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Da primeira educação

Da primeira educação – Montaigne

Se tivesse filhos varões eu lhes desejaria a minha sorte; o bom pai que Deus me deu e que de mim só terá a mais profunda gratidão, desde o berço enviou-me a criar em uma de suas pobres aldeias e aí me manteve durante a infância e mesmo depois, acostumando-me à mais baixa e vulgar maneira de viver. Não vos encarregueis jamais de sua alimentação e ainda menos deixai a vossas mulheres o encargo; deixai-os antes criarem-se ao acaso, sob as leis populares e naturais; entregai ao costume a tarefa de guiá-los à frugalidade e à austeridade; que tenham antes de descer da vida dura que subir a ela. Sua intenção (do pai) era também a de ligar ao povo, a essa espécie de homens que necessitam de nosso auxílio; desejava que eu olhasse mais para os que me estendem os braços do que para os que me voltam as costas. Foi por essa razão que me fez batizar por pessoas da mais baixa condição, a fim de que lhes fosse grato e as amasse.

Seu propósito não foi em absoluto mal sucedido; dedico-me de bom grado aos humildes, já porque maior mérito não há, já por uma natural compaixão que muito pode em mim…

(Idem).
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Excerto dos Ensaios.. Trad. de Sérgio Milliet

Para bem viver

Para bem viver – Michel de Montaigne (1533-1592)

…Assim viveram os sábios: e essa inimitável aplicação à virtude, que nos impressione em tal ou qual Catão, esse humor severo até à importunidade, assim se submeteu e se dobrou às leis da condição humana, às leis de Venus e de Baco.

A complacência e a condescendência assentam bem às almas fortes e generosas. Epaminondas não considerava que misturar-se às danças dos rapazes de sua cidade, cantar e tocar, e trabalhar com eles, fosse coisa suscetível de diminuir a honra de suas gloriosas vitórias ou a perfeição de costumes que nele havia. E entre as muitas ações admiráveis de Cipião, o Antigo, personagem digna de ascendência celeste, nenhuma me parece mais preciosa do que vê-lo displicente e puerilmente divertir-se a juntar conchas e brincar de sela com Lélio à beira-mar; e quando fazia mau tempo entreli-nha-se a escrever comédias acerca das mais populares e vulgares ações dos homens…

.. .Nada é mais belo e legítimo do que desempenhar a contento o papel de homem; nem há ciência mais árdua que a de bem viver a vida; e das doenças a mais tenebrosa é a de odiar e desprezar o nosso ser… Ordeno à minha alma que contemple a dor e a volúpia com igual firmeza mas com severidade aquela e com alegria esta; e, segundo o que lhe podem dar, que procure tão cuidadosamente anular a primeira quanto aumentar a segunda.

(Idem).

Excerto dos Ensaios. Trad. de Sérgio Milliet.

Do gozo sadio dos prazeres do corpo – Michel de Montaigne

…Eu que vivo de um modo chão, detesto essa inumana sapiência que nos quer tornar inimigos e contemptores da cultura física. Considero tão grande injustiça contrariar as volúpias naturais quanto apreciá-las sem medida…

Existem pessoas, como afirma Aristóteles, que os desprezam (os prazeres físicos) com feroz estupidez. Outros assim procedem por ambição. Por que não renunciam também a respirar? Por que não vivem apenas do que é seu, e não recusam a luz que é gratuita e não lhes custa nem invenção nem esforço ?… Odeio que nos digam de manter o espírito nas nuvens quando temos o corpo à mesa. Não quero que o espírito fique preso à mesa, nem que chafurde na comida, mas quero que nêsse mister se aplique. Quando danço, danço; quando durmo, durmo; e mesmo se, passeando em um lindo vergel, meus pensamentos se fixam em ocorrências estranhas, procuro conduzi-las pelo menos durante algum tempo, novamente ao passeio, ao vergel, à doçura da solidão e a mim mesmo.

A natureza proveu a que as ações úteis às nossas necessidades nos fossem igualmente voluptuosas; e a elas nos convida não somente pela razão mais ainda pelo apetite; é injustiça corromper-lhe as regras…
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Somos loucos varridos. “Êle passou a vida na ociosidade”, dizemos; ou “nada fiz hoje”. Pois então não vivemos? É essa não só a mais essencial mas ainda a mais digna de nossua ocupações. “Se me tivessem educado nas grandes ações eu mostraria do que sou capaz”. Mas se soubemos conduzir nossa vida realizamos a mais bela de todas as tarefas. Para mostra-se e agir não precisa a natureza da fortuna mostra-se igualmente em todos os degraus, na frente como atrás do pano. Soubemos acertar os nossos costumes? Pois fizemos mais do qne aqueles que souberam apenas compor livros. Soubemos descansar? Pois mais fizemos do que aqueles que tomaram impérios e cidades. A gloriosa obra-prima do homem é viver certo…

(Idem).

Trad. de Sérgio Milliet, Bib. do Pensamento Vivo.

Doenças e saúde

Doenças e saúde

São ou doente sempre me deixei levar pelos apetites que me assaltam. Dou grande autoridade aos meus desejos e inclinações. Mão gosto de curar o mal pelo mal e detesto os remédios que importunam mais do que a doença. Estar sujeito a cólicas e se abster de comer ostras sáo dois males em vez de um; a enfermidade nos belisca de um lado, a regra nos apoquenta de outro. Desde que corremos o risco de errar, erremos de preferência após o prazer. O mundo é mal feito e só imagina coisa útil entre as penosas; é-llie suspeita a facilidade. Felizmente, em muitas coisas, meu apetite se acomodou com bastante facilidade a meu estômago; a acrimônia e o picante dos molhos agradavam-me quando jovem; aborre-cendo-os mais tarae o estômago, desapareceu incontinente a propensão. O vinho prejudica os enfermos, pois é a primeira coisa que me desgosta, de um invencível desgosto. Tudo o que como com desagrado me prejudica e nada me faz mal quando o como com fome e alegria. Nunca uma ação que me agradasse realmente me loi prejudicial; e meu prazer sempre teve razão contra quaisquer prescrições médicas…

.. .É preciso suportar com humildade as leis de nossa condição; somos feitos para envelhecer, enfraquecer, adoecer, a respeito da medicina…

É preciso aprender a suportar o que não é possível evitar. Assim como a harmonia do mundo nossa vida é composta de coisas contrárias, e de diversos tons, doces e ásperas, pontudas e chatas, moles e duras. Que poderia exprimir o músico que só gostasse de um tom? É necessário que saiba utilizar a todos e misturá-los; do mesmo modo nos cabe fazer com os bens e os males que são inerentes à nossa vida. Nosso ser não subsiste sem essa mistura em que cada parte é tão imprescindível quanto a outra…

(Idem).

Excertos dos Ensaios de Montaigne
Das leis

.. .Tem a razão tantas formas que não sabemos a qual apegar-nos; assim também a experiência. A conseqüência que queremos tirar da observação dos acontecimentos não é segura, tanto mais quanto são eles sempre disse-melhantes. Não há qualidade alguma tão universal, nessa imagem das coisas, como a variedade, a diversidade…

Não me agrada entretanto a opinião daquele que imaginava, através de uma multidão de leis, orientar precisamente a autoridade dos juizes dentro de jurisdições predeterminadas; não percebia que há tanta liberdade e elasticidade na interpretação quanto na feitura das leis… Ainda deixamos tanta latitude para a opinião dos juizes, e sua decisão, que não houve jamais liberdade tão grande e licenciosa. Que adiantou aos nossos legisladores a escolha de cem mil exemplos e fatos específicos a fim de dar a cada um uma lei? Êsse número ainda não está em proporção com a variedade infinita das ações humanas. Multiplique-se o número por cem e nem assim acontecerá que entre os acontecimentos porvindouros nenhum exista que não possa, entre todos os exemplos escolhidos, emparelliar-se a tal ponto que não sobre lugar para a interpretação; sempre haverá circunstâncias e diferenças que exijam consideração especial no julgamento. Há pequena relação entre nossas ações, em perpétua mutação, e as leis que são fixas e imóveis. As leis mais úteis são as mais simples e gerais; e quanto menor número melhor; e em verdade creio que seria mais desejável não ter leis do que tê-las em tão grande quantidade como nos acontece.

A natureza no-las outorga sempre mais felizes do que aquelas que nós nos damos…

(Livro III, cap. 13: Da experiência).

Dos juristas

Por que nossa linguagem comum, tão acessivel a qualquer uso, se torna obscura e ininteligível em um contrato ou testamento? E por que quem se exprime claramente no que quer que diga ou escreva não encontra então jeito de se expressar sem hesitações ou contradições? É sem dúvida porque os mestres nessa arte, aplicando-se com particular atenção na seleção das palavras solenes e das cláusulas requintadas, tanto pesam cada sílaba, tanto acertam cada juntura, que se atolam afinal e se embrulham numa infinidade de imagens e sutilezas. Não podem assim encaixá-los em nenhum regulamento ou prescrição nem torná-los de modo algum inteligíveis…

(Idem).
Trad. de Milliet. Bib. do Pensamento vivo.

Do valor da vida
– Montaigne
.. .Essa expressão trivial “passatempo”, ou “passar o tempo”, traduz o pensar dessas pessoas prudentes que imaginam dar a melhor conta de sua vida, deixancio-a deslizar, passar, perder-se e, no que lhes diz respeito, ignorá–la, dela fugindo como de coisa aborrecida e desprezivel; eu a vejo diferente: aprazível e Loa, ainda que nessa sua última fase em que me encontro. E a natureza no-la pôs nas mãos em tais e tão favoráveis circunstâncias que só cabe censurar a nós mesmos o fato de nos oprimir ou de ser-nos inútil. Preparo-me entretanto para perdê-la sem lamentações, mas por ser perdivel em si e não por parecer molesta ou importuna. É preciso saber gozá-la e eu a gozo duplamente, pois a medida do prazer depende da maior ou menor aplicação que nele pomos. E nesta hora, em que vejo a minha já tão curta no tempo, tudo faço para aumentar-lhe o valor. Quero estancar-lhe a rapidez da fuga pela celeridade que ponho no agarrá-la; e pelo vigor colocado em seu aproveitamento quero compensar a pressa de seu escoar; à proporção que a posse da vida se faz mais curta é preciso torná-la mais profunda e cheia.

Outros sentem a doçura da prosperidade; eu a sinto como êles, mas não de passagem e escorregadia; é preciso estudá-la, saboreá-la e ruminá-la para render condignamente graças a quem no-la outorga. Gozam dos outros prazeres como fazem do sono: sem o perceberem. A fim de que o próprio sono não me escapasse, determinei outrora que mo turbassem para que eu o entrevisse. Analiso o meu prazer; não o coiiio sem mais. Sondo-o e adapto minha razão a êle. Encontro-me em situação tranqüila? Alguma volúpia me faz cócegas ? Não deixo que os sentidos a roubem; associo-lhes a minha alma, não para que se prenda mas para que se regozije; não para que se perca mas para que se ache; e a emprego a pesar e apreciar o prazer e a ampliá-lo. Avalia assim quanto deve a Deus a tranqüilidade de consciência em que vive, bem como a sua liberdade quanto a outras paixões interiores, e o fato de ter o corpo em boa saúde e gozando com moderação, mas plenamente, as funções amáveis e lisonjeiras com que Deus compensa as dores e com que sua justiça o contempla também. Avalia ela ainda quanto vale se achar alojada em ponto que, para onde quer que espie, encontra sempre um céu calmo. Nenhum desejo, nenhum temor,, nenhuma dúvida perturbam o ar e não há dificuldade que sua imaginação não vença sem abalo…

Por mim, amo a vida e a cultivo tal qual Deus ma outorgou. Não vivo a queixar-me da necessidade de comer e beber, nem a lamentar que não possamos nos alimentar com aquela simples droga com que Epemiredes se saciava, nem a deplorar que os filhos não nos nasçam estúpidamente pelos dedos ou pelos calcanhares, ou que o corpo tenha desejo e pruridos. Seriam queixas absurdas e iníquas. Aceito satisfeito o que a natureza fez por mim; congratulou-me com isso. Fazemos injúria ao grande Doador recusando-lhe os dons, anulando-os e defor-mando-os…

…A natureza é um doce guia, mas não menos prudente e justo. Por toda parte procuro-lhe a pista; baralhamo-la com caminhos artificiais. Não será erro estimar menos dignas as ações necessárias? Jamais me lirarão da cabeça que não haja conveniência no casamento do prazer com a necessidade, com a qual, segundo os antigos, os Deuses sempre conspiram. Por que desconjuntarmos uma construção cuja estrutura é de uma tão íntima e fraternal correspondência? Ao coíitrário, unamo-la por mútuos serviços; que o espírito desperte e vivifique o corpo lerdo, e que o corpo detenha e fixe a Jigeireza cio espírito. Não há peça indigna de nossos cuidados nêsse presente que Deus nos deu; devemos-lhe contas até do menor pelo. E não é tarefa absconsa guiar-se o homem segundo a sua condição; ela é simples e ingênua, e o Criador no-la impôs séria e expressamente.

…Não me refiro aqui a essas almas ve-neráveis, elevadas pela religião e pela fé a um constante e consciencioso meditar acêrca das coisas divinas. Não as misturo aos pequeninos que somos, divertidos com os nossos desejos e cogitações, pois elas desdenham de se interessar pelas nossas necessidades imperiosas; e, fluidas e ambíguas, tão-sòmente ao corpo assinam o cuidado e o uso do alimento sensual e temporal.

.. .Querem colocar-se fora de si e fugir ao homem, o que é loucura; em lugar de se transformarem em anjos, transformam-se em animais; caem em vez de subir. Êsses temperamentos transcendentes me apavoram tal qual os lugares altos e inacessíveis. Por isso nada me parece mais indigente na vida de Sócrates do que os seus êxtases, e nada é mais humano em Platão do que aquilo que levava a considerarem-no divino. E, nas nossas ciências, parecem-me mais terrestres e baixas aquelas que mais alto se colocam. Nada encontro mais humilde e mortal na vida de Alexandre do que suas fantasias em torno da deificação própria. Filotas o causticou em sua resposta, de um modo assaz espirituoso. Alexandre congratulara-se com êle, por carta, pelo fato de tê-lo alinhado entre os deuses o oráculo de Júpiter-Amon: “Sinto-me feliz em consideração a ti; mas parecem-me dignos de piedade os homens que terão de viver com um homem (e obedecer–lhe) que não se satisfaz com a medida humana e a ultrapassa”.

Saber fruir lealmente o seu próprio ser é perfeição absoluta e como que divina. Procuramos outras condições por ignorarmos o ignorarmos o uso das nossas; e saímos de nós mesmos por não sabermos o que se passa em nós. Não adianta usarmos pernas de pau pois não evitam que precisemos de nossas pernas para andar; nem no mais alto dos tronos deixaremos de usar o traseiro para sentar. As mais belas vidas são, a meu ver, aquelas que se emparelham, sem milagres nem extravagâncias, ao modelo vulgar e humano… Ora, a velhice precisa ser tratada com um pouco mais de carinho. Recomendemo-la a esse Deus protetor da saúde e da sabedoria, mas para que no-la permita alegre e sociável.

(Idem).

Fonte: Bib. do Pensamento Vivo.

Weber, analisando a modernidade, identifica como um dos seus motores a dessacralização do mundo e a separação das esferas de valor. Marx também, no Manifesto Comunista, ao recapitular a ascenção da burguesia, a profanadora todas as relações clássicas de poder – inclusive as familiares, que fundamentavam a civilização, através do comércio e do mercado. A razão instrumental é que se efetiva no mundo, como lembram Horkheimer e Adorno na belíssima análise do mito de Ulisses e as Sereias, na Dialética do Esclarecimento. Ao se efetivar, ela consegue neutralizar o mítico, o mágico e as potestates, mas evidentemente precisa abrir mão de algo, precisa se fechar, ou…se auto-mutilar.

Esse me parece ser o contexto candente do clássico episódio do Pica-Pau sobre a Vassoura da Bruxa. A Bruxa quer trocar o cabo da vassoura na fábrica, mas não quer pagar, e portanto não pode: está impossibilitada. Pica-Pau, dedicado funcionário, cobra os 50 centavos de todas as maneiras, inclusive com mensagens no céu. A velha magia precisa, pois, se render aos novos tempos, ao materialismo capitalista. Pica-Pau, normalmente um vagabundo, nunca deixa de ser o moço americano, já que inclusive se aproveita contra índios e bandoleiros do velho oeste, em outros episódios.

Veja também:

Do casamento – Michel de Montaigne

…Não sei de matrimônios que mais cedo falhem a desmoronem do que os realizados à base da beleza e dos desejos amorosos-; exigem fundamentos mais sólidos e constantes e atilada prudência; o arroubo impaciente de nada vale…

Um bom casamento, caso haja, deve recusar a companhia e as condições do amor e ater-se às da amizade. É uma doce comunhão, cheia de constância, de confiança e de um número infinito de úteis e sólidos deveres e obrigações. Não quererá servir de amante a seu marido a mulher que lhe experimentar o gosto (do casamento). Pois se estiver alojada na afeição de seu esposo como esposa, muito mais honrosa e seguramente alojada estará…

No Blog que ninguém comenta, mais um excerto clássico de Montaigne.

Michel de Montaigne
Dos comentários

…Jamais dois homens julgaram igualmente a mesma coisa; é impossível verem-se duas opiniões exatamente semelhantes, não somente em homens diferentes mas ainda 110 mesmo homem em horas diversas. Geralmente encontro do que duvidar no ponto exato que escapou ao comentário. Tropeço mais fácil-mente em terra chã, assim como certos cavalos que conheço cambaleiam mais comumente em caminho liso.

Quem não dirá que o comentário aumenta as dúvidas e a ignorância, se não há nenhum livro humano ou divino, de utilidade para o mundo, cuja interpretação elimine as dificuldades? 0 centésimo comentário envia-nos ao seguinte, mais espinhoso e escabroso do que o procedente. Quando convimos afinal em que um livro é completo, em que nada mais há que dizer dele?…Mais difícil é interpretar as interpretações do que as próprias coisas, e há maior número de livros acerca de livros que dc assuntos: nada mais fazemos do que nos entreglosar. Formigam os comentários; de autores há grande carestia…

(Livro III, cap. 13. Da Experiência.).
Trad. de Sérgio Milliet.
Biblioteca do Pensamento Vivo

Montaigne sobre as leis

Das leis -Michel de Montaigne

.. .Tem a razão tantas formas que não sabemos a qual apegar-nos; assim também a experiência. A conseqüência que queremos tirar da observação dos acontecimentos não ó segura, tanto mais quanto são êles sempre disse-melhantes. Não há qualidade alguma tão universal, nessa imagem das coisas, como a variedade, a diversidade…

Não me agrada entretanto a opinião da-guêle que imaginava, através de uma multidão de leis, orientar precisamente a autoridade dos juizes dentro de jurisdições predeterminadas; não percebia que há tanta liberdade e elasticidade na interpretação quanto na feitura das leis… Ainda deixamos tanta latitude para a opinião dos juizes, e sua decisão, que não houve jamais liberdade tão grande e licenciosa. Que adiantou aos nossos legisladores a escolha de cem mil exemplos e fatos específicos a fim de dar a cada um uma lei? Êsse número ainda não está em proporção com a variedade infinita das ações humanas. Multiplique-se o número por cem e nem assim acontecerá que entre os acontecimentos porvindouros nenhum exista que não possa, entre todos os exemplos escolhidos, emparelhar-se a tal ponto que não sobre lugar para a interpretação; sempre haverá circunstâncias e diferenças que exijam consideração especial rio julgamento. Há pequena relação entre nossas ações, em perpétua mutação, e as leis que são fixas e imóveis. As leis mais úteis são as mais simples e gerais; e quanto menor número melhor; e em verdade creio que seria mais desejável não ter leis do que tê-las em tão grande quantidade como nos acontece.
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MONTAIGNE
A natureza no-las outorga sempre mais felizes do que aquelas que nós nos damos…

(Livro XII, cap. 13: Da experiência).

Fonte: Bib. do Pensamento vivo. Trad. de Sérgio Milliet.

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