<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?> <rss version="2.0" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/" xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/" xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/" ><channel><title>Blog do Miguel &#187; Miguel</title> <atom:link href="http://blog.cybershark.net/miguel/author/admin/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" /><link>http://blog.cybershark.net/miguel</link> <description>Resumos, ensaios e indicações do professor Miguel, dono do site Consciencia.org</description> <lastBuildDate>Thu, 02 Sep 2010 16:33:16 +0000</lastBuildDate> <language>en</language> <sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod> <sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency> <generator>http://wordpress.org/?v=3.0.1</generator> <item><title>Aquele que nomeia</title><link>http://blog.cybershark.net/miguel/2006/04/28/aquele-que-nomeia/</link> <comments>http://blog.cybershark.net/miguel/2006/04/28/aquele-que-nomeia/#comments</comments> <pubDate>Fri, 28 Apr 2006 05:14:33 +0000</pubDate> <dc:creator>Miguel</dc:creator> <category><![CDATA[ccac]]></category> <category><![CDATA[ch39]]></category> <category><![CDATA[fv246]]></category><guid isPermaLink="false">http://blog.cybershark.net/miguel/index.php/2006/04/28/aquele-que-nomeia/</guid> <description><![CDATA[O nome &#233; algo importante na teologia. Basta lembrar que um dos 10 mandamentos no Velho Testamento, o segundo, &#233; o de n&#227;o tomar o santo nome de Deus em v&#227;o. Na tradi&#231;&#227;o ocultista da Cabala, o Messias &#233; aquele que ir&#225; pronunciar o nome de Deus, dando in&#237;cio ao final dos tempos e o [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>O nome &#233; algo importante na teologia. Basta lembrar que um dos 10 mandamentos no Velho Testamento, o segundo, &#233; o de n&#227;o tomar o santo nome de Deus em v&#227;o. Na tradi&#231;&#227;o ocultista da Cabala, o Messias &#233; aquele que ir&#225; pronunciar o nome de Deus, dando in&#237;cio ao final dos tempos e o ju&#237;zo final. Os estudiosos da Cabala procuram os sinais ocultos nos manuscritos originais do Tor&#225; para tentar encontrar o nome de Deus expresso na escrita.</p><p>Isso acontece porque quem nomeia adquire poder sobre o nomeado. Pois cada ser tem uma parte sua infinita, ilimitada, perfeita, a ess&#234;ncia, e nomear &#233; fechar isso em uma s&#237;ntese, em um sistema, ou num elemento deste,  pass&#237;vel de ser representado e referido por uma &#8220;imagem&#8221;, sendo assim reduzido. O nomeador &#233; de certa forma, por esse mecanismo, &#8220;dono&#8221; daquilo que nomeia.</p><p>Ad&#227;o &#233; aquele que nomeia. Vejamos os seguintes vers&#237;culos do G&#234;nesis: (cap 2, 18-20)</p><p>&#8220;Da terra formou, pois, o Senhor Deus todos os animais o campo e todas as aves do c&#233;u, e os trouxe ao homem, para ver como lhes chamaria; e tudo o que o homem chamou a todo ser vivente, isso foi o seu nome.</p><p>Assim o homem deu nomes a todos os animais dom&#233;sticos, &#224;s aves do c&#233;u e a todos os animais do campo; mas para o homem n&#227;o se achava ajudadora id&#244;nea.&#8221;</p><p>Agora vejamos os seguintes trechos do Alcor&#227;o, o livro sagrado dos mu&#231;ulmanos que, segundo eles pr&#243;prios, corroba o Tor&#225; e o Evangelho:</p><p>&#8220;Ele ensinou a Ad&#227;o todos os nomes e depois apresentou-os aos anjos e lhes falou: Nomeai-os para Mim e estiverdes certos<br /> Disseram: Glorificado sejas! N&#227;o possu&#237;mos mais conhecimentos al&#233;m do que Tu nos proporcionaste, porque somente Tu &#233;s Prudente, Sapient&#237;ssimo.</p><p>Ele ordenou: &#211; Ad&#227;o, revela-lhes os seus nomes. E quando ele lhes revelou os seus nomes, asseverou (Deus): N&#227;o vos disse que conhe&#231;o o mist&#233;rio dos c&#233;us e da terra, assim como o que manifestais e o que ocultais?</p><p>E quando dissemos aos anjos: Prostrai-vos ante Ad&#227;o! Todos se prostraram, exceto L&#250;cifer que, ensoberbecido, se negou, e incluiu-se entre os incr&#233;dulos.&#8221;</p><p>Agora, vejamos o seguinte trecho do Fogo Interior de Carlos Castaneda que vou citar do ebook em ingl&#234;s:</p><p>&#8220;Don Juan continued his explanation and said that in examining the first attention, the new seers realized that all organic beings, except man, quiet down their agitated trapped emanations so that those emanations can align themselves with their matching ones outside.Human beings do not do that; instead, their first attention takes an inventory of the Eagle&#8217;s emanations inside their cocoons.</p><p>&#8220;What is an inventory, don Juan?&#8221; I asked.</p><p>&#8220;Human beings take notice of the emanations they have inside their cocoons,&#8221; he replied. &#8220;No other creatures do that. The moment the pressure from the emanations at large fixates the emanations inside, the first attention begins to watch itself. It notes everything about itself, or at least it tries to, in whatever aberrant ways it can. This is the process seers call taking an inventory.&#8221;</p><p>Falando em Castaneda, vale lembrar que os <i>brujos</i> do grupo do Don Juan usavam todos nomes falsos, justamente para escapar do poder fixador da hist&#243;ria pessoal. Castaneda tamb&#233;m o usou, uma &#233;poca, inclusive com documentos forjados, trabalhando como um cozinheiro fritador de hamburgens numa lanchonete de beira de estrada. Grosso modo, podemos &#8220;associar&#8221; os tr&#234;s trechos citados entre si.</p><p>O que eu percebi hoje que nunca tinha me ocorrido &#233; que a m&#250;sica Simpathy for the Devil, dos Rolling Stones, tem em seu refr&#227;o o verso &#8220;Please to meet you / Hope you guess my name&#8221;Ou seja, existem pelo menos duas ironias, ao meu ver conscientes, expostas nesse poema. A mais &#243;bvia &#233; que o &#8220;devil&#8221; da letra est&#225; zombando e desafiando o poder de Ad&#227;o de nomear, &#8220;com o guess my name&#8221;. Temos que considerar tamb&#233;m que diabo &#233; uma das palavras com mais sin&#244;nimos no dicion&#225;rio, justamente porque n&#227;o &#233; considerado de bom agouro nome&#225;-lo. Ali&#225;s, no mundo fict&#237;cio do Harry Potter, o vil&#227;o Lord Valdemort &#233; &#224;s vezes referido como &#8220;voc&#234;-sabe-quem&#8221;.<br /> A outra ironia est&#225; na palavra &#8220;hope&#8221; (esperan&#231;a) . O homem tem a esperan&#231;a e a f&#233; de que vai alcan&#231;ar a salva&#231;&#227;o.</p><p>L&#250;cifer &#233; a estrela da manh&#227;, segundo os versos de Isa&#237;as. O que n&#227;o &#233; comumente considerado &#233; que o tempo celeste n&#227;o se efetivaria como uma linha de tempo justaposta, mas antes dial&#243;gica e diacr&#244;nica. Ou seja, n&#227;o em um ponto X da &#8220;hist&#243;ria&#8221; L&#250;cifer foi expulso do c&#233;u e deixou de ser anjo desde ent&#227;o. Mas antes, &#233; uma hist&#243;ria inscrita na alma diante de dois opostos que significam o afastamento ou presen&#231;a de Deus no ser, por conta dos &#8220;pecados&#8221;. Em um dos polos, L&#250;cifer continuaria sendo o Anjo bom, e no outro, o rei de um mundo de sombras, ou seja, um deus do inferno, que &#233; inferno porque n&#227;o h&#225; ess&#234;ncia. Alguns consideram que o Apocalipse n&#227;o vir&#225; em algum ano x da hist&#243;ria, mas antes que j&#225; aconteceu e acontece v&#225;rias vezes, j&#225; que o tempo &#233; figurado, &#233; algo que o homem teria que enfrentar &#8220;fenomenologicamente&#8221; e a cada vez na configura&#231;&#227;o de sua alma.</p><p>O nome &#233; importante na obra liter&#225;ria <b>A Hora da Estrela</b> da escritora Clarice Lispector. Tanto que a personagem principal se chama Macab&#233;a, que &#233; uma clara refer&#234;ncia &#224; B&#237;blia (Macabeus). Ali&#225;s, antes de nome&#225;-la, o ficct&#237;cio narrador Rodrigo S.M tece uma s&#233;rie de considerandos, dando um peso extra ao ato de nomear um personagem. As refer&#234;ncias religiosas permeiam todo o texto. O t&#237;tulo &#8220;A hora da estrela&#8221; &#233; comumente considerado, de forma infantil, devido ao atropelamento da personagem, que aglomera uma por&#231;&#227;o de gente ao redor e por isso, nesse breve instante teria se tornado uma &#8220;estrela&#8221; e deixado de ser an&#244;nimo. Ora, ao meu ver isso n&#227;o &#233; correto. O livro se chama a Hora da Estrela porque &#233; a hora que L&#250;cifer vence a for&#231;a de vida da protagonista, fechando sobre ela um ciclo m&#243;rbido que acaba por ser seu fim, justo no momento em que ela &#8220;abre os olhos&#8221; para o que est&#225; acontecendo na sua vida, orientada pela vidente.</p><p>No famoso vers&#237;culo sobre o pr&#237;ncipe da Babil&#244;nia associado a L&#250;cifer, em Isa&#237;as 14 ele &#233; chamado de &#8220;estrela da manh&#227;&#8221; (um dos apelidos tamb&#233;m do planeta v&#234;nus). L&#250;cifer &#233; a estrela da manh&#227;. Vejamos o seguinte trecho da obra:</p><p>&#8220;E tem mais! Um dinheiro grande vai lhe entrar pelaporta adentro em horas da noite trazido por um homemestrangeiro. Voc&#234; conhece algum estrangeiro?<br /> - N&#227;o senhora &#8211; disse Macab&#233;a j&#225; desanimando.<br /> - Pois vai conhecer. Ele &#233; alourado e tem olhos azuis ou verde ou castanhos ou pretos. E se n&#227;o fosse porque voc&#234; gosta de seu ex-namorado, esse gringo ia namorar voc&#234;. N&#227;o! N&#227;o! N&#227;o! Agora estou vendo outra coisa (explos&#227;o) e apesar de n&#227;o ver muito claro estou tamb&#233;m ouvindo a voz de meu guia: esse estrangeiroparece se chamar Hans, e &#233; ele quem vai se casar com voc&#234;! Ele tem muito dinheiro, todos os gringos s&#227;o ricos. Se n&#227;o me engano, e nunca me engano, ele vailhe dar muito amor e voc&#234;, minha enjeitadinha, vai se vestir com veludo e cetim e at&#233; casaco de pele vaiganhar!&#8221;</p><p>Na coleta de mitos populares, &#233; comum associar L&#250;cifer ao &#8220;anjo gal&#227;&#8221;, o gostos&#227;o, senhor das hordas infernais, que seduz as mulheres e as transforma em bruxas, para navegar por mundos paralelos.</p><p>A cartomante, por&#233;m, erra o alvo, embora acerte alguma coisa na sua predi&#231;&#227;o. Mais adiante lemos que</p><p>&#8220;E sou sempre sincera: por exemplo, acabei de ter a franqueza de dizer paraaquela mo&#231;a que saiu daqui que ela ia ser atropelada,ela at&#233; chorou muito, viu os olhos avermelhados dela?&#8221;</p><p>Ou seja, ela previu que algu&#233;m ia ser atropelado, mas n&#227;o acertou quem. Macab&#233;a ter&#225; o encontro com esse &#8220;estrangeiro&#8221; que ir&#225; mudar a vida dela. O encontro se d&#225; no atropelamento. A autora n&#227;o podia ser mais clara ao dizer quem ele &#233;, j&#225; que diz textualmente mais adiante:</p><p>&#8220;Ter&#225; tido ela saudade do futuro? Ou&#231;o a m&#250;sica antiga de palavras e palavras, sim, &#233; assim. Nesta hora exata Macab&#233;a sente um fundo enj&#244;o de est&#244;mago e quase vomitou, queria vomitar o que n&#227;o &#233; corpo, vomitar algo luminoso. Estrela de mil pontas.O que &#233; que estou vendo agora e que me assusta? Vejo que ela vomitou. um pouco de sangue, vasto espasmo, enfim o &#226;mago tocando no &#226;mago: vit&#243;ria!E ent&#227;o &#8211; ent&#227;o o s&#250;bito grito estertorado de uma gaivota, de repente a &#225;guia voraz erguendo para os altos ares a ovelha tenra, o macio gato estra&#231;alhandoum rato sujo e qualquer, a vida come a vida.</p><p>At&#233; tu, Brutus?!Sim, foi este o modo como eu quis anunciar que &#8211; queMacab&#233;a morreu. Vencera o <b>Pr&#237;ncipe das Trevas</b>. Enfim a coroa&#231;&#227;o.&#8221; (grifo meu)</p><p>A estrela de mil pontas, o &#8220;algo luminoso&#8221; de que vale a autora, pode tamb&#233;m ser a sua for&#231;a de vida, o seu brilho, que embora estivesse acuado, existia, e precisava de apoio &#8211; que n&#227;o vinha &#8211; e possibilidade de se desenvolver e fixar. Vale lembrar que a autora escreveu esse livro quando j&#225; estava doente, quase desenganada, em 1977, da&#237; o tom niilista.</p><p>O texto todo &#233; permeado pelo vazio existencial, ou seja, a falta de ess&#234;ncia, e a repeti&#231;&#227;o. O inferno, na mitologia semita, &#233; a repeti&#231;&#227;o do errado, que leva ao afastamento da ess&#234;ncia, at&#233; que se resolva a quest&#227;o do pecado, e se ache a sa&#237;da. (Por exemplo expiar os pecados no pugargat&#243;rio). Esse o sentido ali&#225;s da &#8220;R&#225;dio Minuto&#8221;. Ali&#225;s, o livro tem uma &#8220;Hora&#8221; no t&#237;tulo, e a r&#225;dio &#233; de &#8220;minutos&#8221;, ou seja, os pequenos epis&#243;dios dos minutos da vida de Macab&#233;a s&#227;o todos fechados quando a hora, que &#233; dona dos minutos, completa  seu ciclo e fecha em cima do signdo da estrela. Quando a cartomante, que lhe abre os olhos, d&#225; as pistas de que seus canais de sa&#237;da estavam se fechando, especialmente com a perda do namorado e a futura perda do emprego.</p><p>Mais que denunciar, o livro encarna os preconceitos de classe. A falta material coincide com a falta espiritual. Ou seja, ela &#233; incapaz de enxergar a riqueza na pobreza. A mesma riqueza que permite, por exemplo, que aconte&#231;a uma fin&#237;ssima arte popular, como o Rio de Janeiro sempre provou. O preconceito contra nordestinos aparece v&#225;rias vezes. Ol&#237;mpico mata algu&#233;m no &#8220;confim do sert&#227;o&#8221; e passa vaselina no cabelo que as &#8220;cariocas acham nojento&#8221;. O sonho dele &#233; apenas participar da classe m&#233;dia no &#8220;sul&#8221;. Um dos pontos desnecess&#225;rios do texto ( o outro ao meu ver foi ela ter se mijado no zool&#243;gico &#8211; ) &#233; que Ol&#237;mpico, por ter matado algu&#233;m com faca, fica excitado com a&#231;ougue e a carne fatiada, mas gosta da amiga da Macab&#233;a porque o pai dela &#233; a&#231;ougueiro. Essa amiga (Gl&#243;ria) tem &#8220;bamboleio do caminhar por causa do sangue africano escondido&#8221;. Isso ao meu ver &#233; simples preconceito da escritora, junto com o fato de Ol&#237;mpico se perguntar se ela &#8220;&#233; loira embaixo tamb&#233;m&#8221;. Mas tudo redunda no protesto mudo contra a exclus&#227;o, a mediocridade na exclus&#227;o. Quer dizer, realiza&#231;&#227;o espiritual para ela &#233; ter os preceitos da vida burguesa: acesso &#224; educa&#231;&#227;o e cultura burguesa, &#224;s comidas, ao casamento &#8211; modelo de fam&#237;lia burgu&#234;s, e um bom emprego.</p><p> Tudo bem, mas a&#237; quem n&#227;o est&#225; dentro disso vai para o inferno? Parece meio for&#231;ado. O tom &#233; proposital, ir&#244;nico e desalentado. Talvez por isso  que o livro seja patrocinado pela Coca-cola, como ela coloca no in&#237;cio. A riqueza do livro n&#227;o est&#225; no enredo, mas na discuss&#227;o que o narrador faz sobre a linguagem. Que, tenho que admitir, ela usa com maestria. A constru&#231;&#227;o do texto &#233; t&#227;o forte e bem elaborada que voc&#234; n&#227;o sente vontade de largar o livro antes de termin&#225;-lo, o que n&#227;o &#233; dif&#237;cil, j&#225; que &#233; um texto bem curto.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://blog.cybershark.net/miguel/2006/04/28/aquele-que-nomeia/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>1</slash:comments> </item> <item><title>Destino Tedioso e Presum&#237;vel</title><link>http://blog.cybershark.net/miguel/2005/12/05/destino-tedioso-e-presumvel/</link> <comments>http://blog.cybershark.net/miguel/2005/12/05/destino-tedioso-e-presumvel/#comments</comments> <pubDate>Mon, 05 Dec 2005 05:49:57 +0000</pubDate> <dc:creator>Miguel</dc:creator> <category><![CDATA[cine]]></category><guid isPermaLink="false">http://blog.cybershark.net/miguel/index.php/2005/12/05/destino-tedioso-e-presumvel/</guid> <description><![CDATA[Eu simplesmente n&#227;o entendo como essa s&#233;rie do Harry Potter pode fazer tanto sucesso. Seguem-se algumas considera&#231;&#245;es: Uma das tarefas arte contempor&#226;nea, que desconstruiu tudo o que existia em suas mais s&#243;lidas bases, &#233; a cria&#231;&#227;o de uma nova mitologia. Toda arte se alimenta da mitologia, e essa &#233; criada a partir de elementos existentes, [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Eu simplesmente n&#227;o entendo como essa s&#233;rie do Harry Potter pode fazer tanto sucesso. Seguem-se algumas considera&#231;&#245;es:</p><p>Uma das tarefas arte contempor&#226;nea, que desconstruiu tudo o que existia em suas mais s&#243;lidas bases, &#233; a cria&#231;&#227;o de uma nova mitologia. Toda arte se alimenta da mitologia, e essa &#233; criada a partir de elementos existentes, que se transmutam, nunca a partir do nada. Nesse sentido a obra do Sr. dos An&#233;is tem seu m&#233;rito: a partir de elementos do folk e do medieval brit&#226;nico, criou um mundo auto-consistente em que &#233; poss&#237;vel aplicar uma ferrenha moral crist&#227;. O Tolkien escreve muito bem. Os filmes foram fi&#233;is ao legado do livro, apesar de alguns problemas de adapta&#231;&#227;o critic&#225;veis. Agora, o que &#233; o Harry Potter?<br /> Para quem (j&#225; adulto) entra em contato pela primeira vez com a trama, chama a aten&#231;&#227;o a primeira vista a colcha de retalhos de cita&#231;&#245;es de que se aproveita fartamente. Livros da Magia, do Neil Gaiman, o pr&#243;prio Sr. dos An&#233;is, Gata Borralheira, a predestina&#231;&#227;o da lenda arturiana s&#227;o apenas alguns exemplos. s&#227;o apenas alguns exemplos.</p><p>Mas o que irrita nessa s&#233;rie seja talvez o motivo de seu sucesso: O &#8220;Mundo da magia&#8221; que ela apresenta &#233; um perfeito espelho da sociedade contempor&#226;nea em suas contradi&#231;&#245;es. O &#8220;mundo m&#225;gico&#8221; traz a estrutura social do mundo ingl&#234;s, com a rixa entre cl&#227;s e fam&#237;lias tradicionais, e a competitividade doentia entre os garotos, que se verifica em todos os filmes da s&#233;rie. Esses adotam a cultura do &#8220;losers&#8221; x &#8220;winners&#8221; e tem de enfrentar sucessivas provas para avan&#231;ar e mostrar seu valor. Mas essas provas o colocam apenas no imp&#233;rio do presum&#237;vel: o destino j&#225; est&#225; tra&#231;ado e eles lutam para ganhar seu lugar na sociedade. O mundo da magia &#233; horrendamente caricaturizado com &#8220;cargos&#8221; e &#8220;conselhos&#8221; e &#8220;ministros&#8221; da magia. Isso quer dizer apenas uma coisa.</p><p>No mundo contempor&#226;neo a ind&#250;stria cultural pretende ter encerreado perfeitamente toda as potestades naturais e for&#231;as m&#237;ticas do homem em artefatos e conceitos simbolicamente valorizados segundo uma l&#243;gica publicit&#225;ria, que cria e vende produtos. Nesse sentido aparecem as parafern&#225;lias bruxais, que s&#227;o apenas simulacros da carga simb&#243;lica contida em elementos tradicionais, destitu&#237;dos de seu assombro e mist&#233;rio, e apresentados segundo uma leitura ceifadora, superficial. Esse aprisionamento da magia &#233; recorrente no cinema de Hollywood, ali&#225;s. Quem quiser pode ler um artigo que falo do problema no filme Shrek 2 ( http://blog.cybershark.net/miguel/8 ). Quem n&#227;o percebe esse passo evolutivo dado pela contemporaneidade &#233; ent&#227;o taxado de &#8220;trouxa&#8221;, conforme o termo pejorativo e escrachado do universo potteriano. Mas se voc&#234; analisar, os trouxas e os n&#227;o trouxas n&#227;o apresentam grandes diferen&#231;as, com exce&#231;&#227;o, talvez, do glamour e luxo contido nas vestes e aparelhagens do mundo elitizado, encastelado dos bruxos, que passam longe da imagem cl&#225;ssica de um bruxo, alheio ao mundo social, em total abandono m&#237;stico-religioso.</p><p>Agora o realmente incr&#237;vel &#233; toda a juventude a servi&#231;o dessa maquinaria infernal, esperando ansiosamente ocupar seu lugar nesse mundo controlado, criando-se uma legi&#227;o de moleques pedantes e arrogantes, que ainda posam de faniquitos ao tratar do problema cl&#225;ssico da adapta&#231;&#227;o da literatura para o cinema, orgulhosos por terem lido mais de cem p&#225;ginas. Nesse caso, pseudo literatura. Aprendam ent&#227;o: Nenhum filme &#233; melhor que o livro. N&#227;o est&#225; a&#237; o m&#233;rito do cinema, a sua vertigem. O &#250;nico cineasta da hist&#243;ria que fez filmes melhores que os livros &#233; o genial Stanley Kubrick, que filmou livros medianos de maneira magistral. <br /> Continuando: o filme &#233; reacion&#225;rio e faz quest&#227;o de enterrar bem fundo aquilo que o rock and roll ensinou, que &#233; a revolta da juventude, a revolu&#231;&#227;o do jovem que em sua for&#231;a e &#237;mpeto sincero se p&#245;e contra tudo: costumes, valores etc. A pretesa &#8220;antiguidade&#8221; do mundo bruxal &#8211; nada consistente &#8211; do Potter nada mais &#233; que um resgate tardio da aristocracia brit&#226;nica, de forma p&#243;s-moderna e politicamente correta, j&#225; que tem o bruxinho negro e a bruxinha japonesa e indiana, como coadjuvantes, claro. Isso &#233; um ran&#231;o imperdo&#225;vel que vai contra a for&#231;a do s&#233;culo XX, quando houve a insurrei&#231;&#227;o cultural das minorias,  a aristocracia afundou e surgiu uma nova cultura, o que &#233; muito bem retratado no La Nave Va do Fellini.</p><p>O novo filme do Potter adolescente descobrindo suas qualidades viris &#233; frustrante. O mundo que ele descobre &#233; dominado pelos mais velhos. O estigma de seu nascimento e dos pais o segue por toda a parte. Vejam a letra do Rock We got get out this place do The Animals:</p><p>In this dirty old part of the city<br /> Where the sun refused to shine<br /> People tell me there ain&#8217;t no use in tryin&#8217;<br /> Now my girl you&#8217;re so young and pretty<br /> And one thing I know is true<br /> You&#8217;ll be dead before your time is due, I know</p><p>Watch my daddy in bed a-dyin&#8217;<br /> Watched his hair been turnin&#8217; grey<br /> He&#8217;s been workin&#8217; and slavin&#8217; his life away<br /> Oh yes I know it<br /> We gotta get out of this place<br /> If it&#8217;s the last thing we ever do<br /> We gotta get out of this place<br /> &#8217;cause girl, there&#8217;s a better life for me and you</p><p>Isso &#233; como o rock fez. A adolesc&#234;ncia do Potter, pelo contr&#225;rio, vai de volta ao encontro dos pais. O Baile &#233; ensinado pela velha professora. As crian&#231;as s&#227;o mandadas para um mundo m&#225;gico: um parque de divers&#245;es lango-lango, uma esp&#233;cie de internato liberal, onde os mais velhos continuam mantendo o controle, seja na influ&#234;ncia dos papais compreensivos (e na obriga&#231;&#227;o dos filhos de continuar essa droga de linhagem) ou dos professores, deslocados em seu papel de serem coadjuvantes dos mais novos. Toda escola &#233; uma estrutura de poder. Vejam a diferen&#231;a de tratamento dada por um filme como &#8220;Os Incompreendidos&#8221; de Truffaut e os bruxos estudiosos potterianos. J&#225; os mais novos est&#227;o desconfort&#225;veis na falsa posi&#231;&#227;o de protagonistas, num universo que nada tem de infantil.</p><p>Isso para mim ficou muito claro na cena que o bruxinho ruivo recebe seu traje pat&#233;tico da mam&#227;, para o baile de debutantes, e o usa. Jesus n&#227;o disse &#8220;aquele que ama sua fam&#237;lia mais do que a mim, n&#227;o &#233; digno de mim&#8221; &#224; toa. O aprisionamento do rock pela ind&#250;stria cultural aparece na sequ&#234;ncia deste baile cl&#225;ssico que se transforma em um baile jovem onde toca o rock, que est&#225; mirrado, tolhido, justamente porque n&#227;o traz mais novidade, j&#225; que repete a gera&#231;&#227;o anterior e ocorre ensaiado segundo a l&#243;gica dos mauricinhos e patricinhas nerds. O mesmo problema aparece, ali&#225;s, no recente &#8220;Fant&#225;stica F&#225;brica de Chocolate&#8221;</p><p>O papai que perde o filhinho no filme refor&#231;a minha tese, do filme focado nessa quest&#227;o familiar. Fugir da pris&#227;o que os tios med&#237;ocres impunham para isso? Sup&#245;e-se que o Potter esteja fugindo da pris&#227;o de seu &#8220;pequeno-mundo&#8221; e indo em dire&#231;&#227;o &#224; maturidade. Fora que a grande &#8220;carga dram&#225;tica&#8221; do jovem que morre nada mais faz que afirmar o ego&#237;smo que impossibilita a amizade, e dessa forma, nega a possibilidade de haver mais de um vencedor nesse jogo. O personagem foi inserido na trama apenas para morrer, isso compromete toda a carga dram&#225;tica. Se um dos 3 bruxinhos protagonistas morressem seria melhor.</p><p>A melhor cena do filme &#233; quando Potter, encorajado pela fantasma safada, descobre o segredo daquele ovo m&#225;gico, e ent&#227;o, somente debaixo da &#225;gua, pode ouvir o canto das sereias. Essa &#233; a s&#237;ntese do homem contempor&#226;neo, que com a percep&#231;&#227;o desligada para fora do mundo, compreende a tudo com jorros curtos de aten&#231;&#227;o, e precisa dar mergulho corajoso em dire&#231;&#227;o ao &#8220;mar&#8221; para perceber ali uma fonte intocada, onde pode experimentar uma vez mais o encanto. Lembramos, aqui,  &#233; claro, da imensa carga mitol&#243;gica que tem o canto das sereias e magistral leitura desse mito da Odiss&#233;ia por Adorno &#038; Horkheimer.</p><p>Assim se cumpre um papel relegado e infinitamente presum&#237;vel numa arte de aperfei&#231;oamento t&#233;cnico, dom&#237;nio dos clich&#234;s e fake, que vive da fantasmagoria dos efeitos especiais &#8211; muito competentes &#8211; e perde, em atua&#231;&#245;es p&#237;fias e medianas, qualquer assombro e mist&#233;rio que podem nos alimentar. Ressoa a crise de criatividade da ind&#250;stria de cinema hollywoodiano descontru&#237;da de sua grandiosidade, tentando ainda achar uma maneira de fazer bons filmes, conforme sua tradi&#231;&#227;o.</p><p>Bom, isso que eu n&#227;o li os livros, mas, segundo essa impress&#227;o, s&#243; temos a lamentar se a literatura infanto-juvenil esteja fazendo a cabe&#231;a da juventude segundo essa l&#243;gica exclusivista, elitista e falseada. Quem conhece o imenso legado de ter lido um lobato, um swift, um quintana, um michael ende e outros tantos, quando bem jovem, sabe disso.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://blog.cybershark.net/miguel/2005/12/05/destino-tedioso-e-presumvel/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>2</slash:comments> </item> <item><title>Messianismo</title><link>http://blog.cybershark.net/miguel/2005/08/14/messianismo/</link> <comments>http://blog.cybershark.net/miguel/2005/08/14/messianismo/#comments</comments> <pubDate>Sun, 14 Aug 2005 07:34:44 +0000</pubDate> <dc:creator>Miguel</dc:creator> <category><![CDATA[ccac]]></category> <category><![CDATA[ch39]]></category><guid isPermaLink="false">http://blog.cybershark.net/miguel/index.php/2005/08/14/messianismo/</guid> <description><![CDATA[No último (terceiro) episódio da saga do Star Wars, de George Lucas, numa cena na batalha final entre Anakin e o jedi Obi-Wan, o mestre acusa &#8220;Você estragou tudo! Você deveria ter sido o escolhido&#8221;. O que essa cena revela de interessante é justamente o perigo da velha armadilha do messianismo. A melhor idéia dos [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>No último (terceiro) episódio da saga do Star Wars, de George Lucas, numa cena na batalha final entre Anakin e o jedi Obi-Wan, o mestre acusa &#8220;Você estragou tudo! Você deveria ter sido o escolhido&#8221;. O que essa cena revela de interessante é justamente o perigo da velha armadilha do messianismo. A melhor idéia dos últimos episódios de Matrix é do Arquiteto que, embora represente uma hesitação em admitir alguma fonte confiável e absoluta de poder, revela a Neo o permanente conflito da humanidade que precisaria constantemente esperar ser salva. Neo, então, não seria o verdadeiro  &#8220;escolhido&#8221;, o &#8220;the one&#8221;, mas antes apenas a sucessão de uma linhagem de vários escolhidos, planejados pelo invasor robótico (e tecnologicamente avançado), para satisfazer uma necessidade congênita do inconsciente coletivo. Neo acaba por fracassar miseravelmente em sua missão inicial de salvar a humanidade, abrindo espaço para um acordo entre várias espécies de alienígenas.</p><p>Também Carlos Castaneda, em revelações póstumas trazidas a tona pelo livro de Armando Torres, &#8220;Encontros com o nagual&#8221;, comenta mais uma vez o cristianismo, como faz em várias passagens de sua obra. Na sucessão das narrativas deste  escritor existe um problema, que é do fim do ciclo tradicional de guerreiros, que renova o mito. Don Juan, convocado pelo poder a &#8220;explicar quem são os feiticeiros e o que eles fazem&#8221; foi o último personagem de uma linhagem de videntes que, Castaneda, seu discípulo não pode continuar, por conta da configuração peculiar de seu &#8220;ovo luminoso&#8221;. Enquanto os naguais como Don Juan teriam quatro compartimentos de energia, Castaneda teria apenas três, adquirindo características diferentes e instáveis. Por isso, não pode atuar como líder junto ao grupo inicial dos guerreiros La Gorda, genaros e irmãzinhas (que fim levaram?)</p><p>O nagual de  três pontas seria um agitador social natural, e Castaneda ao encerrar a linhagem a continuaria através da humanidade, pelo intermédio do conhecimento explicitado em seus escritos. De fato, a estrutura da narrativa leva os leitores a quererem reviver as experiências ali contidas, ao seu modo, e legiões de pessoas enveredaram por esse caminho. Porém, o limbo a que Castaneda se encontrava preso por conta dos &#8220;detratores&#8221; que bloqueraram a &#8220;revolução da consciência&#8221; planejada por Don Juan o levou a procurar a presença da massa energética humana, palestrando em seus últimos anos em seminários e desenvolvendo uma série de exercícios corporais &#8211; a tensegridade &#8211; para oferecer aos seus leitores a possibilidade de relembrar o poder oculto no corpo, esse &#8220;alasão que dorme&#8221;.</p><p>Os tais detratores seriam seres inorgânicos. Para o autor, existem várias forças agindo no &#8220;Ovo Luminoso&#8221;, e o homem, diante dessa armadilha, se vê obrigado a agarrar-se com força na idéia de Eu, abrindo mão de todo o resto, que é assediado pelas forças manipuladoras que pensam e engendram a vida. Ele volta a carga com o tema dos voadores exposto em &#8220;Sombras de Barro&#8221; do &#8220;Lado Ativo do Infinito&#8221;. Torres diz que a cada mil anos, a Águia envia um nagual de três pontas, para dar uma chance a humanidade, e todos que entram em contato com o nagual são contaminados pela sua consciência. Assim, o Castaneda, que é apenas um dos vários fenômenos do período que gerou o otimismo da contra-cultura e do movimento hippie, adquire, em sua teoria, a dimensão de &#8220;guru da nova era&#8221; que muitos de seus leitores já lhe advogavam. E claro, implícitas as questões do milenarismo  religioso e do messianismo.</p><p>No capítulo dos voadores, Castaneda, entretanto, comenta o seguinte: &#8220;nos dominam através de nossas tradições e costumes. São os amos das religiões, os criadores da História. Escutamos sua voz no radio, e lemos suas idéias nos periódicos.’Eles’ manejam todos os nossos meios de informação e nossos sistemas de crenças. Sua estratégia é magnífica. Por exemplo, houve um homem honesto que falou de amor e liberdade; ‘eles’ converteram em autocompaixão e servilinismo. O fazem com tudo, inclusive com os naguais. Por isso o trabalho de um bruxo é solitário”. Esse homem honesto só pode ser Jesus Cristo. Mas Castaneda está empenhado em combater o papel do Messias. Se o nagual é o responsável para lembrar o homem de sua ligação com o Espírito, é somente cada um, em sua luta solitária, que pode realmente encarar esse fato.<br /> O apelo do &#8220;eu&#8221; dos &#8220;predadores de sistemas&#8221; se alimenta desta velha armadilha. Hidden, no entanto, deixará de agir por qualquer outra coisa que não seja a razão da Terra, ou o eterno derramar do azul em infindáveis camadas de ser, esplêndidas moradas. Só assim o homem poderá produzir novos &#8220;nós górgios&#8221; de consciência que, por terem assentimento da essência, não podem ser clonados, e recuperar posições perdidas na trama do &#8220;Castelo da Águia&#8221;.</p><p>No plano do discurso político, isso se traduz na necessidade de subverter a simbologia contida no poder do discurso e do conceito, repetido a exaustão pela máquina publicitária de repetição de padrões e sistemas. Por exemplo, fechar idéias gerais, e tudo o que existe são idéias e consciência, em tornos dos valores morais &#8220;mal&#8221; e &#8220;bom&#8221;. Castaneda explica que esses valores foram transferidos a nós pelos predadores, e com isso remetemos mais uma vez que o mito de Gênesis (ver post abaixo). Por exemplo, uma idéia geral como &#8220;Brasil&#8221; representa, em fato, um todo tão complexo que não pode exalar algo de negativo, a não ser com prejuízos tremendos para a cognição. Os 11/09 tiveram o mérito de atacar epicentros que estavam localizados quase que totalmente dentro do inventário e da intenção da humanidade, preparando o terreno para ações de força e criando, na civilização ocidental, uma aura de ameaça externa que justifica a ação dos falcões. Mas culpar apenas &#8220;Bush&#8221;, &#8220;Bin Laden&#8221;, ou &#8220;Lula&#8221; é uma recorrência da tradição messiânica de esperança e fracasso que não reconhece a verdade na massividade intersubjetiva. Esta pode ser alcançada ainda pelo diálogo, pela ética discursiva, à maneira habermasiana, mesmo já com a herança das críticas ao esclarecimento suscitadas na contemporaneidade.</p><p>Kant, em &#8220;O que é o esclarecimeno&#8221; se põe contra o tutelamento e defende a necessidade de se fazer &#8220;uso público da razão&#8221;. Pude debater esse texto com colegas. O log encontra-se <a href="http://www.consciencia.org/humanidades/modules.php?op=modload&amp;name=Sections&amp;file=index&amp;req=viewarticle&amp;artid=11&amp;page=1">neste link </a>. Já tem gente defendendo a volta da ditadura, como uma espécie de reserva moral contra a bandalheira (um firme acreditar, mas não é todo acreditar contingente?) Se Lula errou, foi o povo despolitizado que o elegeu que também errou e continua errando ao seguir a maré da mídia e fechando peças complexas em idéias singulares.</p><p>Se a ditadura voltasse, como alguns defendem, o que representaria o poder de informação que vivemos hoje? O que significaria algo como o Orkut ou o Google, a não ser o fim da liberdade de pensamento e expressão?. Esse post, aliás,   explica todo o sentido do meu &#8220;about me&#8221; do Orkut, verdadeiro instrumento de culto do Eu: &#8220;É bom ser mais um nesta multidão&#8221;.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://blog.cybershark.net/miguel/2005/08/14/messianismo/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Google</title><link>http://blog.cybershark.net/miguel/2005/06/28/google/</link> <comments>http://blog.cybershark.net/miguel/2005/06/28/google/#comments</comments> <pubDate>Tue, 28 Jun 2005 14:24:17 +0000</pubDate> <dc:creator>Miguel</dc:creator> <category><![CDATA[fv246]]></category> <category><![CDATA[inf]]></category> <category><![CDATA[crítica ao google]]></category> <category><![CDATA[google earth]]></category> <category><![CDATA[lucros dfo google]]></category> <category><![CDATA[monopólio do google]]></category> <category><![CDATA[valor de mercado do google]]></category><guid isPermaLink="false">http://blog.cybershark.net/miguel/index.php/2005/06/28/google/</guid> <description><![CDATA[Despertou minha aten&#231;&#227;o numa conversa em chat a informa&#231;&#227;o da cifra envolvendo o valor de mercado do portal Google.com. Algo em torno de 80 bilh&#245;es de d&#243;lares. Esse n&#250;mero &#233; surpreendente em v&#225;rios aspectos. Superou de longe os valores da hist&#243;rica fus&#227;o entre a Time Warner e a America Online, al&#233;m do valor do Yahoo!, [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Despertou minha aten&#231;&#227;o numa conversa em chat a informa&#231;&#227;o da cifra envolvendo o <a href="http://www.google.com/search?q=google+80+bi&#038;sourceid=opera&#038;num=0&#038;ie=utf-8&#038;oe=utf-8">valor de mercado</a> do portal Google.com. Algo em torno de 80 bilh&#245;es de d&#243;lares.</p><p>Esse n&#250;mero &#233; surpreendente em v&#225;rios aspectos. Superou de longe os valores da hist&#243;rica fus&#227;o entre a Time Warner e a America Online, al&#233;m do valor do Yahoo!, por muito tempo considerado o maior portal do mundo. Bill Gates chegou a comentar a boa fase do google, dizendo que teve um per&#237;odo bom assim na Microsoft por  dez anos. E quem &#233; webmaster e roda stats no seu site sabe que a maioria das visitas vem pelo google.</p><p>O que o Google tem de especial? Todos que acompanharam a evolu&#231;&#227;o desse site sabem que os servi&#231;os dele s&#227;o muito bem feitos. Surgiu originalmente como um projeto de professores de Standford, e rapidamente conseguiu ultrapassar o l&#237;der de buscas altavista por conta da precis&#227;o dos resultados (page rank), simplicidade e praticidade do design &#8220;n&#227;o polu&#237;do&#8221; e tamanho do banco de dados (maior n&#250;mero de p&#225;ginas indexadas).</p><p>H&#225; algum tempo anos o Google o vem intensificando a gama de servi&#231;os do seu portal e um ponto de inflex&#227;o nessa perspectiva ocorreu quando comprou os hist&#243;ricos arquivos dos newgroups (usenet). Esse &#233; um expediente conhecido.  O pr&#243;prio Yahoo! cresceu comprando o Geocities, e mais tarde o egroups. No Brasil, o Yahoo!, que se instalou tardiamente, s&#243; conseguiu sua fatia de audi&#234;ncia depois de incorporar o site brasileiro Cad&#234;.</p><p>No entanto, o Google tamb&#233;m inova em servi&#231;os. O Yahoo! Maps j&#225; existe h&#225; anos, e recentemente o Google lan&#231;ou seu servi&#231;o de mapas. Fotos de sat&#233;lite de todo o globo est&#227;o agora dispon&#237;veis para consulta, em muitos casos com um grau de zoom bastante pr&#243;ximo. Uma marca de &#225;gua com os dizeres google aparece em cada foto. Uma leitura ing&#234;nua diria que eles est&#227;o protegendo seu copyright sobre esse banco de imagens, obtido n&#227;o sei de quale fonte. Outra leitura, talvez um pouco menos ing&#234;nua, daria conta que o Google quer se &#8220;apoderar do mundo&#8221; atrav&#233;s de sua representa&#231;&#227;o, firmando a posi&#231;&#227;o de portal  l&#237;der global. Ali&#225;s, uma das preocupa&#231;&#245;es deles sempre foi tornar acess&#237;vel o site em v&#225;rios tipos de linguagens diferentes.</p><p>O programa Adsense do portal est&#225; sendo aderido em larga escala. E permitiria perfeitamente que eles mantessem estat&#237;sticas detalhadas acerca dos visitantes de um site. Al&#233;m de indexar boa parte da web dispon&#237;vel, agora se fazem presentes tamb&#233;m nos pr&#243;prios sites, al&#233;m de terem o email e os perfis do orkut. E em condi&#231;&#245;es n&#227;o muito satisfat&#243;rias para os webmasters que querem levantar seus caramingu&#225;s pelo duro trabalho de seus sites &#8211; nada perto dos $80 bi &#8211; , j&#225; que os banners s&#227;o impressos milhares de vezes e apenas os cliques nos banners valem alguns centavos.</p><p>&#8220;Google is your friend&#8221;, &#8220;google rocks&#8221;,  diziam os geeks que encontravam no google um aliado para encontrar ordem em meio ao aparente caos da web. Outras leituras mais mistificadoras, que identificam-no como um &#8220;fluxo da consci&#234;ncia global&#8221; ou mesmo um &#8220;or&#225;culo moderno&#8221; surgiram.<br /> Penso que tais leituras devem ser evitadas. O que h&#225; de importante na Internet &#233; a explos&#227;o criativa que ela possibilita atrav&#233;s da intera&#231;&#227;o com as pessoas. Essa explos&#227;o causa verdadeiras revolu&#231;&#245;es nos sistemas e por isso escapam do paradigma apor&#233;tico da representa&#231;&#227;o. Por&#233;m, de acordo com a dial&#233;tica da internet e da raz&#227;o em geral, s&#227;o  sempre apropriadas pelas pr&#243;prias for&#231;as anti-emancipat&#243;rias, que treinam e mimetizam a aten&#231;&#227;o das pessoas em simbologias.</p><p>O Google est&#225; ficando metido, vejam por exemplo a arrog&#226;ncia de seus conselhos ao webmasters nas <a href="http://www.google.com/webmasters/guidelines.html"> suas guidelines</a>. Assim como o Linux combateu o monop&#243;lio da Microsoft, o Google deve come&#231;ar a ser combatido, pois &#233; apenas mais um site, como tamb&#233;m o <a href="http://www.google-watch.org">Google Watch</a> &#233;. &#201; bastante poder na m&#227;o de uma empresa privada, com acesso a dados important&#237;ssimos que acabam com a ilus&#227;o de qualquer privacidade, em macroescala.</p><p>Quem navega na web h&#225; anos sabe que as coisas eram muito diferentes do que s&#227;o hoje. Por causa da for&#231;a do conceito, da surpresa embutida nas possibilidades e na intera&#231;&#227;o com o novo. E da&#237; o slogan do Mozilla &#8220;Take back the web&#8221;. O orkut e os flogs mostram que estamos cada vez mais conectados e no entanto nada parece aplacar a sede pelo novo e o inevit&#225;vel t&#233;dio. Fatos absolutamente graves s&#227;o tratados na solid&#227;o da telinha individual, friamente, pela raz&#227;o anal&#237;tica planificadora.</p><p>Uma das coisas legais na Web, pelo menos para mim, era explor&#225;-la atrav&#233;s dos diret&#243;rios. O primeiro site que visitei foi o Yahoo!, em 1996. Achava que toda a web existente estava indexada ali, naquelas categorias. Qual n&#227;o foi a minha surpresa ao descobrir o Altavista e seus milhares de resultados. O mundo era maior do que supus. E ele sempre se revela assim.</p><p>Por&#233;m, nos diret&#243;rios cada site aparece repousando na sua inteireza, na import&#226;ncia de seu projeto, design, conte&#250;do e avalia&#231;&#227;o. O Google n&#227;o &#233; a web, e vasculh&#225;-la simplesmente procurando por palavras-chave diminui esse aspecto, criando a falsa impress&#227;o de controle.<br /> Hoje, resgato para mim esse prazer do diret&#243;rio realizando um projeto antigo, que &#233; um <a href="http://consciencia.org/links"> guia para sites de filosofia</a> no Consci&#234;ncia.org. O diret&#243;rio do Google usa os dados do Dmoz.org, projeto iniciado pela Netscape &#8211; uma ex-gigante que um dia caiu &#8211; com  o apoio de centenas de editores em todo o mundo. Eu era editor da categoria Filosofia em Portugu&#234;s no Dmoz, mas perdi minha conta ao ficar alguns meses sem logar, depois de brigar por &#8220;Filosofia&#8221; ser uma subcategoria de &#8220;Sociedade&#8221; e n&#227;o de &#8220;Ci&#234;ncias Humanas&#8221;.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://blog.cybershark.net/miguel/2005/06/28/google/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>G&#234;nesis</title><link>http://blog.cybershark.net/miguel/2004/11/14/gnesis/</link> <comments>http://blog.cybershark.net/miguel/2004/11/14/gnesis/#comments</comments> <pubDate>Sun, 14 Nov 2004 03:09:10 +0000</pubDate> <dc:creator>Miguel</dc:creator> <category><![CDATA[ccac]]></category> <category><![CDATA[fv246]]></category><guid isPermaLink="false">http://blog.cybershark.net/miguel/index.php/2004/11/14/gnesis/</guid> <description><![CDATA[Isaías 14:14-15 &#8221; &#8220;Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei nas extremidades do Norte; Subirei acima [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Isaías 14:14-15 &#8221;<br /> &#8220;Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei nas extremidades do Norte; Subirei acima das mais altas nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo. Contudo serás precipitado para o reino dos mortos, no mais profundo do abismo.&#8221;</p><p>Ap. 12:1&#8243;Houve uma grande batalha no céu. Miguel e seus anjos lutaram contra Satanás e suas legiões, que foram derrotadas, e não houve lugar para eles no céu. Foi precipitada a antiga serpente, o diabo, o sedutor do mundo. Ai da terra e do mar, porque o demônio desceu a vós com grande ira, sabendo que lhe resta pouco tempo&#8221;.</p><p>Gênesis 4-5 &#8220;Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal.&#8221;<br /> 22 &#8211; &#8220;Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente o Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado.&#8217;.&#8221;</p><p>Tanto o primeiro homem, quanto o primeiro anjo, então, caíram porque quiseram ser como Deus, mas por motivos diferentes.</p><p>Ao primeiro Anjo não foi negado o saber de Deus, mas sim o poder. Deus se dirige aos anjos &#8220;Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal&#8221;. Lúcifer, a estrela da manhã, no entanto, queria ter o mesmo poder de Deus, e por isso caiu e foi expulso, conforme relata também o Apocalipse. Os anjos fazem parte da intelecção divina, orientam, mas não podem modificar o mundo.</p><p>Ao primeiro homem não foi negado o poder de Deus, mas sim o saber. O homem é o senhor de todas as coisas sob o céu, pode criar, destruir, trabalhar na Terra, comer de todos os frutos. Foi feito a imagem e semelhança de Deus, sendo a imagem a Vontade e a semelhança é a Razão. Pois a vontade, no homem, é infinita, enquanto a razão divina é superior, mas do mesmo tipo. O único mandamento era o de não comer do fruto da ciência do bem e do mal (no dia em que dele comerdes, certamente morrereis). A ciência do bem e do mal afasta o homem da Árvore da Vida. A desobediência gera um reflexo da dor de Deus na alma do homem. No Éden, o homem vivia com a presença do Espírito. Ao desobedecer, não é mais capaz de suportar a presença. E por isso o não-ser, a morte. O que é o não-ser? É a ausência de Deus, o homem busca-o chamando e recebe um &#8220;eu não estou aqui&#8221;. Assim como cria o mundo através do amor, Deus é capaz de fazer o mundo voltar ao nada (nihil), ou seja, de aniquilar. O Não-Ser, então, é como um ponto negro que se move pela árvore da vida aniquilando ramos, ceivando camadas, tornando-a ausente, até a extinguir, com a morte. A desobediência, além da expulsão, multiplicou os mandamentos, de apenas um foram para dez.</p><p>Nessa questão da desobediência tive a oportunidade de tratar a semelhança do trabalho como maldição divina no Gênesis e também na mitologia grega, em Hesíoso, Platão e Ésquilo, neste <a href="http://www.consciencia.org/antiga/plapro.shtml">pequeno texto</a>. Sobre o trabalho, é importante considerar também a distinção entre o otium e negotium da antiguidade latina, e a do otium intellectuale, que segundo alguns seria um requisito para se fazer filosofia. Ou seja, seria preciso ter as condições básicas de subsistência asseguradas para se dedicar às &#8220;nuances do intelecto&#8221;.</p><p>Carlos Castaneda, em &#8220;O Poder do Silêncio&#8221; (1988), profere uma frase curiosa, sem maiores explanações. Diz ele que a história judaico-cristã do Gênesis é uma alegoria para o fato do homem ter perdido o seu contato com o &#8220;conhecimento silencioso&#8221;. O título original do livro seria justamente, esse, conforme relata em &#8220;A roda do tempo&#8221;, mas foi obrigado a mudar pelo editor, por apelo mercadólogico.</p><p>O conhecimento silencioso é o conhecimento que vem diretamente do Espírito, sem intermediações intelectuais, blocos complexos de informação apreendidos e asseridos imediatamente, uma vez que se desliga o &#8220;dialogo interno&#8221; e se cumpra os requisitos do &#8220;intento&#8221;. O livro é construído em torno de &#8220;cernes abstratos&#8221;, histórias extraídas da análise do contato do guerreiro com o intento através do tempo, que permitiriam o propósito de analisar a conexão do homem com o intento e fornecer um ponto de referência universalmente válido.</p><p>A primeira história chama-se &#8220;As manifestações do Espírito&#8221; e conta, grosso modo, que o Espírito revelou-se a um homem comum, mostrando que os pensamentos do homem eram o pensamento do próprio Espírito, mas não foi por este reconhecido, uma vez que ele já estava muito absorvido com o mundo. O Espírito, então, atravessou o caminho do homem da maneira mais óbvia, e não obteve resultado. Foi obrigado, por isso, a usar de artimanhas.</p><p>Para Castaneda, existiriam três formas básicas de cognição no homem, que seriam, naturalmente, &#8220;posições do ponto de aglutinação&#8221;. O primeiro ponto é o do conhecimento silencioso, e nele a humanidade teria passado a maior parte da sua história, constituindo-se assim a &#8220;parte antiga&#8221; do homem. O segundo ponto permite o acesso ao terceiro -e vice-versa, e é chamado lugar da &#8220;não-piedade&#8221;, ou não-dúvida. E o terceiro ponto é o da razão, a posição atual da humanidade desde alguns milênios. Mas, tanto no primeiro quanto no terceiro, o ponto de aglutinação estaria na periferia da posição exata na maior parte dos casos, e os verdadeiros líderes foram e são aqueles que atingiram a posição exata. Hoje, pessoas cujo gênio seria o de exercitar sua razão. O resto das pessoas seriam a &#8220;mera audiência&#8221;.</p><p>Na posição exata, um ponto permitiria a visualização fácil do outro. Foi justamente por seu conhecimento perfeito do Espírito, vindo do conhecimento silencioso, que o homem passou a questionar-se acerca da origem daquele conhecimento, passando a considerar a &#8220;concernência&#8221;, associação, causalidade, razão.</p><p>Se considerarmos então a afirmação de Castaneda sobre a alegoria do Éden, devemos pensar Adão, o &#8220;primeiro homem&#8221;, não como um primeiro indíviduo criado e que originou a raça humana, juntamente com sua esposa Eva, mas sim como toda uma espécie de homem, de humanidade, civilizações inteiras que habitaram a Terra, mas que nós, os &#8220;segundos homens&#8221;, teríamos conhecimento precário por termos perdido a ligação com nossa origem.</p><p>Isso nos leva novamente a questão da Bíblia e da evolução humana. Existem várias formas de conceber o tempo. Uma delas é a cíclica, circular, o tempo da natureza, das estações do ano, vida e morte se repetindo por gerações, sem acúmulo, sem história. É o kairós e o aion gregos. Uma outra forma é a de Kronus, o círculo eterno é interrompido por Zeus e passa-se da potestade à forma, existe acúmulo, evolução, existe linha do tempo. A terceira forma seria a judaico-cristã, onde o tempo é considerado segundo a relação de Deus com os homens. Então, teríamos acontecimentos-chave, a gênese, a expulsão, os mandamentos, a vinda do messias e o apocalipse.</p><p>Nessa terceira concepção, o primeiro período da humanidade foi o do Éden, o período do pai, o homem vivia sob a proteção a presença divina, quase inconsciente, Deus põe os homens no mundo e os cuida. Com a queda, acontece o segundo período, o do filho. O homem é responsável por seus atos, mas vive perdido, sem a presença do Pai. O terceiro período é o do Espírito Santo, a humanidade já foi testada e agora o conhecimento se revela a ela, é o período do domínio da natureza e das leis naturais, a sabedoria, o livro sagrado do universo é aberto. A modernidade pretende ser o terceiro período, e o livro do universo estaria então escrito em &#8220;caracteres matemáticos&#8221;.</p><p>Castaneda, no entanto, prega uma volta ao conhecimento silencioso original, mas, depois de toda provação e inferno que sofreu, a humanidade voltaria com um troféu que não existiria no período inicial, &#8220;o entendimento&#8221;.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://blog.cybershark.net/miguel/2004/11/14/gnesis/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>1</slash:comments> </item> <item><title>Dogville</title><link>http://blog.cybershark.net/miguel/2004/11/11/dogville/</link> <comments>http://blog.cybershark.net/miguel/2004/11/11/dogville/#comments</comments> <pubDate>Fri, 12 Nov 2004 02:46:38 +0000</pubDate> <dc:creator>Miguel</dc:creator> <category><![CDATA[ch39]]></category> <category><![CDATA[cine]]></category><guid isPermaLink="false">http://blog.cybershark.net/miguel/index.php/2004/11/11/dogville/</guid> <description><![CDATA[Dogville é o primeiro filme do cineasta dinamarquês Lars Von Trier de uma trilogia sobre os Estados Unidos. A construção cenográfica do filme chamou a atenção por sua forma peculiar, teatral, bretchiana. Quase todas as tomadas foram feitas na primeira tentativa e não há externas, somente um cenário onde estão desenhados no chão, com giz, [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Dogville é o primeiro filme do cineasta dinamarquês Lars Von Trier de uma trilogia sobre os Estados Unidos. A construção cenográfica do filme chamou a atenção por sua forma peculiar, teatral, bretchiana. Quase todas as tomadas foram feitas na primeira tentativa e não há externas, somente um cenário onde estão desenhados no chão, com giz, os contornos das ruas e casas da pequena cidade em que se desenrola a história. Esse esforço minimalista gera uma extenuação, um desconforto, por parte de quem assiste, forçando-nos a utilizar uma parte de nossa atenção a que não estamos acostumados: pausada, contínua, avessa à fragmentação publicitária. Também a carga dramática das atuações dos atores é maximizada, pois eles são praticamente tudo o que você vê na tela. O filme tem sido saudado pelos cinéfilos como uma grata novidade e a melhor coisa que se produziu nos últimos anos.</p><p>A história gira em torno de Grace (Nicole Kidman), uma moça que chega fugindo da máfia a uma cidadezinha do interior, causando tremenda controvérsia. Depois de uma reunião da Igreja, apoiada pelo seu amigo filósofo Tom, ela consegue a acolhida e proteção da cidade, mas em troca tem de prestar pequenos serviços para a comunidade. O problema é que os habitantes começam a exagerar na carga, usando-se livremente do trabalho quase escravo de Grace e por fim abusando sexualmente &#8211; um tema recorrente nos filmes dos cineastas do Dogma-, humilhando e prendendo-a fisicamente, num quadro crescente de crueldade e hipocrisia. O pequeno espaço físico da cidade se torna uma prisão caustificante, de fuga difícil. Grace a tudo se submete, até que, ao final, seu pai mafioso chega a cidade e a traz de volta, metralhando e incediando todos os habitantes, menos o cão, também uma figura no chão do qual só se ouve o latido.</p><p>O filme é complexo e sua interpretação é difícil. Uma leitura possível é tomar Dogville como um microcosmo da América, inicialmente associada aos valores de liberdade, proteção, livre-iniciativa, com uma constituição assentada em firmes bases filosóficas. Um lugar onde o estrangeiro pode chegar, e contando com o &#8220;verdadeiro capitalismo&#8221; ascender através do seu próprio esforço e trabalho. Mas aos poucos essa origem se torna um simulacro diante de acontecimentos desastrosos, e no entanto o mesmo discurso continua a imperar, como na retórica de Bush de ser um enviado que garante a liberdade no mundo. A única coisa capaz de manter esse quadro de injustiça e ainda assim continuar advogar para si seu discurso original seria a crescente hipocrisia da sociedade americana, que reelegeu Bush mesmo apesar de suas fraudes e mentiras, depois de quase destituir Clinton por uma simples mentira ao Senado.</p><p>Dog seria então anagrama de God, e Grace (graça) o anjo enviado para testar. A mensagem do filme e a redenção final, então, é quase religiosa. Os Eua perderam-se e prenderam-se em seu próprio autocentrismo, criando um pequeno mundo claustofóbrico e oprimindo o mundo com isso, como bem mostra o artigo de Nei Duclós<a href="http://outubro.blogspot.com/2004/01/dirio-da-fonte-o-crculo-de-giz-da.html"> O Círculo de giz da América</a>. Mas a abertura existe, e a chegada do mafioso os reduz a pó, apesar dos protestos de Grace, que diz que &#8220;eles não sabem o que fazem&#8221;.</p><p>A vila é, então, como um tipo de atenção humana, uma armadilha que se torna intensa e opressiva, dando a impressão de ser tudo o que existe, de não haver alternativa.<br /> Significativo são as projeções finais do filme, onde aparecem retratos da américa em depressão na década de caipira, provinciada, decadente. O som ao fundo é o &#8220;Young Americans&#8221; de David Bowie, que lembra a relativa juventude dos EUA em relação a história e situação absolutamente inédita, também recente, de uma única potência efetivamente global querendo fazer valer seu império. Restaria saber quem vai cumprir o papel atribuído ao pai de Grace. Talvez, num viés político, uma velha Europa que até agora tem aceitado o papel de coadjuvante, ou se considerarmos a devoção religiosa do &#8220;monge&#8221; Trier, a saída seja apontada pelo próprio Deus.</p><p>Nicole é uma estrela de Hollywood que foi trazida de seu mundinho para a vida (ir)real por Stanley Kubrick, em &#8220;De Olhos Bem Fechados, e desde então vem fazendo filmes de arte. O filme de Kubrick é toda uma denúncia sobre a pseudo-elite que ocupa as páginas do noticiário, atraindo a atenção de todos, no filme emblematizado pelo casal protagonista, mas podendo ser qualquer juiz, governante (Bush), personalidade a quem se atribui poder, mas que são na verdade como &#8220;laranjas&#8221; ou bodes expiatórios. O verdadeiro poder, a verdadeira elite, aponta o diretor, são verdadeiramente secretos e algo muito mais extensos, louco e manipulador do que se pensa. Uma realidade paralela do qual só pode se entrar através da mensagem cifrada, de olhos vendados, onde trabalham aqueles que aprisionaram o mundo num sistema de rotina que consome toda a nossa energia, mas que se diverte e não precisa se preocupar com esse sistema que criaram, falso e contrário a natureza humana.</p><p>De qualquer forma, Dogville parece ter entendido o recado da importância do cinema americano como porta voz da América e seus valores e usa-se do mesmo artíficio da linguagem cifrada, só que através de uma linguagem muito mais sofisticada que torna a simbologia tradicional dos filmes americanos quase caricata.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://blog.cybershark.net/miguel/2004/11/11/dogville/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Eu n&#227;o esqueci</title><link>http://blog.cybershark.net/miguel/2004/11/11/eu-no-esqueci/</link> <comments>http://blog.cybershark.net/miguel/2004/11/11/eu-no-esqueci/#comments</comments> <pubDate>Thu, 11 Nov 2004 03:08:24 +0000</pubDate> <dc:creator>Miguel</dc:creator> <category><![CDATA[ccac]]></category> <category><![CDATA[fv246]]></category><guid isPermaLink="false">http://blog.cybershark.net/miguel/index.php/2004/11/11/eu-no-esqueci/</guid> <description><![CDATA[Requentando um pouco meu &#8220;scrapbook&#8221; do orkut, quando fui indagado o por quê da frase do título. Desculpem o longo tempo sem postar. Em grego a palavra alethéia significa desvelamento, revelação. É composta pela partícula de negação a+lethen. Lethen significa esquecimento. Então vemos que conhecer significa lembrar, não esquecer. Essa é uma noção bem platônica, [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Requentando um pouco meu &#8220;scrapbook&#8221; do orkut, quando fui indagado o por quê da frase do título. Desculpem o longo tempo sem postar.</p><p>Em grego a palavra alethéia significa desvelamento, revelação. É composta pela partícula de negação a+lethen. Lethen significa esquecimento. Então vemos que conhecer significa lembrar, não esquecer. Essa é uma noção bem platônica, em Platão a alethéia é reminiscência, o conhecimento é inato, pois a alma já contemplou a fonte do ser e do saber que são as Formas, antes de nascer. O tempo das Formas é cíclico, o aion do Timeu, e daí advém sua eternidade. Daí a famosa definição &#8220;o tempo é a imagem móvel da eternidade&#8221;.</p><p>Sócrates tenta demonstrar que o conhecimento é inato ao fazer um rapaz escravo, sem estudo, demonstrar um teorema matemático, conforme vemos no Mênon. Essa epistemologia platônica será depois contestada pela noção empirista moderna de de Locke e sua tabula rase, onde tudo provém da experiência. O inatismo é uma das características do racionalismo clássico, aparecendo também em Descartes, que lembra que o homem só pode conceber a idéia de um ser infinito porque isso seria como a marca de do pincel de um artista em sua obra.</p><p>Lethos é também o rio da memória, como nos conta o seguinte poema órfico<br /> &#8220;Encontrarás à esquerda da Mansão do Hades, uma fonte,<br /> E a seu lado, um branco cipreste.<br /> Não te aproximas deste manancial.<br /> Mas encontrarás um outro junto à Fonte da Memória,<br /> De onde fluem águas frescas e, diante das quais há guardiões.<br /> Diz-lhes: &#8220;Sou um filho da terra e do céu estrelado;<br /> Mas minha raça é do céu (somente). Vós próprio o sabeis.<br /> E &#8211; ai de mim! &#8211; estou ressequido de sede, e pereço. Dai-me rapidamente<br /> A água fresca que flui da Fonte da Memória&#8221;.<br /> E eles mesmos te darão de beber do manancial sagrado,<br /> E desde então tu dominarás entre os outros heróis&#8221;.</p><p>No Fédon de Platão existe a recorrência desse mito, uma vez que as almas tem de reencarnar tantas vezes quanto for necessário até que possam se purificar e então habitar junto aos deuses. Toda a vida virtuosa de Sócrates tem em vista este fim, o de conseguir passar pela secreta abertura, que aparece também no mito de Er da República, e então evitar o esquecimento e poder prosseguir.</p><p>Platão absorveu a metempsicose, além do orfismo, da escola pitagória, que contava que as almas, depois da morte, iam para o Hades e lá tinham de prosseguir ou reencarnar. O Hades seria um lugar muito complexo e de caminhos tortuosos. A palavra grega para felicidade é eudaimonia . Ter um bom (eu em grego) daimon significava ter um bom guia para quando se chegar no Hades, já que a alma ficaria cega. Por isso a importância do daimon, demônio de Sócrates, que aparece na Apologia de Sócrates. O demônio nesse momento é uma concepção pagã, pré-cristã, não tendo a carga pejorativa posterior. O daimon é apenas um intermediário entre os deuses e os homens.</p><p>Em Castaneda, o mundo foi feito e posto diante de nossos olhos para ser usado. O mundo nos usa nos forçando a usá-lo e não há como escapar dessa ordem. O objetivo da vida é desenvolver a consciência através da vivência. Uma vez que o Absoluto é idêntico a si mesmo, alimentaria-se através do empréstimo da consciência a todo ser vivo, que a enriqueceria através de suas experiências de vida e no final a devolveria ao &#8220;mar escuro da consciência. Os petiscos de consciência seriam desemaranhados pela Águia como uma forma de se distrair e se auto-conhecer &#8211; falando em termos mundanos &#8211; já que a consciência do ser vivo é do mesmo tipo que a auto-consciência do universo.</p><p>O homem é então posto no mundo para esquecer, com a tarefa de lembrar-se. Lembrar-se da sua ligação com o espírito, e do seu outro eu, através da compreensão do regulamento, que funciona como um mapa. Toda a segunda parte da obra é de recapitulação, lembrar-se de experiências vividas e sedimentadas nas nuances segunda atenção, quando a pessoa é ela mesma e ainda assim não é. O presente da Águia é justamente a abertura que permitiria ao ser vivo prosseguir. Os videntes teriam descobertos que o mar escuro, na hora da morte, não faz questão da força de vida, e sim da consciência. Por isso desenvolveram uma estratégia de recapitulação, onde se revive a vida através do &#8220;movimento do ponto de aglutinação&#8221;, e se devolve ao mar as experiência através da vassoura mágica da respiração. O resultado final implicaria numa maneira alternativa de morrer, já que o ser humano poderia se tornar um &#8220;ser inorgânico&#8221;. É importante nessa associação, porém, lembrar que em Castaneda não há de forma alguma &#8220;reencarnação&#8221; e esse autor chega mesmo a negar veementemente essa possibilidade em uma de suas entrevistas.</p><p>Mas, para além do momento crucial da morte, cada mundo percebido gera a impressão de ser total e nos faz esquecer dos outros. Assim, quando se está triste, tudo parece triste, com a raiva também. O ser humano é capaz de estar plenamente consciente de uma cena que presencia em seus mínimos detalhes, mesmo que sua atenção não esteja focada nisso. Portanto, em várias épocas da vida existiria um entorno perceptivo, conceitual que depois seria esquecido para dar lugar a outro. Quando ele retorna, gera confusão e estranhamento, pois na verdade ele sempre esteve lá, armazenado. É a chamada sensação do deja vu ou o flashback. Quando foi mesmo que eu percebi isso?</p><p>De qualquer forma, uma boa pedida é não se deixar envolver totalmente pelo poder envolvente de um momento, se ele estiver levando à desesperança e niilismo.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://blog.cybershark.net/miguel/2004/11/11/eu-no-esqueci/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>3</slash:comments> </item> <item><title>o pa&#237;s em conflito</title><link>http://blog.cybershark.net/miguel/2004/08/24/o-pas-em-conflito/</link> <comments>http://blog.cybershark.net/miguel/2004/08/24/o-pas-em-conflito/#comments</comments> <pubDate>Tue, 24 Aug 2004 06:43:20 +0000</pubDate> <dc:creator>Miguel</dc:creator> <category><![CDATA[ch39]]></category> <category><![CDATA[cine]]></category> <category><![CDATA[fv246]]></category><guid isPermaLink="false">http://blog.cybershark.net/miguel/index.php/2004/08/24/o-pas-em-conflito/</guid> <description><![CDATA[Sabemos ent&#227;o que devemos entender os EUA como um complexo de grupos e pessoas que muitas vezes interage de forma conflitante, e n&#227;o como um bloco &#250;nico e organizado, pois isso &#233; uma eficiente ilus&#227;o gerada pela coer&#234;ncia da propaganda externa americana. Parece haver uma contradi&#231;&#227;o entre o modo como a informa&#231;&#227;o &#233; repassada e [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Sabemos ent&#227;o que devemos entender os EUA como um complexo de grupos e pessoas que muitas vezes interage de forma conflitante, e n&#227;o como um bloco &#250;nico e organizado, pois isso &#233; uma eficiente ilus&#227;o gerada pela coer&#234;ncia da propaganda externa americana. Parece haver uma contradi&#231;&#227;o entre o modo como a informa&#231;&#227;o &#233; repassada e controlada pelos &#243;rg&#227;os de estado e a imprensa, como nos dados sobre 11/09, e o esp&#237;rito vanguardista americano &#8211; o mesmo capaz de criar a Internet &#8211; fundado na liberdade individual e livre iniciativa,  que se orgulha de sua constitui&#231;&#227;o e de conceitos como &#8220;democracia&#8221; e &#8220;liberdade&#8221;. O principal problema dos discursos de Bush &#233; o de continuar usando essa ret&#243;rica, quando ningu&#233;m mais a engole. Assim dita a hipocrisia reinante, e a invas&#227;o do Iraque, foi feita em defesa da &#8220;liberdade&#8221;, contra a &#8220;ditadura iraquiana&#8221; e contra o &#8220;terrorismo e as armas qu&#237;micas&#8221;. A empreitada contra o &#8220;Eixo do Mal&#8221; que Bush diz estar fazendo se usa do prest&#237;gio m&#237;tico das for&#231;as armadas americanas na luta contra a Alemanha nazista durante a segunda guerra. &#201; por isso que, no trailer do document&#225;rio Fahrenheit 9/11, de Michael Moore, Bush aparece cinicamente dando uma declara&#231;&#227;o desse calibre e depois mandando a reportagem se afastar, pois quer dar sua tacada de golfe em paz.</p><p>Os filmes de Hollywood, na medida em que sofrem investimentos milion&#225;rios das grandes produtoras, trazem v&#225;rioa linhas principais de situa&#231;&#245;es e tem&#225;tica, e limita&#231;&#245;es na sua liberdade de express&#227;o quanto ao tratamento da cultura e pol&#237;tica americana. Mas alguns segmentos da classe art&#237;stica mant&#233;m aspectos liberais, quando produ&#231;&#245;es significativas vem a tona e p&#245;e esse tema em pauta. Notamos isso na cerim&#244;nia de entrega do Oscar de 2003, onde todos e tudo fazem parte do espet&#225;culo, j alguns filmes foram aplaudidos e vaiados ao mesmo tempo, como o document&#225;rio vencedor de Moore.</p><p>Quando assisti o filme &#8220;O informante&#8221; com Russel Crowe e Al Pacino fui buscar cr&#237;ticas na internet e algumas o classificavam como irrelevante e chato. Ao meu ver esse filme &#233; muito interessante, apesar da falta de &#8220;exploses&#8221; e &#8220;mortes&#8221;, pois mostra como a sociedade civil pode se articular em v&#225;rias inst&#226;ncias at&#233; furar o &#8220;bloqueio&#8221; imposto de cima para baixo. Nesse filme baseado em fatos reais, Crowe &#233; o ex-executivo da ind&#250;stria tabagista que concede entrevista ao programa 60 minutos da CBN ao descobrir que o alto escal&#227;o da empresa sabe do poder viciante e nocivo de alguns componentes do produto e nada faz em contra isso. O programa n&#227;o vai ao ar no &#250;ltimo minuto, vetado pela dire&#231;&#227;o da editora. Al Pacino faz o papel de Bergman, o produtor do programa que fica decepcionado e tenta convencer Crowe a falar em p&#250;blico, mesmo sob repres&#225;lias. No final, a not&#237;cia acaba rompendo a centraliza&#231;&#227;o e o tom un&#237;ssono da imprensa, sendo publicada pelo The New York Times.</p><p>O filme &#8220;Quest&#227;o de Honra&#8221;, com Tom Cruise, Demi Moore e Jack Nicholson traz a quest&#227;o da hierarquia militar e da justi&#231;a americana, sempre fetichizada em filmes de tribunal. Cruise &#233; um jovem advogado sem futuro brilhante aparente que decide investigar a verdade num caso de assassinato. O &#225;pice do filme ocorre quando ele enfrenta um general de alta patente no tribunal. O discurso de Jack Nicholson privilegia a defesa da na&#231;&#227;o por parte dos &#8220;falc&#245;es&#8221; vigilantes, que lidariam com o &#8220;mundo real&#8221; e ergueriam as barreiras para que os americanos pudessem viver em paz, encastelados e protegidos, mesmo que isso significasse algumas injusti&#231;as e ilus&#245;es. Cruise retruca violentamente em defesa das institui&#231;&#245;es leg&#237;timas, e da delibera&#231;&#227;o juridico-civil, buscando a defesa de um cidad&#227;o comum inocente mesmo em detrimento da suposta &#8220;ordem nacional&#8221;. A vit&#243;ria final de Cruise parece pass&#225;-lo &#224; maioridade, trazendo reconhecimento profissional e livrando-o da imaturidade apresentada ao longo do filme.</p><p>Isso nos lembra da famosa resposta de Kant &#224; pergunta &#8220;O Que &#233; Esclarecimento (Aufklarung)&#8221;? &#201; a sa&#237;da do homem da sua menoridade, da qual ele mesmo &#233; culpado. Sapere Aude!, encoraja o fil&#243;sofo. Ousar saber &#233; o pr&#233;-requisito para o homem se situar no mundo. O que nunca foi usado &#233; sempre d&#233;bil, mas o homem n&#227;o deve desisitir de usar seu entendimento ainda que leve alguns tombos no in&#237;cio. O financista faz as minhas contas, o m&#233;dico se ocupa de minha sa&#250;de, o padre de minha alma. Sou levado a repassar meu direito inalien&#225;vel da liberdade de pensamento para &#8220;especialistas&#8221; &#224; minha volta, sendo assim incapaz de caminhar por passos pr&#243;prios. Da mesma maneira, nos dois filmes, o homem comum &#233; encorajado a defender seus direitos e caminhar por conta pr&#243;pria, n&#227;o transferindo a sua responsabilidade para um c&#237;rculo superior ao seu.</p><p>Habermas, no influxo de seus mestres Adorno e Horkheimer, comenta a cr&#237;tica &#224; raz&#227;o e o aparente fracasso do projeto iluminista de conhecimento. A raz&#227;o instrumental &#233; a raz&#227;o com vista a fins, assim faz-se uso dela para atingir um objetivo e ignora-se as consequ&#234;ncias perif&#233;ricas, como as implica&#231;&#245;es morais. &#201; a raz&#227;o ocidental associada a um sistema econ&#244;mico e religioso que muitas vezes se p&#245;e contr&#225;ria &#224; moral que se pretende universal. Buscando conciliar esses dois aspectos da raz&#227;o pr&#225;tica, Habermas prop&#245;e a raz&#227;o comunicativa como um sistema operante da sociedade. A delibera&#231;&#227;o e discuss&#227;o ilimitada em diversos n&#237;veis, dos mais simples aos mais complexos, seriam capazes de vencer as dificuldades do subjetivo, garantindo universalidade &#8211; e moralidade &#8211; &#224; raz&#227;o, pela sua comunicabilidade e sociabilidade. Habermas reconhece os problemas do modelo de sociedade baseado na raz&#227;o instrumental, mas tamb&#233;m reconhece ganhos emancipat&#243;rios pr&#225;ticos e importantes em seus desdobramentos, como o fim da tortura dos loucos em hospitais psiqui&#225;tricos. Por isso que vai defender a continuidade do projeto da modernidade contra todos os que anunciaram o seu fracasso e substitui&#231;&#227;o pelo p&#243;s-moderno, como os pensadores da tradi&#231;&#227;o nietzscheana, notadamente.</p><p>Ent&#227;o, Habermas busca vencer as dificuldades das separa&#231;&#245;es das esfera de valores por esse modelo dial&#243;gico de raz&#227;o, que garante o debate democr&#225;tico leg&#237;timo, polivalente e plural. Como &#233; o exemplo tamb&#233;m dos dois filmes citados. No entanto, essas pequenas vit&#243;rias somem quando o pa&#237;s passa por cima da ONU e vidas civis inocentes se perdem em guerra, como j&#225; vimos tantas vezes.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://blog.cybershark.net/miguel/2004/08/24/o-pas-em-conflito/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Uma terrível farsa</title><link>http://blog.cybershark.net/miguel/2004/08/23/uma-terrivel-farsa/</link> <comments>http://blog.cybershark.net/miguel/2004/08/23/uma-terrivel-farsa/#comments</comments> <pubDate>Mon, 23 Aug 2004 04:07:45 +0000</pubDate> <dc:creator>Miguel</dc:creator> <category><![CDATA[ch39]]></category><guid isPermaLink="false">http://blog.cybershark.net/miguel/index.php/2004/08/23/uma-terrivel-farsa/</guid> <description><![CDATA[Livros de denúncia à política americana e ao papel imperialista ostensivo que o país vem exercendo alcaçaram grande repercurssão no público e crítica, tornando-se best-sellers, como é o caso de &#8220;Stupid White Man&#8221; de Michael Moore e &#8220;A melhor democracia que o dinheiro pode comprar&#8221;, de Greg Palast. Michael Moore, conhecido dos assinantes de TV [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Livros de denúncia à política americana e ao papel imperialista ostensivo que o país vem exercendo alcaçaram grande repercurssão no público e crítica, tornando-se best-sellers, como é o caso de &#8220;Stupid White Man&#8221; de Michael Moore e &#8220;A melhor democracia que o dinheiro pode comprar&#8221;, de Greg Palast.</p><p>Michael Moore, conhecido dos assinantes de TV a cabo por seu programa semanal, alcançou notoriedade depois do Oscar recebido pelo documentário &#8220;Tiros em Columbine&#8221;. Uma excelente avaliação desse filme pode ser lida <a href="http://consciencia.org/neiduclos/jornalismo/columbine.html">aqui</a>. Moore é um patriota que acredita nos valores fundamentais da instituição da democracia americana, e parece responder a pergunta que levantamos no final do post anterior, com sua própria pergunta &#8220;Cara, cade meu país?&#8221;. Moore questiona os entrevistados, pessoas que servem ao sistema, com uma boa vontade que causa espanto, já que todos parecem estar entregues ao cinismo, duplo sentido e subserviência. O perigo desse questionamento, que lembra o choque da arraia socrática, é o de ser limitado por uma ingenuidade enfraquecedora, já que termina aporeticamente sem apontar uma solução plausível e sem renunciar ao americanismo. A grande façanha de Moore foi denunciar as fraudes eleitorais. É também por isso que o ele se desgastou como um mero crítico do governo Bush, como se Bush fosse o único responsável pelo mal que representa, e perdeu força ao enriquecer e tornar-se o crítico &#8220;oficial&#8221; do sistema, abalizado por multidões aduladoras.</p><p>Greg Palast é um jornalista americano que, devido a censura e repressão em seu país, não encontrou espaço de publicação e por isso mudou-se para o Reino Unido, onde trabalha para o jornal The Guardian. Palast faz reportagens investigativas utilizando-se de técnicas mistas de espionagem e jornalismo para levantar dados secretos e cruzar informações públicas de aparente inexpressão. Ele chama a atenção para o fato que tais reportagens são mais lentas e dispendiosas que as comuns, e o seu entendimento e aceitação mais trabalhoso. O mais relevante deste trabalho é que dá nome aos bois, apontando quem é quem no jogo do capitalismo globalizado e das grandes corporações, além de evidenciar as manobras inescrupulosas que eles fazem. No entanto, Palast erra ao exagerar na ironia e ao perder meticulosidade, dando muitas vezes declarações bombásticas sem explicação e provas detalhadas.</p><p>O melhor livro desse novo gênero, infelizmente, não chegou ao grande público do Brasil, em parte por boicote da mídia e em parte porque foi mal editado. Chama-se &#8220;L&#8217;Effroyable imposture&#8221;, ou &#8220;Uma Terrível farsa&#8221;, e é do francês Thierry Meyssan, editado pela pequena Usina do Livro ( <a href="http://www.usinadolivro.com/livros/thierry.asp"> ver site</a> ). Já tive oportunidade de indicá-lo na web antes, quando meu amigo Tony Monti fez uma entrevista comigo para seu blog (ver links).</p><p>Meyssan é diretor do <a href="http://www.reseauvoltaire.net/">Reseau Voltaire</a> e levanta uma série de contradições e problemas nos dados oficiais sobre os atentados de 11/09 propagados pelos meios de comunicação. Publicado no início de 2002, pude comprovar que suas acusações causavam grande incredulidade de início, mas depois acabaram sendo absorvidas, e mesmo a eficiência da CIA no caso foi questionada pelo senado. Mas o que chamou a atenção na época foi o grande choque que todos levaram, já que o mito de eficiência e invulnerabilidade americana foi abalado, e a mídia revelou seu grau de comprometimento ao omitir e manipular os dados. Foi como se todo o mundo estivesse dependurado do saco dos americanos e caíssem de repente no chão, atônitos. Lembro da voz covarde e trepidante da apresentadora Ana Paula Padrão dizendo &#8220;temo o que pode acontecer ao mundo nas próximas horas&#8221;, o que acabou se revelando a invasão planejada do Afeganistão, e a derrubada de mais um regime por eles fomentado. Sem querer desrespeitar a dor dos americanos com os ataques, vejamos alguns argumentos principais do livro.</p><p>1. O atentado ao Pentágono, divulgado de início, foi aos poucos sumindo do noticiário, com a ênfase aos de Nova York. O pentágono foi prontamente reconstituído, restabelecendo seu funcionamento e simbologia. Meyssan aponta, usando-se de vídeos, fotos e dados, que é impossível que o prédio tenha sido atingido por um avião, principalmente porque não há vestígios de escombros nos registros. Também o tipo de impacto que causaria esse tipo de estrago não pode ter sido feito por um boeing, ainda mais porque o prédio não é muito alto. Depois de apontar essas incongruência, Meyssan levanta a hipótese de alguma bomba inserida secretamente dentro do Pentágono.</p><p><img src="http://blog.cybershark.net/old_miguel/images/1109" alt="left" />2. Seria preciso um piloto muito bem preparado e treinado para improvisar uma rota de vôo após tomar os aviões e atingir milemetricamente as Torres Gêmeas em seu centro. De fato, tal façanha parece impossível, ainda mais duas vezes na sequência. Entrevistando pilotos profissionais, o autor levanta que é difícil achar um ponto qualquer numa megalópole na cabine do avião sem plano pré-programado e radares, ainda mais se tratando de um avião de grande porte e considerando-se a previsível tensão do momento. Além disso, somente uma bomba poderia ter causado a efetiva queda dos prédios e o nível de escombros que isso gerou. A hipótese que o autor levanta é a de uma balisa escondida dentro do prédio que guiasse o piloto automático do avião.</p><p>3. Meyssan brinca com a atribuição de &#8220;inimigos dos EUA&#8221; propagada no imaginário coletivo através de vários métodos. No caso do cinema, temos classicamente os russos durante a guerra-fria, depois terroristas estrangeiros (como em &#8220;Duro de Matar&#8221;), até mesmo os aliens de &#8220;Independence Day&#8221; e &#8220;Homens de Preto&#8221; ou as forças da natureza em filmes-catástrofe. Pois bem, no imaginário ocidental pintou-se a figura do árabe barbudo, que vive sob regimes autoritários, baseado numa religião fundamentalista. Esse árabe classicamente é degolador, usando facas. Os árabes do avião também teriam usado facas para dominar a nave, por mais pífio que isso possa parecer quando se analisa friamente o grau de cálculo que tal atentado precisaria ter para alcançar êxito. Além disso, o metal da faca é muito mais difícil de esconder dos mecanismos de detecção do que uma pistola adaptada.</p><p>4. O grande inimigo dos EUA, o bode expiatório a ser implantado no imaginário é a exótica figura de Osama Bin Laden, com seu aspecto ermitão. Meyssan chama a atenção por este ser um notório ex-agente da CIA, contratado e treinado pelos EUA, e membro de uma família milionária, que vive prosperamente na América participando inclusive de negócios petrolíferos com a família Bush. Além disso, Al Qaeda seria o nome de um software criado pela CIA para monitorar o regime implantado no Afeganistão. O fato de Bin Laden nunca ter sido capturado, mesmo com a intensa varredura feita, serve ainda mais para alimentar um temor a uma &#8220;ameça constante&#8221; e criar um mito.</p><p>5. Meyssan analisa as imensas manipulações que algum grupo empreendeu nas bolsas de valores americanas nos dias anteriores aos ataques, e que prejudicariam as empresas de aviação. Chama a atenção também porque Bush, logo depois de cair o primeiro prédio, teria usado o plural, falando &#8220;aviões&#8221; ao invés de &#8220;avião&#8221;, e isso antes do segundo avião cair. Bush teria dado essa entrevista quando em visita a uma escola infantil &#8211; o álibi perfeito &#8211; e logo depois sumiu durante várias horas em operação secreta para supostamente proteger o presidente. Meyssan, depois de apresentar mais essas falhas com mais provas documentais meticulosas, levanta a hipótese de os atentados terem sido planejados e executados pelos próprios americanos, por um grupo inserido no seio estatal, no aparato de poder dos EUA, com o objetivo de chantagear e alcançar um objetivo político.</p><p>Seria mesmo muito estranho, aponta o autor, que toda a inteligência e vigilância do EUA tivesse sido ludibriada por algum grupo árabe no meio de cavernas remotas do não-lugar do terceiro mundo Afeganistão. Além disso, a mítica da informação nos leva a pensar o EUA como um bloco sólido e coeso, sendo que existem várias pessoas, grupos secretos, grupos econômicos, secretarias e departamentos de estado no país, que podem muito bem entrar em conflito umas com as outras. Lembramos também que os EUA são notoriamente uma sociedade do espetáculo, para usarmos o título de Guy Debord, capaz de entretar as massas e manipular as emoções através de Hollywood, a indústria dos sonhos.</p><p>Thierry Meyssan é francês e mora em Saint Denis, na França. A França, apesar de sua falta de poderio no jogo internacional, tem peitado os EUA em várias questões delicadas, o que causou até mesmo um surto insano anti-frança durante a questão do Iraque. Certa vez entrei num clube de xadrez on-line e eles confabulavam como deviam mudar o nome da abertura &#8220;French Defense&#8221; para &#8220;Freedom Defense&#8221;. Em St Denis, na França, onde a razão dialogante, dialética, participativa e elucidativa em busca da verdade parece ainda existir, ao contrário do pensamento monolítico, monoglota, unilateral e vertical que talvez tenha tomado conta dos EUA.</p><p>Mais informações e a réplica conservadora à essas acusações de Meyssan, com a ridicularização de praxe e a acusação de Conspiracy Theory pode ser pesquisada em uma simples consulta ao portal americano &#8220;Google&#8221;.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://blog.cybershark.net/miguel/2004/08/23/uma-terrivel-farsa/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Apocalypse now</title><link>http://blog.cybershark.net/miguel/2004/08/22/apocalypse-now/</link> <comments>http://blog.cybershark.net/miguel/2004/08/22/apocalypse-now/#comments</comments> <pubDate>Sun, 22 Aug 2004 05:04:06 +0000</pubDate> <dc:creator>Miguel</dc:creator> <category><![CDATA[cine]]></category><guid isPermaLink="false">http://blog.cybershark.net/miguel/index.php/2004/08/22/apocalypse-now/</guid> <description><![CDATA[Muitas vezes ir ao cinema pode ser algo desconfort&#225;vel ao inv&#233;s de relaxante, em certo sentido. O isolamento, a ac&#250;stica, a escurid&#227;o e a tela grande contribuem para que voc&#234; modifique sua aten&#231;&#227;o e se concentre no filme, se envolvendo. &#201; por isso que &#233; irritante a cultura do cinema de shopping, em que muitas [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Muitas vezes ir ao cinema pode ser algo desconfort&#225;vel ao inv&#233;s de relaxante, em certo sentido. O isolamento, a ac&#250;stica, a escurid&#227;o e a tela grande contribuem para que voc&#234; modifique sua aten&#231;&#227;o e se concentre no filme, se envolvendo. &#201; por isso que &#233; irritante a cultura do cinema de shopping, em que muitas vezes n&#227;o h&#225; respeito por esse ritual, com pessoas fazendo barulho ou comendo ruidosamente. Na entrada do cinema do CiC, em Florian&#243;polis, existe um aviso  na porta : &#8220;&#201; expressamente proibido entrar na sala com pipocas, balas, ou qualquer tipo de comida&#8221;. Lembramos com isso do cl&#225;ssico aviso ao p&#243;rtico da Academia de Plat&#227;o: &#8220;Que aqui n&#227;o adentre quem n&#227;o souber matem&#225;tica&#8221;. Dentro da sala, enormes cartazes de filmes cult como &#8220;Flauta M&#225;gica&#8221; e &#8220;Paris Texas&#8221; criam uma atmosfera que convida ao sil&#234;ncio e considera&#231;&#227;o. No entanto, sabemos que o modelo de cinema de shopping vem ganhando, e a qualidade e investimento nas salas &#233; inegavelmente maior. Em S&#227;o Paulo, v&#225;rios shoppings passaram e exibir tamb&#233;m em suas salas filmes do &#8220;circuito de arte&#8221;. Mas ainda pecam por conta de aspectos comerciais, como a inser&#231;&#227;o excessiva de trailers.</p><p>O transe cinematogr&#225;fico, ent&#227;o, faz com que voc&#234; sinta a atua&#231;&#227;o dos atores e as imagens de forma muito mais viva que na TV. Muitas vezes, ao sair da sala, enfrento um choque de realidade, e o espa&#231;o f&#237;sico me parece diferente de quando eu entrei. Raro &#233; o momento em que consigo me identificar com os personagens, muitas vezes deixo que manipulem minhas emo&#231;&#245;es e que a trama me leve, mas com uma certa desconfian&#231;a em rela&#231;&#227;o a isso.</p><p><img src="images/apocalypsenow" align="left">Essa sensa&#231;&#227;o sumiu por completo quando, em Apocalypse Now Redux, de Coppola, entrou em cena o ator Marlon Brando interpretando o general Kurtz. Melhor ainda com sua forma e fronte largas, Brando profere seu discurso lento, pausado, que Martin Sheen tem de ouvir apoteoticamente, depois de todo clima de mist&#233;rio criado pela narrativa. &#201; como se Kurtz j&#225; conhecesse todas as quest&#245;es que inquietassem o personagem de Sheen, e soubesse a resposta para elas. Por isso, a considera&#231;&#227;o de Kurtz &#8211; um tirano &#8211; com o oficial Benjamin &#233; importante, j&#225; que o discurso de Brando acaba com as ilus&#245;es existentes e inaugura uma nova ordem e sentido, dando significa&#231;&#227;o e profundidade &#224; exist&#234;ncia.</p><p>Mas temos de pensar tamb&#233;m se o filme escapa do americanismo ou n&#227;o. Considerado por muitos um libelo contra a insanidade da guerra do Vietn&#227;, que sacrificou uma gera&#231;&#227;o de jovens. Dissemos em outro post  que a vida do ocidental, por algum motivo misterioso, vale mais do que a de outros povos. O que temos? As entranhas da selva, para al&#233;m de todos vest&#237;gio da civiliza&#231;&#227;o &#233; o n&#227;o-lugar do terceiro mundo, dos pa&#237;ses pouco conhecidos e de nomes estranhos, onde os valores ocidentais custam a chegar. L&#225;, um branco &#233; adorado como um deus por uma legi&#227;o de &#8220;quase-selvagens&#8221;, o que nos lembra os casos de domina&#231;&#227;o tecnol&#243;gica e cultural contra os &#237;ndios durante a Conquista.</p><p>Sheen n&#227;o tem muito prest&#237;gio no ex&#233;rcito, um oficial com problemas. Brando tinha uma carreira brilhante no ex&#233;rcito, sendo altamente condecorado. Ele &#233; o bom-mocinho americano que se desviou, e por isso deve ser punido com a morte. Abstraindo da apocalipse final do filme, para al&#233;m de toda insanidade e ironia, podemos descatacar que ele efetivamente &#233; morto, ou seja, o plano da alta c&#250;pula do ex&#233;rcito se cumpriu, e toda as descobertas profundas de Kurtz, a for&#231;a da mitologia e do culto que criou, se perdem. A abertura espiritual se esvai em sangue derramado. Os &#8220;selvagens&#8221; nada fazem contra isso, apenas observam, passivamente, Sheen sair silenciosamente da aldeia no final.</p><p>No caso do romance Cora&#231;&#227;o das Trevas de Joseph Conrad, temos ao inv&#233;s do ex&#233;rcito americano o imp&#233;rio ingl&#234;s, obrigado, para alcan&#231;ar mundialidade, a subjugar os povos em lugares distantes e in&#243;spitos. Mas o filme escapa da armadilha dessa acusa&#231;&#227;o, j&#225; que trata de temas universais, como a fragilidade da normalidade humana em meio &#224; vastid&#227;o do mundo e a grande dificuldade que encontramos para prosseguir quando nos desvencilhamos de nossa vis&#227;o comum de mundo recebida socialmente. E, consequentemente, a aparente impossibilidade de escape, de revolta. Esse  o tema central tambm de &#8220;Laranja Mecnica&#8221; de Kubrick.</p><p>O fato &#233; que, se cofirmarmos a suspeita de patriotismo, o filme representa o que este tem de melhor. Como Jimi Hendrix, que avassala o hino Star Spangled Banner em Woodstock por puro amor a p&#225;tria. Os EUA s&#227;o um pa&#237;s com tradi&#231;&#227;o de abertura fant&#225;stica, que gerou mitos como Hendrix e Dylan, al&#233;m de in&#250;meras vanguardas de comportamento e ativismo pol&#237;tico, essa coisa da Calif&#243;rnia e de Nova York. A quest&#227;o que colocamos &#233; como foi poss&#237;vel que esse esp&#237;rito se perdesse e a direita conservadora texana passasse a dar as cartas de um imperialismo monoglota, unilateral, autorit&#225;rio e repressor?</p><p>Nesse post usei conversas feitas com Nei Ducl&#243;s e Andr&#233; Abath.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://blog.cybershark.net/miguel/2004/08/22/apocalypse-now/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>1</slash:comments> </item> </channel> </rss>
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