Em mais uma tentativa de livre associação e paralelismo, coloco abaixo dois trechos que chamam a atenção por sua semelhança. No Lado Ativo do Infinito, um dos últimos livros de Carlos Castaneda, o autor pretende reunir uma coleção de história memoráveis em sua vida, desde a tenra infância, alegadamente passada num sítio no interior de São Paulo e na cidade interiorana próxima, no Vale do Paraíba, e com isso ilustrar alguns conceitos do “xamanismo tolteca”. Uma destas historietas, um episódio de caça ao urubu, orientado por uma experiente mateiro é bastante parecida com o mito coletado pelos sertanistas Villas Boas no alto Xingú. Postei o mito inteiro e a parte final, que interessa, em negrito. Resta saber se Castaneda conhecia o mito, desta fonte ou de outra, e o copiou para narrar sua história, o que acalantaria a velha discussão sobre a veracidade do relato, ou se é algo comum entre os mateiros, podendo portanto haver repetição.
Tentei convencer meu avô do absurdo de sua queixa. O senhor Acosta não tinha porque roubar galinhas. Ele tinha ao seu comando a vastidão daquela floresta. Ele conseguia retirar dela o que quisesse. Mas meus argumentos fizeram meu avô ficar ainda mais furioso. Percebi então que meu avô secretamente tinha inveja da liberdade do senhor Acosta, e esta percepção transformou, para mim, o senhor Acosta, de um caçador excelente na expressão última daquilo que era ao mesmo tempo proibido e desejado.
Tentei reduzir meus encontros com o senhor Acosta, mas a atração era muito grande para mim. Então, um dia, o senhor Acosta e três de seus amigos propuseram que eu fizesse uma coisa que o senhor Acosta nunca fizera antes: pegar um urubu vivo, sem feri-lo. Ele explicou para mim que os urubus da região, que eram enormes, com 1,5 a 1,8 m de ponta a ponta de asa, tinham sete tipos de carnes diferentes em seus corpos, e cada um deles servia para um propósito específico de cura. Disse que o ideal seria que o corpo da ave não estivesse ferido. O urubu teria que ser morto com um tranqüilizante, não com violência. Era fácil atirar neles, mas nesse caso, a carne perdia seu valor curativo. Assim a arte seria pegá-los vivos, uma coisa que ele nunca fizera. Havia compreendido, entretanto, que com a minha ajuda e a ajuda de seus três amigos solucionaria o problema. Garantiu-me que essa era uma conclusão natural a que chegara depois das centenas de vezes em que observou o comportamento dos urubus.
“Necessitamos de um burro morto para realizarmos a proeza, e temos esse burro morto,” declarou ele todo animado.
Olhou para mim, esperando que eu fizesse a pergunta do que seria feito com o burro morto. Desde que tal questão não foi formulada, ele prosseguiu.
“Removemos os intestinos e colocamos umas escoras dentro, para manter a redondeza da barriga.
“O líder dos urubus perus é o rei; ele é o maior, o mais inteligente”, continuou ele. “Não existe nenhuma outra vista tão aguda. É isso que faz dele o rei. Será ele o primeiro a ver o burro morto e o primeiro a pousar nele. Ele descerá a favor do vento que levará até ele o cheiro do burro morto. Os intestinos e as vísceras que tirarmos da barriga serão empilhados próximo do rabo, do lado de fora. Desse modo ficará parecendo que algum gato do mato já comeu parte da carniça. Assim, tranqüilamente, o urubu aproximará do burro. Não terá nenhuma pressa. Ele chegará pulando e voando, e depois pousará na anca do burro morto e começará a perfurar seu corpo. Ele viraria a carcaça não fossem as estacas da estrutura para manter o corpo, que também fincaremos no chão. Ele ficará sobre a anca durante uns instantes; essa será a dica para que outros urubus desçam e pousem na vizinhança. Somente depois que ele tiver 3 ou 4 companheiros pousados nas proximidades iniciará o urubu rei o seu trabalho.”
“E qual seria o meu papel em tudo isso, senhor Acosta?” perguntei.
“Você ficará escondido dentro do burro”, disse ele com a cara mais inexpressiva do mundo. “Nada mais que isso. Vou te dar um par especial de luvas de couro, e você ficará sentado lá dentro, esperando até que o urubu rei comece a rasgar o anus do burro morto, abrindo-o com seu enorme e poderoso bico e enfie a sua cabeça no buraco para começar a comer. Você então o agarrará pelo pescoço e não deixará que escape.
“Eu e meus três amigos estaremos montados a cavalo, escondidos num barranco profundo. Acompanharei toda a operação com binóculos. Quando vir que você pegou o urubu rei pelo pescoço, nós iremos a todo galope e nos jogaremos em cima do urubu e o domaremos.”
“Você conseguirá dominar este urubu, senhor Acosta?” perguntei-lhe. Não que duvidasse de sua habilidade, queria apenas ter certeza.
“É claro que conseguirei!” disse ele com toda a confiança do mundo. “Todos nós estaremos usando luvas e polainas de couro. As garras do urubu são muito poderosas. Elas conseguem quebrar a canela da gente como se fosse um galhinho.”
Eu não tinha como sair daquela. Fui apanhado, tornando-me presa de uma excitação sem par. Minha admiração pelo senhor Leandro Acosta, naquele momento, não tinha limites. Via-o como um caçador de verdade – engenhoso, astuto, instruído.
“OK, mãos à obra, então!” disse eu.
“É isso aí, meu garoto!” disse o senhor Acosta. “Eu sabia que podia contar com você.”
Ele colocou um cobertor grosso atrás da sela e um de seus amigos levantou-me, colocando-me na garupa, sentado no cobertor.
“Segure na sela”, disse o senhor Acosta, “e ao segurar nela, segure o cobertor também.”
Saímos num trote despreocupado. Cavalgamos durante cerca de uma hora até chegarmos a uma região plana, seca e desolada. Paramos próximos a uma tenda que parecia com uma banca de venda do mercado. Tinha um teto plano como cobertura. Sob ele jazia o burro marrom morto. Ele não parecia muito velho; parecia um burro adolescente.
Nem o senhor Acosta e nem seus amigos explicaram-me se haviam encontrado o burro morto ou se o mataram. Esperava que eles dissessem isso para mim, mas não iria perguntar. Enquanto eles faziam os preparativos iniciais, o senhor Acosta explicou que a tenda fora colocada porque os urubus estavam de espreita a grandes distâncias dali, voando em círculos, lá no alto, fora do alcance da nossa vista, mas certamente capazes de perceber tudo o que ocorria cá em baixo.
“Essas criaturas são criaturas que só vêem,” disse o senhor Acosta. “Elas têm péssimo ouvido, e seus narizes não são tão bons quanto seus olhos. Teremos que obturar todos os buracos de sua carcaça. Não quero que você fique espiando pelos buracos, porque eles veriam seus olhos e nunca desceriam. Eles não devem ver nada.”
Eles colocaram algumas estacas na barriga do burro e as cruzaram, deixando espaço suficiente para que eu me esgueirasse para dentro. Em certo momento, fiz a pergunta que estava morrendo de vontade de fazer.
“Diga-me, senhor Acosta, este burro certamente morreu de alguma doença, não é mesmo? O senhor acha que sua doença poderá afetar-me?”
O senhor Acosta levantou os olhos para o céu. “Ora, o que é isso? Você não pode ser tão tonto assim. As doenças dos burros não podem ser transmitidas para os homens. Vamos viver esta aventura sem nos preocuparmos com detalhes estúpidos. Se eu fosse menor, eu mesmo estaria dentro da barriga. Você sabe o que é caçar o rei dos urubus busardos?”
Acreditei nele. Suas palavras foram suficientes para cobrir-me com uma confiança inigualável. Eu não iria ficar doente e perder o evento dos eventos.
O momento temido chegou quando o senhor Acosta colocou-me dentro da barriga do burro. Depois cobriram a estrutura com o couro e começaram a costurá-la, deixando uma abertura na parte de baixo para a circulação do ar. O momento horrendo para mim foi quando a pele ficou totalmente fechada sobre minha cabeça, como a tampa de um caixão. Respirei forte, pensando apenas no excitamento de agarrar o urubu rei pelo pescoço.
O senhor Acosta deu-me as instruções finais. Disse que me informaria com um assobio, parecendo com o canto de passarinho, quando o urubu rei estivesse voando pelas proximidades e quando tivesse pousado, para que eu ficasse informado e não ficasse nervoso ou impaciente. Depois ouvi quando eles desmontavam a tenda, e em seguida, ouvi o galope dos cavalos afastando-se. Foi uma coisa acertada não deixar nenhum buraco pelo qual pudesse olhar para fora, pois isso era exatamente o que eu faria. A tentação de olhar para cima e ver o que estava acontecendo era quase irresistível.
Passou um longo tempo durante o qual eu não pensei em nada. Ouvi então o assobio do senhor Acosta e presumi que o urubu rei estivesse voando em círculos nas proximidades. Minha suposição transformou-se em certeza quando ouvi o bater de poderosas asas, e depois, de repente, o corpo do burro morto começou a balançar como se estivesse sob uma ventania. Em seguida senti um peso no corpo do burro e percebi que o rei dos urubus havia pousado e não mais se movia. Ouvi o bater de outras asas e o assobio de longe do senhor Acosta. Preparei-me então para o inevitável. O corpo do burro começou a balançar quando algo iniciou a rasgar sua pele.
Depois, repentinamente, uma cabeça enorme e feia, com uma crista vermelha, um bico de todo o tamanho e um olho aberto perscrutador surgiu na minha frente. Eu gritei assustado e agarrei o pescoço com as duas mãos. Penso que deixei o urubu rei meio atordoado pois o mesmo ficou alguns instantes sem reagir, o que me deu a oportunidade de agarrar seu pescoço com mais força ainda, e depois o inferno todo caiu sobre mim. Ele não mais estava atordoado e começou a puxar com tal força que eu fiquei espremido contra a estrutura, e no instante seguinte estava parcialmente fora do corpo do burro, da estrutura e tudo, agarrando o pescoço da besta invasora para salvar minha vida.
Ouvi o cavalo do senhor Acosta galopando à distância. Ouvi seus gritos, dizendo, “Largue o bicho, rapaz, largue o bicho, ele está voando e levando você!.”
O rei dos urubus, realmente, iria voar comigo agarrado ao seu pescoço ou iria rasgar-me todo com a força de suas garras. A razão pela qual ele não conseguia atingir-me era que sua cabeça estava mergulhada até a metade da distância entre a estrutura e as vísceras. Suas garras ficaram escorregando nos intestinos soltos e realmente não me tocaram por nenhuma vez sequer. Outra coisa que me salvou foi o fato de que todo o esforço do urubu rei estava concentrado em libertar seu pescoço das minhas mãos e não podia mover suas garras o suficiente para alcançar-me. A próxima coisa que percebi foi o senhor Acosta saltar em cima do urubu rei no exato momento em que minhas luvas de couro soltaram-se de minhas mãos.
O senhor Acosta não cabia em si de tanto contentamento. “Conseguimos, meu rapaz, conseguimos!” disse ele. “Da próxima vez, usaremos estacas mais longas e montaremos a estrutura de modo que o urubu não consiga puxar você para fora, pois ela será como uma barreira”.
Meu relacionamento com o senhor Acosta durou o bastante para pegarmos o urubu. Depois meu interesse em procurá-lo desapareceu tão misteriosamente como surgira e eu nunca realmente tive a oportunidade de agradecer-lhe por todas as coisas que ele me ensinara.
Don Juan disse que ele ensinara-me a paciência de um caçador na melhor época para que seja aprendida; e acima de tudo, ele ensinara-me como retirar do fato de se estar sozinho todo o conforto de que um caçador necessita.
(CASTANEDA, Carlos O lado Ativo do Infinito. Nova Era, 1998)
KANASSA: A conquista do fogo (Kuikúru)
Os índios não tinham fogo. Kanassa resolveu procurar. Saiu contornando uma grande lagoa. Levava na mão fechada um vagalume. Cansado da caminhada, resolveu dormir. Abriu a mão, tirou o vagalume e pôs no chão. Como estava com frio, se acocorou para se aquentar à luz do vagalume. De manhã Kanassa chegou na terra do murum e encontrou ele preparando enfeites de pena. O mutum, percebendo a aproximação de alguém e reconhecendo Kanassa, disse:
— ó Kanassa, tem índio bravo aparecendo aqui.
— Nada disso. Eu vim de lá e não vi nada. Lá só tem o meu pessoal. Não há nada não.
— Estou fazendo este enfeite para quando índio bravo aparecer e eu brigar com ele.
— Onde você vai usar isso?
— Na cabeça mesmo.
— Então ponha que eu quero ver.
O mutum pôs o enfeite na cabeça e saiu andando para Kanassa ver. Kanassa estendeu a mão na direção do mutum e falou baixinho: “Esse enfeite não vai mais sair da cabeça dele, vai ficar sempre assim”. Depois disso Kanassa saiu apressado. O mutum quis tirar o enfeite da cabeça mas não conseguiu. E daí em diante todo mutum tem enfeite na cabeça. Kanassa continuou andando até que chegou na terra do cuiará, o jacarezi-nho do cerrado. O cuiará, vendo Kanassa, disse:
— Ó Kanassa, você está passeando? Olha, tem índio bravo andando por aí, cuidado.
— Não. Não tem nada, não. É só o meu pessoal que anda por aí.
O cuiará estava fazendo um ralo para mandioca quando Kanassa perguntou:
— Onde é que você vai carregar esse ralo?
— Nas costas.
— Então ponha para eu ver. Ponha em cima do rabo. Nas costas não fica direito.
O cuiará, como sugeriu Kanassa, pôs o ralo na cauda e saiu andando para que o visitante visse. Kanassa estendeu a mão na direção do cuiará e falou baixinho: “Esse ralo não vai mais sair do rabo dele. Vai ficar toda a vida assim”. Daí em diante todo cuiará tem o rabo chato e áspero como ralo. Dito isso Kanassa saiu apressado, deixando bravo o cuiará, que insistia em tirar o ralo da cauda. Kanassa andava sempre com o vaga-lume na mão fechada. Era a única luz que ele tinha. Kanassa continuou viajando até que chegou num porto. Aí encontrou à sua parenta saracura. Kanassa ficou contente com o encontro. Olhando a água, Kanassa perguntou para a parente:
— Como é que vou fazer para atravessar a lagoa? Acho que vou fazer uma canoa de barro.
E assim fez. Feita a canoa grande, embarcou ele mais a saracura. Fizeram remo de barro e saíram. Lá adiante encontraram o pato, que vinha com toda a família — mulher e cinco filhos — atravessando também a lagoa, numa pequena canoa de casca de jatobá. Encontraram-se no meio da viagem, bem no centro da lagoa, na hora que estava começando o banzeiro. Um pouco de água já estava entrando na embarcação do pato. Kanassa gostou da canoa do pato mas não disse nada, só pensou: “Eu vou dar um jeito de tomar essa canoa”. E falou:
— Onde vão vocês? Eu estou com medo que essa sua canoa afunde com toda essa gente. Se você quiser trocar, eu troco. A minha é grande e firme. Essa aí está muito perigosa.
— Eu aceito e fico muito satisfeito. Você é muito bom, Kanassa — respondeu o pato.
O pato não reparou que a canoa de Kanassa era de barro. Kanassa, ajudado pela saracura, pegou a canoa de casca e saiu remando com força. Kanassa de longe esticou o braço na direção da canoa do pato, soprou e disse:
— Afunde canoa. Afunde já. Banzeiro, pode ficar duro.
A canoa do pato não resistiu e foi para o fundo. O pato, bravo, gritava.
— Kanassa, traga a minha canoa. Você mentiu para mim. Esta aqui não presta, é de barro.
O pato e sua gente tinham muito medo de água. Não sabiam nadar. Quando a canoa começou a afundar eles gritaram muito, mas foram tenteando em cima da água. De repente eles perceberam que não iam para o fundo e começaram a gostar. Hoje todo pato gosta de ficar na água. Kanassa e a saracura chegaram ao outro lado da lagoa. Kanassa desenhou uma arraia no barro da beira da água, mas como estava escuro ele não viu e pisou no próprio desenho e por ele foi ferrado. Feito isso a arraia fugiu para dentro d’água. Kanassa ficou danado com a arraia e reclamou:
— Eu acabei de fazer ela agora mesmo e ela já me machucou. A culpa é do vagalume que não clareia nada.
Kanassa fez um gesto para jogar fora o vagalume mas lembrou e disse para a saracura:
— Sopre o fogo.
— Que fogo? Aqui não tem fogo coisa nenhuma. O fogo está lá com o seu dono.
— Quem é o dono do fogo?
— É o ugúuu-cuengo [urubu-rei].
— Como é esse ugúvu-cuengo?
— É um tipo de uruágui [urubu comum], muito grande e difícil de ser encontrado. Ele tem duas cabeças. Só fica em lugar bem alto. E só desce para comer gente.
— Como é que a gente faz para segurar ele?
— O único jeito é matar um veado grande, um cervo, esconder embaixo da unha dele até ele apodrecer. Quando o ugúvu-cuengo chegar, o jeito é segurar a perna dele e só soltar quando ele der o fogo.
Kanassa resolveu seguir o conselho da saracura mas não precisou matar o veado. Kanassa desenhou um veado grande, entrou embaixo da unha e ali ficou escondido.
Três dias Kanassa ficou dentro da carniça esperando o dono do fogo. Passado algum tempo começaram a chegar os urubus comuns. Numa árvore grande e seca sentou o ugúvu-cuengo. Os urubus, numa algazarra enorme, gritaram para ele:
— Pode vir. Está tudo bem. Estamos só esperando você chegar para começar a comer.
O ugúvu-cuengo, desconfiado, lá de cima examinava a carniça, torcendo o pescoço para enxergar melhor. Lá embaixo os outros continuavam a gritar:
— Pode vir. Está tudo bem. Vem logo que estamos com fome.
Ugúvu-cuengo então gritou:
— Arrastem a carniça pra bem perto do tronco.
Os urubus obedeceram mas na hora de arrastar a carniça eles viram Kanassa escondido. Kanassa falou baixinho:
— Psiul Não falem nada. Façam ele vir até aqui.
Os urubus continuaram a insistir, até que o ugúvu-cuengo voou da árvore alta até ao chão. Junto com ele veio uma grande claridade. O ugúvu-cuengo no chão examinou bem a caniça, e, não vendo nada, começou a comê-la. Mandou que todos comessem com ele. O veado era grande e todos começaram a comer da parte traseira para a dianteira. Quando chegaram na parte dianteira, Kanassa, que estava escondido na unha do veado morto, agarrou a perna do ugúvu-cuengo, e disse:
— Ó anéto [chefe], eu estou pegando você porque minha gente está precisando do fogo, e só você sabe onde tem. Não tenha medo. Eu não vou fazer nada com você. Eu só quero que você me ensine onde está o fogo. Você é o dono do fogo.
Ugúvu-cuengo ficou zangado só um pouquinho. Aí ele chamou o filho, um passarinho preto, e falou:
— Ó meu filho, é preciso você ir buscar fogo para nós lá do céu. Eu estou seguro aqui pelo Kanassa que quer saber onde tem fogo. Vá buscá-lo no céu. Ponha fogo numa embira de pindaíba e venha devagar. Se voar depressa o fogo apaga.
O passarinho foi buscar o fogo lá no céu e veio descendo devagarinho para que ele não apagasse. Mas só trazia brasa. Quando ele chegou, o ugúvu-cuengo mandou que ele soprasse a brasa e acendesse o fogo. Feito isso ele deu a Kanassa, que na mesma hora soltou o ugúvu-cuengo. Quando o fogo já estava aceso e quente, começou a chegar uma porção de sapos saídos da água.
— De onde apareceu isso? Quem trouxe? — perguntaram todos.
Os sapos tinham água na boca. Na hora de ir embora, sopraram água no fogo e fugiram para a água. O fogo não chegou a apagar. Kanassa o reavivou rapidamente.
Outra vez saíram os sapos de dentro da água mas, antes que chegassem perto do fogo, Kanassa os espantou. Ugúvu-cuengo já tinha voado de volta para a árvore seca ali perto. De lá, antes de ir embora para longe, ele disse:
— Kanassa, quando o fogo apagar, quebra uma flecha em pedaços, racha no meio, amarra bem uma sobre a outra e firma bem no chão. Feito isso, procura uma varinha de urubu e com ela, apoiando uma das pontas nos pedaços da flecha, gira com força até o fogo surgir.
Lá do alto ugúvu-cuengo ainda gritou para Kanassa. Estava muito longe, quase ninguém ouviu:
— Procura um cipó da beira da água, abre e deixa secar. É muito bom para ajudar a acender fogo.
Agora Kanassa precisava levar o fogo para o outro lado do rio. Para isso chamou todas as cobras, venenosas e não-venenosas, para que levassem o fogo para o outro lado da lagoa. As cobras entraram na água levando o fogo, mas no meio da travessia uma a uma foi cansando e perdendo o fogo no banzeiro. Só uma, muito ligeira, conseguiu chegar até o outro lado: a itóto. Kanassa também atravessou a água e lá no outro lado deu bebida, mingau e beiju para itóto — a cobra que conduziu o fogo.
(VILLAS-BOAS, irmãos. XINGU, os índios, seus mitos Editora Kuarup, 1985)