Para bem viver
Feb 2nd, 2010 by Miguel
Para bem viver – Michel de Montaigne (1533-1592)
…Assim viveram os sábios: e essa inimitável aplicação à virtude, que nos impressione em tal ou qual Catão, esse humor severo até à importunidade, assim se submeteu e se dobrou às leis da condição humana, às leis de Venus e de Baco.
A complacência e a condescendência assentam bem às almas fortes e generosas. Epaminondas não considerava que misturar-se às danças dos rapazes de sua cidade, cantar e tocar, e trabalhar com eles, fosse coisa suscetível de diminuir a honra de suas gloriosas vitórias ou a perfeição de costumes que nele havia. E entre as muitas ações admiráveis de Cipião, o Antigo, personagem digna de ascendência celeste, nenhuma me parece mais preciosa do que vê-lo displicente e puerilmente divertir-se a juntar conchas e brincar de sela com Lélio à beira-mar; e quando fazia mau tempo entreli-nha-se a escrever comédias acerca das mais populares e vulgares ações dos homens…
.. .Nada é mais belo e legítimo do que desempenhar a contento o papel de homem; nem há ciência mais árdua que a de bem viver a vida; e das doenças a mais tenebrosa é a de odiar e desprezar o nosso ser… Ordeno à minha alma que contemple a dor e a volúpia com igual firmeza mas com severidade aquela e com alegria esta; e, segundo o que lhe podem dar, que procure tão cuidadosamente anular a primeira quanto aumentar a segunda.
(Idem).
Excerto dos Ensaios. Trad. de Sérgio Milliet.
