A busca aqueológica das pirâmides da Amazônia
Feb 16th, 2010 by Miguel
Ciência – Veja – 1° de Agosto de 1979
O enigma da floresta
Numa imensa planície amazônica, no alto rio Negro, três morros em forma de pirâmide — que o exame das fotos indica serem um capricho geológico
No sopé da Serra do Gurupira, no alto rio Negro, três morrotes dispostos em forma triangular mereciam de dois passageiros de um bimotor Comanche o tratamento no feminino. “São elas”, diziam o arqueólogo prático Roldão Pires Brandão e o etnólogo José Alair da Costa Pires, rebatizado Ryoku Yuhan depois de convertido ao budismo. Era quarta-feira da semana passada e os dois sobrevoavam a região onde afirmavam ter descoberto, dez dias antes, as pirâmides amazônicas em que muitos místicos acreditam e pelas quais vários pesquisadores buscam há centenas de anos. “Essas são, de fato, as formações que vimos”, garantiam eles. E a primeira visão mostrava, claramente, três estruturas piramidais, cobertas de vegetação. Pelos cálculos do piloto, a mais alta delas tem acima de 200 metros — maior, portanto, que a milenar pirâmide egípcia de Quéops, de 146 metros.
À medida que o avião se aproxima va, porém, desfazia-se a certeza inicial de uma extraordinária, incomensurável descoberta arqueológica escondida pela sempre misteriosa e surpreendente Amazônia. Ali, onde dez anos atrás o Projeto Radam encontrou nada menos que um rio de 400 quilômetros até então ignorado pela Geografia, talvez despontasse um rumo novo para tudo o que a História já registrou da presença humana sobre a Terra nos últimos milênios. Mas, quando o Comanche mudou o ângulo de visão, desvendou-se o mistério das pirâmides. A essa altura, Brandão e Yuhan já mudavam o pronome para o masculino, chamando de “eles” aos morrotes. “Não devem ser estes aqui, não”, duvidava Brandão, imaginando que, na semana anterior, pudessem ter passado nas imediações de algum outro vale imenso do rio Negro. Após quinze dias de penosa expedição pela selva, encontravam-se então fatigados, com os suprimentos no fim. Apenas viram, deixando a investigação para uma próxima viagem, já marcada para este mês.
“IMPORTANTÍSSIMO” — “SÓ indo lá e vendo”, resumia Brandão a Jaime Sautchuck, de VEJA, ao fim do sobrevôo. Personalista, desconfiado, inimigo do que chama de “arqueólogos de gabinete” (o contrário dele, que não é formado mas tem mais de vinte anos de pesquisas de campo), o perseverante Brandão tem respeitáveis razões para novas tentativas de comprovar sua tese sobre as pirâmides. Os morrotes, afinal, têm arestas bem definidas e o do meio, principalmente, aparenta quatro faces convincentes. Resta saber se são obra de uma civilização antiga, talvez pré-incaica, como acredita firmemente Yuhan, baseado em lendas e relatos ouvidos de remanescentes da civilização mogulala — que ali viveram há milhares de anos e, sempre segundo Yuhan, em tempos menos remotos foram senhores dos incas.
De concreto, entretanto, o que existe no momento são as fotografias, exibidas por VEJA, na sexta-feira passada, em São Paulo, ao geógrafo Aziz Nabib Ab’Saber, diretor do Instituto de Geografia da USP e apontado como o maior entendido no assunto no Brasil. Embora descartasse desde o início qualquer significado arqueológico ao que via, Ab’Saber qualifica aqueles morrotes piramidais como “importantíssimos” documentos geológicos. “Isso mostra de maneira irrefutável”, explica ele, “que durante o período quaternário (de 1 a 3 milhões de anos atrás), desde o fim do terciário (de 5 a 10 milhões de anos atrás) e por todos os períodos glaciais. aconteceram climas secos na Amazônia.”
Na explicação de Ab’Saber, morrotes em formato de pirâmides são comuns em toda ponta de serra. “O nordeste está pleno desses tipos de inselbergs” (termo científico não traduzido, embora se use a expressão monte-ilha), afirma ele, “só que no meio de uma paisagem mais próxima daquela em que aconteceram os processos, quer dizer, em condições semi áridas.” Ab’Saber cita, para reforçar sua informação, o serrote existente no município paraibano de Patos ou o que está retratado na bandeira de Alagoas. “Aquela feição é tão simbólica para o povo de toda a região que ate foi usada como símbolo”, comenta o professor. A diferença, com relação aos morrotes fotografados no alto rio Negro, é que houve, nestes, “uma modificação climática brutal, abrangida pela umidificação c pelo florestamento relativamente recente”. Ainda assim, Ab’ Saber não duvida: “Isso aí é um documento, uma herança de uma geomorfologia de clima seco e que hoje está sob uma roupagem de clima muito úmido”.
OMBRO A OMBRO — Mas não seriam argumentos como os de Ab’Saber que iriam abalar as crenças do grupo das pirâmides. Na verdade, argumentos científicos não modificam o rumo de pesquisas seja do arqueólogo, que não e arqueólogo. Roldão Pires Brandão, de José Alair/Ryoku Yuhan ou ate do in ternacional escritor dinamarquês Erik von Däniken — “Eram os Deuses Astronautas?”. Däniken, sem o exotismo das versões nacionais, persegue os mes mos sonhos da dupla pátria. Utiliza também algumas fontes comuns, como o obscuro índio Tatunka Nara que se diz descendente dos mogulalas. Em 1977, Dániken esteve na Amazônia especialmente para entrevistar-se com Tatunka. Sua história, também sustentada por Yuhan, parte da denominação dos mogulalas sobre os incas e sua desgraça após a chegada dos espanhóis.
Daí os mogulalas ter-se-iam espalha do por várias regiões. Uma parte para a ilha de Páscoa, outra para o que é hoje o Acre, alto rio Solimões, e mais um grupo, finalmente, para o norte do rio Negro, na região da serra do Gurupira. De acordo com Tatunka, há duas evidências de que os mogulalas estiveram, ou estão, nas cercanias do rio Negro. Pois Gurupira é um ser da mitologia de seu povo, encarregado de cuidar da ma ta. Já Paduari — nome de um rio próximo ao vale das supostas pirâmides —, que nada significa para os índios Waika habitantes da região, quer dizer, em mogulala, “rio das águas coloridas”. Tatunka refere-se também a crônicas escritas em locais secretos que contam toda a história de seu povo.
Segundo essas crônicas, os mogulalas estariam no continente americano há mais de 12 000 anos e, além dos espanhóis, também ter-se-iam dispersado em função de um cataclismo ocorrido há 6 000 anos. Nada disso é novidade para Däniken. Na quinta-feira, sem que tivesse tido acesso às fotos, Dãniken preocupava-se em minimizar a descoberta de Brandão. Não por serem mor rotes em vez de pirâmides. “Há muito tempo conheço a história dessas pirâmides”, garantiu ele a Carlos Struwe, de VEJA. Por incrível que pareça, Däniken, um famoso escritor, tem disputa do ombro a ombro com Brandão a primazia de chegar primeiro ao sopé da serra do Gurupira. É bem verdade que Däniken não se dispõe a enfrentar pessoalmente os incômodos da floresta amazônica, mas utiliza os serviços de seu amigo, aviador aposentado, Ferdinand Schmid, que comandava aviões DC 8 para a Swissair e agora ocupa seu tempo pilotando pela selva expedições financiadas por Däniken. Na última, em maio, quase chegou ao vale do Gurupira mas, de acordo com Brandão, o barco que o levava naufragou e todo o trabalho foi perdido.
PONTOS DE ATRITO — Foi justamente essa tentativa — a terceira do grupo chefiado por Schmid — que animou Brandão a montar sua própria caravana. Na ocasião, ele se encontrava ao largo do rio Urubu, não muito distante de Manaus, onde esperava um dia achar um navio, possivelmente godo ou visigodo, que diz ter evidências de ha ver naufragado muito antes de Cristo. Brandão largou então suas andanças pelo Urubu, denunciou ao governo brasileiro a presença daqueles estrangeiros e, solerte, juntou-se a Yuhan, a Tatunka e mais uma dezena de trabalhadores braçais à cata das pirâmides. Se Brandão não chegou até elas, pelo menos sentiu-se animado a divulgar a descoberta, credenciando-se então como o descobridor oficial das pirâmides amazônicas e salvador da honra nacional por “passar a perna nos suíços”, como declarou.
Este seria, aliás, mais um ponto de atrito entre esses persistentes caçadores de lendas, pois Däniken não acredita no zelo nacionalista de Roldão. Ele cita a segunda expedição comandada por Schmid, no ano passado, da qual Brandão participou sem qualquer restrição aos “suíços”. Segundo o escritor dina marquês, essa expedição só foi interrompida “quando a arma de Brandão disparou involuntariamente ferindo seu antebraço. Schmid e Tatunka voltaram então numa canoa de alumínio, junto com Brandão, para interná-lo num hospital de Barcelos”. A versão do pesquisador brasileiro é menos detalhada. “A expedição de Schmid fracassou”, conta Brandão sem especificar que também a acompanhava, “ante as corredeiras do rio Paduari e as dificuldades de locomoção por terra”.
APOIO — Por fim, Däniken também desconfia das habilitações de Brandão considerando-o despreparado para missões tão importantes enquanto Brandão — ao contrário da maioria da comunidade internacional de cientistas — considera Däniken “um pesquisador muito sério”. De todo modo, as buscas de Brandão prosseguem. Afora a próxima expedição ao alto rio Negro e o navio godo, ou visigodo, ele planeja chegar até uma cidade que garante existir na confluência dos rios Madeira e Amazonas, embaixo d’água. Para tanto, ele visualiza uma cápsula de vidro e metal que o levará ao fundo do rio, a mais de 100 metros de profundidade. Esta seria a primeira de uma série de cidades submersas que Roldão pretende descobrir nos próximos tempos.
Por mais delirantes que sejam os projetos, Brandão mantém sua fé. E não está sozinho. Seus principais financiadores são Tadeu Martins Macedo, gerente geral do Hotéis OK, do Rio de Janeiro, e o general reformado Severino Sombra, diretor da Fundação Educacional Severino Sombra, de Vassouras (RJ). Na semana passada, o general Sombra não escondia sua alegria: “Muita gente pensava que era sonho, utopia de Roldão; mas só com persistência e tenacidade se conseguem descobrir coisas tão interessantes”. Àquela altura, o arqueólogo prático dispunha, unicamente, da notícia de que existem formas pirami- dais num fundo de vale amazônico. Mas isso já alimentava os sonhos de seu amigo. “Agora, quando estiver finalmente comprovada nossa idéia”, vaticinava Sombra, “várias teorias cairão por terra; ninguém imaginava que houvesse na Amazônia uma civilização tão adiantada.”
Por mais antigas e extraordinárias que sejam as buscas de tesouros e vestígios de antigas civilizações na Amazônia (veja o quadro abaixo), as supostas pirâmides agora anunciadas por Brandão talvez mereçam, como ele insiste, uma verificação mais convincente. Por enquanto existem as fotos feitas por VEJA, em que as pirâmides mudam para morrotes conforme o ângulo de visão — e nas quais, segundo Ab’Saber, existem evidências de importância geológica. Há, ainda, relatos de pilotos que já sobrevoaram a região e dizem ter visto, atrás da serra do Gurupira, formações que lembram ruínas e cavernas. Se pertencem, tanto quanto as pirâmides, ao acervo de uma gente milenar. Brandão terá a oportunidade de confirmar — agora que contará com o apoio mais sólido do governo estadual e do Comando Militar da Amazônia.
Para o geógrafo Aziz Ab ‘Saber, não há nenhum mistério rondando as pirâmides amazônicas: elas não seriam mais que um dos inumeráveis agrupamentos de morrotes formados por antigos restos de erosão não só no alto rio Negro, mas em outros pontos da Amazônia e do nordeste. Na foto ao alto, Ab ‘Saber identificou, ao fundo, no bordo do planalto das Guianas, alguns desses agrupamentos. Ao pé de uma das supostas pirâmides, o geógrafo estranhou a existência de uma clareira (foto ao lado), o que poderia fazer supor a ocorrência de vida humana no local. Tudo isso poderá ser ou não comprovado quando Brandão e Yuhan voltarem à região, neste mês, chefiando uma grande expedição
A eterna busca da lenda de Eldorado
Abalada a hipótese de as pirâmides amazônicas terem sido construídas pelo homem, murcha também a possibilidade, por muitos levantada na semana passada, de sua associação com a lendária Eldorado — a região cheia de ouro e tesouros, que antigos relatos localizaram exata mente ali, entre o Amazonas e o Orenoco. Mas isso não significa que seu mito possa sofrer qualquer arranhadela, pois o sonho do acesso a riquezas miraculosas viceja de modo obsessivo na cultura popular do norte da América do Sul. É bem verdade que a lenda de Eldorado, cuja origem é atribuída a uma cerimônia dos índios chibchas, da Colômbia, durante a qual o cacique banhava o corpo recoberto com pó de ouro no sagrado lago de Guatavita, já desfrutou de maior prestígio. Houve tempos em que ela ainda empurrava legiões de aventureiros para dentro da selva amazônica, de onde a maioria deles não voltava. De certo modo. Roldão Pires Brandão, o “descobridor” das pirâmides, é um dos raros herdeiros desses visionários, ainda que o pretexto de suas incursões seja a investigação arqueológica.
Os estudiosos fixam até uma data para o germe da lenda de Eldorado: 1520, o ano em que o conquistador Hernán Cortez regressou à Espanha exibindo presentes recebidos no México do poderoso Montezuma, entre os quais despontavam “um disco de ouro na forma do Sol, tão grande como uma roda de carroça, outro grande disco de prata na forma da Lua, brilhando espetacularmente, vinte pássaros aquáticos de ouro, em fino artesanato”. Mas outros episódios históricos viriam reforçar o mito tanto na Europa como na América. Em 1537, uma expedição chefiada pelo também conquistador Gonzalo Jiménez de Quesada, partindo da Venezuela, pilhou uma povoação chibcha, cujas casas, embora de madeira, eram quase todas recobertas de finas placas de ouro. Muitas das famílias locais, além disso, possuíam coleções particulares de ouro em pó. Coincidentemente, seu chefe, alojado numa casa revestida de esmeraldas, banhava-se cm determinado dia do ano no vizinho lago Guatavita, com o corpo recoberto de pó de ouro. Todas as riquezas apresa-das por Quesada haviam sido adquiridas pelos chibchas através do comércio ou da guerra. Seu valor, arbitrado na época em mais de 150 000 pesos de ouro, é hoje incalculável. Mas o êxito de Quesada em nada contribuiu para arrefecer a procura de Eldorado — e ele próprio morreu convencido de que encontrara apenas uma pista de sua existência. As pirâmides de Brandão revelaram-se inúteis para alimentar por algum tempo essa fantasia. Contudo, será surpreendente se algum outro dia, nos confins amazônicos, o sonho não for retomado.
FONTE DA MATÉRIA: ACERVO DIGITAL VEJA – 1979.









