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Julieta dos espíritos de federico fellini

Exemplos da reação da crítica especuializada em jornais e revistas a Julieta dos Espíritos (Giulietta degli spiriti, de Federico Fellini, de 1965.

Giovanni Grazzini no Corriere della Sera de 23 de Outubro de 1965: “Sabemos que a imaginação de Fellini, nos últimos anos, é marcada por características chamadas com frequência de estilo barroco: o delírio ornamental, a santidade na decoração. A crise conjugal de Giulietta aparece quase sufocada pelo luxo cenográfico, as cores estripidantes e sensíveis de cor, a pompa dos trajes bizarros, mas isso não compromete um autêntico toque de humanidade”.

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Aurelio Ferrero no Il Mondo Nuovo, 14 de Novembro de 1965: “A pobreza e o maniqueísmo desta mitologia cresce e dilata-se desnfreadamente, numa total dissipação e na contaminação viciante de imagens oníricas, no gosto incontrolado por uma deformação que neutraliz, anula e apassiva a observação crítica da sociedade de ostumes. A intensa imaginação do diretor, em outras ocasiões flúida e criativa, torna-se estagnada e lenta, e desta maneira nenhuma libertação é possível. No final, quando Giulietta desobedece a mãe pela primeira vez e aquela porta abre-se com a menina amarrada na grade das freiras e esmaga-se as obsessões e delírios do matriarcado, casamento e sexo, ocorrendo assim uma superação iimediata do complexo, o espectador sente que o diretor reclama uma libertação que não é dolorosa e não implica no crescimento do caráter da personagem, mas é exterior, e cresce num universo abstrato mitificado.”

Mino Argentieri Min o, no Rinascita de 30 de outubro de 1965:. “Não há neste filme, em comparação com Oito e Meio, uma maiior compactação, mesmo que Fellini não se esqueça de sua poética,dotada de fôlego curto. Onde está, então, o limite do filme? Na superficialidde, no esquematismo de um personagem passivo – levado até os limites da abstração e do símbolo – incorpóreo e inverossímel “

Goffredo Fofi no Quaderni piacentini de novembro-dezembro de 1965: “Giulietta dos Espíritos, uma espécie de paródia simples de Oito e meio, um filme dominado pela insuportável paciência negativa de Masina, um pastiche colorido, um reader’s digest da medíocre cultura da clásse média italiana, é de uma banalidade e mediocridade deprimentes. Em Giulietta tudo é repetição e bons modos. “

Leo Pastelli no La Stampa, 29 de outubro de 1965: “O que poderia ser uma história de linhas finas e internas, nas mãos de Fellini se torna uma fantasmagoria de formas e cores objetivando pensamentos, lembranças, sonhos e visões de personagem, cujo caráter não é bem certo que é sempre a da Sra. Julieta por longos períodos e não se torna abusivo o diretor. Outro ensaio substancial, portanto, a tumultuada, a imaginação de Fellini barroco, e com o seu maravilhoso poder de ordenar a visão de mundo do cinema, aqui enriquecido pelo uso da cor, ele tratada, pode-se dizer, pela primeira vez e com efeitos surpreendentes. Mas também quebrar um filme, que resume as várias razões para o diretor (O Sheik Branco a ser oito anos e meio ), transcende-los e deixa inalteradas, e por isso um pouco “cansado, a perspectiva do artista.”

Morando Morandini no L’Osservatore Politico Letterario de 12 de dezembro de 1965: “Paradoxalmente, pode-se argumentar que Julieta dos Espíritos é um filme para folhear mais do que apenas ver, a melhor maneira de sabore-alo seria dividi-lo em mil cenas, e depois examiná-las uma por uma, como se faz com um álbum. Suspeita-se que Fellini foi influenciado -. e controlado – pelas cores, não só de Julieta “

. Jean-Louis Bory em Arts, de 20 de outubro de 1965: “Julieta dos Espíritos é o mais recente trailer que Fellini-Barnum acrescentam à sua caravana . Definitivamente realista e sobrenatural, presente, passado e possível encontram-se no mesmo nível dentro do barroco felineano, onde a convicção pessoal interna é pesquisada dentro do relevo da realidade convencional. O Anjo bizarro é acompanhado da iconografia sulpiciana. O barroco místico junto com o barroco formal fazem esquecer todo o resto, tornando-se puramente divertido. Rimos muito. “

Gordon Gow em Films and Filming, abril de 1966: “Os recursos típicos do filme são: uma câmera de frenética, imagens implacáveis combinadas com um domínio exclusivo de luz e cor. Este é um filme de mestre, não só em relação ao trabalho imediatamente anterior de Fellini, Oito e meio, mas também próximo de Cidadão Kane de Welles e Marienbad de Resnais. Ela se move livremente e de forma significativa no tempo e no espaço, na imaginação e na memória.”

Gian Piero Brunetta em Cent’anni di cinema italiano (Laterza, 1991)::. “Com uma cor que acentua a investigação anti-naturalista e simbólica, Fellini não põe nenhum freio para conter seus instintos criativos. De todas as viagens feitas na memória durante sua atividade, este é o único que tenta explorar o mundo da contraparte feminina, vendo-o animado e coabitado por uma multidão de presenças saídas diretamente da iconografia da religião católica e das figuras das sacerdotisas do sexo, que convidam a liberação do corpo e transgressão dos mandamentos e tabus. Giulietta coloca em cena rituais e comportamentos em processo de desaparecimento, como fragmentos residual de civilizações que estão desaparecendo, e estabelece uma referência adicional para o trabalho do diretor. ”

Traduzido do verbete Giulietta degli spirit da wikipedia italiana.

François de Malherbe

malherbe, françoisFrançois de Malherbe

Nasceu em Caen (França) em 1555 morreu em Paris (França) em 1628.

François de Malherbe nasceu no coração de uma família nobre protestante, e desde cedo mostrou um forte interesse pela poesia. Ingressou na corte em Paris e foi nomeado poeta oficial de Henrique IV a partir de 1605. Ele mantém uma poesia estruturada com rigor onde prevalace o lirismo prevalece. A sua concepção acerca da poesia é apresentada em , odes, estâncias, canções e sonetos e outras composições.

Com sua linguagem clara e precisa, reagiu pelo rigor na linguagem contra o preciosismo de Pierre Ronsard e as formas poéticas do grupo Pléiade. Nicolas Boileau (historiador de Louis XIV), em sua obra « l’Art poètique » de 1674, o homenageou destacando como o criador da formulação poética que passou a predominar no século XVII na poesia chamada “clássica”.

Algumas frases de François de Malherbe:

“Mas ela era do mundo em que vivem as coisas mais belas
Têm o pior destino:
E, uma Rosa viveu como uma Rosa,
O espaço de uma manhã.” Consolation à Monsieur du Perier

But she was of this world, where the most beautiful things
have the worst fate;
and, a rose, she lived as roses live,
the space of a morning.

Mais elle était du monde ,où les plus belles choses
Ont le pire destin,
Et rose elle a vécu ce que vivent les roses,
L’espace d’un matin.

“C’est Dieu qui nous fait vivre – C’est Dieu qu’il faut aimer.”
“É deus nos faz vivos. É a Deus que se deve amar.”
François De Malherbe

“Et les fruits passeront la promesse des fleurs.”
“E os frutos transmitem a promessa das flores.
François De Malherbe

“Je défendrai jusqu’à la mort la pureté de la langue française.”
Eu defenderei até a morte a pureza da língua francesa.
François De Malherbe

Mais poesias, frases, citações de François de Malherbe lá pela wiki e Gallica.

Auto da barca do inferno – resumo

O Auto da barca do inferno é a mais famosa peça da Trilogia das barcas, de Gil Vicente, formada ainda pelo Auto da barca do purgatório e pelo Auto da barca da glória.

Na barca do inferno encontramos duas barcas ancoradas num braço de rio. Uma delas é comandada pelo Diabo; a outra, por um Anjo. Vários tipos característicos da sociedade portuguesa, ao morrerem, desfilam diante das barcas e são interrogados pelo Diabo e pelo Anjo, após o que embarcam ou em direção ao Inferno (se forem condenados), ou em direção ao Paraíso (se forem absolvidos).

De todos eles, apenas cinco (que representam dois tipos humanos) – um parvo e quatro cavaleiros que morreram lutando em nome de Deus – embarcam em companhia do Anjo. Os demais – um fidalgo, um sapateiro, uma alcoviteira, um padre e sua amante, um judeu, um enforcado, um agiota, um juiz – vão todos para a barca do Diabo, super-lotando-a.

(COELHO, Jacinto do Prado, org. Dicionário das literaturas portuguesa, brasileira e galega. 3. ed. Porto, Figueirinhas, 1978. p. 77.)

Farsa de Inês Pereira – resumo

Farsa de Gil Vicente representada no convento de Tomar em 1523. O tema é dado pelo seguinte provérbio: “Mais quero asno que me leve, que cavalo que me derrube”. A heroína, Inês Pereira, embora pertença à classe popular, sonha com um marido “discreto”. Repele Pêro Marques, filho dum camponês rico, e casa com um escudeiro pelintra que a maltrata. O marido, porém, morre em Africa, e Inês, ensinada desta vez pela dura experiência, desposa Pêro Marques e depressa aceita a corte dum falso ermitão. Para cúmulo do embuste, é o novo marido que a leva ao eremitério e atravessa um rio com ela às costas.

A comadre Lianor Vaz, dois judeus casamenteiros e moças e mancebos, amigos de Inês, animam o auto – sem dúvida a melhor farsa vicentina.

(COELHO, Jacinto do Prado, org. Dicionário das literaturas portuguesa, brasileira e galega. 3. ed. Porto, Figueirinhas, 1978. p. 77.)

Principais autores e obras

Duarte Galvão

(século XV)

Fernão Lopes

(1385P-1460?)

Garcia de Resende

Crônica de D. Afonso Henriques

Crônica del-Rei D. Pedro I; Crônica del-Rei D. Fernando; Crônica del-Rei D. João I-la.eT. partes

Crônica del-Rei D. João II

Gil Vicente

(1465?-1537?)

Gomes Eanes Zurara

(14157-1474?)

Rui de Pina

(século XV)

Monólogo do vaqueiro ou Auto da visitação; Auto da índia; O velho da horta; Quem tem farelos?; Auto da barca do inferno; Auto da barca do purgatório; Auto da barca da glória; Auto da alma; Farsa de Inês Pereira; Auto da feira; Auto da Lusitânia; Floresta de enganos (teatro)

Crônica del-Rei D. João I -3?parte; Crônica do Conde D. Pedro de Meneses; Crônica do Conde D. Duarte de Meneses; Crônica dos feitos da Guiné

Crônica de D. Sancho I; Crônica de D. Afonso II; Crônica de D. Afonso IV

Prefixos de origem grega

Prefixos de origem grega

Prefixo

Sentido

Exemplo

a, an

negação, privação

ateu, anarquia

anfi

duplicidade, dualidade, circularidade

anfíbio, anfiteatro

anti

ação contrária

antiaéreo, antipatia

arce, arqui

superioridade

arcebispo, arquibancada

dia

movimento através

diagonal, diâmetro

dis

dificuldade

disenteria, dispnéia

endo

posição interior

endoscopio, endotérmico

epi

posição superior

epitáfio, epiderme

eu

bem, bom

eufemismo, eufonía

hemi

metade

hemiciclo, hemisfério

hiper

excesso

hipertrofia, hipertensão

meta

transformação

metamorfose, metáfora

para

ao lado de

paralelo, parágrafo

peri

em torno de

perímetro, periscópio

sin

simultaneidade, reunião

simpatia, sincrónico

prefixos de origem latina

prefixos de origem latina

Alguns prefixos de origem latina

Prefixo de origem latina

Sentido

Exemplo

ambi

duplicidade, circularidade

ambivalente, ambidestro, ambiente

ante

anterioridade

antebraço, antepor

bi, bis

dois

bienal, bisavô

circum

movimento em torno

circunferência, circunavegação

eis

posição aquém

cisplatino, cisalpino

contra

oposição

contradizer, contra-ataque

infra

posição inferior, abaixo

infravermelho, infra-assinado

intra, intro

posição interior

intravenoso, introvertido

justa

posição ao lado

justapor, justalinear

mal, male

mal

malcriado, maledicente

pen

quase

penumbra, península

per

movimento através

percorrer, perambular

pos

posição posterior

póstumo, postergar

pre

anterioridade

prefácio, preconceito

pro

movimento para frente

projetar, procrastinar

re

repetição, movimento para trás

refazer, repensar, refluir, repelir, reverter

retro

movimento mais para trás

retroceder, retrocesso, retrovisor

semi

metade, quase

semicírculo, seminu

trans

posição além de

transatlântico, transamazônica

tri

três

-

tricampeão, tricolor

 

vis, vice

substituição

visconde, vice-reitor

mum

muitos

multinacional, multicolor

prefixos de origem grega

Radicais de origem no latim

Radicais de Origem Latina

Radical

Significado

Exemplo

agri

campo

agricultor (que cultiva o campo)

arbori

árvore

arborizar (plantar árvores)

avi

ave

avícola (viveiro de aves; local onde se criam ou vendem aves)

beli

guerra

belicoso (guerreiro)

capiti

cabeça

 

cida

que mata

inseticida (que mata insetos)

cola

que cultiva, que habita

vinícola (que cultiva vinho) silvícola (que habita a floresta)

fero

que contém

aurífero (que contém ou produz ouro)

fide

fidedigno (digno de fé)

forme

forma

biforme (que possui duas formas)

frater

irmão

fraternidade (irmandade)

fugo

que foge

lucífago (que foge da luz)

gero

que contém ou produz

lanígero (que contém lã)

loco

lugar

localizar (fixar o lugar)

ludo

jogo

ludoterapia (tratamento através de jogos)

mater

mãe

materno (relativo a mãe)

multi

muito

multilateral (que tem muitos lados)

oni

tudo, todo

onipresente (que está presente em tudo)

paro

que produz

ovíparo (que produz ovos)

pater

pai

paterno (relativo a pai)

pede

pedestre (que anda a pé)

pisei

peixe

piscoso (cheio de peixes)

pluri

vários

pluricelular (que possui várias células)

pueri

criança

pueril (infantil)

quadri

quatro

quadrimotor (que tem. quatro motores)

silva

floresta

silvícola (que vive nas florestas)

umbra

sombra

penumbra (quase sombra)

vermi

verme

vermífugo (que espanta verme)

voro

que come

carnívoro (que come carne)

Alguns radicais de origem latina, Veja também radicais gregos

Radicais Gregos

Radicais s Língua Portuguesa de origem etimológica no grego

Radical

Significado

Exemplo

acro

alto

acrofobia (medo de altura)

aero

ar

aeronáutica (navegação pelo ar)

agogô

o que conduz

demagogo (o que conduz o povo)

antropo

homem

antropologia (estudo dos grupos humanos)

arqueo

antigo

arqueologia (estudo de coisas antigas)

auto

de / por si mesmo

automóvel (que se move por si mesmo)

biblio

livro

biblioteca (coleção de livros)

bio

vida

biologia (estudo dos seres vivos)

caco

mau

cacofonia (mau som)

cali

belo

caligrafia (bela escrita)

cardio

coração

cardiologia (estudo do coração)

cefalo

cabeça

cefalalgia (dor de cabeça)

cosmo

mundo

cosmopolita (cidadão do mundo)

cracia

governo

democracia (governo do povo)

cromo

cor

acromia (ausência de cor)

crono

tempo

cronometro (o que mede o tempo)

demo

povo

democracia (governo do povo)

eco

casa, habitat

ecologia (estudo do meio ambiente)

étimo

verdadeiro

etimologia (estudo do verdadeiro sentido das palavras)

etno

raça, povo

etnologia (estudo das raças)

fobia

medo, aversão

fotofobia (aversão à luz)

fono

voz, som

fonógrafo (aparelho que reproduz sons gravados em disco

gastro

estômago

gastrite (inflamação do estômago)

geo

terra

geologia (estudo da terra)

grafia

escrita

ortografia (escrita correta)

hemo

sangue

hemorragia (derramamento de sangue)

hidra

água

hidrômetro (o que mede a água)

hipno

sono

hipnofobia (medo de dormir)

hipo

cavalo

hipódromo (local onde correm cavalos)

homo

mesmo, igual

homógrafo (que tem a mesma escrita)

lito

pedra

litogravura (gravura feita em pedra)

mega

grande

megalópole (grande cidade)

metro

medida

cronômetro (o que mede o tempo)

micro

pequeno

micróbio (pequeno ser vivo)

morfo

forma

morfologia (estudo das formas)

necro

morto

necrologia (conhecimento dos mortos)

neo

novo

neologismo (palavra nova)

orto

certo, correto

ortografia (escrita correta)

pato

doença

patologia (estudo das doenças)

poli

muitos

polissílabo (que tem muitas sílabas)

pseudo

falso

pseudônimo (falso nome)

psico

alma

psicologia (estudo da alma)

taqui

rápido

taquigrafia (escrita rápida)

teca

coleção

tele

longe

telefone (o que fala de longe)

teo

deus

teocracia (governo dos deuses)

termo

calor

termômetro (o que mede o calor)

trofia

desenvolvimento

atrofia (ausência de desenvolvimento)

xeno

estrangeiro

xenofobia (aversão ao estrangeiro)

zoo

animal

zoologia (estudo dos animais)

 

Fonte: Ernani & Nicola, Língua Literatura e Redação. Veja também: Radicais Latinos

No texto do mestre Monteiro, a questão das diferenças entre ser e estar, psicológico e social, corpo e mente junto com espaço pessoal e social…

Um homem de consciência – Monteiro Lobato

Chamava-se João Teodoro, só. O mais pacato e modesto dos homens. Honestíssimo e lealíssimo, com um defeito apenas: não dar o mínimo valor a si próprio. Para João Teodoro, a coisa de menos importância no mundo era João Teodoro.

Nunca fora nada na vida, nem admitia a hipótese de vir a ser alguma coisa. E por muito tempo não quis nem sequer o que todos ali queriam: mudar-se para terra melhor.

Mas João Teodoro acompanhava com aperto de coração o desaparecimento visível de sua Itaoca.

- Isto já foi muito melhor, dizia consigo. Já teve três médicos bem bons -agora só um e bem ruinzote. Já teve seis advogados e hoje mal dá serviço para um rábula ordinário como o Tenório. Nem circo de cavalinhos bate mais por aqui. A gente que presta se muda. Fica o restolho. Decididamente a minha Itaoca está se acabando…

João Teodoro entrou a incubar a idéia de também mudar-se, mas para isso necessitava de um fato qualquer que o convencesse de maneira absoluta de que Itaoca não tinha mesmo conserto ou arranjo possível.

- É isto, deliberou lá por dentro. Quando eu verificar que tudo está perdido, que Itaoca não vale mais nada de nada, então arrumo a trouxa e boto-me fora daqui.

Um dia aconteceu a grande novidade: a nomeação de João Teodoro para delegado. Nosso homem recebeu a notícia como se fosse uma porretada no crânio. Delegado, ele! Ele que não era nada, nunca fora nada, não queria ser nada, não se julgava capaz de nada…

Ser delegado numa cidadezinha daquelas é coisa seríssima. Não há cargo mais importante. É o homem que prende os outros, que solta, que manda dar sovas, que vai à capital falar com o governo. Uma coisa colossal ser delegado – e estava ele, João Teodoro, de-le-ga-do de Itaoca!…

João Teodoro caiu em meditação profunda. Passou a noite em claro, pensando e arrumando as malas. Pela madrugada botou-as num burro, montou seu cavalinho magro e partiu.

Antes de deixar a cidade foi visto por um amigo madrugador.

- Que é isso, João? Para onde se atira tão cedo, assim de armas e bagagens?

- Vou-me embora, respondeu o retirante. Verifiquei que Itaoca chegou mesmo ao fim.

- Mas, como? Agora que você está delegado?

- Justamente por isso. Terra em que João Teodoro chega a delegado, eu não moro mais. Adeus.

E sumiu.

(LOBATO, Monteiro. Cidades mortas. São Paulo, Brasiliense, s.d.)

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