A imaculada conceição
Jan 9th, 2010 by Miguel
As pessoas que seguem a cartilha do catecismo sem tentar problematizar a origem, a história, as contradições das questões, colocando tudo numa área insossa da fé e do sagrado que não se discute costumam se irritar quando são levantadas questões acerca do dogma da Imaculada Conceição de Jesus por Maria.
Esse dogma é um tanto tardio, embora, é claro, se possa argumentar que ele já existia de forma marginal desde o cristianismo primitivo. Porém foi oficializado somente no século XVIII pelo Papa Pio IX em sua bula Ineffabilis Deus.
Dos Evangelhos da Bíblia, o mais antigo é também o mais conciso. O Evangelho de Marcos traz o núcleo fundamental da história. Jesus, com cerca de 30 anos, foi batizado por João Batista, tendo o Espírito descido e ele começado a pregar. O de Mateus e de Lucas trazem mais ou menos os mesmos fatos, com adições e subtrações. Somente o de João traz revelações novas sobre a infância de Jesus, seu nascimento e aprendizado, citando “o discípulo que Jesus amava” recostado a seu peito, provavelmente o próprio João, de confidências mais íntimas e inacessíveis aos outros apóstolos (!?).
Os Evangelhos falam abertamente dos irmãos de Jesus e citam a surpresa de seus conhecidos quando começou a falar as “coisas estranhas”, pregando o “Reino dos céus”. Me parece uma inversão querer abordar isso de forma relativa, ou levantar obscuras evidências filológicas para dizer que eram na verdade primos. Está bem claro nas próprias histórias, mas tudo é feito para tapar o buraco e garantir a virgindade de Maria. O dogma da imaculada conceição vem a tona por causa da consequência embaraçante do parto: mesmo tendo sido fecundada virgem pelo Espírito Santo, a santíssima teria perdido a virgindade ao dar a luz, então tascaram ali uma imaculada conceição.
A questão é uma má interpretação. Sabemos de forma geral que o catolicismo para se estabelecer precisou do sincretismo com várias tradições filosóficas e religiosas já existentes. Isso está na própria história da patrística. Mais recentemente, chega ao grande público produções midiáticas, como a do Código da Vince ou o documentário Zeitgeist, que citam de forma rápida as questões dos concílios, o estabelecimento do corpo dogmático da nova religião etc. Isso causa estranheza às pessoas que mal conhecem a religião para além das palavras que lhe foram passadas de forma geral, sem nenhum contato com os milênios de erudição, debates e problemáticas que fazem parte do cristianismo. O balanço é positivo: se não são a palavra final esclarecedora sobre o assunto, também não merecem ser tratadas de forma desqualificadas como “teorias da conspiração” sem fundamento, já que isso fecha o debate e leva à pressa, à superficialidade.
O problema é que tanto os crentes com essa postura como essa nova forma de ateísmo que surge hoje entre os jovens cometem erros recorrentes e graves. O surgimento do ateísmo se deu a partir de um imenso esforço teórico sintonizado com os tempos modernos, e foi preciso um monumental trabalho de reflexão para desconstruir as bases sólidas da civilização ocidental. As pessoas estão pegando toscamente o que acham ser o resultado disso (deus não existe) para carimbar qualquer menção ao assunto como se fosse uma intromissão do pastor fanático ou do padre opressor em suas vidas. É preciso entender, porém, que a coisa é muito mais complicada do que pensamos, sempre. E o pior é que põe no lugar disso um novo dogmatismo deslumbrado cientificista que fica, aliás, a margem da verdadeira ciência, que jamais cumpriu esse papel da forma que está sendo feita, de forma marketeira, por “autores” picaretas, como, por exemplo Richard Dawkins.
Ainda sobre o nascimento de Jesus, é pouco conhecida a hipótese do Jesus, Filho de Pantera, Yeshu ben Pantera, baseada em fontes arqueológicas e aventados por judeus, que acusa a Maria de ter sido tomada por um soldado romano, de nome Pantera, como era comum aos homens em campanhas se verem atraídos pelas belas donzelas judias. Esse homem teria sumido no mundo e o retrato depois de Jesus é um tanto esculachado, como um profanador das milenares tradições do povo judeu.
O sincretismo que mencionamos teria, portanto, sintonizado Maria, a mãe de Jesus, com outros mitos do eterno – feminino, da mãe natureza e da virgem, como a deusa Ártemis dos gregos. Mas a defesa de um parto virginal carnal e de uma virgindade carnal literal é uma subserviência desses que defendem a fé cega à própria materialidade do mundo.
O problema de todo pecado original e o da caverna de Platão é o da prisão do homem, o seu calabouço perceptivo e o de ser manipulado por forças superiores, julgando ingenuamente ter alguma autonomia. O Evangelho de Jesus justamente traz a boa nova otimista de que as coisas ocorrem para o bem, existe uma saída, uma religação com o mundo divino, com o reino dos céus. Evangelho quer dizer “anjo bom”, ou seja, que as forças estranhas e além da compresão que regem o homem não estão somente interessadas na sua opressão. No entanto ele diz “meu reino não é desse mundo”. E assim deve ser entendida a mensagem: nessa forma mítica, não material, como a única viagem que conta: a viagem da consciência. O entendimento do conceito fenomenológico e o legado do idealismo podem ajudar a entender o que está em jogo: O que Deus observa é a alma de cada um, o julgamento é das reações da mente segundo os estímulos do mundo externo, e não o mundo cotidiano em si. Quando se sonha estamos vivos mas “sós”, sem o mundo, assim como quando se morre e deve-se prestar as contas do relato da consciência. Ora, os místicos sempre afirmaram que o mundo é uma espécie de mentira, ou uma prisão: uma arena de batalha onde o homem é cuspido dos céus para o desenvolvimento da consciência. Por isso não se deve entender os fatos trágicos como castigos dos deuses, e nem a boa fortuna como recompensa.
Essa é a chave também para começar a leitura do Apocalipse, não o fim de um mundo geral supersciente, já que esse sequer existe: o mundo é um retrato da sua consciência, e o que julgamos ser a totalidade é apenas uma Idéia, uma representação. O fim do mundo apocaliptico deve ser entendido a partir, justamente, da viagem da consciência. O mundo acaba a todo instante para cada um e a todo momento, no decorrer de suas viagens.
Da mesma maneira, como falei antes, os episódios como a queda de Lúcifer também não devem ser entendidos pensando uma linha do tempo justaposta, evolutiva, mas sim como posicionamentos válidos dentro da “árvore da vida”, pois o tempo religioso é diferente do cronológico. Dessa forma, Lúcifer continua sendo um anjo num dos extremos dessa geodésica (o guardião do céu, que desafia o homem a partir de suas fraquezas para que se torne digno de sua missão) e o “diabo” em outra (quando já a queda e torna-se deus de um mundo sem essência, uma prisão, onde só a repetição, que são os pecados, os desvios da vontade divina, e não renovação infinita e companhia de Deus). O perdão infinito de Deus existe para expiar a culpa, que prende a consciência nas cadeias de repetição e impede o prosseguimento da viagem. Deus envolveria todas as possibilidades infinitas ocorridas no mundo, o verso e o averso, e a magnitude do universo não pode ter como parâmetro as parcas possibilidades de entendimento das criaturas.
Dessa forma, quando o pássaro do Espírito desce nas águas batismais e diz “esse é o meu filho amado, ouvi-o sempre”, não é preciso que tenha havido uma fecundação literal de Maria e uma não-paternidade de José para que a mensagem se cumpra. Jesus poderia ter sido o filho de deus no mito, ou seja, deixado de ser o Jesus carpinteiro, abandonado sua vida pessoal, para ser envolvido pelo Espírito e se tornar o Cristo. A esse respeito dizem os rosa-cruzes que existe o Espírito-Cristo, que se adonou de Jesus para livrar o homem do Espírito de Tribo, ou seja, voltá-los a unir todos numa unidade e entender que são fraternos. A revolução da Igreja foi justamente a de afirmar “somos um em Cristo”, e unir os diferentes povos (Ide..e espalhai O Evangelho) e as diferentes castas sociais, do escravo ao senhor. Livrar o homem desse microcosmo e da preocupação apenas com o próprio sangue e com o círculo íntimo egoista é a causa da polêmica e revolucionária mensagem em que Cristo diz que vai causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe, etc
No Presente da Águia de Castaneda existem alguns trechos que explicam como o homem comum pode ser envolvido pelo mito e tornar-se algo diferente do que era, dentro do sistema simbólico daquele ritual, Carlos deixou de ser Carlos para ser o “nagual” do grupo.
Ser envolvido pelo regulamento pode ser descrito como viver um mito. Dom Juan vivia um mito, mito que o dominou e o fez o nagual.
(…)
Falou que no início tal regulamento lhe era restrito ao reinado das palavras. Não podia imaginar como pudesse sair do domínio do mundo real e de seus meios. Sob a direção efetiva de seu benfeitor, contudo, e depois de uma provação traumatizante finalmente conse¬guiu captar a verdadeira natureza do regulamento, e aceitá-lo totalmente como um conjunto de diretivas pragmáticas e não um mito. Daí em diante, não teve problema algum em lidar com a realidade da terceira atenção. O único obstáculo no seu caminho surgiu do fato de ele estar convencido de que o regulamento era um mapa, e apenas um mapa que ele acreditava ter de procurar para encontrar uma abertura literal no mundo, uma passagem. De alguma forma ele tinha empacado sem necessidade no primeiro nível do desenvolvimento de um guerreiro
