Blog do Miguel

16 Feb

A busca aqueológica das pirâmides da Amazônia

Ciência – Veja – 1° de Agosto de 1979

O enigma da floresta

Numa imensa planície amazônica, no alto rio Negro, três morros em forma de pirâmide — que o exame das fotos indica serem um capricho geológico

No sopé da Serra do Gurupira, no alto rio Negro, três morrotes dis­postos em forma triangular mere­ciam de dois passageiros de um bimo­tor Comanche o tratamento no femini­no. “São elas”, diziam o arqueólogo prático Roldão Pires Brandão e o etnólogo José Alair da Costa Pires, rebatizado Ryoku Yuhan depois de converti­do ao budismo. Era quarta-feira da se­mana passada e os dois sobrevoavam a região onde afirmavam ter descoberto, dez dias antes, as pirâmides amazônicas em que muitos místicos acreditam e pelas quais vários pesquisadores bus­cam há centenas de anos. “Essas são, de fato, as formações que vimos”, garantiam eles. E a primeira visão mos­trava, claramente, três estruturas piramidais, cobertas de vegetação. Pelos cálculos do piloto, a mais alta delas tem acima de 200 metros — maior, portanto, que a milenar pirâmide egípcia de Quéops, de 146 metros.

À medida que o avião se aproxima va, porém, desfazia-se a certeza inicial de uma extraordinária, incomensurável descoberta arqueológica escondida pela sempre misteriosa e surpreendente Amazônia. Ali, onde dez anos atrás o Projeto Radam encontrou nada menos que um rio de 400 quilômetros até en­tão ignorado pela Geografia, talvez des­pontasse um rumo novo para tudo o que a História já registrou da presença humana sobre a Terra nos últimos milê­nios. Mas, quando o Comanche mudou o ângulo de visão, desvendou-se o mis­tério das pirâmides. A essa altura, Brandão e Yuhan já mudavam o prono­me para o masculino, chamando de “eles” aos morrotes. “Não devem ser estes aqui, não”, duvidava Brandão, imaginando que, na semana anterior, pudessem ter passado nas imediações de algum outro vale imenso do rio Ne­gro. Após quinze dias de penosa expedição pela selva, encontravam-se então fatigados, com os suprimentos no fim. Apenas viram, deixando a investigação para uma próxima viagem, já marcada para este mês.

“IMPORTANTÍSSIMO” — “SÓ indo lá e vendo”, resumia Brandão a Jaime Sautchuck, de VEJA, ao fim do sobre­vôo. Personalista, desconfiado, inimigo do que chama de “arqueólogos de gabi­nete” (o contrário dele, que não é for­mado mas tem mais de vinte anos de pesquisas de campo), o perseverante Brandão tem respeitáveis razões para novas tentativas de comprovar sua tese sobre as pirâmides. Os morrotes, afinal, têm arestas bem definidas e o do meio, principalmente, aparenta quatro faces convincentes. Resta saber se são obra de uma civilização antiga, talvez pré-incaica, como acredita firmemente Yuhan, baseado em lendas e relatos ouvi­dos de remanescentes da civilização mogulala — que ali viveram há milha­res de anos e, sempre segundo Yuhan, em tempos menos remotos foram se­nhores dos incas.

De concreto, entretanto, o que existe no momento são as fotografias, exibi­das por VEJA, na sexta-feira passada, em São Paulo, ao geógrafo Aziz Nabib Ab’Saber, diretor do Instituto de Geo­grafia da USP e apontado como o maior entendido no assunto no Brasil. Embora descartasse desde o início qualquer significado arqueológico ao que via, Ab’Saber qualifica aqueles morrotes piramidais como “impor­tantíssimos” documentos geológicos. “Isso mostra de maneira irrefutável”, explica ele, “que durante o período qua­ternário (de 1 a 3 milhões de anos atrás), desde o fim do terciário (de 5 a 10 milhões de anos atrás) e por todos os períodos glaciais. aconteceram cli­mas secos na Amazônia.”

Na explicação de Ab’Saber, morrotes em formato de pirâmides são comuns em toda ponta de serra. “O nordeste está pleno desses tipos de inselbergs” (ter­mo científico não traduzido, embora se use a expressão monte-ilha), afirma ele, “só que no meio de uma paisagem mais próxima daquela em que aconteceram os processos, quer dizer, em condições semi áridas.” Ab’Saber cita, para reforçar sua informação, o serrote existente no município paraibano de Patos ou o que está retratado na bandeira de Alagoas. “Aquela feição é tão simbólica para o povo de toda a região que ate foi usada como símbolo”, comenta o professor. A diferença, com relação aos morrotes fotografados no alto rio Negro, é que houve, nestes, “uma modifi­cação climática brutal, abrangida pela umidificação c pelo florestamento relativamente recente”. Ainda assim, Ab’ Saber não duvida: “Isso aí é um documento, uma herança de uma geomorfologia de clima seco e que hoje está sob uma roupagem de clima muito úmido”.

OMBRO A OMBRO — Mas não seriam argumentos como os de Ab’Saber que iriam abalar as crenças do grupo das pirâmides. Na verdade, argumentos científicos não modificam o rumo de pesquisas seja do arqueólogo, que não e arqueólogo. Roldão Pires Brandão, de José Alair/Ryoku Yuhan ou ate do in ternacional escritor dinamarquês Erik von Däniken — “Eram os Deuses As­tronautas?”. Däniken, sem o exotismo das versões nacionais, persegue os mes mos sonhos da dupla pátria. Utiliza também algumas fontes comuns, como o obscuro índio Tatunka Nara que se diz descendente dos mogulalas. Em 1977, Dániken esteve na Amazônia es­pecialmente para entrevistar-se com Tatunka. Sua história, também sustentada por Yuhan, parte da denominação dos mogulalas sobre os incas e sua desgraça após a chegada dos espanhóis.

Daí os mogulalas ter-se-iam espalha do por várias regiões. Uma parte para a ilha de Páscoa, outra para o que é ho­je o Acre, alto rio Solimões, e mais um grupo, finalmente, para o norte do rio Negro, na região da serra do Gurupira. De acordo com Tatunka, há duas evidências de que os mogulalas estiveram, ou estão, nas cercanias do rio Negro. Pois Gurupira é um ser da mitologia de seu povo, encarregado de cuidar da ma ta. Já Paduari — nome de um rio próximo ao vale das supostas pirâmides —, que nada significa para os índios Waika habitantes da região, quer dizer, em mogulala, “rio das águas coloridas”. Tatunka refere-se também a crônicas escritas em locais secretos que contam toda a história de seu povo.

Segundo essas crônicas, os mogulalas estariam no continente americano há mais de 12 000 anos e, além dos es­panhóis, também ter-se-iam dispersado em função de um cataclismo ocorrido há 6 000 anos. Nada disso é novidade para Däniken. Na quinta-feira, sem que tivesse tido acesso às fotos, Dãniken preocupava-se em minimizar a desco­berta de Brandão. Não por serem mor rotes em vez de pirâmides. “Há muito tempo conheço a história dessas pirâ­mides”, garantiu ele a Carlos Struwe, de VEJA. Por incrível que pareça, Däniken, um famoso escritor, tem disputa do ombro a ombro com Brandão a pri­mazia de chegar primeiro ao sopé da serra do Gurupira. É bem verdade que Däniken não se dispõe a enfrentar pes­soalmente os incômodos da floresta amazônica, mas utiliza os serviços de seu amigo, aviador aposentado, Ferdinand Schmid, que comandava aviões DC 8 para a Swissair e agora ocupa seu tempo pilotando pela selva expedições financiadas por Däniken. Na última, em maio, quase chegou ao vale do Gurupira mas, de acordo com Brandão, o barco que o levava naufragou e todo o trabalho foi perdido.

PONTOS DE ATRITO — Foi justamente essa tentativa — a terceira do grupo chefiado por Schmid — que animou Brandão a montar sua própria caravana. Na ocasião, ele se encontrava ao largo do rio Urubu, não muito distante de Manaus, onde esperava um dia achar um navio, possivelmente godo ou visigodo, que diz ter evidências de ha ver naufragado muito antes de Cristo. Brandão largou então suas andanças pelo Urubu, denunciou ao governo brasileiro a presença daqueles estrangeiros e, solerte, juntou-se a Yuhan, a Tatunka e mais uma dezena de trabalhadores braçais à cata das pirâmides. Se Brandão não chegou até elas, pelo menos sentiu-se animado a divulgar a desco­berta, credenciando-se então como o descobridor oficial das pirâmides ama­zônicas e salvador da honra nacional por “passar a perna nos suíços”, como declarou.

Este seria, aliás, mais um ponto de atrito entre esses persistentes caçadores de lendas, pois Däniken não acredita no zelo nacionalista de Roldão. Ele cita a segunda expedição comandada por Schmid, no ano passado, da qual Brandão participou sem qualquer restrição aos “suíços”. Segundo o escritor dina marquês, essa expedição só foi inter­rompida “quando a arma de Brandão disparou involuntariamente ferindo seu antebraço. Schmid e Tatunka voltaram então numa canoa de alumínio, junto com Brandão, para interná-lo num hos­pital de Barcelos”. A versão do pesquisador brasileiro é menos detalhada. “A expedição de Schmid fracassou”, conta Brandão sem especificar que também a acompanhava, “ante as corredeiras do rio Paduari e as dificuldades de loco­moção por terra”.

APOIO — Por fim, Däniken também desconfia das habilitações de Brandão considerando-o despreparado para mis­sões tão importantes enquanto Brandão — ao contrário da maioria da comuni­dade internacional de cientistas — con­sidera Däniken “um pesquisador muito sério”. De todo modo, as buscas de Brandão prosseguem. Afora a próxima expedição ao alto rio Negro e o navio godo, ou visigodo, ele planeja chegar até uma cidade que garante existir na confluência dos rios Madeira e Amazo­nas, embaixo d’água. Para tanto, ele vi­sualiza uma cápsula de vidro e metal que o levará ao fundo do rio, a mais de 100 metros de profundidade. Esta se­ria a primeira de uma série de cidades submersas que Roldão pretende desco­brir nos próximos tempos.

Por mais delirantes que sejam os pro­jetos, Brandão mantém sua fé. E não es­tá sozinho. Seus principais financiado­res são Tadeu Martins Macedo, gerente geral do Hotéis OK, do Rio de Janeiro, e o general reformado Severino Som­bra, diretor da Fundação Educacional Severino Sombra, de Vassouras (RJ). Na semana passada, o general Sombra não escondia sua alegria: “Muita gente pensava que era sonho, utopia de Rol­dão; mas só com persistência e tenacida­de se conseguem descobrir coisas tão in­teressantes”. Àquela altura, o arqueólo­go prático dispunha, unicamente, da notícia de que existem formas pirami- dais num fundo de vale amazônico. Mas isso já alimentava os sonhos de seu amigo. “Agora, quando estiver fi­nalmente comprovada nossa idéia”, vaticinava Sombra, “várias teorias cairão por terra; ninguém imaginava que hou­vesse na Amazônia uma civilização tão adiantada.”

Por mais antigas e extraordinárias que sejam as buscas de tesouros e vestí­gios de antigas civilizações na Amazô­nia (veja o quadro abaixo), as supostas pirâmides agora anunciadas por Bran­dão talvez mereçam, como ele insiste, uma verificação mais convincente. Por enquanto existem as fotos feitas por VEJA, em que as pirâmides mudam pa­ra morrotes conforme o ângulo de visão — e nas quais, segundo Ab’Saber, exis­tem evidências de importância geológi­ca. Há, ainda, relatos de pilotos que já sobrevoaram a região e dizem ter visto, atrás da serra do Gurupira, formações que lembram ruínas e cavernas. Se per­tencem, tanto quanto as pirâmides, ao acervo de uma gente milenar. Brandão terá a oportunidade de confirmar — agora que contará com o apoio mais sólido do governo estadual e do Co­mando Militar da Amazônia.

Para o geógrafo Aziz Ab ‘Saber, não há nenhum mistério rondando as pirâmides amazônicas: elas não seriam mais que um dos inumeráveis agrupamentos de morrotes formados por antigos restos de erosão não só no alto rio Negro, mas em outros pontos da Amazônia e do nordeste. Na foto ao alto, Ab ‘Saber identificou, ao fundo, no bordo do planalto das Guianas, alguns desses agrupamentos. Ao pé de uma das supostas pirâmides, o geógrafo estranhou a existência de uma clareira (foto ao lado), o que poderia fazer supor a ocorrência de vida humana no local. Tudo isso poderá ser ou não comprovado quando Brandão e Yuhan voltarem à região, neste mês, chefiando uma grande expedição

A eterna busca da lenda de Eldorado

Abalada a hipótese de as pirâmi­des amazônicas terem sido construí­das pelo homem, murcha também a possibilidade, por muitos levantada na semana passada, de sua associa­ção com a lendária Eldorado — a região cheia de ouro e tesouros, que antigos relatos localizaram exata mente ali, entre o Amazonas e o Orenoco. Mas isso não significa que seu mito possa sofrer qualquer arranhadela, pois o sonho do acesso a riquezas miraculosas viceja de modo obsessivo na cultura popular do norte da América do Sul. É bem verdade que a lenda de Eldorado, cuja origem é atribuída a uma ceri­mônia dos índios chibchas, da Co­lômbia, durante a qual o cacique banhava o corpo recoberto com pó de ouro no sagrado lago de Guatavita, já desfrutou de maior prestí­gio. Houve tempos em que ela ain­da empurrava legiões de aventurei­ros para dentro da selva amazônica, de onde a maioria deles não volta­va. De certo modo. Roldão Pires Brandão, o “descobridor” das pirâ­mides, é um dos raros herdeiros desses visionários, ainda que o pre­texto de suas incursões seja a inves­tigação arqueológica.

Os estudiosos fixam até uma data para o germe da lenda de Eldorado: 1520, o ano em que o conquistador Hernán Cortez regressou à Espanha exibindo presentes recebidos no Mé­xico do poderoso Montezuma, entre os quais despontavam “um disco de ouro na forma do Sol, tão grande co­mo uma roda de carroça, outro grande disco de prata na forma da Lua, brilhando espetacularmente, vinte pássaros aquáticos de ouro, em fino artesanato”. Mas outros episó­dios históricos viriam reforçar o mi­to tanto na Europa como na Améri­ca. Em 1537, uma expedição chefia­da pelo também conquistador Gonzalo Jiménez de Quesada, partindo da Venezuela, pilhou uma povoação chibcha, cujas casas, embora de ma­deira, eram quase todas recobertas de finas placas de ouro. Muitas das famílias locais, além disso, pos­suíam coleções particulares de ouro em pó. Coincidentemente, seu chefe, alojado numa casa revestida de es­meraldas, banhava-se cm determina­do dia do ano no vizinho lago Guatavita, com o corpo recoberto de pó de ouro. Todas as riquezas apresa-das por Quesada haviam sido adqui­ridas pelos chibchas através do co­mércio ou da guerra. Seu valor, arbi­trado na época em mais de 150 000 pesos de ouro, é hoje incalculável. Mas o êxito de Quesada em nada contribuiu para arrefecer a procura de Eldorado — e ele próprio morreu convencido de que encontrara ape­nas uma pista de sua existência. As pirâmides de Brandão revelaram-se inúteis para alimentar por algum tempo essa fantasia. Contudo, será surpreendente se algum outro dia, nos confins amazônicos, o sonho não for retomado.

FONTE DA MATÉRIA: ACERVO DIGITAL VEJA – 1979.

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