Está ficando raro…
Dec 11th, 2008 by Miguel
Eis alguns exemplos de situações da fala que se repetem:
“Comprei uma bicicleta”
R:”Preciso de uma para mim”
“Escrevi um post novo”
R: “Hmm, vou escrever um daqui a pouco”
“Tive 54 visitas”
R: “Hmm, o meu site teve 28″
“Passei no vestibular”
R: “Ah tá”
“Vi o novo filme tal, achei muito bom”
R: “Ah, você ja viu o filme ypsilon, vi ontem, é bom”
“Tenho o seguinte problema”
R: “Entendo…”
Nada contra a troca de experiências, porém o costume de ouvir (sim, eu tento praticá-lo!), considerar o Outro, parabenizar, se interessar está ficando cada vez mais raro na competitiva sociedade moderna de consumo. Parece que as únicas reações possíveis são de a) inveja b) desprezo e c) indiferença. Se você considerar que o ego descontrolado aparece ao interlocutor como algo pesado e pegajoso, logo vemos o quão penuriosa está tornando-se a comunicação. Tudo o que você fala é apropriado pelo universo pessoal do interlocutor. Comece a policiar as conversas para ver como as situações desse tipo são frequentes, o egotismo infantil não está mais sendo superado. Lembramos de uma máxima de Zenão, o estóico:
“O motivo de se ter duas orelhas e somente uma boca é que devemos ouvir mais do que falar”.
Outra questão é quando você faz algo generoso pelo próximo e a bola volta quadrada, por causa do constrangimento ou da esquizofrenia ingrata de achar que não fizemos mais do que a obrigação. E se você dá corda, por outro lado, a pessoa te transforma num mero “gateway” para as nuances e mil problemas do cotidiano, abusando da boa vontade. Aliás, é pertinente a classificações dos espreitadores do universo de castaneda acerca dos tiranos e das pessoas como “peidos” “mijos” na crítica implacável à “auto-importância”… É uma reivindicação brusca de ser o centro do universo, somos todos reis e rainhas, ou um dos problemas da democracia, é que todos querem ser aristocratas

Excelente texto!
Olá Carla!
Obrigado. Primeiro comment da série nova de posts
Essa questão é mesmo interessante, porque vivemos uma crise de comunicação no mundo moderno (o Habermas trata disso, né?) As pessoas não conseguem se colocar mais num ponto de vista universal, a própria noção do universal se perdeu. Talvez a internet seja a materialização dessa distância, desse isolamento existencial que vivenciamos.
Abraço, continue postando!
Rafael, justamente! Muito bem lembrado o Habermas com sua teoria da ação comunicativa. Na comunicação via chat, como você notou, o problema se intensifica, talvez porque as pessoas estejam em seu reino doméstico, prontas para expor todos os tentáculos. Na comunicação ao vivo a presença imponente do outro e do ambiente minimiza essas coisas, que são no fim abstratas. Mas você, caro amigo, é uma das exceções, claro (assim como outras das minhas conversas online), sempre é muito frutífero trocar informações e vivências com você. Abs
É o que estávamos falando outro dia…
A Internet possibilita a comunicação e o conhecimento, mas não desperta nas pessoas o desejo real de se comunicar e de conhecer….As comunicações se baseiam na frivolidade, assim como quase todo o resto de atividades.
Sim, sim, senhor Miguel, gostei.
@Cavutto: Acho que isso tem a ver um pouco com os rumos que tomaram a massificação da internet, também não é? Antes (nos primórdios, hehe) havia uma preocupação de criar a manter a tal nettiqueta.
@Dr. Tony, prazer vê-lo aqui. E os outros posts, que tal?
Abs
Amigos da net, futilmente nos deixamos as vezes …nessas companias apenas para suprir o buraco momentâneo que nos oprime…não é exagero dizer que o tédio tira tudo….andamos cada vez mais entediados com a vida e pessoas assim são reflexo.Há o conversar ou não conversar.Eu por vezes nem ligo p pc para não ter isso.Essa dose é a “última injeção”…E tanto quem perde tempo assim quanto quem passa horas na frente de um pc.É o preço…mas tem muita coisa boa…segue bloqueando e sendo seletivo para vc ver….a coisa muda.E quando quizeres conversar de verdade apenas fale….e de um fio nasce a trama inteira…..