São Paulo, os epicureus e os estóicos
Dec 12th, 2008 by Miguel
Estava lendo o livro Atos do Novo Testamento e achei esta passagem muito engraçada:
Atos 17:16 Enquanto Paulo os esperava em Atenas, revoltava-se nele o seu espírito, vendo a cidade cheia de ídolos.
Atos 17:17 Argumentava, portanto, na sinagoga com os judeus e os gregos devotos, e na praça todos os dias com os que se encontravam ali.
Atos 17:18 Ora, alguns filósofos epicureus e estóicos disputavam com ele. Uns diziam: Que quer dizer este paroleiro? E outros: Parece ser pregador de deuses estranhos; pois anunciava a boa nova de Jesus e a ressurreição.
Fico me perguntando qual seria a palavra grega para “paroleiro” e o que ela significava naquela época, hehe. Atenas, centro da razão especulativa e capital mundial da filosofia, não deu bola inicialmente para o Evangelho de Cristo e para a ressurreição da carne (sobre isto te ouviremos outro dia, disseram). No entanto, era um local, ainda, em que debatia-se intensamente, com as diversas escolas e doutrinas concorrentes ocupando o espaço comum da dialética. O discurso de São Paulo foi no Aréopago, espaço célebre da Atenas clássica, presente na biografia de Sólon, Péricles e Demosténes . Apesar de terem escarnecido parcialmente do cristianismo, nova seita judaica e oriental que se firmava, deram vez à sua fala, cederam o espaço e se interessaram. Tanto que mais adiante é dito: “Ora, todos os atenienses, como também os estrangeiros que ali residiam, de nenhuma outra coisa se ocupavam senão de contar ou de ouvir a última novidade.” Fica engraçado pensar que Evangelho é às vezes traduzido como “boa nova”, a boa nova de uma nova relação com anjos, “eu” (bom) e angellion.
As correntes mencionadas na Bíblia fazem referência às escolas que dominaram a Grécia depois do helenismo de Alexandre, o Grande, ou seja, os estóicos e epicuristas. Paulo de Tarso viajou pelo Ocidente em uma trajetória cheia de peripécias, enfrentando, por vezes, forte oposição, especialmente nas sinagogas, que estariam perseguindo os cristãos. Até que se fixou em Roma, capital do império, e ali seguiu pregando ser ser importunado. A cristianização de Roma veio séculos depois, mas o cristianismo só conseguiu vencer no ocidente justamente ao fazer um sincretismo com várias tradições, e, justamente, ao fundir-se com o platonismo e a filosofia grega, por séculos o grande instrumento de interpretação do mundo. (que bela “vingança” para Paulo!)Isso é explicado por Johannes HIRSCHBERGER na sua História da Filosofia Medieval. Nietzsche afirmou ironicamente que o “cristianismo é o platonismo dos pobres” e colocou-se veementemente contra a dogmatização do cristanismo de Paulo, em seu livro O Anticristo, como expliquei no meu artigo sobre Nietzsche e o Cristianismo.
Dados escassos dão conta do que os outros Apóstolos teriam feito para seguir a ordem de Jesus (ide, e pregai o Evangelho). Embora os Atos do Novo Testamento diga, numa passagem, que o Espírito Santo teria barrado a viagem deles à Ásia mais distante, muitas tradições contam que o cristianismo espalhou-se rapidamente por lá e também pelo Egito. A Igreja Copta, por exemplo, teria sido estabelecida por São Marcos. Chama a atenção, durante a leitura do excepcional livro das Viagens de Marco Polo o fato dele ter encontrado várias seitas cristãs durante sua penetração no Oriente. Até mesmo é dito que foi o Khan do grande império Tártaro quem presenteou o papa de Roma com um tecido especial, finíssimo, com propriedades fabulosas, para ser envolto no Santo Sudário e assim o conservá-lo para os séculos. Isso sem falar nos ortodoxos russos…
Porém, um dos mistérios mais curiosos envolve a figura do apóstolo Tomé, que teria viajado incansavelmente até chegar na América, mais especificamente no Brasil. Quando os portugueses travaram contato com os índios, existiam inúmeras lendas envolvendo o “Pai Sumé”, nome que seria uma corruptela de Tomé. Pegadas calcificadas e o mito de que houve um homem que ensinou diversas coisas àqueles povos, com a promessa, ao partir de que outros como eles voltariam um dia. A criação do famoso e mitológico caminho de Peabiru é atribuída a ele. Uma confluências de trilhas que ligariam os vários povos guaranis até o Império Inca, no Peru, que foi exatamente usada pelos exploradores espanhóis e portugueses, como o lendário Cabeza de Vaca, para fazer um saque de pedras preciosas e riquezas no Peru a partir da costa brasileira. Os povos guaranis, como é sabido, ocupavam uma vasta área geográfica e tinham uma misteriosa unidade linguística, embora não tivessem de maneira nenhuma uma unidade política. Então, esta expedição foi arregimentando colaboradores nas aldeias pelo caminho, usando a trilha de Peabiru, que não era usada há algumas gerações. O disco de estréia de Zé Ramalho, feito junto com Lula Cortês, na lisérgica Recife dos anos 1970, homenageia esta temática, como mostra a letra de uma das faixas que postei na crítica ao filme do Mel Gibson.
