Blog do Miguel

02 Sep

Carta de Padre Vieira ao Marquês de Gouveia – 1683

Tenho lido agumas cartas do Padre Antônio Vieira. As cartas foram de certa forma obscurecida pelo fulgor dos sermões, mais conhecidos e debatidos. Muitas já estão na web, mas ainda sem muito destaque, como google books ou em pdf com imagens.

Abaixo segue uma curta.

Padre Antônio Vieira

CARTA LV
Ao Marquês de Gouveia
1683 — julho 4
EXMO. Sr. — Manuel de Barros da França, um dos primeiros fidalgos desta cidade, e vereador dela, preso, degredado, e inabilitado pelo Governador, se vai queixar em nome da mesma cidade, e buscar o remédio destas e outras violências. Também vai com ele Gonçalo Ravasco de Albuquerque, filho do Secretário de Estado, o qual deixa seu pai Bernardo Vieira na enxovia, e ao Padre António Vieira, seu tio, criminado de mandar matar um homem; que a tanto chega o ódio e paixão do dito Governador. B posto que as causas, que os levam aos pés de S. A., são tão justificadas que lhes não pode faltar o patrocínio e amparo de V. Exa., o que eu com todo o encarecimento peço a V. Exa. é que, na atenção e agrado com que V. Exa. me fará mercê de os ouvir, vejam eles que não está esquecido na memória de V. Exa. o antigo e particular favor, com que V. Exa. por sua benignidade e grandeza me honrou sempre.
Deus guarde a V. Exa. muitos anos, como desejo e os criados de V. Exa. havemos mister. Bahia, 4 de julho de 1683. — Criado de V. Exa.
António Vieira

17 Aug

A VELHA AMOROSA – conto pequeno

A VELHA AMOROSA

Uma velha bem velha e feia enamorou-se de um rapaz que nem dava atenção se ela vi vivia neste mundo. Tanto a velha se requebrou e se exibiu, suspirando e revirando os olhos quando o via, que o moço a notou, perguntando o que tinha, Respondeu a velha que morria de amores por ele e que esperava uma palavra de esperança. O rapaz achou que era graça da velha, mas esta in sistiu e o perseguia de um modo que os outros rapazes davam-lhe vaias.

O rapaz, para livrar-se daquela mania, disse à velha que a aceitaria para mulher se ela passasse uma noite, descoberta, rezando no adro da Igreja. Era dezembro e nevava que era um louvar a Deus.

A velha aceitou a penitência e numa noite de nevada forte, foi-se ao adro e se postou de pé, tôda dura, rezando e disposta a ficar todo o tempo nessa posição. A neve caía, o frio enregelava e um vento ia cortando como navalha. A velha, para não sentir, cantava, de espaço a espaço:

E as horas foram passando, a neve aumentando, com o frio e a ventania, e a velha firme na sua pretenção:

Hoje na lama, Amanhã na cama.

Hoje na lama, Amanhã na cama.

Lá pela madrugada calou-se. Pela manhã acharam-na morta.

Contada por Antônio Portel que lhe achava um sabor especial de comicidade. Há versões brasileiras. O professor Lindolfo Gomes registou uma em Juiz de Fora, “A velha no estaleiro”, “Contos Populares”, 1, 36, (Episódicos, cíclicos e sentenciosos, colhidos da tradição oral no Estado de Minas, S. Paulo, s. d.) onde a velha apaixonada canta: “Tremei, tremei, corpo maldito, Amanhã, por estas horas Estareis em glórias bendito”. Noutra versão, minha conhecida, há o verso: “Hoje engilhada, Amanhã casada.” Lembra o prof. Lindolfo Gomes o episódio do “Triunfo do inverno”, de Gil Vicente (“Obras”, ed. de Mendes dos Remédios, Coimbra, 1912, p. 210-212), onde uma velha Brasia Caiada, para satisfazer ao desejo de Fernando, filho do prior de Aveiro, vai passar a serra nevada, sem levar nada nos pees. Possivelmente tratar-se-á da facécia posta no Auto, sendo popular e sabida. (CASCUDO) Os melhores contos Populares de Portugal

17 Aug

A FORMIGA E A NEVE – Pequeno conto acumulativo

A FORMIGA E A NEVE

Andava uma formiga na neve, quando, de repente, sentiu um pé preso. Voltou-se para a neve e disse-lhe:

 Oh neve! Tão forte és tu que o meu pé prendes?

 Tão forte sou eu que o sol me derrete.

 Oh sol! Tão forte és tu que derretes a neve e a neve meu pé prende?

 Tão forte sou eu que as nuvens me encobrem.

 Oh nuvem! Tão forte és tu que entapas o sol, o sol derrete a neve e a neve meu pé prende?

 Tão forte sou eu que o vento me espalha.

 Oh vento! Tão forte és tu que espalhas as nuvens, as nuvens entapam o sol, o soí derrete a neve e a neve meu pé prende?

 Tão forte sou eu que a parede me entapa.

 Oh parede! Tão forte és tu que. entapas o vento, o vento espalha as nuvens, as nuvens entapam o sol, o sol derrete a neve e a neve meu pé prende?

 Tão forte sou eu que o rato me fura.

 Oh rato! Tão forte és tu que furas» a parede, a parede entapa o vento, o vento espalha as nuvens, as nuvens entapam o sol, o sol derrete a neve e a neve meu pé prende?

 Tão forte sou eu que o gato me mata.

 Oh gato! Tão forte és tu que matas o rato, o rato fura a parede, a parede entapa o vento, o vento espallui as nuvens, as nuvens entapam o sol o sol derrete a neve e a neve meu pé prende?

 Tão forte sou eu que o cão me mata.

 Oh cão! Tão forte és tu que matas o galo, o gato mata o rato, o rato fura a parede, etc, etc.

 Tão forte sou eu que o pau me bate.

 Oh pau! Tão forte és tu que bates no cão, o cão mata o gato, etc, etc.

 Tão forte sou eu que o lume me queima.

 Oh lume! Tão forte és tu que queimas o pau, o pau bate no cão, o cão mata o gato, etc, etc.

 Tão forte sou eu que a água me apaga.

 Oh água! Tão forte és tu que apagas o lume, o lume queima o pau, o pau bate no cão, o cão mata o gato, etc, etc

 Tão forte sou eu que o boi me bebe.

 Oh boi! Tão forte és tu que bebes a água, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, etc, etc.

Tão forte sou eu que o homem me mata.

 Oh homem! Tão forte és tu que matas o boi, o boi bebe a água, a água apaga o lume, etc, etc.

 Tão forte sou eu que Deus me mata.

 Oh Deus! Tão forte és tu que matas o homem, o homem mata o boi, o boi bebe a água, etc, etc

 Tão forte sou eu que até te mato. E matou a formiga.

Carlos M. Santos, Trovas e bailados da Ilha, Estudo do folclore musical da Madeira, p. 65-66, Funchal, 1942. As variantes são velhas e múltiplas em Portugal, Espanha, Brasil e América latina. Carlos M. Santos regista uma, de 1880, do dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo, em versos, onde a Cabra substituiu a Formiga. Teófilo Braga, Cancioneiro Popular Português, traz a Formiga e a neve, p. .12!), de Porto da Cruz. O dr. Jaime Lopes Dias fixou outra, A mulher e a neve, p. 187, Etnografia da Beira, V, Lisboa, 1939. Sílvio Romero, Contos Populares do Brasil, XXXIV, recolheu uma versão de Sergipe, A formiga e a neve, terminando Deus autorizando a formiga a furtar. E’ o típico Cumulative Tales, o conto acumulativo ou encadeado,

Mt. 2031 de Aarne-Thompson, The Frostbitten Foot, que assim termina numa versão do idioma inglês: — God how strong you are — God who sends Death who kills blacksmith, blacksmith who makes knif, knifes that kills steer, steer that drinks water, water that quenches fire, fire that burns stick, stick that kills cat, cat that eats mouse, mouse that perforates wall, wall that resists wind, wind that dissolves cloud, cloud that covers sun, sun that thaws frost, frost that broke my foot. Dou uma variante do norte brasileiro no Contos Tradicionais do Brasil. Stith Thompson indica o Popular Tales and Fictions, de W. A. Clouston, 1, 309, Edimbourg, 1887, ocorrendo no Novoi México onde o prof. Espinosa estudou, assim como na Califórnia, Journal of American Folk-Lore, XXVII, 138 e 22|2. Franz Boas registou variantes no seu ensaio Notes on Mexican Folk-Lore, no mesmo Journal, XXV, Oct-Dec, 1912, p. 219. O prof. Espinosa registou variantes, não referentes ao nosso tema mas ao processo de encadeamento, na Espanha, em Sória, Segóvia, Ávila, Burgos, Astúrias, Cuentas Acumulativos, 271 a 280. (Câmara Cascdudo)


 

Fonte: Os melhores contos Populares de Portugal. Org. de Câmara Cascudo. Dois Mundos Editora, 1944.

 

17 Aug

NOSSA SENHORA E A SOLHA – mini contos

NOSSA SENHORA E A SOLHA
Estando Nossa Senhora à beira do rio, viu um solha e perguntou-lhe:
— Oh solha! A maré enche ou vasa?
A solha pôs a boca à banda, e repetiu com escárneo:
— Oh solha! a maré enche ou vasa? Nossa Senhora disse:
— Assim fiques sempre com a boca à banda.


É leitura em Teófilo Braga, “Contos Tra dicionais do Povo Português”, II, 160, Porto, 1883. Popular no Brasil. Registou-a o barão de SanfAna Neri, “Folk-Lore Brésilien”, Paris, 1889, p. 224, sucedida à aramaçá (Solea reticula ta), massarapeba no Espírito Santo, onde o mes mo conto é conhecido. Robert Lehmann-Nitsche, no seu póstumo “Studien zur Sudamerikanischen Mythologie die aetiologischen motive” (Hamburgo, 1939, p. 129) menciona-o, assim como Dáhnhardt na conhecida “Natursagen”, II, p. 253. Pertence ao gênero dos contos etiológicos, explicação vulgar de uma determinada forma e peculiaridade animal. (Câmara Cascudo)

16 Aug

A mãe de São Pedro

A MÃE DE SÃO PEDRO

A MÃE de São Pedro ora Ião avarenta que jamais dera uma esmola em toda sua vida. A bondade do filho não partira dela.

Um dia foi às hortaliças e as trazia numa braçada quando caiu uma rama de cebola. Não querendo apanhá-la, por inútil, disse:

-— Fica-te aí por amor de Deus!

Ora, quando ela morreu foi condenada às penas do inferno porque não tinha merecimento algum.

São Pedro, santo chaveiro do Paraíso, pediu a Nosso Senhor que lhe perdoasse a mãe, não ficando bem ao príncipe dos Apóstolos ter sua mãe no meio dos malditos no fogo eterno. Nosso Senhor disse:

— Só se ela fez alguma coisa no mundo em louvor do meu nome!

São Pedro tinha somente a rama da cebola para lembrar, e mesmo assim Nosso Senhor permitiu que a mãe do santo chaveiro subisse do inferno para o paraíso pela rama da cebola que fora deixada no chão.

São Pedro atirou a rama da cebola ao inferno e a velha agarrou-se valentemente e começou a subir. Mas as outras almas seguravam-na pelos pés, vestidos e mãos, querendo salvar-se também.

A velha, sempre orgulhosa e má, não queria ajudar ninguém, atirando ponta-pés e repelões a torto e a direito.

E tanto se mexeu e se revirou que a rama da cebola se partiu pelo meio e a velha caiu. Como já saíra do inferno não mais pôde voltar para lá. E como não chegara ainda ao céu, ficou suspensa no moio do caminho.

Por isso se diz, de uma coisa indecisa: está como a Mãe de São Pedro, entre o céu e o inferno


Câmara Cascudo observa:

Popular em Portugal, Brasil e América la tina. Ortoli registou-a na Córsega, “Contes Populaires de Pile de Corse”, transcrita por Sébillot no “Contes des Provinces de France”, XLII, “La mère de saint Pierre”. É o Mt. 804 de Aarne-Thompson, Peter’s Mother Falis from Hieaven. Pitré informa sua divulgação da Itália. Fixada no monumental trabalho de J. Bolte e G. Polivka estudando os contos dos irmãos Grimm, “Anmerkungen zu den Kinder und Hausmãrchen der Bruder Grimm”, III, 538, in Stith Thompson, Q 291. 1.

16 Aug

A MULHER CURIOSA – um conto popular

Na coletânea “Os melhores Contos Populares de Portugal”, organizada pelo Câmara Cascudo em 1944 existem diversos contos clássicos, coletados juntos ao folclore, em diferentes registros, com um comentário do Mestre.

Abaixo segue-se um exemplo.

A MULHER CURIOSA

Era uma mulher caritativa e amiga de ajudar ao próximo mas muito curiosa. Vivia olhando pelas gelosias o que pela rua passava ou acontecia. Mesmo quando ouvia rumor na calçada, sendo noite velha, erguia-se da cama e vinha espreitar o motivo da bulha.

Uma noite, já tarde de horas, quando o povo diz hora aberta, a mulher percebeu uma bulha de passos como se viesse um cortejo. Depressa colou os olhos às reixas e viu que era uma procissão, com muitos penitentes, vestidos de branco, cagulados, com cruzes e todos trazendo brandões acesos. A mulher, não se contendo, abriu a janela para ver melhor. A procissão foi passando e um dos penitentes saiu da alia e veio até ela, entregando-lhe um brandão aceso, dizendo: guarde até amanhã quando mo en tregará.

A mulher ficou com o brandão aceso e o levou para o aposento, querendo apagá-lo mas não conseguiu. Ficou cheia de medo mas rezou, rezou e lhe vindo o sono dormiu. Pela manhã viu o brandão apagado e indo olhá-lo próximo conheceu que era um osso da perna de defunto. Ficou aterrada e procurou o pároco a quem tudo narrou. O pároco mandou que fizesise celebrar missas pelo descanso daquela alma penada e que nunca mais estivesse à

janela às horas em que devemos estar recolhidos. A mulher arrependeu-se, chorando e esperou a volta da procissão. Perto da meia-noite o osso ardeu por si-mesmo, transformando-se num brandão, e a mulher, arrepiada de medo, ficou com êle na mão até que passasse o penitente que lho- dera. Veio a procissão, calada, e um penitente atravessou para pedir o brandão. O penitente recebeu-o, dizendo: tenha por lição, mulher curiosa!

A mulher emendou-se e ficou sem defeitos.

O comentário de Cascudo

Teófilo Braga regista a mesma versão no Algarve. A. Santos Graça narra episódio igual, na Póvoa: A tia Janela afirmou que, num serão, carecera de acender uma candeia e que, dando pela falta de lumes, viera à porta ver se passava alguém para lhos pedir. Abrindo o postigo, viu que vinham ao longe nwuitas luzes e, quando estas se abeiraram, pediu um lume, que lhe foi entregue pelo postigo. Acesa a candeia, quando ia entregar a vela que tinha recebido, já o grupo se tinha distanciado, reparando ela, então, que em lugar de uma vela lhe tinham entregado uma tíbia! Fora no dia seguinte confessar-se, sen-do-lhe dado o conselho de à mesma hora esperar novamente o grupo e entregar à que fosse sem luz o que lhe tinha sido dado. “Eram almas boas que andavam a pedir orações. “A Crença do Poveiro nas Almas Penadas”, separata da “Homenagem a Martins Sarmento”, Póvoa de Varzim, Portugal, 1934. No Brasil é lenda comum em todo o pais. O prof. Lindolfo Gomes colheu uma versão de Minas Gerais, A moça e a vela. O prof. Espinosa encontrou uma versão espanhola em Córdoba, La calle de la Pierna,

I, 95, e outra em Ciudad Real, La averiguarona Idem, !>(), Cuentos Populares Españoles. Teófilo Braga, O Povo Portuguez nos seus Costumes, crenças e tradições, 1, 226, Lisboa, 1885, informa A Procissão dos Defuntos faz-se todos os dias às Trindades; ninguém, as vê senão as pessoas que têm uma palavra de menos no batismo. E estas são as que sabem as pessoas que hão de morrer, porque as vêem na procissão. Essas procissões de mortos percorriam a Idade Média vivas nos registos apavorados da época. Em Janeiro de 1091 um pároco de Bonneval, indo visitar enfermos, encontrou um desses cortejos assombrosos, reconhecendo alguns mortos, Richard de Bienfaite, Baudouin de Meules, filho de Gisbert, conde de Brionne, conta Orderic Vidal no livro VIII da sua Histoire ecclèsiastiquie segundo Puymaigre, Folk-lore, 250. Há biblio grafia sobre este elemento, E941, Proeession o, the olead, e S242, Ghosts punish instruders into mass (proeession) of ghosts, Stith Thompson, Motif-Index, volume IIo.

02 Jul

Multidão na praça da Sé no fim da Segunda Guerra, 1945

Um scan que fiz há um tempo:

O povo comemora a rendição incondicional da Alemanha na Praça da Sé, em 1945

O povo comemora a rendição incondicional da Alemanha na Praça da Sé, em 1945

Fonte: 50 anos dO PC no Brasil.

19 Jun

Física e Filosofia no manual: A teoria da Relatividade de Einstein e as correções dos Físicos

O filósofo desde o princípio foi colocado numa posição de ingenuidade, mas com a promessa velada de que chegaria a conhecer, à compreensão. A fala divina, através da pitonia no Oráculo de Delfos coloca Sócrates como o mais sábio dos homens, porque ao menos ele sabe que nada sabe. O conhece-te a ti mesmo (pois conhecendo conhecerás também o universo e os deuses) era uma enunciação que vinha desde a remota antiguidade, a servir de farol para as especulações sobre o mundo e a resolução dos problemas da mente. O universo, sob certa perspectiva, é um apenas um retrato da consciência, o seu campo de batalha, onde agem as forças que direcionam, regulam e julgam o esforço humano de compreensão, como o daimon que Sócrates evoca durante sua defesa nos tribunais atenienses.

A Apologia de Sócrates é o primeiro diálogo de Platão, a defesa incondicional de seu mestre injustiçado, que torna-se personagem principal dos seus diálogos. Platão se insurge contra um antigo sistema educacional grego que baseava-se na tradição dos mitos homéricos, afim de endossar os atos virtuosos e heróicos das épocas passadas. Os cantos da Ilíada e Odisséia eram decorados e mantidos muitas vezes de forma oral. Platão usa o diálogo, representação escrita da oralidade, para criticar a própria oralidade. Sócrates sabidamente nada deixou escrito, e permanece-se como uma figura histórica palpável, mas coberta de névoa. Os primeiros diálogos de Platão estariam mais próximos do Sócrates real, ele indica o problema, mas não resolve. São aporéticos, terminam como uma charada. Mas contra o relativismo subjetivista dos sofistas (o homem é a medida de todas as coisas), Platão desenvolve a Teoria das Idéias, a tentativa de sair da doxa e chegar à episteme, um realismo não subjetivista das entidades mentais, metafísicas, que são as idéias. O homem, então, é capaz de conhecer a verdade, ao voltar-se para si, com a inteligência consegue o vislumbre da realidade ordenadora e auto-consistente do mundo sensível, pleno de fluxo e fonte de erros.

O desenvolvimento desta doutrina, que foi o grande instrumento de interpretação da realidade no mundo antigo por séculos, só foi possível graças à criação da Academia: um local de livre investigação e estudo, criado graças à efervescência anterior do século de Ouro (de Péricles), onde as grandes cabeças da época podiam reunir-se na capital Atenas, “farol do universo”. A Academia e esse modelo de ensino foram tão importantes que sua influência persiste até hoje, muitas vezes ingressa como conhecimento atávico pelo senso comum, e parte da linguagem corrente. Antes dos ginásios esportivos adonarem-se deste nome, ainda era sinônimo da nossa Universidade, em todas as áreas.

No Fronstipício da Academia estava escrita a lendária frase: “Que aqui não adentre quem não souber geometria”. A importância da matemática na filosofia de Platão é mais do que puramente científica, é ainda mística, com a herança dos conceitos de números das correntes pitagóricas, secretas e iniciáticas. Perguntado certa vez sobre a atividade divina, Platão respondeu: “Ele eternamente geometriza”. A relação filosofia X matemática é capital desde o princípio, com o sábio Tales sendo também um geômetra, passando pelo próprio Pitágoras e seguindo constante através dos séculos: Descartes alé do cogito é lembrado pela filosofia analítica, Leibniz pelo cálculo infinitesimal (desenvolvido em paralelo com Newton, com quem disputou a autoria na Royal Society), o cristão Pascal etc. O método de exposição euclidiano é usado por exemplo, em Espinosa com sua Ética demonstrada pelo método geométrico, numa união entre o problema humano e a certeza da matemática.

Aristóteles foi um dos alunos da Academia, mas, aluno com brilho próprio, não seguiu a esteia de defesa do mestre e criou o Liceu, passando a concorrer. O cerne da discordância é justamente a teoria das idéias, para Aristóteles um universal abstrato e pouco palpável não serviria para explicar o Ser, e por isso, ao distanciar-se disse: “Muito queridos são os amigos, mas mais querida ainda é a verdade”. O Liceu de Aristóteles foi fundador de várias das ciências que temos hoje, com a razão universal investigando as aplicações particulares: biologia, física, lógica etc. Os misteriorosos tratados ontológicos de Aristóteles sobre o Ser estavam organizados, na Biblioteca de Alexandria, depois dos tratados de Física, ta meta ta physika, e por isso ocorreu o surgimento da palavra metafísica, num interessante caso de correlação entre esta origem “prosaica” e seu significado, já que a metafísica passou a significar uma realidade transcendente à realidade física, mais conforme, aliás, com a doutrina platônica do que aristotélica.

A physis grega é uma palavra fecunda, sinônimo de natureza. Na origem é tudo aquilo que brota espontaneamente do chão, indicando, portanto atividade acolhedora que independe da intelecção do sujeito, e de seu progresso dentro dos labirintos das idéias, que é submisso à moralidade e à virtude. Por muitos séculos a física foi chamada por isso de “Filosofia Natural”, como na obra de Newton: Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica. A influência da religião na visão do mundo é um monobloco palpável e milenar, em todas as culturas, que tem perdido força nos tempos recentes, embora nem de longe tenha ainda sido superada. Classicamente a razão é a “luz natural” nos intrumentos disponíveis à cognificação, contemplando a fé, que é sobrenatural, revelada. A teologia medieval justamente procura demonstrar de forma racional as “verdades” registradas nas escrituras.

A espontaneidade da razão, que surge na filosofia grega, é um movimento da ingenuidade em direção à emancipação, cumprindo o anseio da promessa pelo triunfo do entendimento, que referenciamos no início. Falamos do matemático Pascal, que como filósofo cristão disse: “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Contra o racionalismo exarcebado de Descartes, que queria passar ao largo de Cristo disse: “Descartes, inútil e incerto”. Era tão erudito na Bíblia Sagrada que ao ouvir alguém a tergiversar sobre o assunto, apenas ponderava: “Isso está nas escrituras. Isso não está nas escrituras”.

Kant tratou da questão do lugar da filosofia diante a fragmetação da Universidade no livro “Conflito das Faculdades” e Weber colocou como uma das características da modernidade a “separação das esferas”.

Tudo isso foi um preâmbulo para abordar um problema contido no popular manual “Convite à Filosofia” da professora Marilena Chaui, uma intelectual notória, de quem aliás, usei algumas lições neste próprio preâmbulo. Ao elucidar a ampliação do conceito de razão num dos capítulo do livro, ela cita “en passant” a Teoria da Relatividade de Albert Einstein. Einstein como físico ainda é um paradigma atual, mas atuou também politicamente, como judeu alemão na pré-guerra e como filósofo, escrevendo sobre assuntos variados. Também é estudada sua viagem ao Brasil e Argentina, onde expressou um certo desalento pelo atraso da intelectualidade local comparada com a Europa. Essa aparentemente não se deu por achado, pois o nosso prolixo autor Pontes de Miranda teria comentado ao gênio, numa de suas palestras:

– Data venia, Herr Einstein, a Teoria da Relatividade não considerou as implicações metafísicas das hipóteses que aventa. Das ciências físicas até as ciências jurídicas a diferença, saiba, é de grau. A Física mantém um pacto com o mundo da sociedade também, e é pacto que tira e põe, mas não deixa intacto o que estava…

Data Venia, expressão latina, é um pedido de licença numa discussão cavalheiresca: pede-se permissão para discordar. Tenho observado, aliás, que isso faz falta, uma discordância no plano das idéias aparece como ofensa ao interlocutor, que já exagera no antagonismo e cria juras de inimizade eterna, perseguição, ameaças…tudo para defender o ego, e nada para defender o erro. Como apontamos, a discordância e o antagonismo são partes indissociáveis da história da filosofia e também da democracia.

Nesse contexto, lanço o post, pois temos que admitir, diante da explicação especializada, que o que a professora fala da Teoria de Einstein no manual está errado. Apontado pelo erro por um amigo, que o viu num blog de matemáticos, defendi a filosofia, mas admiti o erro. Porém, como realmente não conheço o sistema de Einstein, precisei de um auxílio didático, e por isso mandei email para os professores do IF da USP, que aliás, mantém um evento de “Convite a Física” para o público não-especializado. Seguem-se a cópia dos emails, não identificarei os autores, pois não informei que postaria.

Advirtamos, antes, porém, que na filosofia mesmo existem vários professores especializados em Teoria da Ciência, com uma visão profunda da física moderna, e muitos oriundos da própria faculdade de Física.

Meu email:

Olá

Sou formado em filosofia pela USP (2003).
Um ex-aluno do IF-USP apontou-me recentemente uma citação do manual de filosofia para Ensino Médio escrito pela professora Marilena Chaui, da FFLCH-USP, O Convite a Filosofia, no qual ela comenta, en passant, A Teoria da Relatividade de Einstein, dentro de um trecho maior sobre a ampliação do conceito de razão no século XX. As definições fornecidas pareceram a ele tão evidentemente erradas e “rídiculas”, que sequer mereceram uma nota explicativa. Aleguei que o contexto político implícito e o “conflito das faculdades” seriam a verdadeira motivação da crítica, já que o trecho em questão mais parecia um resumo comum a vários manuais. A Teoria da Relatividade de Einstein notoriamente é tão famosa quanto desconhecida, ou mal compreendida. Eu nunca a estudei de verdade, por isso recorro a este email para obter um parecer de um especialista do IF/USP. O pedido se justifica dada a tremenda popularidade do referido manual e seu uso escolar massivo. Gostaria de saber se o que é dito pode ter algum efeito pedagógico e didático negativo nos jovens alunos, comparado, naturalmente, ao que é comumente ensinado nos cursos de física a nível de ensino médio, e não a um estudo aprofundado, que nem caberia aqui. Cito o texto abaixo a partir do ebook disponível no CFH da UFSC http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/convite.pdf Como vocês tem um seminário de “Convite à Física” , ficaria agraciado com qualquer retorno de sua parte, por mais breve que seja.

Obrigado,
Miguel

Por sua vez, a física atômica ou quântica abalou o princípio da razão suficiente.
Vimos que esse princípio afirma que, conhecido A, posso determinar como dele
necessariamente resultará B, ou, conhecido B, posso determinar necessariamente
como era A que o causou. Em outras palavras, conhecido o estado E de um
fenômeno, posso deduzir como será o estado E2 ou E3 e vice-versa: conhecidos
E3 e E2 posso dizer como era o estado E. Ora, a física dos átomos revelou que
isso não é possível, que não podemos saber as razões pelas quais os átomos se
movimentam, nem sua velocidade e direção, nem os efeitos que produzirão.
Esses dois problemas levaram a introduzir um novo princípio racional na
Natureza: o princípio da indeterminação. Assim, o princípio da razão suficiente
é válido para os fenômenos macroscópicos, enquanto o princípio da
indeterminação é válido para os fenômenos em escala hipermicroscópica.
(…)

Um outro problema veio abalar o princípio da identidade e da não-contradição. A
física sempre considerou que a Natureza obedece às leis universais da razão
objetiva sem depender da razão subjetiva. Em outras palavras, as leis da Natureza
existem por si mesmas, são necessárias e universais por si mesmas e não
dependem do sujeito do conhecimento.

Contudo, a teoria da relatividade mostrou que as leis da Natureza dependem da
posição ocupada pelo observador, isto é, pelo sujeito do conhecimento e,
portanto, para um observador situado fora de nosso sistema planetário, a
Natureza poderá seguir leis completamente diferentes, de tal modo que, por
exemplo, o que é o espaço e o tempo para nós poderá não ser para outros seres
(se existirem) da galáxia; a geometria que seguimos pode não ser a que tenha
sentido noutro sistema planetário; o que pode ser contraditório para nós poderá
não ser para habitantes de outra galáxia e assim por diante.
(…) (CHAUI)

Abaixo as respostas:

Prezado Miguel,

tudo que jamais ouvi sair da boca (ou da pena) da
Profa. Marilena em matéria de Física, Matemática
ou sobre as Ciências em geral, foi da mais absoluta
imbecilidade — fruto, aparentemente, de ignorância
combinada com arrogância. Como dizemos em
Física, “it’s not even wrong”.

Sinto muito, mas sempre que fui obrigado a ler
qualquer coisa dessa senhora acabei me irritando.
Me desculpe, mas eu não vou me dar ao trabalho
de ler (ou comentar) mais uma das suas patetadas.
Você pode ter 100% de certeza de que é besteira.

Abr.

Essa é boa para vermos o Conflito das Faculdades. E as seguintes, cada vez menos ranzinzas e truculentas e mais explicativas:

Há imprecisões fatais no texto, a começar pelo que é entendido como A,
B, E, E2, etc. Diz-se inicialmente que são `estados’, mas essa
caracterização é subitamente abandonada no caso da `física dos
átomos’, em que passa a ser (talvez) explicitada como “as razões pelas
quais os átomos se movimentam”, “sua velocidade e direção” e “os
efeitos que produzirão”, por sua vez uma enumeração ao estilo da
antiga enciclopédia chinesa de um escrito de Borges. O quadro
resultante me parece ser de natureza a impossiblitar a mais tênue
impressão do que seja de fato a ruptura envolvida na formulação da
toria quântica. Suponho que “princípio de indeterminação”seja uma
referência às relações de incerteza de Heisenberg. Assim sendo, vale
notar que elas foram obtidas DEPOIS (1927) da formulação da Mecânica
Quântica (1925), como parte do esfôrco de interpretação da nova
teoria, e não desempenhou portanto nenhum papel na sua
formulação. Segundo Heisenberg, serviu como motivação uma afirmação de
Eintein, feita em outro contexto, segundo a qual (“a teoria é que deve
determinar o que pode ser observado”).

A afirmação sobre a teoria de relatividade é grotescamente FALSA. Essa
teoria tem por ponto central precisamente o oposto do que é sugerido
no texto: ela especifica como deve ser feita a tradução entre
observações feitas por diferentes observadores, com o pressuposto de
que AS MESMAS LEIS FÍSICAS devem valer para TODOS eles. Há duas
teorias, a restrita (1905) e a geral (1916), esta última sendo a
teoria moderna da gravitação e, ao contrário da teoria restrita,
tratar de observadores acelerados um em relação ao outro, além de
observadores em movimento relativo com velocidade relativa
constante. A tradução correta, já na teoria restrita, é de natureza a
invalidar o caráter `absoluto’ de certas observações, como observações
de simultaneidade de eventos espacialmente separados. Mas isso
justamente para que se reconheça que as leis físicas sãi de fato as
mesmas!


Caro Miguel,

Li o cap.1 do texto da Marilena Chauí que voce menciona em seu email.
Antes de prosseguir seria bom delimitarmos sobre o que estamos estaremos comentando.

Como voce deve saber existe a teoria da relatividade restrita, que se aplica à fenomenos em que estão envolvidos corpos em movimento com velocidades próximas à velocidade da luz e na ausência da força gravitacional. Existe também a teoria da relatividade geral que é aplicada a corpos na presença de um campo gravitacional. A relatividade geral é uma teoria da gravitação que incorpora a relatividade restrita. Consulte a wikipedia para mais detalhes (http://pt.wikipedia.org/wiki/Relatividade_geral).

O texto não especifica qual teoria da relatividade está sendo tratada. Do contexto entendo que se trata da teoria da relatividade geral e vou assumir que onde se le teoria da relatividade deve-se entender a teoria da relatividade geral.

Gostaria também de esclarecer um de seus comentários. Voce afirmou que: “A Teoria da Relatividade de Einstein notoriamente é tão famosa quanto desconhecida, ou mal compreendida.” Nada mais longe da verdade. A teoria da relatividade é bastante conhecida e muito bem compreendida. Qualquer estudante pode aprender relatividade geral. No Instituto de Física da USP ministro a disciplina Introdução à Relatividade Geral para alunos do quarto ano da GRADUAÇÃO. Todos os meus alunos da pós-graduação estudaram relatividade geral. A relatividade restrita é usualmente ensinada no primeiro ano do curso de graduação, inclusive para os alunos da engenharia. Afirmar que poucos conhecem a relatividade e que ela não é bem compreendida é um mito que precisa ser desfeito.

Vamos agora ao texto da Marilena. Na pág.74 ela afirma: “A física da luz (ou óptica) descobriu que a luz tanto pode ser explicada por ondas luminosas quanto por partículas descontínuas.” Quem faz essa afirmação é a teoria quântica da luz e não a óptica. A luz, assim como a matéria (por exemplo, um elétron), não é nem uma onda nem uma partícula. Se for feita uma experiência para saber se a luz ou o elétron é uma partícula, a resposta será positiva. Se for feita outra experiência para saber se a luz ou o elétron é uma onda a resposta também será positiva. Não há conflito entre os resultados. Essa é a dualidade onda-partícula da teoria quântica. Mais detalhes na wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Dualidade_onda-part%C3%ADcula). De fato, isto viola o princípio do terceiro excluído e mostra que devemos abandonar a lógica clássica ao nível sub-atômico.

Na pag.75 onde se lê “princípio da indeterminação” deve-se ler “princípio da incerteza”. Na wikipedia: (http://pt.wikipedia.org/wiki/Princ%C3%ADpio_da_incerteza_de_Heisenberg). Dado o estado inicial A e estados finais B1, B2, … Bn, a teoria quântica não pode afirmar com certeza absoluta qual será o estado final. Ela apenas prevê qual a probabilidade P1, P2, … Pn, de encontrarmos a sistema num dos estados finais B1, B2, Bn, respectivamente. O princípio da incerteza não permite determinar simultâneamente a velocidade e a posição de um elétron com precisão absoluta, portanto, a trajetória do elétron não pode ser determinada (note que a trajetória é determinada fornecendo-se simultâneamente a posição e a velocidade em cada ponto). A causalidade, entretanto, é preservada pelo princípio da incerteza. A frase: “Ora, a física dos átomos revelou que isso não é possível, que não podemos saber as razões pelas quais os átomos se movimentam, nem sua velocidade e direção, nem os efeitos que produzirão.” não está completamente correta. Sabemos as razões (os motivos) que geram o movimento dos átomos (são as forças eletromagnéticas). O que não sabemos é sua trajetória (devido ao princípio da incerteza). Sabemos quais os efeitos que podem ser produzidos (temos as probabilidades dos eventos finais). Como voce percebe, há uma confusão dos diversos conceitos envolvidos e uma interpretação errônea. O abandono da lógica clássica ao níbel sub-atômico é o que permite a dualidade onda-partícula e o princípio da incerteza.

Na pag. 75 está escrito: “A física sempre considerou que a Natureza obedece às leis universais da razão objetiva sem depender da razão subjetiva.” Isto continua sendo verdadeiro. Nem a teoria quântica, nem a teoria da relatividade contrariam essa afirmação. Ela é a base do método científico.

Na pag. 75 está escrito: “Contudo, a teoria da relatividade mostrou que as leis da Natureza dependem da posição ocupada pelo observador, isto é, pelo sujeito do conhecimento e, portanto, para um observador situado fora de nosso sistema planetário, a Natureza poderá seguir leis completamente diferentes, de tal modo que, por exemplo, o que é o espaço e o tempo para nós poderá não ser para outros seres (se existirem) da galáxia; a geometria que seguimos pode não ser a que tenha sentido noutro sistema planetário; o que pode ser contraditório para nós poderá não ser para habitantes de outra galáxia e assim por diante.” Vamos analisar por partes. A teoria da relatividade afirma exatamente o contrário: As leis da física tem a mesma forma em qualquer referencial. Este é o princípio da covariância da relatividade geral. Veja (infelizmente a wikipedia em portugues não trata bem este tópico; segue o link para a wikipedia em ingles http://en.wikipedia.org/wiki/General_covariance). Portanto, um observador na Terra e outro fora do sistema solar determinarão exatamente as mesmas leis fundamentais do universo. Possivelmente ela se refere a observações que dependem do referencial, e portanto, do observador. Isso existe mesmo na relatividade restrita. Por exemplo, se eu tenho uma régua de 1 metro de comprimento, um outro observador em movimento medirá a minha régua e afirmará que ela mede menos de 1 metro. Esse é o efeito da contração de Lorentz da relatividade restrita. Veja (novamente, apenas em inglês: http://en.wikipedia.org/wiki/Lorentz_contraction). O mesmo ocorre com um relógio em movimento, ele parece marcar o tempo mais devagar, e é chamado dilatação temporal (veja: http://en.wikipedia.org/wiki/Time_dilation). Esses efeitos são bem conhecidos, compreendidos, e testados experimentalmente. Diferentes observadores medem diferentes intervalos de tempos e comprimentos diferentes. São quantidades cuja medida dependem do observador. Já as leis fundamentais daa física são independentes do observador. Parece que reside aí a confusão. Portanto, continua verdadeiro que as leis da física são independentes do observador.

Acho que é muito importante o que é ensinado em qualque nível do ensino, seja público ou privado, básico ou superior. É necessário formar e informar nossos alunos corretamente. Lamento que textos ambíguos e/ou contendo erros sejam utilizados e é nosso dever tentar localiza-los e corrigi-los. Por isso acho importante a sua iniciativa e o congratulo bastante.

Espero ter conseguido sanar algumas de suas dúvidas. Caso seja necessário sinta-se a vontade para me contactar e obter mais esclarecimentos.

Atenciosamente,

12 Apr

Sócrates e o sofismo

Assisti em 2005 a uma palestra do Jaa Torrano e ele, dentre muitas coisas, disse uma que eu achei particularmente curiosa.

O mito de Prometeu que Protágoras apresenta no diálogo “Protágoras” coloca a origem da política nas mãos de Zeus e difere um pouco da versão de Hesíodo.

http://www.consciencia.org/antiga/plapro.shtml

Este pequeno texto dá conta de algumas relações.

Pois bem, Torrano afirmou que no mito Zeus beneficia os homens por conta da concepção platônica de que é impossível algum mal surgir dos deuses. Esse é o dorso da crítica de Platão a Homero, no livro III da República. Homero retrata os deuses fazendo inequidades típicas dos mortais.
Dessa forma, numa visão platônica, seria impossível o castigo de Zeus aos homens que é endossado no mito, a coisa da criação de Pandora.
O ponto realmente duvidoso é que Torrano afirmou que os sofistas mereciam um imenso respeito por parte de Platão, que afirma, no diálogo, que Protágoras era o homem mais sábio da Grécia. Apesar da ironia dessa afirmação, Torrano afirma que os sofistas eram muito considerados e mesmo necessários para o filósofo. Isso justificaria o retrato de Aristófanes de Sócrates como mais um sofista e explicaria porque Protágoras não atribuiu o mal dos homens a um deus, mas ao contrário, um benefício, a política.

Vale ressaltar que o grosso das críticas a Homero são feitas nos livros II e III da República, diálogo de maturidade, ao passo que Protágoras é um diálogo de juventude.

O resgate do valor positivo dos sofistas aconteceu, principalmente, com a efervescência helenística e os novos estudos a partir do século XIX, consolidando-se no XX, quando foi apontado o valor democrático da atividade sofística. Porém, a tradição triunfante é platônico-aristotélica, inimiga, portanto dos sofistas.

Da série: Posts que ninguém deu a mínima pelota. Está lá no Fórum Consciência

12 Apr

Passagem do assombro para a Filosofia

Na Metafísica de Aristóteles, livro I capítulo 2, 982b e seguintes, está a célebre afirmação, que na tradução dos Pensadores (Cocco), ficou assim: “Foi, com efeito, pela admiração que os homens, assim hoje como no começo, foram levados a filosofar, sendo primeiramente abalados pelas dificuldades mais óbvias e progredindo em seguida pouco a pouco até resolverem problemas maiores”.

No texto citado, a nota 15, de Joaquim de Carvalho, já nos dá a pista do uso da palavra thaumazein em Platão, no Teeteto, de que “a admiração é o princípio da filosofia”.

O trecho diz o seguinte:

“Sócrates — Estou vendo, amigo, que Teodoro não ajuizou erradamente tua natureza, pois a admiração é a verdadeira característica do filósofo. Não tem outra origem a filosofia. Ao que parece, não foi mau genealogista quem disse que Íris era filha de Taumante. Porém já começaste a perceber a relação entre tudo isso e a proposição que atribuímos a Protágoras? Ou não?”

Pesquisando na web achei esse texto, muito interessante, sobre o contexto específico do uso da palavra nos dois trechos.

http://www.apaclassics.org/AnnualMeeting/03mtg/abstracts/ranner.html

Muito bem. A questão que surge é se esse thaumazein pode ser aproximado ao famoso efeito-tremelga de Sócrates em seus interlocutores, na irônica fala de Mênon em diálogo homônimo. Na tradução inglesa de Jowett, a fala de Mênon ficou assim

“MENO: O Socrates, I used to be told, before I knew you, that you were always doubting yourself and making others doubt; and now you are casting your spells over me, and I am simply getting bewitched and enchanted, and am at my wits’ end. And if I may venture to make a jest upon you, you seem to me both in your appearance and in your power over others to be very like the flat torpedo fish, who torpifies those who come near him and touch him, as you have now torpified me, I think. For my soul and my tongue are really torpid, and I do not know how to answer you; and though I have been delivered of an infinite variety of speeches about virtue before now, and to many persons–and very good ones they were, as I thought–at this moment I cannot even say what virtue is. And I think that you are very wise in not voyaging and going away from home, for if you did in other places as you do in Athens, you would be cast into prison as a magician”

A tal tremelga em grego chama-se NARKO, uma palavra que vai ser usada na farmacologia, dando origem ao português narcótico. Então, a princípio, a ação socrática parece se aproximar mais de um entorpercimento que gera paralisia do que de uma admiração. Seria a admiração (em inglês wonder) também uma forma de paralisia?

Esse é um dos pontos chaves de todos os diálogos aporéticos, onde os interlocutores de Sócrates serão obrigados a admitir que não sabem precisar um conceito que julgavam estar muito bem definido. Notadamente, falando-se da virtude, no próprio Mênon, se ela pode ser ensinada ou no Laques, o diálogo com o general sobre a coragem. Lembrando também do percurso descrito na Apologia cujo primeiro passo para o conhecimento é o admitir da própria ignorância.

Essa é uma da série “Grandes posts que ninguém deu a mínima pelota”. Se quiser debater está lá no Fórum Consciência: http://www.consciencia.org/forum/index.php?topic=1146.0

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