Blog do Miguel

12 Dec

egrégora – a força envolvente do grupo

Uma amiga minha, que praticava yôga regularmente, conta que, quando decidiu parar com as aulas, teve um sonho intenso. Sonhava ela que aparecia num local indeterminado, mas antigo, na companhia de dois mestres yogues, com aspecto e maneiras indianas. Conversaram sobre tudo, com grande felicidade, por um tempo até que um deles, sorrindo, perguntou: “você quer mesmo sair do grupo?”. Ao que ela respondeu afirmativamente, justificando-se acordou, tomando consciência do que tinha se passado e ao mesmo tempo repleta de uma grande sensação de paz depois desta “despedida”. A explicação que ela deu é que ela havia saído da “egrégora”.

Este interessante conceito é usado por algumas correntes iniciáticas. Está na cartilha do aclamado mestre DeRose, que dá a seguinte definição:

Egrégora provém do grego egrégoroi e designa a força gerada pelo somatório de energias físicas, emocionais e mentais de duas ou mais pessoas, quando se reúnem com qualquer finalidade. Todos os agrupamentos humanos possuem suas egrégoras características: todas as empresas, clubes, religiões, famílias, partidos, etc.

Egrégora é como um filho coletivo, produzido pela interação “genética” das diferentes pessoas envolvidas. Se não conhecermos o fenômeno, as egrégoras vão sendo criadas a esmo e os seus criadores tornam-se logo seus servos, já que são induzidos a pensar e agir sempre na direção dos vetores que
caracterizaram a criação dessas entidades gregárias. Serão tanto mais escravos quanto menos conscientes estiverem do processo. Se conhecermos sua existência e as leis naturais que as regem, tornamo-nos senhores dessas forças colossais.

Por axioma, um ser humano nunca vence a influência de uma egrégora caso se oponha frontalmente a ela. A razão é simples. Uma pessoa, por mais forte que seja, permanece uma só. A egrégora acumula a energia de várias, incluindo a dessa própria pessoa forte. Assim, quanto mais poderoso for
o indivíduo, mais força estará emprestando à egrégora para que ela incorpore às dos demais e o domine. A egrégora se realimenta das mesmas emoções que a criaram. (DeRose , Kharma & Dharma)

Embora transposta por DeRose para o contexto hindu de karma e dharma, a palavra, grega, é mais utilizada, ao que parece, pelos maçons. Estes consideram as leis de simpatia e antipatia que regem a comunicação humana. (Este contexto, aliás, foi muito importante no medievo e no Renascimento, Foucault em As palavras e as coisas tece bons comentários sobre ele.) A maçonaria tem 33 graus de aprendizagem e maestria, e considera especialmente cada um deles. Toda a ligação entre maçons é enfatizada, dentro de cada nível, e os segredos litúrgicos da transmissão e das reuniões não são passados a estranhos em parte por causa da noção de “egrégora”. Abaixo, mais algumas definições tiradas da web:

É A EGRÉGORA”, é o mistério que faz de cada um, um só ser, todos os Maçons passam a uma individualização única, é a harmonização dos pensamentos, das idéias dos propósitos, é a Aura geral, o esplendor único, é a transformação de um corpo físico em um corpo místico, é a fusão de todos numa corrente divina. A EGRÉGORA é um ser real que permanece, enquanto o Livro Sagrado estiver aberto. http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=35374&cat=Artigos&vinda=S
“Chama-se egrégora a uma entidade, um ser coletivo originado de uma assembléia”. Entidade viva e etérea a que cada membro contribui com sua parcela individual e, de igual modo, todos se beneficiam pela geração de um estado de consciência que propicia tranqüilidade, repouso e bem-estar. (Erton Alves Costa)
Chama-se egrégora uma entidade, um ser coletivo originado por uma assembléia, cada Loja possui a sua egrégora, cada obediência possui a sua, e a reunião de todas essas egrégoras forma a grande EGRÉGORA MAÇÔNICA. (J. BOUCHE apud Egrégora maçônica, fenômeno de força incógnita.

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O Castaneda, no seu duvidoso esforço final por direcionar produtivamente as aspirações dos leitores que queriam ser seguidores, promoveu seminários em que ensinava uns exercícios corporais que desenvolveu, baseado em várias fontes diferentes, chamados de Passes Mágicos ou Tensegridade. Um dos objetivos destas reuniões finais, segundo ele mesmo explica no livro Arte do Sonhar, era o de ocasionar a criação de uma tal “massa enérgica” no ambiente, com a concatenação das várias forças humanas reunidas em um objetivo comum, criaria-se uma concentração irresistível de energia, capaz de vencer os abismos e empurrar as ameaças para longe, dando propósito e propulsão aos guerreiros.

O escritor chileno Alejandro Jodorowsky, junto com o desenhista francês Jean Girard, trata da força envolvente do grupo no final da fenomenal série “O Incal”. Desta série eu tinha lido apenas o volume 1, (O Incal Negro), que era do meu irmão Daniel, colecionador de quadrinhos. Mas numa tarde tensa em que estava perto do Metrô Vergueiro, em São Paulo, fui até a Gibiteca Henfil e lá li os volumes restantes. O argumento é bastante denso, mas pode-se dizer que o protagonista, John Difool, é um detetive particular do futuro, que se envolve, num ambiente surreal, numa epopéia mirabolante quando encontra-se com a existência do Incal. Este é um artefato em forma de pirâmide, antigo e misterioso, com poderes mágicos, que cai em sua posse. Os inimigos, que querem aniquilar o universo com o não ser e a anti-matéria, passam a perseguir Difool em toda espécie de situação, no ambiente de ficção e futurismo corrompido que o traço de Moebius cria bem.

Difool é inepto e relapso, com vários vícios e defeitos, e está numa missão bem além do seu alcance ordinário. Os seus amigos, mais ambientados na querela intergaláctica, porém, esforçam-se para que a missão se cumpra de qualquer maneira. Bem, no final da saga o mistério do Incal é revelado, e o Ohr mostra a Difool que tudo fazia parte de um plano, sendo ele o Alfa e o Ômega daquele universo, o ser e o não-ser. Difool é o escolhido por ser uma encarnação da eterna testemunha, a chama da consciência individual, própria, do ser vivo, que difere do absoluto e deve testemunhá-lo e irrecusavelmente viver. No último quadrinho está a homenagem à força envolvente do grupo que falei. Para manter a vida, e não reencarnar novamente, Difool precisa recordar, ou não esquecer e o início disso acontece quando ele se lembra dos bons momentos passados pelas grandes amizades (último quadro). Abaixo a seqüência de quadros da situação descrita.

Incal

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Felizmente, graças a internet, não precisamos mais ir nas gibitecas. Você encontra para download a série inteira no 4shared ou esnips.

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