Blog do Miguel

28 Jan

Do valor da vida – Montaigne

Do valor da vida
– Montaigne
.. .Essa expressão trivial “passatempo”, ou “passar o tempo”, traduz o pensar dessas pessoas prudentes que imaginam dar a melhor conta de sua vida, deixancio-a deslizar, passar, perder-se e, no que lhes diz respeito, ignorá–la, dela fugindo como de coisa aborrecida e desprezivel; eu a vejo diferente: aprazível e Loa, ainda que nessa sua última fase em que me encontro. E a natureza no-la pôs nas mãos em tais e tão favoráveis circunstâncias que só cabe censurar a nós mesmos o fato de nos oprimir ou de ser-nos inútil. Preparo-me entretanto para perdê-la sem lamentações, mas por ser perdivel em si e não por parecer molesta ou importuna. É preciso saber gozá-la e eu a gozo duplamente, pois a medida do prazer depende da maior ou menor aplicação que nele pomos. E nesta hora, em que vejo a minha já tão curta no tempo, tudo faço para aumentar-lhe o valor. Quero estancar-lhe a rapidez da fuga pela celeridade que ponho no agarrá-la; e pelo vigor colocado em seu aproveitamento quero compensar a pressa de seu escoar; à proporção que a posse da vida se faz mais curta é preciso torná-la mais profunda e cheia.

Outros sentem a doçura da prosperidade; eu a sinto como êles, mas não de passagem e escorregadia; é preciso estudá-la, saboreá-la e ruminá-la para render condignamente graças a quem no-la outorga. Gozam dos outros prazeres como fazem do sono: sem o perceberem. A fim de que o próprio sono não me escapasse, determinei outrora que mo turbassem para que eu o entrevisse. Analiso o meu prazer; não o coiiio sem mais. Sondo-o e adapto minha razão a êle. Encontro-me em situação tranqüila? Alguma volúpia me faz cócegas ? Não deixo que os sentidos a roubem; associo-lhes a minha alma, não para que se prenda mas para que se regozije; não para que se perca mas para que se ache; e a emprego a pesar e apreciar o prazer e a ampliá-lo. Avalia assim quanto deve a Deus a tranqüilidade de consciência em que vive, bem como a sua liberdade quanto a outras paixões interiores, e o fato de ter o corpo em boa saúde e gozando com moderação, mas plenamente, as funções amáveis e lisonjeiras com que Deus compensa as dores e com que sua justiça o contempla também. Avalia ela ainda quanto vale se achar alojada em ponto que, para onde quer que espie, encontra sempre um céu calmo. Nenhum desejo, nenhum temor,, nenhuma dúvida perturbam o ar e não há dificuldade que sua imaginação não vença sem abalo…

Por mim, amo a vida e a cultivo tal qual Deus ma outorgou. Não vivo a queixar-me da necessidade de comer e beber, nem a lamentar que não possamos nos alimentar com aquela simples droga com que Epemiredes se saciava, nem a deplorar que os filhos não nos nasçam estúpidamente pelos dedos ou pelos calcanhares, ou que o corpo tenha desejo e pruridos. Seriam queixas absurdas e iníquas. Aceito satisfeito o que a natureza fez por mim; congratulou-me com isso. Fazemos injúria ao grande Doador recusando-lhe os dons, anulando-os e defor-mando-os…

…A natureza é um doce guia, mas não menos prudente e justo. Por toda parte procuro-lhe a pista; baralhamo-la com caminhos artificiais. Não será erro estimar menos dignas as ações necessárias? Jamais me lirarão da cabeça que não haja conveniência no casamento do prazer com a necessidade, com a qual, segundo os antigos, os Deuses sempre conspiram. Por que desconjuntarmos uma construção cuja estrutura é de uma tão íntima e fraternal correspondência? Ao coíitrário, unamo-la por mútuos serviços; que o espírito desperte e vivifique o corpo lerdo, e que o corpo detenha e fixe a Jigeireza cio espírito. Não há peça indigna de nossos cuidados nêsse presente que Deus nos deu; devemos-lhe contas até do menor pelo. E não é tarefa absconsa guiar-se o homem segundo a sua condição; ela é simples e ingênua, e o Criador no-la impôs séria e expressamente.

…Não me refiro aqui a essas almas ve-neráveis, elevadas pela religião e pela fé a um constante e consciencioso meditar acêrca das coisas divinas. Não as misturo aos pequeninos que somos, divertidos com os nossos desejos e cogitações, pois elas desdenham de se interessar pelas nossas necessidades imperiosas; e, fluidas e ambíguas, tão-sòmente ao corpo assinam o cuidado e o uso do alimento sensual e temporal.

.. .Querem colocar-se fora de si e fugir ao homem, o que é loucura; em lugar de se transformarem em anjos, transformam-se em animais; caem em vez de subir. Êsses temperamentos transcendentes me apavoram tal qual os lugares altos e inacessíveis. Por isso nada me parece mais indigente na vida de Sócrates do que os seus êxtases, e nada é mais humano em Platão do que aquilo que levava a considerarem-no divino. E, nas nossas ciências, parecem-me mais terrestres e baixas aquelas que mais alto se colocam. Nada encontro mais humilde e mortal na vida de Alexandre do que suas fantasias em torno da deificação própria. Filotas o causticou em sua resposta, de um modo assaz espirituoso. Alexandre congratulara-se com êle, por carta, pelo fato de tê-lo alinhado entre os deuses o oráculo de Júpiter-Amon: “Sinto-me feliz em consideração a ti; mas parecem-me dignos de piedade os homens que terão de viver com um homem (e obedecer–lhe) que não se satisfaz com a medida humana e a ultrapassa”.

Saber fruir lealmente o seu próprio ser é perfeição absoluta e como que divina. Procuramos outras condições por ignorarmos o ignorarmos o uso das nossas; e saímos de nós mesmos por não sabermos o que se passa em nós. Não adianta usarmos pernas de pau pois não evitam que precisemos de nossas pernas para andar; nem no mais alto dos tronos deixaremos de usar o traseiro para sentar. As mais belas vidas são, a meu ver, aquelas que se emparelham, sem milagres nem extravagâncias, ao modelo vulgar e humano… Ora, a velhice precisa ser tratada com um pouco mais de carinho. Recomendemo-la a esse Deus protetor da saúde e da sabedoria, mas para que no-la permita alegre e sociável.

(Idem).

Fonte: Bib. do Pensamento Vivo.

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