Blog do Miguel

22 May

Avatsiú: A linguagem dos pássaros – Mito índigena do Kuarup, coletado pelos irmãos villas-boas

Avatsiú: A linguagem dos pássaros (Kamaiurá)

Certa vez uma mulher brigou com o marido. Este, desgostoso, resol­veu abandonar a casa. Preparou dois charu­tos e saiu mata aden­tro. Lá no meio do mato, encostou a um pé de camiuá e falou:

Tamãi [vovô], eu quero ficar igual a você.

Você não vai agüentar, meu neto. Ser árvore é muito duro. Tem que ficar sempre acordada, se dormir morre e acaba de uma vez — respondeu o camiuá.

O moço, então, continuou vagando e falou a mesma coisa quando encontrou o ivurapaputã:

Tamãi, eu quero ficar igual a você.

Não. Não pode, meu neto. Você não vai durar muito. Todo mundo que quer fazer arco virá cortar você. Nós vive­mos pouco — respondeu o ivurapaputã.

O moço ouviu e saiu andando de novo. Mais à frente pas­sou por uma fumacinha que estava subindo ao lado dele. Depois de andar mais um pouco resolveu voltar para ver de quem era a fumaça. Voltava dizendo consigo mesmo: "Quem será que mora aqui?" Mais de perto viu que eram os passarinhos que estavam queimando capim e continuou a andar até onde eles estavam. Ao chegar, os passarinhos perguntaram:

— O que você está fazendo, vovô?

Nada. Estava passeando e parei para ver vocês.

Então vamos sentar — convidaram os passarinhos.

Sentaram todos. Enrolaram charutos e começaram a con­versar. No fim da palestra os passarinhos disseram:

Você tem que ir conosco lá na nossa aldeia. Aqui é a
nossa roça. Nós estamos limpando um pouco.

O moço aceitou o convite e saiu com os passarinhos. To­dos os pássaros ficaram alegres com a chegada de gente nova, gente da aldeia de Avatsiú, a quem eles queriam matar. Os pássaros não gostavam de Avatsiú, porque Avatsiú estava sem­pre matando gente deles: gavião, arara, papagaio, tucano e mui­tos outros. No dia seguinte o Chefe dos pássaros disse para a gente dele:

Amanhã nós precisamos fazer nossa visita ficar igual a
nós.

O Chefe repetiu isso diversas vezes. Falou de manhã e de tarde também. Os passarinhos que tinham encontrado e tra­zido o moço disseram, então, a ele:

Você não durma não, nem de noite nem de dia, por­que é muito perigoso.

No outro dia bem cedo os pássaros todos pegaram penas e foram colocar no rapaz. Passaram primeiro leite de pau no corpo dele, e depois começaram a grudar as penas. Primeiro grudaram as do peito e das pernas. Em seguida colocaram as grandes, do rabo e das asas. Todas as penas eram do gavião grande. Quando o moço ficou todo emplumado, mandaram que ele sacudisse a plumagem, para ver se caía alguma pena. Ele sacudiu e não caiu nem uma. Mandaram que sacudisse de novo. Desta vez, caiu uma. Vendo isso, disseram os pássaros:

Esse rapaz não vai viver, não. Vai cair na mão de Avatsiú.

Depois dessa observação, levaram o moço para o lugar onde eles treinavam. Chegaram junto de uma árvore que tinha um cupim bem no alto. Chegando lá, mandaram que o moço voasse e arrancasse o cupim. O moço voou mas errou o alvo, não acer­tou o cupim, e voltou ao chão. Mandaram que voasse de novo. Ele voou, deu uma volta ao redor da árvore e ficou preso quan-


do agarrou o cupim. Os pássaros, então, mandaram que, lá do alto da árvore, voasse para baixo, pegasse e suspendesse uma pedra colocada no chão. O moço voou para o chão, mas não acertou a p^dra. Pediram que repetisse o vôo, e ele errou de novo. Aí os pássaros falaram:

Não adianta treinar mais. Ele é muito ruim.

Dito isso voltaram para a aldeia. Os passarinhos que ti­nham trazido o moço tornaram a recomendar a ele:

Olha, não vá dormir não. É preciso passar a noite acor­dado.

Na manhã seguinte, os pássaros saíram com o moço para tentar pegar Avatsiú. Avatsiú estava cantando quando os pás­saros chegaram à aldeia dele. Os pássaros pousaram no lugar onde estavam acostumados a ficar. De lá eles ouviram Avatsiú cantando dentro de casa. O moço estava junto com os pássaros, sentado nas árvores. Ficaram lá esperando Avatsiú sair para fora. Diziam os pássaros:

É preciso esperar que ele saia de casa.

"Espera. Espera", eles estavam sempre recomendando ao moço, que a todo momento ameaçava voar. Avatsiú parou de tocar e apareceu na porta de casa para sair. O moço voou para pegar, mas errou a direção e foi agarrado por Avatsiú. Avatsiú agarrou-o, puxou para dentro da casa e o matou. Os pás­saros voltaram para a aldeia tristes e com vergonha por ter morrido o moço. De tarde os pássaros reuniram-se para con­versar. Perguntaram aos passarinhos que tinham trazido o mo­ço para a aldeia se ele tinha filho. Os passarinhos informaram que tinha um menino. Todos ficaram contentes com isso, dis­seram que era preciso ir buscar o menino. Arar aura [sangue de boi] foi incumbido disso. No dia seguinte araraurá saiu para a aldeia de Avatsiú onde morava o menino. Chegando lá, sen­tou no jirau do terreiro, bem em frente da casa. Quando a mãe dele saiu para jogar lixo e viu o passarinho sentado no jirau, gritou para o filho:

Aqui tem um passarinho vermelho. Vem ver.

O menino saiu da casa depressa com o arquinho e as fle-chinhas dele. Ao se aproximar do jirau, o araraurá voou para uma árvore ao lado. Quando o menino chegou perto da árvore, o passarinho voou para uma outra mais afastada. E assim o passarinho, de um ponto' para outro, foi se afastando da aldeia, à medida que o menino ia atrás dele. Quando o araraurá viu que já estava longe das casas, tirou a roupa, virou gente e se aproximou do menino, dizendo:

Eu vim buscar você, para matar Avatsiú.

— Vou sim — disse o menino. — Mas primeiro quero falar com minha mãe.

Pode ir. Eu fico esperando aqui.

O menino foi e contou à mãe que tinham vindo buscá-lo para matar Avatsiú. Ao ouvir o que o menino falava, a mãe começou a chorar e disse, depois que parou:

Você pode ir, meu filho. Mas olha aqui, quando você vier para matar Avatsiú, não venha pela frente dele não, seu pai morreu por isso. Venha por trás, que você mata.

Antes de sair o menino pediu três esteiras para guardar penas. A mãe deu e ele saiu para encontrar araraurá. Araraurá vestiu o menino com a roupa que tinha levado para isso, e dali saíram os dois voando para a aldeia do primeiro. Chegando ao destino, araraurá levou o menino para a casa dele. Todos os pássaros foram vê-lo. Iam chegando, um a um, e cumprimen­tando:

Pareça piá. Pareça piá. [Como vai, meu filho?]
Depois dos cumprimentos disse o Chefe dos pássaros:

Agora, filho, você tem que vingar a morte do seu pai, matando Avatsiú.

Como vocês estão querendo matar Avatsiú? Se chegarem pela frente, e ele quem vai pegar vocês — disse o menino. E concluiu: — Temos que chegar por trás. Assim é mais fácil e é mais certo.

No outro dia pela manhã os pássaros foram vestir o me­nino. Passaram leite de pau no corpo dele e em seguida come­çaram a grudar as penas do uirapê [harpia], o gavião grande. Depois do corpo do menino todo coberto com as penas meno­res, os pássaros colocaram as grandes, as asas e do rabo. Tudo pronto mandaram o menino sacudir a plumagem para ver se caía alguma pena. Não caiu. Mandaram sacudir de novo e nenhuma se desgrudou. Estavam firmes nos seus lugares. À tarde, os pássaros levaram o menino para o lugar do treino. Lá, como fizeram com o pai, mandaram que ele voasse até ao alto da árvore e arrancasse o cupim. O menino voou e arran­cou o cupim. Mandaram depois que, lá do alto da árvore, voasse, pegasse e suspendesse a pedra. O menino flechou num vôo para o chão, agarrou a pedra e, quando estava levantando com ela, três gaviões grandes foram ajudá-lo. Levaram a pedra até muito alto e lá de cima soltaram. A pedra espatifou-se no chão. To­dos os pássaros, nessa hora, ficaram alegres e disseram: "Esse menino vai matar Avatsiú mesmo".

Antes de sair para a aldeia de Avatsiú, os pássaros alerta­ram o menino, dizendo repetidas vezes que ele tivesse cuidado


porque Avatsiú era muito perigoso. Quando chegaram à aldeia, Avatsiú estava cantando e dançando, ele è os filhos, e enquanto dançavam iam quebrando as panelas da casa, porque estavam adivinhando que iam morrer. No canto Avatsiú dizia: "Eu te­nho inimigo de unha grande que me vai matar". Logo que che­gou o menino perguntou aos companheiros onde ele ia ficar. Os gaviões mostraram o lugar e ele não achou bom. "Não vou ficar lá não. Vou ficar atrás da casa". Voou para o lugar que escolheu e os pássaros o acompanharam. Avatsiú dentro da casa dele continuava cantando, cantando sem parar. Enquanto isso os pás­saros empoleirados nas árvores aguardavam o momento dele sair para fora. Quando Avatsiú, cantando com o chocalho na mão, surgiu na porta da casa, o menino no mesmo instante flechou sobre ele, segurando-o duro com as unhas e levantando-o um pouco do chão. Os gaviões, que estavam assistindo, ao perce­berem que sozinho o menino não ia poder alçar de uma vez Avatsiú, correram para ajudar. Avatsiú, assim seguro por mui­tos, foi sendo levado para cima, cada vez mais alto. Na mes­ma hora os outros pássaros pegaram a mulher e os filhos de Avatsiú, e fizeram o mesmo. Quando o menino e os gaviões atingiram grande altura, soltaram Avatsiú, e ele foi caindo ate se espatifar lá embaixo.

Feito isso, os pássaros começaram a descer até pousar no chão, onde tinha caído Avatsiú. Aí o Chefe dos pássaros es­colheu dois entre o pessoal dele, e mandou convidar uma outra aldeia de parentes, para vir ajudar a trabalhar o sangue de Avatsiú. Os pariát [mensageiros] foram a pomba e o beija-flor. Os dois saíram para fazer o convite e voltaram logo dizendo que o pessoal da outra aldeia já vinha vindo perto. Logo de­pois chegaram os convidados, conversando na língua de gente. Nenhum tinha língua própria, língua de ave mesmo. Com o sangue de Avatsiú iam fazer novas linguagens para cada um deles. Os primeiros que adquiriram fala própria, tirada do san­gue de Avatsiú, foram os gaviões iapacaní e uapaní. Antes, co­mo todos os outros, eles falavam a língua de gente. Os convi­dados iam chegando, pegavam logo do sangue e passavam a manipular novas falas. O beija-flor começou a falar na lingua que preparou, e as anhumas também, mas viram que as lín­guas não estavam calhando muito bem para eles. O beija-flor estava falando muito grosso e a anhuma muito fino. Resolve­ram trocar. A anhuma ficou com a do beija-flor e este ficou com a língua dela. A pomba também trocou a sua com o mutum. A da pomba era muito grossa e a do mutum, muito fraca. Tanto um quanto o outro ficaram satisfeitos com a troca. Por fim disse o mutum: "Agora, sim-, sempre que o dia clarear nós vamos cantar e vai ficar muito bonito". Terminada a preparação das línguas, os pássaros voaram para a aldeia deles. Che­gando lá disseram: "Agora vamos levar o nosso amigo para a casa dele". Antes tiraram deles mesmos muitas penas e deram de presente ao menino. Quando chegaram à aldeia disseram à mãe do menino: "Viemos trazer seu filho. Já está aqui de volta. Ele matou Avatsiú para vingar o pai dele". Entregaram o fi­lho à mãe e voltaram para a aldeia deles. O menino contou na aldeia toda a história para o pessoal. Tudo que aconteceu com ele até a fabricação das línguas com o sangue de Avatsiú.

FONTE DO MITO ÍNDIGENA: (VILLAS-BOAS, irmãos. XINGU, os índios, seus mitos Editora Kuarup, 1985)

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