Wilson Martins e Sartre
Aug 10th, 2008 by Miguel
O tradicional site Jornal de Poesia de Soares Feitosa traz em seus arquivos uma preciosa coleção de artigos do grande crítico literário Wilson Martins autor da obra “História da Inteligência Brasileira” em 7 volumes. Estão ali abordados vários temas interessantes, como a condenação injusta do parnasianismo, a briga entre os modernistas e Monteiro Lobato, o culto exagerado em torno do Poeta Paulo Leminski, polêmicas com Daniel Piza e Carlos Nejar.
Mas o que queria falar é que a Camy notou que no artigo sobre Sartre ele chama “A náusea” e “O muro” de Jean-Paul de “contos”. Que critério ele teria usado para aplicar esta classificação? O problema do gênero literário é um pouco complexo, e eu abordei isso num seminário sobre o gênero conto que escrevi para a UFSC. Mas “A Náusea” é considerado o primeiro romance de Sartre. Certamente o livro, que tem como protagonista Antoine Roquentin tem extensão para tanto, já que tem a dimensão aproximada da Idade da Razão, do mesmo autor, apontado como romance por Martins, parte integrante da trilogia Caminhos da Liberdade.
Talvez seja a ausência de mais focos narrativos e personagens dentro da trama. Porém, observando o artigo, notamos que é bastante crítico a Sartre, valendo-se inclusive de experiências pessoais quando da visita deste ao Brasil e de causos pitorescos de sua vida amorosa para taxar a filosofia de Sartre essencialmente como um marxismo ultrapassado. Talvez esta intenção de minimizar tenha influído na classificação do livro, embora isso seja discutível, já que o “conto” não é necessariamente inferior ao romance, só um outro gênero literário. Parte da crítica de Martins é compreensível pelo triste papel de adulação com que se comportou a intelectualidade brasileira durante a visita do proeminente intelectual. Isto é apontado no texto e em outras histórias: Nelson Rodrigues, por exemplo, teria tirado sarro porque um dos que acompanhavam Sartre ofereceu-se para recolher os caroços de jaboticaba escarrados por Sartre, que estava experimentando a fruta brasileira. Sendo Martins erudito na produção intelectual brasileira, certamente não gostou deste tratamento colonial oferecido e respaldado durante a viagem.


Então, Miguel, foi justamente por causa da extensão do livro e por conta do Sartre manter o foco narrativo em uma personagem só é que dá pra classificar “A Náusea” como novela. Talvez o livro seja considerado como “o primeiro romance de Sartre” pelo fato do autor ter se dedicado, até então, à filosofia e o termo “romance” sendo usado no sentido de “literatura”.
Inté ;]