os olhos cintilantes da deusa…
Glaukôpis (γλαυκώπις)
É o epíteto de Atena na Ilíada e Odisséia. As traduções para o termo variam muito, tanto na nossa língua quanto em outras que andei pesquisando. O Jaime Bruna e outros preferem dar ao termo sentido de cor: “deusa de olhos verde-mar”. Carlos Alberto Nunes faz uma tradução literal: “deusa de olhos glaucos”. Poderíamos perguntar: se existe a palavra glauco em nossa língua, por que não usar na tradução do epíteto? Mas o que significa esse glauco? Vejamos o que diz o Houaiss (cuja etimologia, aliás, parece seguir a do clássico dicionário de Bailly):
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Datação1634 cf. BPPro
Acepções adjetivo 1 esverdeado, verde-claro 2 de tom verde-azulado
Etimologia gr. glaukós,ê,ón ‘verde-pálido, verde-cinzento, verde-azul, azul-esverdeado, azul-verde’, originalmente ‘brilhante, cintilante, resplandecente (falando do mar); sem qualquer idéia de cor’, pelo lat. glaúcus,a,um ‘verde, de cor verde-mar, verde-claro, tirante a verde, esverdeado’; ver glauc(o)
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Repare que no sentido original, parece que não era relativo à cor. Então, a tradução “olhos brilhantes” parece ter uma interpretação acertada. Ela é corrobada por outras em inglês que usam “flashing-eyed” e “bright-eyed”. Outras versões em português usam garços (palavra espanhola) e pulcros (para dar uma noção de resplendor delicado, aí já acho que foge totalmente).
Esse brilho parece fazer sentido, é o brilho da inteligência, Atena, a deusa da sabedoria, que guiava seus protegidos. Outras traduções que vi preferem “owl-eyed” ou “owl-faced” fazendo a ponte com o glaux (coruja), símbolo da deusa, a ave cujos olhos brilham no escuro, e que também o símbolo da filosofia porque “apreende a escuridão com a inteligência”.
Alguns textos associam também ao brilho do ramo da oliveira sobre o vento, e ao brilho do planeta Vênus, que numa acepção primitiva é associado com essa cor verde-azulada, da pedra de jade, a mesma associação do deus maia Quetzalcoatl (?).
Outro texto que li faz a associação do glaukôpis como uma característica masculina, a deusa teria olhos de homem.
O Haroldo de Campos quando se deparou com essa questão, optou por traduzir por “brilho de olhos azuis” em alguns trechos e olhicerúlea em outros, nisso seguindo o Odorico Mendes:
E a deia olhicerúlea: “Vim, de acordo
Com Juno albinitente, amiga de ambos,
Comedir-te e amansar. Anda, em palavras
Tu desabafa, a lâmina embainha.
Por esta injúria, to predigo certo,
Inda haverás em triplo insignes prémios.
Sê-nos pois dócil, a paixão modera.”
Esta pode ser também uma decisão bastante consciente, que une as duas ‘interpretações’ e as associar, pois o brilho seria o dos olhos claros, a caesia latina, já que o glaukómmatos se contrapunha ao melanómmatos, de olhos escuros.
De qualquer forma, parece-me que essa associação com a cor é tardia, o sentido do glaukô foi mantido por exemplo, na palavra glaucoma.
O epíteto, então está envolto no mistério do tempo e uma armadilha da linguagem, que depende da interpretação: algo relativo à cor verde-azulada dos olhos ou relativa ao brilho intenso que deles emanava? E admitida essa via entram outras questões, como a associação do brilho com inteligência ou também este brilho com o dos raios de Zeus.
E o brilho é o do olhar da coruja? Nesse caso, contrapõe-se ao olhar da deusa Hera, que tinha um olhar ‘bovino’, segundo o epíteto…? No thread que iniciei no orkut sobre o assunto, responderam: “O grego “glauk” para “coruja” vem justamente dos olhos claros e espantados desse animal. O termo tem a ver com claridade e não com o matiz da claridade (azul, cinza ou qualquer que seja).”
A coruja é a ave de Atena, ou a ave minervina, na mitologia romana. Atena sai adulta e armada diretamente da fronte de Zeus, que havia engolido sua mãe receoso de uma profecia. Atena é a deusa da sabedoria, que guia seus protegidos dentro do labirinto do mundo. Tem invejável poder de persuasão e influência junto ao pai.
Como dissemos, A coruja é uma ave noturna. A coruja apreende a escuridão com a inteligência. Isso é também uma analogia da atividade filosófica, da passagem da elaboração mítica, na noite escura do tempo, para a interpretação racional, sob a luz natural.
Hegel oficializou a coruja de minerva como símbolo da filosofia num famoso trecho do prefácio da Filosofia do Direito. “Quando a filosofia pinta cinza sobre o grisalho, então uma forma de vida já envelheceu. E com o cinza sobre cinza não se pode rejuvenescer, somente envelhecer. A coruja de minerva alça seu vôo somente com o início do crepúsculo” (tradução livre).
Findas as revoluções, vem a reflexão sobre elas. O mundo da vida é premente, é urgente, pede atenção e envolvimento de forma preponderante. A filosofia exige o ócio (questões de subsistência resolvidas), a contemplação, a meditação, o retiro. As dúvidas céticas (acadêmicas), como aponta Hume, perdem sua força no ‘dia-a-dia’. Porém, não são facilmente derrubadas em seu próprio meio.
Tem mais debate sobre isso neste link que foi citado nesta outra discussão do orkut.
Na lojinha on-line que configurei no Consciência aprovei esta problemática no motivo de uma das camisetas lançadas: uma image de coruja extraída de um dracma da época clássica com o final da citação do texto do Hegel. Na outra face da moeda, vinha o rosto de Atena.

Camiseta da Coruja de Minerva

