Despertou minha atenção numa conversa em chat a informação da cifra envolvendo o valor de mercado do portal Google.com. Algo em torno de 80 bilhões de dólares.
Esse número é surpreendente em vários aspectos. Superou de longe os valores da histórica fusão entre a Time Warner e a America Online, além do valor do Yahoo!, por muito tempo considerado o maior portal do mundo. Bill Gates chegou a comentar a boa fase do google, dizendo que teve um período bom assim na Microsoft por dez anos. E quem é webmaster e roda stats no seu site sabe que a maioria das visitas vem pelo google.
O que o Google tem de especial? Todos que acompanharam a evolução desse site sabem que os serviços dele são muito bem feitos. Surgiu originalmente como um projeto de professores de Standford, e rapidamente conseguiu ultrapassar o líder de buscas altavista por conta da precisão dos resultados (page rank), simplicidade e praticidade do design “não poluído” e tamanho do banco de dados (maior número de páginas indexadas).
Há algum tempo anos o Google o vem intensificando a gama de serviços do seu portal e um ponto de inflexão nessa perspectiva ocorreu quando comprou os históricos arquivos dos newgroups (usenet). Esse é um expediente conhecido. O próprio Yahoo! cresceu comprando o Geocities, e mais tarde o egroups. No Brasil, o Yahoo!, que se instalou tardiamente, só conseguiu sua fatia de audiência depois de incorporar o site brasileiro Cadê.
No entanto, o Google também inova em serviços. O Yahoo! Maps já existe há anos, e recentemente o Google lançou seu serviço de mapas. Fotos de satélite de todo o globo estão agora disponíveis para consulta, em muitos casos com um grau de zoom bastante próximo. Uma marca de água com os dizeres google aparece em cada foto. Uma leitura ingênua diria que eles estão protegendo seu copyright sobre esse banco de imagens, obtido não sei de quale fonte. Outra leitura, talvez um pouco menos ingênua, daria conta que o Google quer se “apoderar do mundo” através de sua representação, firmando a posição de portal líder global. Aliás, uma das preocupações deles sempre foi tornar acessível o site em vários tipos de linguagens diferentes.
O programa Adsense do portal está sendo aderido em larga escala. E permitiria perfeitamente que eles mantessem estatísticas detalhadas acerca dos visitantes de um site. Além de indexar boa parte da web disponível, agora se fazem presentes também nos próprios sites, além de terem o email e os perfis do orkut. E em condições não muito satisfatórias para os webmasters que querem levantar seus caraminguás pelo duro trabalho de seus sites – nada perto dos $80 bi – , já que os banners são impressos milhares de vezes e apenas os cliques nos banners valem alguns centavos.
“Google is your friend”, “google rocks”, diziam os geeks que encontravam no google um aliado para encontrar ordem em meio ao aparente caos da web. Outras leituras mais mistificadoras, que identificam-no como um “fluxo da consciência global” ou mesmo um “oráculo moderno” surgiram.
Penso que tais leituras devem ser evitadas. O que há de importante na Internet é a explosão criativa que ela possibilita através da interação com as pessoas. Essa explosão causa verdadeiras revoluções nos sistemas e por isso escapam do paradigma aporético da representação. Porém, de acordo com a dialética da internet e da razão em geral, são sempre apropriadas pelas próprias forças anti-emancipatórias, que treinam e mimetizam a atenção das pessoas em simbologias.
O Google está ficando metido, vejam por exemplo a arrogância de seus conselhos ao webmasters nas suas guidelines. Assim como o Linux combateu o monopólio da Microsoft, o Google deve começar a ser combatido, pois é apenas mais um site, como também o Google Watch é. É bastante poder na mão de uma empresa privada, com acesso a dados importantíssimos que acabam com a ilusão de qualquer privacidade, em macroescala.
Quem navega na web há anos sabe que as coisas eram muito diferentes do que são hoje. Por causa da força do conceito, da surpresa embutida nas possibilidades e na interação com o novo. E daí o slogan do Mozilla “Take back the web”. O orkut e os flogs mostram que estamos cada vez mais conectados e no entanto nada parece aplacar a sede pelo novo e o inevitável tédio. Fatos absolutamente graves são tratados na solidão da telinha individual, friamente, pela razão analítica planificadora.
Uma das coisas legais na Web, pelo menos para mim, era explorá-la através dos diretórios. O primeiro site que visitei foi o Yahoo!, em 1996. Achava que toda a web existente estava indexada ali, naquelas categorias. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir o Altavista e seus milhares de resultados. O mundo era maior do que supus. E ele sempre se revela assim.
Porém, nos diretórios cada site aparece repousando na sua inteireza, na importância de seu projeto, design, conteúdo e avaliação. O Google não é a web, e vasculhá-la simplesmente procurando por palavras-chave diminui esse aspecto, criando a falsa impressão de controle.
Hoje, resgato para mim esse prazer do diretório realizando um projeto antigo, que é um guia para sites de filosofia no Consciência.org. O diretório do Google usa os dados do Dmoz.org, projeto iniciado pela Netscape – uma ex-gigante que um dia caiu – com o apoio de centenas de editores em todo o mundo. Eu era editor da categoria Filosofia em Português no Dmoz, mas perdi minha conta ao ficar alguns meses sem logar, depois de brigar por “Filosofia” ser uma subcategoria de “Sociedade” e não de “Ciências Humanas”.

