O rapto das Sabinas
O rapto das Sabinas é um episódio clássico sobre a fundação de Roma, situado aproximadamente no quarto ano da cidade, que é mencionado por algumas fontes antigas, por exemplo Plutarco, em várias passagens de suas “Vidas”, mas especialmente na vida de Rômulo:
Dizem outros que porque é preciso que um conselho seja ordinariamente mantido secreto e coberto, êles emprestaram à boa causa êsse altar do deus Conso, oculto dentro da terra; mas, quando foi descoberto, Rômulo fez um sacrifício de magnífica alegria e mandou publicar por tôda parte que ém certo dia prefixado se realizariam em Roma jogos públicos e se faria uma festa solene, onde todos os que desejassem comparecer seriam recebidos. Grande multidão de povo ali acorreu de tôdas as partes; e assentou-se êle no mais honroso lugar das liças, vestido cora uma bela túnica de púrpura, acompanhado dos principais homens da cidade ao redor de si, e tinha dado o sinal para começar o rapto, quando se levantou de súbito, dobrou uma aba de sua túnica e depois a desdobrou. Seus homens estavam de atalaia, armados de espadas; e, logo que perceberam o sinal, puseram-se a correr de um lado para outro, empunhando as espadas, com grandes gritos, e raptaram e levaram as jovens Sabinas, deixando fugir os homens, sem causar-lhes outro desprazer. Dizem alguns que houve somente trinta raptadas, cujos nomes foram dados às trinta linhagens do povo Romano; todavia, Valério Âncio escreve que houve quinhentas e vinte e sete; e Juba, seiscentas e oitenta e três. Grandemente notório, como descargo de Rômulo, é que êle tomou apenas uma, chamada Hersília, a qual depois foi causa de mediação e acordo entre os Sabinos e os de Roma: o que mostra não ter sido para fazer injúria aos Sabinos, nem para satisfazer nenhum desordenado apetite, que êles empreenderam êsse rapto, antes para conjugar dois povos entre si com os mais estreitos laços existentes entre os homens. Essa Hersília, como dizem alguns, foi casada com um Hostílio, o mais nobre que então havia entre os Romanos, ou, como escrevem outros, com o próprio Rômulo, que teve dela dois filhos: o primeiro foi uma filha com o nome de Prima, porque era a primeira; o outro foi um filho que se chammou Aólio, por causa da aglomeração de povo que reunira em sua cidade, e depois foi sobrenomeado Abílio. Assim escreve Zenódoto de Trezena: no que, todavia, vários o contradizem.
Na vida de Pompeu ele menciona o rapto para explicar a origem de um costume, o de gritar “Talassio” para desejar boa fortuna aos recém-casados:
Todavia, o povo percebeu bem, pelo trabalho e o cuidado que Antistes tinha em favorecê-lo, de tal modo, que quando foi pronunciada a decisão dos juizes, que era absolvição, a assistência, sem mais nem menos, como se fosse impelida por uma só ordem, pôs-se a gritar a uma voz: Talassio, Talassio, que é o brado usado, de toda a antigüidade, nas núpcias em Roma, tendo tal costume procedido, segundo se diz, do seguinte: na ocasião em que os principais e mais nobres romanos roubaram as filhas dos sabinos, que vieram a Roma para presenciar os divertimentos dos jogos públicos que ali se realizavam, houve pessoas de baixa condição, como vaqueiros e pastores, que roubaram uma das moças, muito bela, alta e elegante, e com medo que outros de melhor situação a tomassem, foram gritando pelas ruas Talassio, Talassio, como se quisessem dizer, é por Talassio, por causa de Talassio, que era um jovem nobre do campo, conhecido e querido por todo o mundo. De tal forma fizeram, que aqueles que ouviram citar este nome, puseram-se a bater as mãos em sinal de alegria e a gritar também, Talassio com eles, louvando a escolha que haviam feito. Daí, dizem, veio o costume, de sempre depois gritarem essa palavra aos que se casam, uma forma de augúrio para que o casamento da noiva fizesse feliz a Talassio. É o que me parece mais verossímil de tudo que contam a respeito desse grito nupcial.
O episódio, como parte de um mito de origem e de fundação, foi fonte fecunda para a representação artística ao longo dos séculos, assim como também o rapto de Helena de Tróia.
O bando de Lampião também é abordado miticamente pela literatura de cordel, como nos versos de José Pacheco (A Chegada de Lampião ao Inferno). Lampião e Maria Bonita são cantados nos versos nordestinos, por exemplo, na Banda de Pau e Corda de Recife. O outro casal emblemático do grupo, Corisco e Dadá, curiosamente também está envolvido num episódio de rapto brutal, mas que acaba gerando um grande amor, tal como as sabinasque se deixaram seduzir pelos romanos raptores.
Corisco seqüestrou Sérgia Ribeiro da Silva – cujo apelido era Dadá – quando ela tinha, apenas, treze anos de idade. À força, colocou-a na sela do seu cavalo e fugiu pela caatinga. Dadá era morena, tinha cabelos pretos e 1,70 m de altura. Quando foi desvirginada brutalmente pelo Diabo Louro, a adolescente sofreu uma hemorragia tão intensa que quase morreu. Com o passar do tempo, porém, Corisco se tornou mais delicado, e o ódio sentido por ela se transformou, primeiro, em simpatia e, depois, em imenso amor.http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=300&textCode=6338&date=currentDate



