esta será amada (ou temida), enquanto ela é desprezada; será forte onde ela é fraca; executará todos os movimentos (oh, mas eles são caricaturas!), não para divertir-se ou por alegria, mas por sua sobrevivência; não simplesmente porque quer movimentar-se, mas porque precisa obedecer. Esta necessidade não é vida — não é a vida dela — é um mecanismo de defesa contra a morte. É, também, a máquina da morte. A partir desse momento será despedaçada por conflitos compulsivos (inconscientes) até ficar paralisada, cada momento, cada instante, anulando sua individualidade, sua integridade; e durante todo esse tempo está usando o disfarce de pessoa normal e todos esperam que se comporte como tal!
Numa palavra, eu digo que ficamos neuróticos buscando ter ou defendendo um pseudo-eu, um pseudo-sis-tema; e somos neuróticos ao ponto de não termos um eu.
(Anonymous. “Finding the real self: a letter with a foreword by Karen Horney.” Am. J. Psychoanal, 1949, p. 93, conforme citação feita, ao pé da página, no livro de Maslow, A., intitulado Toward a Psychology of Being. Princeton, Van Nostrand, 1962. apud Speeth, Kathleen – I trabalho de Gurdjieff)

26 Mar

mais poesias pequenas dos astecas

astecas
escultura indígena asteca

Poemas Astecas (Traduzidos por Garibay apud Djalma Sayão Lobato in A civilização Asteca, Ed. Hemus) )
A flor e o canto

Brotam as flores, estão frescas, medram,
abrem sua corola.

Do teu interior saem as flores do canto:
tu, oh! poeta, as derramas sobre os demais.


Morte fatal

Aonde iremos que morte não haja?
Por isso, chora meu coração.
Tende coragem: ninguém vai viver aqui!
Mesmo os príncipes são levados pela morte:
assim, desolado está meu coração.
Tende coragem: ninguém vai viver aqui!

Beleza do canto
Choveram esmeraldas;
já nasceram as flores:
é teu canto.

Quando tu o elevas em México,
o sol ilumina.

A amizade

Qual pena de quetzal, flagrante flor,
a amizade se estremece:
como penas de garça, em galas se entremeia.
Uma ave que rumora qual cascavel é nosso canto: que lindo o entoas!
Aqui, entre flores que nos formam resguardo,
entre ramos floridos os estás cantando.

Gozo efêmero

Permitamo-nos gozar, amigos meus:
venham aqui os abraços!
Em terra florida estamos andando
e não há quem possa pôr-lhe fim. A flor e o canto se estendem
lá na Casa do Sol.

Só por breve tempo vivemos nesta terra.
Não será assim sempre: espera-nos a região do mistério…
Lã existe alegria? Lá existe amizade?
Oh! não, só nesta terra
viemos a conhecer-nos.

26 Mar

A Idade Dourada de Tula – poema histórico asteca

milho asteca
A Idade Dourada de Tula
(poema histórico asteca. Traduzido por Garibay apud Djalma Sayão Lobato in A civilização Asteca, Ed. Hemus) )

Com Quetzalcóatl teve inicio toda a linhagem das artes, tudo o que é técnica. Erguidas estavam as casas: uma era de esmeraldas, outra-era de ouro, outra de conchas vermelhas e outra de caracóis.
Havia uma casa de turquesa e outra de penas de quetzal. Ali tudo era riqueza: fino e rico o que se comia, toda classe de sustento. Dizem que as abóboras eram imensas, tal que sua circunferência era de quatro braçadas, algumas de forma esférica.
E as espigas de milho eram tão longas como um pilão de moer e era necessário abraçá-las com os dois braços. Também ali se produziam variadas formas de algodão: vermelho, amarelo, rosado, violeta, verde-claro, azul, verde-escuro, alaranjado, acinzentado, purpurino. Todo esse algodão nascia assim tingido. Ninguém os tingia.
Nunca os moradores de Tula sofreram necessidade: sempre foram felizes e prósperos. Nada fazia falta em suas casas. As espiguinhas do milho que ficavam atrofiadas e não cresciam, somente lhes serviam para aquecer os banhos.

cidade de tula

26 Mar

O quinto Sol – poema épico-sacro asteca

O quinto Sol (poema épico-sacro asteca. Traduzido por Garibay apud Djalma Sayão Lobato in A civilização Asteca, Ed. Hemus)

Deuses Astecas, religião

Quatro anos havia ardido o forno sagrado em Teotihuacan.
É o Deus da Vida e o Deus do Tempo chamam a Nanáhuatl, o deus chagado e lhe dizem:
- Tu deves sustentar agora o céu e a terra!
O deus entristeceu e disse:

— Que dizem! Há mais deuses! Sou um infeliz enfermo.
Chamam ao deus que celebra sua festa em 4-Pedernal (data). Ê a Lua.

Fala o Deus da Chuva e fala o Deus dos Quatro Rumos do Mundo.
E o mandam.

O deus chagado já inicia suas penitências: toma seus espinhos de agave; toma seu ramo de abeto, punciona as pernas em sacrifício ritual. E a Lua faz sua penitência.
Logo se vai ao banho o deus chagado
. E a Lua o segue.
Seu abeto (da Lua) eram penas de quetzal e seus espinhos de jade e o que jogava ao fogo eram esmeraldas.

Quando termina o período de quatro dias para as penitências,
o deus chagado logo toma suas penas e se pinta com listras
brancas de vitima do sacrifício. Está pronto para arrojar-se ao
fogo.
Mas a Lua está vacilante ainda, temerosa de jogar-se ao fogo,
Vai o deus chagado e se arroja ao fogo. Cai plenamente nas
chamas.
Vai a Lua e se joga ao fogo. Só sobre cinzas cai.
Passados quatro dias, o Sol estava no céu, mas não se movia.
A terra toda tremia sob as sombras que se eternizavam.
Juntam-se os deuses e formam um concilio:
- Que está ocorrendo que o Sol não se move?
O Sol era o deus chagado transformado em Sol, lá parado em
seu trono.
Vai a ele o gavião e pergunta-lhe:
- Os deuses querem saber por que razão não te moves. E o Sol responde:
- Sabes por quê? Quero sangue humano! Quero que dêem seus filhos, quero que me dêem sua prole!
Congregam-se os deuses e deliberam o próprio sacrifício. E todos os deuses morreram lá em Teotihuacan. Então, o Sol se moveu. E houve dia e noite.

23 Mar

unicode nightmares

O unicode e a efetivação utf-8 são um padrão de codificação que pretende ter um “código único” para representar qualquer sinal gráfico das linguagens escritas. A codificação ASCII dos americanos era muito usada inicialmente nos primórdios da web, porém, quando esta passou a ser efetivamente global, mostrou-se logo ineficaz, já que não comportava nem os acentos das línguas latinas. Surgiram então um monte de codificações e os browsers foram se adaptando para exibir todas. No caso do português e outras línguas do Ocidente, as pessoas passaram a desenvolver na codificação ISO-8859-1.

Pelo seu projeto ambicioso que pretendia solucionar um problema real, e por ser “politicamente correto”, muitos geeks e defensores do software livre logo passaram a defender as maravilhas do Unicode, criticando o retrógrado uso do ISO nos sistemas existentes, já que este representaria a parcialidade tendenciosa de um grupo sobre o todo.

Ah! As maravilhas de se escrever em cirílico! tailandês! Para mim o Unicode de início se mostrava atraente principalmente por causa da digitação de caracteres gregos. Em algumas páginas antigas que fiz com texto grego, tive mesmo que colocar o texto do original em imagens, já que a conversão textual mostrava-se sempre incompleta, defeituosa, e um exegeta helenista logo notaria a falha. Hoje uso o Unicode Classical Greek Inputer

A campanha Pró-Unicode foi forte, e hoje ele já está chegando ao predomínio na web, conforme mostra o gráfico abaixo compilado pelo google:

O problema é que essa conversão de ISO para Unicode não foi nada tranquila e pacífica! Impuseram um novo padrão sem oferecer as ferramentas de conversão adequadas. Até hoje me causa problemas, e já tive que varar noites por causa dos problemas de diálogo. Por exemplo, o sistema do PagSeguro hoje é em ISO, sendo a minha lojinha online em Unicode, os caracteres acentuados chegam truncados lá. Aqui mesmo no wordpress do Blog, existe algum conflito quando edito as tags no quickview, escrevo elas com acento e quando vou ver, o acento está errado.

Perdi centenas de posts no Fórum Consciência tentando converter de ISO para Unicode, porque confiei numa função de administração do fórum. Um simples toque no botão e seria convertido: qual nada, ele simplesmente cortou todas as mensagens a partir do primeiro acento! Tivemos que voltar com um backup antigo e repostar com um usuário fake quantos posts dessem a partir do cache do google e Yahoo!

A uma dada altura, o servidor onde está o site simplesmente parou de servir páginas em ISO de uma hora para outra, e só mandava em unicode. Nada adiantava usar a tag

<meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1">

ou outros estratagemas. Um outro site que sou webmaster ficou com todos os textos com caracteres truncados na acentuação. Inicialmente pensei ser um problema na database, e dê-lhe a modificar os collations no MySql. De nada adiantava. Também tentei exportar o dump de MySql, e passar o Iconv ou recode na shell do linux. Ele convertia parcialmente, mas alguns caracteres persistiam no erro, como as aspas inglesas. Eu tive que repostar mais de 400 textos, um a um, carregando ele como estavam, com defeito, mudando a exibição no navegador para ISO, e colando para repostar, o que foi muito cansativo e contrário ao conceito de informática.

A busca google com o título desse post mostra que não sou um caso isolado.

Esses foram só alguns casos, mas a conversão já me causou muito mais problemas. Não que eu não goste do Unicode, mas, deveriam pensar melhor nas soluções para os velhos sistemas em ISO ou para textos com múltiplas codificações. Já um sistema feito desde o início com unicode, como um wordpress zerado, funciona que é uma beleza! Informática quando está tudo funcionando é uma maravilha. Se algo der errado, vira um pesadelo.

23 Mar

estatísticas globais de uso de navegadores

O StatCounter, que oferece um serviço de estatísticas razoável para o seu site/blog em tempo real, lançou uma interface onde podemos ter acesso às estatísticas gerais do sistema, isto é, ao universo representado pelos bilhões de pageviews que ele analisa nos milhões de sites que usam o contador. Além do panorama global, é possível filtrar por região, por exemplo, Brasil, para ver a flutuação de tendências. O endereço é http://gs.statcounter.com/. O predomínio do Internet Explorer continua, porém já não é tão grande quanto o monopólio do Google em termos de buscas, que chega a 90%.

Uma pena é o pouco uso do Opera que, se não é o melhor navegador, pelo menos é o mais rápido e cheio de “truques” e atalhos – além de ser pioneiro. A útil navegação por abas, por exemplo, foi implementada inicialmente por ele, e depois por outros browsers até o Fifrefox e o IE7. O uso do Opera não evolui, mas a comunidade que o usa mantém-se fiel e fanática. Bom exemplo disso é a comunidade do Orkut, que agrega milhares de dicas e tópicos acerca do programa.

A boa notícia é que finalmente o Firefox está passando o IE6, e este está lentamente deixando de ser usado. A atualização do IE6 para o IE7 por parte dos usuários do navegador da Microsoft aconteceu lentamente porque os releases iniciais vinham com uma proteção anti pirataria mais sofistica. O problema é que o IE6 é deveras defasado e cheio de bugs na renderização, o que deu muita dor de cabeça para os pacientes webmasters, capazes de fazer as maiores “gambiarras” no uso de CSS, por exemplo, para que seus sites aparecessem corretamente nele.

Source: StatCounter Global Stats – Browser Version Market Share

Sobre esse quesito, aliás, um bom programa para ser usado é o IETester, um software independente que mostra em diferentes abas como fica a visualização dos endereços nas várias versões do IE. O meu IE parou de funcionar depois de ter passado um desses limpadores de registro, e algumas vezes eu descobria, muito depois, que coisas que estavam tranquilas do Google Chrome, Firefox e Opera apareciam de forma completamente torta no IE, ou seja, para a maioria dos visitantes.

Aliás, sobre o Google Chrome: uso ele para ver o orkut, mas deixa a desejar. Uma nova versão se faz necessária, e o Google não está com pressa em liberá-la. A versão inicial tem vários pequenos bugs, além de alguns defeitos de funcionalidade. Espero que não seja mais um projeto tocado a toque de lesma pelo Big-G.

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