Blog do Miguel

27 Jan

A regra XI da obra Regras para a direção do espírito de René Descartes

Abaixo um comentário-resumo que escrevi sobre a Regra XI das Regulae cartesianas em 1998.

Regra XI

Depois da intuição de algumas proposições simples, quando delas tiramos outra conclusão, é útil percorrer as mesmas proposições com um movimento contínuo e em nenhum lugar interrompido do pensamento, refletir em suas relações mútuas e conceber distintamente várias de uma só vez, tantas quanto pudermos; é assim, de fato, que nosso conhecimento fica mais certo e, sobretudo, que se aumenta a amplitude de nosso espírito.
(DESCARTES, REGRAS PARA A DIREÇÃO DO ESPÍRITO)

O sujeito do conhecimento conhece primeiro pelo entendimento. O sentido e a memória são auxiliares. Descartes propõe que façamos uma vez na vida um movimento em direção a nosso interior, para descobrir os limites da razão e do conhecimento para podermos, através de regras simples, ampliar estes limites. É o exercício da meditação.

Na regra VII, Descartes ressalta a importância do exercício intelectual, através do raciocínio sagaz e contínuo. O raciocínio repetitivo e quebradiço é superficial e portanto não leva à lugar algum. Esta atividade intelectual é também espiritual, já que para Descartes a alma é racional e está separada do corpo. Só o entendimento é capaz de fazer ciência, porém ele é auxiliado pela imaginação, sentidos e memória. O entendimento opera por indução e dedução, que tem por faculdade a perspicácia e a sagacidade.

A regra XI diz que essa atividade intelectual, este pensamento contínuo, deve refletir sobre as diferentes relações e conclusões que se tiram da intuição das proposições simples. Descartes pensava que devemos direcionar nosso entendimento para as coisas mais fáceis de entender, por serem elas simples. É do simples que se contrói o complexo, e consequentemente, se faz a ciência. O simples é universal: refletindo, poemos conceber várias coisas distintas ao mesmo tempo, e a aumentar a capacidade do nosso espírito.

Na explicação desta regra, Descartes retoma o conceito da intuição intelectual, ligado anteriormente à dedução e a enumeração. Na tradição platônica, a palavra intuição estava ligada à percepção das coisa conforme a disposição do criador. O mundo transcendente nesta tradição é sempre inteligível, e a capacidade de intuir é mental.

Para Descartes, o entendimento, ao se livrar da interferência dos sentidos, é capaz de perceber de uma vez só algo claro e distinto, de modo a não restar dúvidas. Essa intuição serve de base para a cadeia dedutiva. Dessa forma a luz natural, que é a razão, pode progredir no avanço do conhecimento. A continuidade do raciocínio numa cadeia dedutiva serve para se aproximar uma inferência dedutiva da clareza da intuição.

A memória vai adquirir um papel importante na enumeração, em que se passa de um juízo para outro na cadeia do raciocínio. A memória é fortalecida pela repetição não viciada e pela continuidade do pensamento. Descartes estava ciente que a memória humana é débil e frágil, e pretende, através de um ato de vontade, aumentar a capacidade de memorizar e recordar.

A cadeia dedutiva é sempre ascendente, evolui em uma direção, e as proposições são como elos que estão ligados. No final da explicação da regra XI, Descartes destaca a importância para a busca do conhecimento de pensar estes elos separadamente e notar a relação entre cada um deles fora da ordem ascendente.

Pois seria um triunfo para meu espírito poder ligar, por exemplo, a primeira e a quarta proposição ao mesmo tempo, mesmo que elas difiram bastante uma da outra. A suposição não deve, porém, contrariar o conhecimento certo, mas aumentar a clareza das coisas.

LINK: Método e verdade nas Regras para a direção do espírito de Descartes.

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