Nostalgia – Ensaio de Luiz Carlos Maciel
Resolvi postar este ensaio do Maciel, publicado em 1977, porque o julguei interessante – o texto tem uma profundidade porque é escrito a partir de um ponto psicológico de calma, que está se tornando raro, e exerce brevemente uma denúncia sobre um tema que continua atual. O que se fala há 30 anos, separando os períodos e gerações dos anos cinqüenta, sessenta e setenta, repete-se monotamente hoje, em muitos casos. Não há nada de errado com o passado, mas a saudade da época áurea da vida, que já foi analisada como uma dimensão mítica atemporal da idade de ouro da humanidade, pode tolher nossos sentidos para o tempo que se aproxima, fixando-se no tempo que passou. A saudade pode ser apenas a falta incômoda da capa brilhante da consciência que se foi… Às vezes é preciso`romper com a causalidade para enxergar e abrir o ser, para que o novo irrompa. Mesmo que este seja apenas um reencontro.
NOSTALGIA
Luiz Carlos Maciel in A morte Organizada
Dizem que há um clima geral de nostalgia em todo o mundo. De repente, como se tivéssemos ficado cansados das novidades incessantes dos últimos anos, estaríamos parando para lembrar. São numerosos os jornais e revistas, os articulistas e repórteres, que parecem estar tentando nos convencer de que a memória, afinal de contas, é bem mais excitante e divertida que a vida atual. O que tem Humphrey Bogart e Mari-lyn Monroe que Mick Jagger e Alice Cooper, a julgar por eles, não têm? É difícil saber, considerados apenas os chamados dados objetivos desses nomes e dos fenômenos mais amplos que eles representam. As coisas passam e o mundo muda — isto é tudo. Se, de alguma forma, nos prendemos ao que passou ou pretendemos, periodicamente, retornar a ele, isso deve ser naturalmente atribuído a uma poderosa força psicológica sobre a qual não parecemos ter, ainda, muita clareza. Por que o passado — e não o passado distante, mítico e incognoscível, mais aberto portanto à imaginação, mas um passado que vivemos — nos parece, de súbito, tão atraente e envolto em encanto?
A nostalgia, como fenômeno social, é o produto direto de um certo sentimento do mundo, que se pretende afirmar como dominante, típico de pessoas que ultrapassaram a metade provável de suas vidas. Vivemos sempre no passado ou no futuro; a desatenção nos desvia no momento presente para essas fantasias, sempre imprecisas mas exigentes, sugeridas pela memória e pela imaginação. Os jovens, por exemplo, em sua circunstância biológica, costumam viver o futuro: são, inteiramente, projeto e antecipação. Gostam de previsões, profecias e, mesmo, planos a longo alcance. A imaginação doentia, então, se projeta para diante. Na medida em que a vida passa, porém, o futuro se fecha, as fantasias se desmentem e a imaginação — cada vez mais doentia, pois em geral tentamos curar nossas doenças ingerindo doses cada vez mais altas dos venenos que as provocaram — procura pasto na memória. Frustradas as suas antecipações, o ego sente que está perdido e abandonado à insegurança fundamental da liberdade — que, aliás, só é angustiante em sua ótica deformada, sendo para o homem desperto, ao contrário, fonte de paz e equilíbrio psicológico. Volta-se, então para essas imagens obscuras da memória como se elas fornecessem um atestado da existência objetiva de algum paraíso e seguro que ele, o ego, pudesse dominar. As imagens obscuras, porém, são apenas imagens obscuras, não correspondendo a nenhuma realidade efetiva, e o sentimento que brota então é uma coisa morna e passiva, doce mas triste, aparentemente tranquilizadora mas mortal a que chamamos nostalgia.
A verificação prática é fácil. Todos os objetos da pretensa onda de nostalgia que, segundo certa imprensa, é uma moda atual, são lembranças dos anos cinqüenta, justamente a época em que as pessoas que, agora, estão na metade provável da vida, eram jovens curiosos e abertos ao futuro. O aparecimento de um sentimento nostálgico no mundo, nessa gente, indica, antes de mais nada, que estamos vivendo o momento histórico em que elas viram desmentidas as suas antecipações, frustrados os seus projetos e desmanchado o futuro fictício que elaboraram longamente nas cavernas secretas da imaginação. Por que a nostalgia não se satisfaz com um passado mais recente? Por que não ousa recuar a um passado mais remoto? Não: as explosões nostálgicas fixam-se num recuo de cerca de vinte anos, mais ou menos, ou seja, justamente o período intermediário entre a infância e a adolescência dos que estão nos trinta, nos quarenta, e suas atuais decepções. “Já temos um passado, meu amor”, diz Caetano Veloso em Saudosismo. Essa verificação existencial é o ponto inicial do processo: o passado reaparece a partir do esvaziamento do futuro. Os anos cinqüenta aparecem, imaginariamente, como a perspectiva perdida de um controle ingênuo da realidade, típico da infância e da adolescência — uma ilusão evanescente, é verdade, mas nossa primeira reação ao desamparo é o apego a ilusões — dolorosas ou agradáveis, não importa. Naturalmente, o que se introduz aqui, na vida de um indivíduo, é a própria velhice e a própria morte, disfarçadas nas cores suaves da memória. “Recordar é viver”, dizem as pessoas mais velhas, morrendo sempre mais um pouco — sabendo ou não —, na medida em que se fortalece o apego ao que passou.
A nostalgia é uma espécie de nó psicológico. Ela obstruí a atenção ao momento presente, invertendo o sentido original de velhas aspirações — políticas, afetivas, existenciais, etc. Pode ser definida como o momento traiçoeiro de descoberta do passado, uma reversão psicológica de conseqüências mortais para a vida espiritual de qualquer indivíduo ou coletividade. Por isso, as épocas nostálgicas são sempre épocas de poucas perspectivas para o futuro. Quando a sombra das desilusões caem sobre ele, nossa sede insana por segurança e conforto, nossa moleza espiritual e nossa covardia procuram refúgio no passado. Esse sentimento do mundo aparece sempre quando a geração intermediária — sempre influente nos caminhos das coisas — se defronta, afinal, com uma perplexidade insuperável. Norman O. Brown já estudou o fenômeno da regressão psicanalítica em termos de uma nostalgia de uma Idade de Ouro perdida junto com a infância. Resta verificar a medida em que essa nostalgia serve a interesses ideológicos específicos de estagnação da vida que deveríamos permitir que se renovasse sempre. A nostalgia, de que tanto falam os jornais e revistas, não passa de um poderoso instrumento psicológico da Morte Organizada.
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Ainda sobre esse assunto Kafka escreveu no conto “Uma mulher pequena”:
“Mas em parte trata-se apenas de um sintoma da idade; a juventude veste tudo com belas roupagens; pormenores desagradáveis se perdem no jorro enérgico da juventude; mesmo que alguém, quando jovem, tenha tido um olhar um tanto à espreita, isso não é levado a mal, não é notado nem por ele próprio; mas o que sobra na velhice são resíduos e cada um deles é necessário, nenhum é renovado, todos ficam sob observação – e o olhar de espreita num homem de idade está claramente à espreita, não é difícil percebê-lo. Mas também aqui não se trata de uma piora real e efetiva.”
E Drummond: “Não recomponhas tua sepultada e merencória infância
Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.”


