Blog do Miguel

27 Jun

Guerreiros da Liberdade – Documentário sobre os índios guarani de SC

Estou vendo este documentário sobre os índios Mbyá guarani de Santa Catarina, postado no youtube com uma boa qualidade e indicado pelo Férias Floripa. Na parte 1, várias coisas já ~são dignas de atenção. Por exemplo, além dos belos cantos tradicionais, há uma sessão legítima de relato de um mito, o Mito do Herói Criador, o Nhanderu dos Guaranis, que já falamos aqui. O mito, através do ritual e da fala, reacende e passa adiante, para não ser esquecidos, uma certa gama de conhecimentos ancestrais que dificilmente sobreviveriam na palavra escrita, já que requerem todo um entorno ritualístico.

“Essa é uma história real e não inventada”, diz o pajé daquela aldeia, revelando novos dados da fé de como Nhanderu teria criado o mundo. A terra, naquele tempo primevo (“faz muito, muito, muito tempo”, diz ele) era sem vida e coberta de água salgada. Nhanderu desce de sua morada secreta para criar todas as coisas com sua “varinha mágica”. Seu poder e vontade ativa se contrapõe à imensidão do mar e fúria das marés. Com a força canalizada através desta pelo influxo criador, ele abre o mar e separa inicialmente uma pequena porção de terra, onde só caberiam seus pés. Com esta base Nhanderu deixa sua marca e emana o Plano Magistral da criação das formas de vida terrestre. Esta pequena porção, depois, irá formar os continentes. Há realmente algo de esquecido e atávico nesta imagem, à parte do óbvio paralelismo com Moisés abrindo o Mar Vermelho (cena está, aliás, que no cinema marcou profundamente muitas pessoas).

Porém, Nhanderu vira palavra morta na boca do cacique, uma vez que este incorpora um discurso político de reinvidicação e faz uma mitologia da felicidade num tempo bem mais recente, da terra sem males para antes da chegada do europeu, causador da dissipação e ruína do seu povo, usurpador de uma terra deixada para eles pelo criador. Aqui é interessante notar que esta mitologia confirma a tese do autoctonismo dos povos. Os índios, portanto, acreditam que estão na América desde o princípio de tudo.

Apesar da evidente miscigenação e de outros fatores de aculturamento, a integração com o Brasil, é pois, negada para a sobrevivência da tradição cultural própria, expressa, principalmente, pela língua. De fato, muitos guaranis não falam português, e mesmo vêem a língua de Camões ainda como algo alienígena. O tupi-guarani é louvado como legado cultural no Paraguay, onde é uma das línguas oficiais, falado pela população em liberdade.

O cuidado e respeito com a alimentação e com as plantas tradicionais é lembrado. Porém, o cacique esquece que a melancia não é nativa, e sim africana. Os guaranis cultivam vários tipos de milho – esta sim planta nativa americana, usada também pelos incas, ao passo que no nosso mercado temos só um, aquele milho amarelo. Também aludem a uma preocupação com “benzer” o alimento antes do consumo (Igreja Católica?). Neste ponto, há um paralelo com D. Juan, que recomenda que agradeçamos às plantinhas que nos alimentam e peçamos a elas desculpas, dando como garantia o próprio corpo, que um dia virá a alimentá-las. Dessa forma, cria-se um mecanismo de humildade e anulação do ego vaidoso, necessário para que nossa constituição psicológica sobreviva ao contato com o mistério desconhecido, que o guerreiro procura avidamente.

Os guaranis do vídeo também expressam de forma interessante a preocupação com o fim das espécies que não são utilizadas nem respeitadas. O significado da existência do mundo é o uso, e o que não se usa, vai embora, segundo a velha lei do universo. Desta forma, autorizando uma teoria do uso do mundo pelo homem, os guaranis afirmam que estas plantas negligenciadas terão seu “espírito levado embora” por Nhanderu.

UPDATE: O Cetro é o símbolo do kratos, sobre a varinha de Nhanderu.

One Response to “Guerreiros da Liberdade – Documentário sobre os índios guarani de SC”

  1. 1
    O cetro é o símbolo do kratos | Blog do Miguel Says:

    [...] pessoas que leram o post sobre o documentário dos guaranis ironizaram a “varinha” do Nhanderu criador, caindo na armadilha de ver esta mitologia [...]

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