Blog do Miguel

14 Nov

Gênesis

Isaías 14:14-15 ”
“Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei nas extremidades do Norte; Subirei acima das mais altas nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo. Contudo serás precipitado para o reino dos mortos, no mais profundo do abismo.”

Ap. 12:1″Houve uma grande batalha no céu. Miguel e seus anjos lutaram contra Satanás e suas legiões, que foram derrotadas, e não houve lugar para eles no céu. Foi precipitada a antiga serpente, o diabo, o sedutor do mundo. Ai da terra e do mar, porque o demônio desceu a vós com grande ira, sabendo que lhe resta pouco tempo”.

Gênesis 4-5 “Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal.”
22 - “Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente o Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado.’.”

Tanto o primeiro homem, quanto o primeiro anjo, então, caíram porque quiseram ser como Deus, mas por motivos diferentes.

Ao primeiro Anjo não foi negado o saber de Deus, mas sim o poder. Deus se dirige aos anjos “Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal”. Lúcifer, a estrela da manhã, no entanto, queria ter o mesmo poder de Deus, e por isso caiu e foi expulso, conforme relata também o Apocalipse. Os anjos fazem parte da intelecção divina, orientam, mas não podem modificar o mundo.

Ao primeiro homem não foi negado o poder de Deus, mas sim o saber. O homem é o senhor de todas as coisas sob o céu, pode criar, destruir, trabalhar na Terra, comer de todos os frutos. Foi feito a imagem e semelhança de Deus, sendo a imagem a Vontade e a semelhança é a Razão. Pois a vontade, no homem, é infinita, enquanto a razão divina é superior, mas do mesmo tipo. O único mandamento era o de não comer do fruto da ciência do bem e do mal (no dia em que dele comerdes, certamente morrereis). A ciência do bem e do mal afasta o homem da Árvore da Vida. A desobediência gera um reflexo da dor de Deus na alma do homem. No Éden, o homem vivia com a presença do Espírito. Ao desobedecer, não é mais capaz de suportar a presença. E por isso o não-ser, a morte. O que é o não-ser? É a ausência de Deus, o homem busca-o chamando e recebe um “eu não estou aqui”. Assim como cria o mundo através do amor, Deus é capaz de fazer o mundo voltar ao nada (nihil), ou seja, de aniquilar. O Não-Ser, então, é como um ponto negro que se move pela árvore da vida aniquilando ramos, ceivando camadas, tornando-a ausente, até a extinguir, com a morte. A desobediência, além da expulsão, multiplicou os mandamentos, de apenas um foram para dez.

Nessa questão da desobediência tive a oportunidade de tratar a semelhança do trabalho como maldição divina no Gênesis e também na mitologia grega, em Hesíoso, Platão e Ésquilo, neste pequeno texto. Sobre o trabalho, é importante considerar também a distinção entre o otium e negotium da antiguidade latina, e a do otium intellectuale, que segundo alguns seria um requisito para se fazer filosofia. Ou seja, seria preciso ter as condições básicas de subsistência asseguradas para se dedicar às “nuances do intelecto”.

Carlos Castaneda, em “O Poder do Silêncio” (1988), profere uma frase curiosa, sem maiores explanações. Diz ele que a história judaico-cristã do Gênesis é uma alegoria para o fato do homem ter perdido o seu contato com o “conhecimento silencioso”. O título original do livro seria justamente, esse, conforme relata em “A roda do tempo”, mas foi obrigado a mudar pelo editor, por apelo mercadólogico.

O conhecimento silencioso é o conhecimento que vem diretamente do Espírito, sem intermediações intelectuais, blocos complexos de informação apreendidos e asseridos imediatamente, uma vez que se desliga o “dialogo interno” e se cumpra os requisitos do “intento”. O livro é construído em torno de “cernes abstratos”, histórias extraídas da análise do contato do guerreiro com o intento através do tempo, que permitiriam o propósito de analisar a conexão do homem com o intento e fornecer um ponto de referência universalmente válido.

A primeira história chama-se “As manifestações do Espírito” e conta, grosso modo, que o Espírito revelou-se a um homem comum, mostrando que os pensamentos do homem eram o pensamento do próprio Espírito, mas não foi por este reconhecido, uma vez que ele já estava muito absorvido com o mundo. O Espírito, então, atravessou o caminho do homem da maneira mais óbvia, e não obteve resultado. Foi obrigado, por isso, a usar de artimanhas.

Para Castaneda, existiriam três formas básicas de cognição no homem, que seriam, naturalmente, “posições do ponto de aglutinação”. O primeiro ponto é o do conhecimento silencioso, e nele a humanidade teria passado a maior parte da sua história, constituindo-se assim a “parte antiga” do homem. O segundo ponto permite o acesso ao terceiro -e vice-versa, e é chamado lugar da “não-piedade”, ou não-dúvida. E o terceiro ponto é o da razão, a posição atual da humanidade desde alguns milênios. Mas, tanto no primeiro quanto no terceiro, o ponto de aglutinação estaria na periferia da posição exata na maior parte dos casos, e os verdadeiros líderes foram e são aqueles que atingiram a posição exata. Hoje, pessoas cujo gênio seria o de exercitar sua razão. O resto das pessoas seriam a “mera audiência”.

Na posição exata, um ponto permitiria a visualização fácil do outro. Foi justamente por seu conhecimento perfeito do Espírito, vindo do conhecimento silencioso, que o homem passou a questionar-se acerca da origem daquele conhecimento, passando a considerar a “concernência”, associação, causalidade, razão.

Se considerarmos então a afirmação de Castaneda sobre a alegoria do Éden, devemos pensar Adão, o “primeiro homem”, não como um primeiro indíviduo criado e que originou a raça humana, juntamente com sua esposa Eva, mas sim como toda uma espécie de homem, de humanidade, civilizações inteiras que habitaram a Terra, mas que nós, os “segundos homens”, teríamos conhecimento precário por termos perdido a ligação com nossa origem.

Isso nos leva novamente a questão da Bíblia e da evolução humana. Existem várias formas de conceber o tempo. Uma delas é a cíclica, circular, o tempo da natureza, das estações do ano, vida e morte se repetindo por gerações, sem acúmulo, sem história. É o kairós e o aion gregos. Uma outra forma é a de Kronus, o círculo eterno é interrompido por Zeus e passa-se da potestade à forma, existe acúmulo, evolução, existe linha do tempo. A terceira forma seria a judaico-cristã, onde o tempo é considerado segundo a relação de Deus com os homens. Então, teríamos acontecimentos-chave, a gênese, a expulsão, os mandamentos, a vinda do messias e o apocalipse.

Nessa terceira concepção, o primeiro período da humanidade foi o do Éden, o período do pai, o homem vivia sob a proteção a presença divina, quase inconsciente, Deus põe os homens no mundo e os cuida. Com a queda, acontece o segundo período, o do filho. O homem é responsável por seus atos, mas vive perdido, sem a presença do Pai. O terceiro período é o do Espírito Santo, a humanidade já foi testada e agora o conhecimento se revela a ela, é o período do domínio da natureza e das leis naturais, a sabedoria, o livro sagrado do universo é aberto. A modernidade pretende ser o terceiro período, e o livro do universo estaria então escrito em “caracteres matemáticos”.

Castaneda, no entanto, prega uma volta ao conhecimento silencioso original, mas, depois de toda provação e inferno que sofreu, a humanidade voltaria com um troféu que não existiria no período inicial, “o entendimento”.

One Response to “Gênesis”

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    Blog do Miguel » Blog Archive » apocalypto later Says:

    [...] Que foi um palco de mouros enlouquecidos Um altar para deuses esquecidos Construiu sem temer a Lúcifer No oceano banhou-se na maré E nas montanhas deflorou a madrugada Nas paredes da pedra encantada Os [...]

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