Blog do Miguel

03 Jan

Castaneda – As últimas lições do eterno aluno

Junto à entrevista de Castaneda com as fotos, a revista publicou também o seguinte ensaio na mesma edição.

Vejam também esta resenha sobre o “Segundo Círculo do Poder” publicada em 1978.

As últimas lições do eterno aluno

Como o antropólogo Carlos Castaneda perdeu a sabedoria nas montanhas do México e aprendeu a sonhar acordado


Primeiro, ele enfiou na mochila os  seus cadernos de aula. Atento, IH preocupado, aplicado, o bom aluno de antropologia viajou para o México c encheu muitas folhas de anotações so­bre as plantas medicinais usadas pelos índios da região. Sonhava com os aplau­sos admirados de seus professores e, quem sabe, uma cadeira de titular que faria sua fortuna acadêmica até o fim da vida. Mas no meio do raminho do recém-formado Carlos Castaneda havia muitos espinhos — e também um feiti­ceiro de ar superior, idade incerta, fala misteriosa e sorriso debochado. Foi um encontro fatal: Juan Matus, o bruxo da tribo iaqui, seduziu seu discípulo para sempre. Transformou-se também no símbolo mais poderoso para uma le­gião de jovens ansiosos em mergulhar nos abismos obscuros da mente, da sa­bedoria extra-sensorial e da imaginação.

Durante muitos anos o velho e o jo­vem conversaram sobre a vida, as dro­gas, o poder, o medo e a morte. As anotações, rabiscadas medrosamente no meio da noite mexicana, ante a ironia sem fim do mestre, correram o mundo na forma de dois livros intrigantes e sen­síveis, c um terceiro, desesperadamente “filosófico”, onde uma autoconfissão de fracasso reprovava o aluno na mais dra­mática e essencial das provas: a de se tornar um “homem de conhecimento”. As derradeiras correntes que atavam Castaneda aos pilares da “razão” rom­pem-se, agora, em “Porta para o Infi­nito” . São catorze “contos do poder” (como diz o título original em inglês) onde o cientista social se pulveriza nas angústias de sua própria lógica acadê­mica e um escritor libertado brota numa prosa de transparente beleza, é como se o eterno aprendiz de feiticeiro tivesse finalmente saltado naquele abismo sem nome para recolher em seu fundo o indescritível dom da palavra.

São quase mil páginas, publicadas nos Estados Unidos entre 1968 e 1974. Ao longo desse tempo e dessa volumosa pro­dução muita tinta correu no mundo. Don Juan, duvidavam alguns, jamais foi visto por outra pessoa que não Casta­neda. Este, por sua vez, apagava-se cada vez mais como pessoa física, exatamente como tentava apagar os desenhos que reproduziam seus traços. Escondia-se atrás de seus estudos, bania a imprensa, mentia a ponto de não se poder saber com certeza se era brasileiro (como diz), peruano (como a imprensa diz) ou ame­ricano (sua nacionalidade universitária e literária). Tratava-se de manobras, se­gundo ele explica (veja a entrevista na página 88), que lhe permitiriam acen­tuar os principais traços de seu apren­dizado sobrenatural: um desprezo pelo “senso comum”, um apego obsessivo em praticar atos “impecáveis”, uma indife­rença diante do juízo alheio. Algo, cm suma. tão fantasmagórico como a possi­bilidade de um homem inventar a pró­pria biografia.

m

as é algo parecido a esta proeza que Castaneda tenta nos seus três primeiros livros. Talvez condena­do a ser um eterno aluno, ele se deixa guiar por Don Juan a experiências que sua pele sente mas sua mente vomita. Um cachorro transparente mostra suas veias cheias de sangue, como vitrinas. Um inseto pegajoso, de asas peludas e boca desdentada, roça nele suas antenas repugnantes. O aluno “transforma-se” cm corvo, e sente falta de ar pela au­sência de bico. Talvez ainda mais amea­çadores que estas aberrações “externas” são os fantasmas autoritários desenter­rados de dentro da memória do apren­diz. Um deles aparece na forma de ba­rulho dos chinelos e da voz da mãe: “Eu percebi então que nunca a amara”, chora ele.

Na sua luta para “ver” os “seres lu­minosos” e sustentar em seus frágeis ombros de cientista todo o mistério de um outro mundo. Castaneda tropeça e cai o tempo todo em crises de pavor, solidão e autocompaixão. O cientista de­mora a perceber que o ritual de sua ini­ciação se processa num palco privilegia­do: as montanhas e os vales do México central, onde o sol torna o horizonte cor de laranja e a paisagem, a despeito de sua beleza, é .sempre triste e silenciosa. Estas montanhas escondem, nos seus desvãos, o que restou de uma cultura indígena que remonta a 3 000 anos e que quatro séculos de repressão religio­sa reduziram aos mais desprezíveis rótu­los de obscurantismo, ê dessas sombras que se nutrem os ensinamentos de Don Juan. Ele é um duende tão imponderá­vel quanto sua lógica estranha, porém maciça. Teria 70 anos quando Castane­da o conheceu (estaria agora com 85), mas um de seus amigos, o feiticeiro Don Genaro, capaz de voar e saltar para uma montanha a 15 quilômetros de distância corrige tal idade: “Ele deve ter uns 300 anos”, é Don Genaro que dá a Casta­neda. com seu pulo quilométrico, talvez a lição mais preciosa do aprendizado dos três primeiros livros: quando o incon­formado antropólogo decide ser “impos­sível” o exagero atlético do bruxo, a vi­são cessa. A fé, ou a “vontade” que é a luz do guerreiro, fora abandonada. A ironia suprema de Don Juan sublinha esta e outras indecisões racionais de Cas­taneda: “Você não tem tempo e, no en­tanto, está cercado pela eternidade. Que paradoxo para a sua razão!”

A eternidade, diante da qual tudo ces­sa, c a morte, pela qual se deve ter uma soberba indiferença, banham os contos de “Porta para o Infinito” e iluminam o quase feiticeiro Castaneda. Ele apren­de a “sair do corpo” (e se vê a si mes­mo) e a sonhar um sósia; aprende, po­rém, que talvez ele não seja mais que o sonho de outra pessoa. Esses “labirin­tos circulares” tão caros a um outro mestre literário latino-americano, o ar­gentino Jorge Luis Borges, plantam-se vertiginosamente na prosa de Castaneda, com sua torrente de visões em duplo (sombras que se metamorfoseiam em animais, ruídos que se transmutam em massas disformes e opacas), e as inter­rogações sobre os dois conceitos finais que, também em dupla, regem a vida: o tonal, a pessoa social, o guardião com­preensivo, e o nagual (pronuncia-se naual), mortal e inalcançável pela des­crição de palavras. No cenário surpreen­dente de um México urbano, Don Juan aparece de terno, pela primeira vez. co­menta com elegância o cardápio de um restaurante e mais uma vez ensina ao espantado — ainda! — Castaneda que somente os seus preconceitos o impe­diam de imaginar um índio cm vestes ‘civilizadas”.

O

mestre, apesar de tudo isso, aca­ba por ter orgulho do aluno. Dei­xa-o à beira de um despenhadei­ro, num dia de crepúsculo, na fresta entre dois mundos: lá está o abismo e. depois deste, o desconhecido. As últi­mas páginas, onde os dois se despedem para sempre, equilibram-se admiravel­mente entre o choro contido da despe­dida e o latido de um cão que ecoa pela montanha embaralhado na voz de um homem: ambos são escravos e com­panheiros de toda vida, de toda tristeza, de todo tédio que o dia-a-dia e a rea­lidade ordinária espicaçam. “Nós agora somos poeira da estrada”, diz Don Juan afastando-se com Don Genaro. “Talvez um dia torne a entrar nos seus olhos.” No limite do desconhecido, sentindo-se o único homem do mundo, o ex-discí­pulo rende-se, redimido e purificado, an­te a vertigem da descoberta dos poderes sem limite da imaginação. O cientista já aprendera que um astronauta pode ir à Lua. Mas o novo feiticeiro sabe agora que pode ir à Lua quando qui­ser, só que jamais trará de lá um saco de pedras.

Geraldo Mayrink


(Fonte:: Revista Veja edição 356, 2 de julho de 1975)

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