Castaneda – As últimas lições do eterno aluno
Jan 3rd, 2010 by Miguel
Junto à entrevista de Castaneda com as fotos, a revista publicou também o seguinte ensaio na mesma edição.
Vejam também esta resenha sobre o “Segundo Círculo do Poder” publicada em 1978.
As últimas lições do eterno aluno
Como o antropólogo Carlos Castaneda perdeu a sabedoria nas montanhas do México e aprendeu a sonhar acordado
Primeiro, ele enfiou na mochila os seus cadernos de aula. Atento, IH preocupado, aplicado, o bom aluno de antropologia viajou para o México c encheu muitas folhas de anotações sobre as plantas medicinais usadas pelos índios da região. Sonhava com os aplausos admirados de seus professores e, quem sabe, uma cadeira de titular que faria sua fortuna acadêmica até o fim da vida. Mas no meio do raminho do recém-formado Carlos Castaneda havia muitos espinhos — e também um feiticeiro de ar superior, idade incerta, fala misteriosa e sorriso debochado. Foi um encontro fatal: Juan Matus, o bruxo da tribo iaqui, seduziu seu discípulo para sempre. Transformou-se também no símbolo mais poderoso para uma legião de jovens ansiosos em mergulhar nos abismos obscuros da mente, da sabedoria extra-sensorial e da imaginação.
Durante muitos anos o velho e o jovem conversaram sobre a vida, as drogas, o poder, o medo e a morte. As anotações, rabiscadas medrosamente no meio da noite mexicana, ante a ironia sem fim do mestre, correram o mundo na forma de dois livros intrigantes e sensíveis, c um terceiro, desesperadamente “filosófico”, onde uma autoconfissão de fracasso reprovava o aluno na mais dramática e essencial das provas: a de se tornar um “homem de conhecimento”. As derradeiras correntes que atavam Castaneda aos pilares da “razão” rompem-se, agora, em “Porta para o Infinito” . São catorze “contos do poder” (como diz o título original em inglês) onde o cientista social se pulveriza nas angústias de sua própria lógica acadêmica e um escritor libertado brota numa prosa de transparente beleza, é como se o eterno aprendiz de feiticeiro tivesse finalmente saltado naquele abismo sem nome para recolher em seu fundo o indescritível dom da palavra.
São quase mil páginas, publicadas nos Estados Unidos entre 1968 e 1974. Ao longo desse tempo e dessa volumosa produção muita tinta correu no mundo. Don Juan, duvidavam alguns, jamais foi visto por outra pessoa que não Castaneda. Este, por sua vez, apagava-se cada vez mais como pessoa física, exatamente como tentava apagar os desenhos que reproduziam seus traços. Escondia-se atrás de seus estudos, bania a imprensa, mentia a ponto de não se poder saber com certeza se era brasileiro (como diz), peruano (como a imprensa diz) ou americano (sua nacionalidade universitária e literária). Tratava-se de manobras, segundo ele explica (veja a entrevista na página 88), que lhe permitiriam acentuar os principais traços de seu aprendizado sobrenatural: um desprezo pelo “senso comum”, um apego obsessivo em praticar atos “impecáveis”, uma indiferença diante do juízo alheio. Algo, cm suma. tão fantasmagórico como a possibilidade de um homem inventar a própria biografia.
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as é algo parecido a esta proeza que Castaneda tenta nos seus três primeiros livros. Talvez condenado a ser um eterno aluno, ele se deixa guiar por Don Juan a experiências que sua pele sente mas sua mente vomita. Um cachorro transparente mostra suas veias cheias de sangue, como vitrinas. Um inseto pegajoso, de asas peludas e boca desdentada, roça nele suas antenas repugnantes. O aluno “transforma-se” cm corvo, e sente falta de ar pela ausência de bico. Talvez ainda mais ameaçadores que estas aberrações “externas” são os fantasmas autoritários desenterrados de dentro da memória do aprendiz. Um deles aparece na forma de barulho dos chinelos e da voz da mãe: “Eu percebi então que nunca a amara”, chora ele.
Na sua luta para “ver” os “seres luminosos” e sustentar em seus frágeis ombros de cientista todo o mistério de um outro mundo. Castaneda tropeça e cai o tempo todo em crises de pavor, solidão e autocompaixão. O cientista demora a perceber que o ritual de sua iniciação se processa num palco privilegiado: as montanhas e os vales do México central, onde o sol torna o horizonte cor de laranja e a paisagem, a despeito de sua beleza, é .sempre triste e silenciosa. Estas montanhas escondem, nos seus desvãos, o que restou de uma cultura indígena que remonta a 3 000 anos e que quatro séculos de repressão religiosa reduziram aos mais desprezíveis rótulos de obscurantismo, ê dessas sombras que se nutrem os ensinamentos de Don Juan. Ele é um duende tão imponderável quanto sua lógica estranha, porém maciça. Teria 70 anos quando Castaneda o conheceu (estaria agora com 85), mas um de seus amigos, o feiticeiro Don Genaro, capaz de voar e saltar para uma montanha a 15 quilômetros de distância corrige tal idade: “Ele deve ter uns 300 anos”, é Don Genaro que dá a Castaneda. com seu pulo quilométrico, talvez a lição mais preciosa do aprendizado dos três primeiros livros: quando o inconformado antropólogo decide ser “impossível” o exagero atlético do bruxo, a visão cessa. A fé, ou a “vontade” que é a luz do guerreiro, fora abandonada. A ironia suprema de Don Juan sublinha esta e outras indecisões racionais de Castaneda: “Você não tem tempo e, no entanto, está cercado pela eternidade. Que paradoxo para a sua razão!”
A eternidade, diante da qual tudo cessa, c a morte, pela qual se deve ter uma soberba indiferença, banham os contos de “Porta para o Infinito” e iluminam o quase feiticeiro Castaneda. Ele aprende a “sair do corpo” (e se vê a si mesmo) e a sonhar um sósia; aprende, porém, que talvez ele não seja mais que o sonho de outra pessoa. Esses “labirintos circulares” tão caros a um outro mestre literário latino-americano, o argentino Jorge Luis Borges, plantam-se vertiginosamente na prosa de Castaneda, com sua torrente de visões em duplo (sombras que se metamorfoseiam em animais, ruídos que se transmutam em massas disformes e opacas), e as interrogações sobre os dois conceitos finais que, também em dupla, regem a vida: o tonal, a pessoa social, o guardião compreensivo, e o nagual (pronuncia-se naual), mortal e inalcançável pela descrição de palavras. No cenário surpreendente de um México urbano, Don Juan aparece de terno, pela primeira vez. comenta com elegância o cardápio de um restaurante e mais uma vez ensina ao espantado — ainda! — Castaneda que somente os seus preconceitos o impediam de imaginar um índio cm vestes ‘civilizadas”.
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mestre, apesar de tudo isso, acaba por ter orgulho do aluno. Deixa-o à beira de um despenhadeiro, num dia de crepúsculo, na fresta entre dois mundos: lá está o abismo e. depois deste, o desconhecido. As últimas páginas, onde os dois se despedem para sempre, equilibram-se admiravelmente entre o choro contido da despedida e o latido de um cão que ecoa pela montanha embaralhado na voz de um homem: ambos são escravos e companheiros de toda vida, de toda tristeza, de todo tédio que o dia-a-dia e a realidade ordinária espicaçam. “Nós agora somos poeira da estrada”, diz Don Juan afastando-se com Don Genaro. “Talvez um dia torne a entrar nos seus olhos.” No limite do desconhecido, sentindo-se o único homem do mundo, o ex-discípulo rende-se, redimido e purificado, ante a vertigem da descoberta dos poderes sem limite da imaginação. O cientista já aprendera que um astronauta pode ir à Lua. Mas o novo feiticeiro sabe agora que pode ir à Lua quando quiser, só que jamais trará de lá um saco de pedras.
(Fonte:: Revista Veja edição 356, 2 de julho de 1975)
