Homem-Aranha
O personagem Peter Parker e sua identidade quase secreta, o Homem-Aranha, fizeram sucesso inicialmente nas histórias em quadrinhos de Stan Lee porque trazem um tipo de herói diferente do usual. Ao invés de seres auto-suficientes e perfeitos em todos os aspectos, temos um jovem com diversos tipos de problema, desde a delicada relação com sua tia viúva que o criou até a conquista da namorada e a batalha diária por dinheiro. Os adolescentes americanos se identificaram prontamente com o herói, que parecia viver também uma espécie de angústia psicológica para assumir o uso de seus super-poderes.
Recentemente foi lançado o filme Homem-Aranha e sua seqüência, estrondosos sucessos de bilheteria. Se tomarmos como significativas as cores vermelho e azul do uniforme do personagem, poderemos novamente transpor conceitos e considerarmos o homem-aranha como um mais emblema da condição americana. Assim, a frase de Tio Ben de que “grandes poderes trazem também grandes responsabilidades” pode ser aplicada perfeitamente ao poderio militar e econômico dos EUA e sua arrogante retórica de propagação de valores de “liberdade” quando em jogo sua política externa de intervencionismo.
Em Homem-Aranha II, aparece a persona clássica do “cientista louco”. Otto Otavius sofre um acidente durante uma experiência e se torna vítima de uma “instalação” indesejável no seu corpo: tentáculos que alcançam longe demais, se tornando assim o Doutor Octopus. Tais tentáculos estão ligados ao sistema nervoso do doutor, e passam a manipular sua mente, tornando-o violento, malvado e obsessivo. Nas cenas finais, de grande dramaticidade, o personagem tem de empreender uma verdadeira batalha mental para retomar o controle e, apesar da vontade desse parasita em seu corpo, se jogar ao mar e salvar a cidade. A redenção, incentivada pelo ex-aluno Parker, passa inclusive por se exonerar da culpa de seus próprios atos, já que eles lhe foram insuflados.
Peter Parker perde a boa relação com sua velha e bondosa Tia May, porque usou mal os poderes que ganhou, e com isso renuncia ao cargo de super-herói interventor do crime e volta a ser um simples nerd. Mas é claro que, como nerd, não irá reconquistar sua namorada do rival, e através do amor que sente por ela, vence o dilema e volta a cumprir seu destino de herói. É interessante notar que no filme temos – como Neo – uma predestinação do herói americano, já que seu Tio Ben aparece em sonho e diz a ele que tal poder lhe foi confiado como dádiva, para ser usado. Também em outra sequência, bastante piegas, depois de parar de perseguir o vilão para defender as pessoas e parar um trem com os pés, o herói é acolhido e carregado pelo povo como um Cristo que retorna, num misto de gratidão e respeito.
Essa mistificação lembra por vezes a religiosidade forçada com que é imbuído o discurso oficial do presidente americano George Bush, que se usa largamente de uma interpretação torpe da Bíblia e de conceitos como “bem” e “mal”, sendo esse último o inimigo dos EUA, qualquer que seja. Depois dos atentados de 11/09, da intervenção do Afeganistão e principalmente da Guerra do Iraque, os EUA enfrentaram uma forte contestação e perderam muito de sua credibilidade conquistada depois da Segunda Guerra. Como a manipulação das informações veio à tona, ficou claro, ainda que tardiamente, a má-fé das agências de inteligência e aquela pataquada toda de “armas químicas” e “malvado ditador árabe” não se sustentou por muito tempo, sendo apenas aceita inicialmente.
Por isso, penso que Homem-Aranha II tenta mostrar que, apesar de ter seu papel contestado, como faz JJ Jameson no filme, os EUA merecem a sua posição de liderança e intervencionismo, como portadores de uma “missão divina” e de uma sabedoria e tecnologia muito avançadas para arriscar-se que caia em mãos erradas, ou que se faça mal uso delas. O filme reflete um pouco esse conflito delicado dos EUA quanto ao papel inédito de primeira superpotência efetivamente mundial, mas procura relegitimar sua missão e valores. Notamos também a presença da “instalação forânea” em Octopus e dos tentáculos como símbolo de alcance do poder americano. Se é que me permitem tamanha liberdade de leitura neste blog.

