Blog do Miguel

19 Aug

O líder e sua nave

Na terceira parte de sua obra, o antropólogo Carlos Castaneda relata suas supostas lembranças de ensinamentos que teriam acontecido inteiramente na “segunda atenção”, e com isso resgata intensas interações com o grupo de guerreiros de seu mestre, Don Juan. Para o autor, este grupo forma um todo orgânico, reunido através da aceitação do mito do regulamento. Seria como uma unidade perceptiva coesa e forte o bastante para suportar as terríveis provas do “caminho do conhecimento”, unindo os planetas do “lado esquerdo” e do “lado direito”. O mito conta que o grupo é formado em gerações, a partir da união em torno de seu líder, o nagual, de homens e mulheres de tipos diferentes (quatro tipos de mulheres e quatro tipos de homens). Essa união forma uma “nave” de percepção que navega no “mar escuro da consciência”. A nave é bela tanto vista de dentro quanto vista de fora, pois que cumpre a sua natureza, e uma das concepções mais comuns de virtude é “agir segundo a natureza”. Em Castaneda, o conceito de “impecabilidade” envolve se fazer “o uso apropriado da energia”.

Pincelando um pouco o post anterior, podemos arriscar dizer que o Morpheus de Matrix I ocupa a clássica posição de líder e mestre, e lidera ele também um grupo organizado, que forma uma nave capaz de navegar e explorar com segurança as profundezas do desconhecido. Mais uma vez é interessante aqui lembrar que a explosão da virtualidade em nossos dias e a transferência da consciência para o cyberespaço se fazem notar, pois o grupo funciona como um clã hacker capaz de vencer o monopólio da nova linguagem tecnológica e o seu uso indevido por parte do regime oficial, lançando um sinal pirata na Matrix e no espaço virtual infinito. Transponde-se isso para o mundo real, veríamos o quanto é subversivo lançar um pensamento novo, revolucionário, no meio da malha controlada de opiniões e lugares-comuns da sociedade.

Claro que a existência do mestre e seus discípulos parece ocorrer em toda tradição ocidental e oriental, desde os secretos círculos ninjas do Japão até os pitagóricos e o mestre Sócrates de Platão. O Don Juan de Castaneda renega para si essa denominação por conta de seu aspecto desmitificador e prático, preferindo chamar de “benfeitor” o líder que introduz e guia o aprendiz no “caminho do guerreiro”.

O personagem Morpheus possui também muitas características de um mestre no estilo oriental, como fica evidente na antológica sequência da primeira luta de kung-fu de Neo.

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