I. O meio físico e a sociedade humana
Se considerarmos o meso físico-geográfico do ponto de viria da Física, ele constitui uma superfície de contato entre (…) estados diferentes da matéria: atmosfera ga-sosa e litosfera sólida para as :erras emersas, hidrosfera e litosfera para os runcios marinhos e lacustres, hidrosfera e atmosfera para a superfície dos lençcç de água. As superfícies de contato refletem o equilíbrio das forças que se exercem em cada um dos cor-
pos que separam, e adaptam-se às modificações deste equilíbrio. (…)
A superfície terrestre é a sede da vida, o que lhe confere uma imensa originalidade. As plantas, salvo raras exceções, estão perfeitamente adaptadas ao contato entre a atmosfera e a litosfera. Elas utilizam-no para elaborar matéria orgânica, constituída por hidratos de carbono. Por um lado, absorvem o oxigênio e o gás carbônico da atmosfera e captam a irradiação solar, como fonte de energia. A vida vegetal é a única que uti liza diretamente a energia irradiada pelo Sol. Ela constitui o nível trófico de base da Ecologia, o degrau inferior da pirâmide dos seres vivos. Com eleito, as plantas servem de alimento aos herbívoros, que ocupam, por esse fato, um nível trófico superior. Os herbívoros são eles próprios a presa dos carnívoros, que se situam num terceiro nível trófico etc. (…)
Enquanto ser vivo, o homem participa duma solidariedade biológica com as outras espécies. E por isso que certos autores englobam o homem na natureza e no meio natural. Mas isto é esquecer certas das suas particularidades, adquiridas ao longo da evolução, primeiro muito lentamente, depois cada vez mais rapidamente. As suas atividades intelectuais desenvolveram-se e levaram à elaboração duma cultura cada vez mais vasta e diversificada. Esta cultura comporta elementos técnicos que permitem ao homem modificar, ou mesmo perturbar, a natureza. As condições de existência das outras espécies são desse modo radicalmente modificadas. Algumas proliferam devido a sua ação voluntária (cultivos, animais domésticos), outras sem que ele o deseje (comensais, parasitas). Outras ainda desaparecem, extinguem-se. O impacto do homem sobre o meio comporta não somente a sua ação direta mas, além disso, a de outros seres vivos, dos quais ele modifica as populações e as condições ecológicas.
A cultura do homem apresenta assim aspectos intelectuais, um desenvolvimento do conhecimento que lhe permite conhecer melhor a natureza e que pode guiar a sua ação. Mas esta é muitas vezes determinada por estruturas sócio-econômicas que vão contra o racional. O impacto do homem sobre a natureza insere-se numa rede de rivalidades de interesses, de lutas econômicas e políticas. (…)
TRICART, Jean. A Terra, planeta vivo. Lisboa, Presença/Martins Fontes, 1978. p. 21-2 e p. 145.
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…And the seventh brings return (Chapter 24 – Pink Floyd)
No livro Conceito Rosacrus do Cosmos, de Max Heindel, o autor reitera, em vários momentos, a afirmação que a ciência comprova aquilo que o “clarividente” já sabe de antemão. Cruzando algumas informações do texto com notícias, é possivel traçar paralelos que para justificar essa afirmativa, pelo menos literariamente, com nenhuma pretensão outra que a de pensar livremente para escapar de certas interpretações superficializantes – quando não completamente equivocadas, a bombardear nossas mentes modernas continuamente. No pseudo-debate do cientificismo evolucionista X o criacionismo do Gênesis, por exemplo, não se considera que algumas doutrinas esotéricas e religiosas encarnam a mesma de tese de forma ainda mais radical do que a teoria darwniana formulou, com suas bases em investigações empíricas. O próprio livro em questão, por exemplo, ao tratar os corpos como veículos recebidos, remonta a períodos ancestrais antiquíssimos, almejando alcançar o conceito da criação da vida, com seu propósito, desde que a terra se separou do sol, e mencionando os estágios do que ‘viria a ser o homem’ até mesmo em uma fase semelhante ao mineral, o que contradiz também a literaridade da interpretação que situa a Criação em poucos milhares de anos corridos.
O Capítulo “O vinho como fator de evolução” traz algumas informações a serem sorvidas para indicar parte desse propósito. Na associação de idéias, por exemplo, lembramos das explicações lidas quando nos deparamos com uma simples notícia no campo da genética:
Europeus são programados geneticamente para consumir mais álcool e gordura, diz estudo
Por mais estranha e duvidosa que possa ser a conclusão de tal estudo, em trechos como:
O cientista afirma que “é possível que durante o inverno os indivíduos com o interruptor mais fraco não sobrevivessem tão bem na Europa como os que tinham o dispositivo mais forte e, como resultado, as pessoas no Ocidente teriam evoluído favorecendo uma dieta mais rica em gordura e álcool”.
podemos nos lembrar do tratado de ocultismo, que dá uma ênfase especial ao alimento que o homem recebeu, como parte de seu processo evolutivo, pelos engendradores e planejadores da vida:
Roga-se ao estudante gravar de modo indelével em sua mente que no processo evolutivo e até o homem adquirir consciência própria, nada absolutamente foi deixado ao acaso.
(…)
Os Grandes Guias da humanidade a tudo consideram, inclusive o alimento do homem, pois isto tem muito a ver com o seu desenvolvimento. “Dizei-me o que comes e dir-te-ei quem es não é um ditado absurdo, mas uma grande verdade na Natureza.
O autor explana que, quando ainda mantinha uma ligação permanente com o mundo espiritual invisível, trafegando por ele à vontade, o homem não era capaz de apreciar o verdadeiro valor do mundo terreno e físico, e portanto a ligação foi rompida, e dela o homem esqueceu-se, ao mesmo tempo que o corpo foi tornando-se mais denso e o esqueleto teria sido formado. O misticismo cristão dos rosacruzes se define como uma face do ocultismo no ocidente, tendo nascido na Alemanha, mas após as viagens do alemão Rosenkreuz para o Oriente, onde teria entrado em contato com mestres persas, mantenedores e delegadores de saberes ininterruptos oriundos de tempos remotos. Portanto, o autor absorve essa polarização cultural e geográfica (mas também genética?) ao distinguir os modos de vida entre um e outro, afirmando que o homem que deu origem ao ocidental:
Desperdiçava seu tempo, não aproveitava os recursos do mundo, tal como, pela mesma razão, faz ainda o povo da Índia.
Ao mesmo tempo, traz uma explanação interessante sobre o efeito do álcool, cujo torpor não seria de religação com nenhuma consciência divina ou espiritual, mas antes, de esquecimento. Essa ligação, revivida cotidianamente sob a luz da razão, recai também no comum, perdendo sua força. e afastando o homem do tempo presente e do mundo físico ao redor. Daí o poder do vinho que, entorpecendo a consciência, afasta o homem de questões universais abstratas, e o faz vivenciar, sem amarras, o momento e o corpo.
Como vimos, em cada Época foi acrescentado ou modificado algo na alimentação do homem a fim de obter-se as condições apropriadas para atingir certos propósitos. Assim, um novo produto, o VINHO, foi adicionado à alimentação das épocas anteriores. Isto se fez necessário devido ao efeito entorpecedor dessa bebida sobre o princípio espiritual no homem, visto que nenhuma religião seria capaz de fazer-lhe esquecer sua natureza espiritual e obrigá-lo a pensar que era “um verme do pó”, ou fazer-lhe acreditar que “caminhamos com a mesma força com que pensamos”, embora não se pretendesse que ele pudesse ir tão longe assim.
Dito isso, já temos o bastante para as claras associações que nos propusemos, e podemos passar para mais um trecho interessante, logo abaixo no capítulo:
Quando uma pessoa morre na infância freqüentemente recorda essa vida no próximo renascimento, pois as crianças que morrem antes dos quatorze anos não percorrem a totalidade de um ciclo de vida, o que implicaria na construção da série completa de veículos novos. Simplesmente passam às regiões superiores do Mundo do Desejo e ali esperam um novo renascimento, o que geralmente ocorre entre um e vinte anos depois da morte. Quando renascem trazem consigo os antigos corpos mental e de desejos.
O rosacrucianismo assume integralmente as antigas teorias de metempsicose e transmigação das almas (reencarnação), mas de forma completamente distinta, é bom lembrar, na formatação, do espiritismo kardecista. Tal trecho, portanto, é lido sob esse contexto, mas o que chama atenção, no momento é quando define o período de 14 anos como “a totalidade de um ciclo de vida”.
Os números são completamente importantes nessas correntes esotéricas (figurando de forma central também, por exemplo, na astrologia e tarot, como podemos ler, por exemplo, nos livros de Eliphas Levy). Podemos pensar, mesmo sem recorrer a nenhum cabalismo iniciático, no poder do número 7 dentro do diagrama conceitual dessas doutrinas. Dessa forma, o homem cumpriria ciclos de vida em períodos múltiplos de 7, e a cada 14 anos, um em sua totalidade. Dessa forma, numa criança, até 7 anos a primeira infância, , a primeira série no colégio, aos 14 anos o fim esperado da infância. Da mesma forma, o fim da adolescência aos 21, quando torna-se um jovem adulto, começando com 28 anos o processso para atingir a maturidade. Dos 27 para os 28 anos, portanto, encerraria-se a totalidade do “segundo ciclo de vida” na pessoa. Esses pensamentos em torno do 7 podem ser vistos também na faixa que dá título ao post, que é uma das que compõe o primeiro álbum do Pink Floyd, The Piper of the Gates of Dawn
A movement is accomplished in six stages
And the seventh brings return
The seven is the number of the young light
It forms when darkness is increased by one
na tradução :
Um movimento é realizado em seis estágios
E o sétimo traz o retorno
O Sete é o número da jovem luz
É formado quando a escuridão é acrescida de Um
Nota-se que essa faixa foi composta pelo então bandleader Syd Barrett quando da leitura de um capítulo do I-Ching, o livro oriental de onde extraiu a poesia para o lirismo psicodélico da faixa.
Com a morte da cantora Amy Winehouse (que também traz o vinho no nome, além de ser posta, por vezes junto a Janis, como uma diva do blues com poderosa voz, compatível com as grandes cantoras americanas negras do blues e do jazz ), voltou a tona o antigo assunto da “maldição dos 27″, que causou profundos impactos ao ceifar a vida de personagens mitológicos do rock em 1970, notadamente os 3 J : Jim Morrison, Janis Joplin e Jimi Hendrix, mas também Brian Jones e, mais tarde, Kurt Kobain do Nirvana, como notou Arddhu no Axis Draco.
Seguindo a linha de raciocínio do início, talvez possamos transpor mais essa associação para acalentar os questionamentos sobre assunto: o segundo ciclo de vida de tais astros teria sido demasiado intenso, ao mesmo tempo que de profunda exposição e exploração do seu mundo espiritual (através do uso de drogas psicotrópicas, especialmente, efetivado no mundo denso pelas gravações musicais e performances), e , de certa forma esgotante, consumiriam a chama da vida de tal forma que sua força, já esgotada pelo excesso, não consegue reinventar-se e para superar o quarto 6, dali acrescentando-lhe um e iniciando a jornada para outro ciclo completo…
O Saci-Pererê é um personagem do floclore brasileiro, tanto que, quando seu dia, 31 de Outubro, foi fixado para ser comemorado juntamente com o Halloween estrangeiro, fazendo-se questão de afirmar a sua brasilidade, contraposta a importação de costumes. Sendo o folclore o que brota espontaneamente na terra, nada há de mais cafona do que clonar o folclore alheio, ainda mais com o invólucro da exploração comercial.
A lenda do Saci-Pererê tem origem indígena, confirmaram estudos especialistas. Vejamos:
O Saci-Pererê é uma lenda do folclore brasileiro e originou-se entre as tribos indígenas do sul do Brasil.
O saci possui apenas uma perna, usa um gorro vermelho e sempre está com um cachimbo na boca.
Inicialmente, o saci era retratado como um curumim endiabrado, com duas pernas, cor morena, além de possuir um rabo típico.Com a influência da mitologia africana, o saci se transformou em um negrinho que perdeu a perna lutando capoeira, além disso, herdou o pito, uma espécie de cachimbo e ganhou da mitologia européia, um gorrinho vermelho. ( Brasil Escola )
Origem do personagem
A história do Saci-Pererê surgiu na região que abrange o Sul do Brasil e partes da Argentina, Paraguai e Uruguai, no território dos índios Guaranis, segundo o presidente e fundador da Sosaci, Mário Cândido da Silva Filho. Por não haver relatos escritos sobre o personagem nessa época, não se sabe direito a data certa do seu nascimento, mas sabe-se que ele era um curumim, uma criança indígena, travesso, conhecedor e defensor da floresta. Além disso, ele tinha as duas pernas, diferente do que foi disseminado ao longo dos anos pelo país.
(ABRIL )
Basta. Mais pode ser pesquisado facilmente. Monteiro Lobato pegou como tema de um dos seus mais belos livros justamente o Saci, incoporando o personagem à turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo, e mais tarde fazendo parte do elenco televisivo, inclusive com uma criança fumando seu pito. Os trechos iniciais do romance infantil são apontados assim, por exemplo, por João Carlos Marinho , outro grande escritor juvenil, criador da turma do Bolachão, que protagoniza os clássicos O Gênio do Crime e Sangue Fresco. Marinho foi altamente influenciado pela literatura de Lobato quando criança, assim como outros milhões de leitores.
A descrição e definição do Saci, em Lobato, bem como seu modo de captura, tem paralelos claros com as histórias sobre os aliados contadas especialmente no livro O Segundo Círculo do Poder de Castaneda. No caso do Castaneda, são capturados em uma cabaça, ou boceta, que ficava presa à cintura do feticeiro. No caso do Tio Barnabé de Lobato, em uma garrafinha. Ambos ficam invisíveis aos olhos comuns. Tio Baranabé, um velho negro, é apresentado por Lobato como um mestre em feitiçaria. Já vemos uma mistura ou transferência entre as mitologias tribais: ameríndias e afro-brasileiras.
Abaixo coloco os trechos completos das passagens mais significativas cuja leitura atenta nos ajuda a perceber essa relação entre a lenda popular, apresentada no livro infantil, e o relato de Castaneda sobre suas experiências com os aliados, personagens controversos, mas centrais, que permeiam sua obra inteira, do primeiro ao último livro. Um aliado é um Ser Inorgânico que interage com o feiticeiro.
Dominando a técnica de captura, talvez consiga-se levantar uns cobres, como fez essa mulher neozeolandesa:
Mulher diz ter exorcizado espíritos e vende ‘fantasmas’ na internet
Capítulo III
Medo de saci
Pedrinho, naqueles tempos, costumava passar as férias no sítio de Dona Benta, onde brincava de tudo, como está nas REINAÇÕES de Narizinho e na VIAGEM AO CÉU. Só não está contado o que lhe aconteceu antes da famosa viagem ao céu, quando andava com a cabeça cheia de sacis.
A coisa foi assim. Estava ele na varanda com os olhos no horizonte, postos lá onde aparecia o verde-escuro do Capoeirão dos Tucanos, a mata virgem do sítio. De repente, disse:
— Vovó, eu ando com idéias de ir caçar na mata virgem.
Dona Benta, ali na sua cadeirinha de pernas cotós, entretida no tricô, ergueu os óculos para a testa.
— Não sabe que naquela mata há onças? — disse com ar sério — Certa vez uma onça pintada veio de lá, invadiu aqui o pasto e pegou um lindo novilho da vaca Mocha.
— Mas eu não tenho medo de onça, vovó! — exclamou Pedrinho, fazendo o mais belo ar de desprezo.
Dona Benta riu-se de tanta coragem.
— Olhem o valentão! Quem foi que naquela tarde entrou aqui berrando com uma ferroada de vespa na ponta do nariz?
— Sim, vovó, de vespa eu tenho medo, não nego — mas de onça, não! Se ela vier do meu lado, prego-lhe uma pelotada do meu bodoque novo no olho esquerdo; e outra bem no meio do focinho e outra…
— Chega! — interrompeu Dona Benta, com medo de levar também uma pelotada. — Mas além de onças existem cobras. Dizem que até urutus há naquele mato.
— Cobra? — e Pedrinho fez outra cara de pouco caso ainda maior. — Cobra mata-se com um pedaço de pau, vovó. Cobra!… Como se eu lá tivesse medo de cobra…
Dona Benta começou a admirar a coragem do neto, mas disse ainda:
— E há aranhas caranguejeiras, daquelas peludas, enormes, que devoram até filhotes de passarinho.
O menino cuspiu de lado com desprezo e esfregou o pé em cima.
— Aranha mata-se assim, vovó — e seu pé parecia mesmo estar esmagando várias aranhas caranguejeiras.
— E também há sacis — rematou Dona Benta.
Pedrinho calou-se. Embora nunca o houvesse confessado a ninguém, percebia-se que tinha medo de saci. Nesse ponto não havia nenhuma diferença entre ele, que era da cidade, e os demais meninos nascidos e crescidos na roça. Todos tinham medo de saci, tais eram as histórias correntes a respeito do endiabrado moleque duma perna só.
Desde esse dia ficou Pedrinho com o saci na cabeça. Vivia falando em saci e tomando informações a respeito. Quando consultou tia Nastácia, a resposta da negra foi, depois de fazer o pelo-sinal e dizer “Credo!”.
— Pois saci, Pedrinho, é uma coisa que branco da cidade nega, diz que não há — mas há. Não existe negro velho por aí, desses que nascem e morrem no meio do mato, que não jure ter visto saci. Nunca vi nenhum, mas sei quem viu.
— Quem?
— O tio Barnabé. Fale com ele. Negro sabido está ali! Entende de todas as feitiçarias, e de saci, de mula-sem-cabeça, de lobisomem — de tudo.
Pedrinho ficou pensativo.
Capítulo IV
Tio Barnabé
Tio Barnabé era um negro de mais de oitenta anos que morava no rancho coberto de sapé lá junto da ponte. Pedrinho não disse nada a ninguém e foi vê-lo. Encontrou-o sentado, com o pé direito num toco de pau, à porta de sua casinha, aquentando sol.
—Tio Barnabé eu vivo querendo saber duma coisa e ninguém me conta direito. Sobre o saci. Será mesmo que existe saci?
O negro deu uma risada gostosa e, depois de encher de fumo picado o velho pito, começou a falar:
— Pois, Seu Pedrinho, saci é uma coisa que eu juro que “exéste”. Gente da cidade não acredita — mas “exéste”. A primeira vez que vi saci eu tinha assim a sua idade. Isso foi no tempo da escravidão, na Fazenda do Passo Fundo, que era do defunto Major Teotônio, pai desse Coronel Teodorico, compadre de sua avó, Dona Benta. Foi lá que vi o primeiro saci. Depois disso, quantos e quantos!…
— Conte, então, direitinho, o que é o saci. Bem tia Nastácia me disse que o senhor sabia — que o senhor sabe tudo…
— Como não hei de saber tudo, menino, se já tenho mais de oitenta anos? Quem muito “véve”, muito sabe…
— Então conte. Que é, afinal de contas, o tal saci?
E o negro contou tudo direitinho.
— O saci — começou ele — é um diabinho de uma perna só que anda solto pelo mundo, armando reinações de toda sorte e atropelando quanta criatura existe. Traz sempre na boca um pito aceso, e na cabeça uma carapuça vermelha. A força dele está na carapuça, como a força de Sanção estava nos cabelos. Quem consegue tomar e esconder a carapuça de um saci fica por toda vida senhor de um pequeno escravo.
— Mas que reinações ele faz? — indagou o menino.
— Quantas pode — respondeu o negro. — Azeda o leite, quebra a ponta das agulhas, esconde as tesourinhas de unha, embaraça os novelos de linha, faz o dedal das costureiras cair nos buracos, bota moscas na sopa, queima o feijão que está no fogo, gora os ovos das ninhadas. Quando encontra um prego, vira ele de ponta pra riba para que espete o pé do primeiro que passa. Tudo que numa casa acontece de ruim é sempre arte do saci. Não contente com isso, também atormenta os cachorros, atropela as galinhas e persegue os cavalos no pasto, chupando o sangue deles. O saci não faz maldade grande, mas não há maldade pequenina que não faça.
— E a gente consegue ver o saci?
— Como não? Eu, por exemplo, já vi muitos. Ainda no mês passado andou por aqui um saci mexendo comigo — por sinal que lhe dei uma lição de mestre…
— Como foi? Conte…
Tio Barnabé contou.
— Tinha anoitecido e eu estava sozinho em casa, rezando as minhas rezas. Rezei, e depois me deu vontade de comer pipoca. Fui ali no fumeiro e escolhi uma espiga de milho bem seca. Debulhei o milho numa caçarola, pus a caçarola no fogo e vim para este canto picar fumo pro pito. Nisto ouvi no terreiro um barulhinho que não me engana. “Vai ver que é saci!” — pensei comigo. — E era mesmo. Dali a pouco um saci preto que nem carvão, de carapuça vermelha e pitinho na boca, apareceu na janela. Eu imediatamente me encolhi no meu canto e fingi que estava dormindo. Ele espiou de um lado e de outro e por fim pulou para dentro. Veio vindo, chegou pertinho de mim, escutou os meus roncos e convenceu-se de que eu estava mesmo dormindo. Então começou a reinar na casa. Remexeu tudo, que nem mulher velha, sempre farejando o ar com o seu narizinho muito aceso. Nisto o milho começou a chiar na caçarola e ele dirigiu-se para o fogão. Ficou de cócoras no cabo da caçarola, fazendo micagens. Estava “rezando” o milho, como se diz. E adeus, pipoca! Cada grão que o saci reza não rebenta mais, vira piruá.
Dali saiu pra bulir numa ninhada de ovos que a minha carijó calçuda estava chocando num balaio velho, naquele canto. A pobre galinha quase que morreu de susto. Fez cró, cró, cró… e voou do ninho feito uma louca, mais arrepiada que um ouriço-cacheiro. Resultado: o saci rezou os ovos e todos goraram.
Em seguida pôs-se a procurar o meu pito de barro Achou o pito naquela mesa, pôs uma brasinha dentro e paque, paque, paque… tirou justamente sete fumaçadas. O saci gosta muito do número sete.
Eu disse cá comigo: “Deixe estar, coisa-ruinzinho, que eu ainda apronto uma boa para você. Você há de voltar outro dia e eu te curo.”
E assim aconteceu. Depois de muito virar e mexer, o sacizinho foi-se embora e eu fiquei armando o meu plano para assim que ele voltasse.
— E voltou? — inquiriu Pedrinho.
— Como não? Na sexta-feira seguinte apareceu aqui outra vez às mesmas horas. Espiou da janela, ouviu os meus roncos fingidos, pulou para dentro. Remexeu em tudo, como da primeira vez, e depois foi atrás do pito que eu tinha guardado no mesmo lugar. Pôs o pito na boca e foi ao fogão buscar uma brasinha, que trouxe dançando nas mãos.
— É verdade que ele tem as mãos furadas?
— É, sim. Tem as mãos furadinhas bem no centro da palma; quando carrega brasa, vem brincando com ela, fazendo ela passar de uma para a outra mão pelo furo. Trouxe a brasa, pôs a brasa no pito e sentou-se de pernas cruzadas para fumar com todo o seu sossego.
— Como? — exclamou Pedrinho arregalando os olhos. — Como cruzou as pernas, se saci tem uma perna só?
— Ah, menino, mecê não imagina como saci é arteiro!… Tem uma perna só, sim, mas quando quer cruza as pernas como se tivesse duas! São coisas que só ele entende e ninguém pode explicar. Cruzou as pernas e começou a tirar baforadas, uma atrás da outra, muito satisfeito da vida. Mas de repente, puff! Aquele estouro e aquela fumaceira! … O saci deu tamanho pinote que foi parar lá longe, e saiu ventando pela janela a fora.
Pedrinho fez cara de quem não entende.
— Mas que puff foi esse? — perguntou. — Não estou entendendo…
— Ê que eu tinha socado pólvora no fundo do pito — exclamou tio Barnabé dando uma risada gostosa. A pólvora explodiu justamente quando ele estava tirando a fumaçada número sete, e o saci, com a cara toda sapecada, raspou-se para nunca mais voltar.
— Que pena — exclamou Pedrinho. — Tanta vontade que eu tinha de conhecer esse saci…
— Mas não há só um saci no mundo, menino. Esse lá se foi e nunca mais aparece por estas bandas, mas quantos outros não andam por aí? Ainda na semana passada apareceu um no pasto de Seu Quincas Teixeira e chupou o sangue daquela égua baia que tem uma estrela na testa.
— Como é que ele chupa o sangue dos animais?
— Muito bem. Faz um estribo na crina, isto é, dá uma laçada na crina do animal de modo que possa enfiar o pé e manter-se em posição de ferrar os dentes numa das veias do pescoço e chupar o sangue, como fazem os morcegos. O pobre animal assusta-se e sai pelos campos na disparada, correndo até não poder mais. O único meio de evitar isso é botar bentinho no pescoço dos animais.
— Bentinho é bom?
— É um porrete. Dando com cruz ou bentinho pela frente, saci fede enxofre e foge com botas-de-sete-léguas.
Capítulo V
Pedrinho Pega Um Saci
Tão impressionado ficou Pedrinho com esta conversa que dali por diante só pensava em saci, e até começou a enxergar sacis por toda parte. Dona Benta caçoou, dizendo:
— Cuidado! Já vi contar a história de um menino que de tanto pensar em saci acabou virando saci…
Pedrinho não fez caso da história, e um dia, enchendo-se de coragem, resolveu pegar um. Foi de novo em procura do tio Barnabé.
— Estou resolvido a pegar um saci — disse ele — e quero que o senhor me ensine o melhor meio.
Tio Barnabé riu-se daquela valentia.
— Gosto de ver um menino assim. Bem mostra que é neto do defunto sinhô velho, um homem que não tinha medo nem de mula-sem-cabeça. Há muitos jeitos de pegar saci, mas o melhor é o de peneira. Arranja-se uma peneira de cruzeta…
— Peneira de cruzeta? — interrompeu o menino. — Que é isso?
— Nunca reparou que certas peneiras têm duas taquaras mais largas que se cruzam bem no meio e servem para reforço? Olhe aqui — e tio Barnabé mostrou ao menino uma das tais peneiras que estava ali num canto. Pois bem, arranja-se uma peneira destas e fica-se esperando um dia de vento bem forte, em que haja rodamoinho de poeira e folhas secas. Chegada essa ocasião, vai-se com todo o cuidado para o rodamoinho e zás! — joga-se a peneira em cima. Em todos os rodamoinhos há saci dentro, porque fazer rodamoinhos é justamente a principal ocupação dos sacis neste mundo.
— E depois?
— Depois, se a peneira foi bem atirada e o saci ficou preso, é só dar jeito de botar ele dentro de uma garrafa e arrolhar muito bem. Não esquecer de riscar uma cruzinha na rolha, porque o que prende o saci na garrafa não é a rolha e sim a cruzinha riscada nela. É preciso ainda tomar a carapucinha dele e a esconder bem escondida. Saci sem carapuça é como cachimbo sem fumo. Eu já tive um saci na garrafa, que me prestava muitos bons serviços. Mas veio aqui um dia aquela mulatinha sapeca que mora na casa do compadre Bastião e tanto lidou com a garrafa que a quebrou. Bateu logo um cheirinho de enxofre. O perneta pulou em cima da sua carapuça, que estava ali naquele prego, e “até logo, tio Barnabé!”
Depois de tudo ouvir com a maior atenção, Pedrinho voltou para casa decidido a pegar um saci, custasse o que custasse. Contou o seu projeto a Narizinho e longamente discutiu com ela sobre o que faria no caso de escravizar um daqueles terríveis capetinhas. Depois de arranjar uma boa peneira de cruzeta, ficou à espera do dia de São Bartolomeu, que é o mais ventoso do ano.
Custou a chegar esse dia, tal era sua impaciência, mas afinal chegou, e desde muito cedo Pedrinho foi postar-se no terreiro, de peneira em punho, à espera de rodamoinhos. Não esperou muito tempo. Um forte rodamoinho formou-se no pasto e veio caminhando para o terreiro.
— É hora! — disse Narizinho. — Aquele que vem vindo está com muito jeito de ter saci dentro.
Pedrinho foi se aproximando pé ante pé e, de repente, zás! — jogou a peneira em cima.
— Peguei! — gritou no auge da emoção, debruçando-se com todo o peso do corpo sobre a peneira emborcada. — Peguei o saci!…
A menina correu a ajudá-lo.
— Peguei o saci! — repetiu o menino vitoriosamente. — Corra, Narizinho, e traga-me aquela garrafa escura que deixei na varanda. Depressa!
A menina foi num pé voltou noutro.
— Enfie a garrafa dentro da peneira — ordenou Pedrinho — enquanto eu cerco dos lados. Assim! Isso!…
A menina fez como ele mandava e com muito jeito a garrafa foi introduzida dentro da peneira.
— Agora tire do meu bolso a rolha que tem uma cruz riscada em cima — continuou Pedrinho. — Essa mesma. Dê cá.
Pela informação do tio Barnabé, logo que a gente põe a garrafa dentro da peneira o saci por si mesmo, entra dentro dela, porque, como todos os filhos das trevas, tem a tendência de procurar sempre o lugar mais escuro. De modo que Pedrinho o mais que tinha a fazer era arrolhar a garrafa e erguer a peneira. Assim fez, e foi com o ar de vitória de quem houvesse conquistado um império que levantou no ar a garrafa para examiná-la contra a luz.
Mas a garrafa estava tão vazia como antes. Nem sombra de saci dentro…
A menina deu-lhe uma vaia e Pedrinho, muito desapontado, foi contar o caso ao tio Barnabé.
— E, assim mesmo — explicou o negro velho. — Saci na garrafa é invisível. A gente só sabe que ele está lá dentro quando a gente cai na modorra. Num dia bem quente, quando os olhos da gente começam a piscar de sono, o saci pega a tomar forma, até que fica perfeitamente visível. E desse momento em diante que a gente faz dele o que quer. Guarde a garrafa bem fechada, que garanto que o saci está dentro dela.
Pedrinho voltou para casa orgulhosíssimo com a sua façanha.
— O saci está aqui dentro, sim — disse ele a Narizinho, — Mas está invisível, como me explicou tio Barnabé. Para a gente ver o capetinha é preciso cair na modorra — e repetiu as palavras que o negro lhe dissera.
Quem não gostou da brincadeira foi a pobre tia Nastácia. Como tinha um medo horrível de tudo quanto era mistério, nunca mais chegou nem na porta do quarto de Pedrinho.
— Deus me livre de entrar num quarto onde há garrafa com saci dentro! Credo! Nem sei como Dona Benta consente semelhante coisa em sua casa. Não parece ato de cristão…
Capítulo VI
A modorra
Um dia Pedrinho enganou Dona Benta que ia visitar o tio Barnabé, mas em vez disso tomou o rumo da mata virgem de seus sonhos. Nem o bodoque levou consigo. “Para que bodoque, se levo o saci na garrafa e ele é uma arma melhor do que quanto canhão ou metralhadora existe?”
Que beleza! Pedrinho nunca supôs que uma floresta virgem fosse tão imponente. Aquelas árvores enormes, velhíssimas, barbadas de musgos e orquídeas; aquelas raízes de fora dando idéia de monstruosas sucuris; aqueles cipós torcidos como se fossem redes; aquela galharada, aquela folharada e sobretudo aquele ambiente de umidade e sombra, lhe causaram uma impressão que nunca mais se apagou.
Volta e meia ouvia um rumor estranho, de inambu ou jacu a esvoaçar por entre a folhagem, ou então, de algum galho podre que tombava do alto e vinha num estardalhaço — brah, ah, ah… — esborrachar-se no chão.
E quantas borboletas, das azuis, como cauda de pavão; das cinzentas, como casca de pau; das amarelas, cor de gema de ovo!
E pássaros! Ora um enorme tucano de bico maior que o corpo e lindo papo amarelo. Ora um pica-pau, que interrompia o seu trabalho de bicar a madeira de um tronco para atentar no menino com interrogativa curiosidade.
Até um bando de macaquinhos ele viu, pulando de galho em galho com incrível agilidade e balançando-se, pendurados pela cauda, como pêndulos de relógio.
Pedrinho foi caminhando pela mata adentro até alcançar um ponto onde havia uma água muito límpida, que corria, cheia de barulhinhos mexeriqueiros, por entre velhas pedras verdoengas de limo. Em redor erguiam-se as esbeltas samambaiaçus, esses fetos enormes que parecem palmeiras. E quanta avenca de folhagem mimosa, e quanto musgo pelo chão!
Encantado com a beleza daquele sítio, o menino parou para descansar. Juntou um monte de folhas caídas; fez cama; deitou-se de barriga para o ar e mãos cruzadas na nuca. E ali ficou num enlevo que nunca sentira antes, pensando em mil coisas em que nunca pensara antes, seguindo o vôo silencioso das grandes borboletas azuis e embalando-se com o chiar das cigarras.
De repente notou que o saci dentro da garrafa fazia gestos de quem quer dizer qualquer coisa.
Pedrinho não se admirou daquilo. Era tão natural que o capetinha afinal aparecesse…
— Que aconteceu que está assim inquieto, meu caro saci? — perguntou-lhe em tom brincalhão.
— Aconteceu que este lugar é o mais perigoso da floresta; e que se a noite pilhar você aqui, era uma vez o neto de Dona Benta…
Pedrinho sentiu um arrepio correr-lhe pelo fio da espinha.
— Por quê? — perguntou, olhando ressabiadamente para todos os lados.
— Porque é justamente aqui o coração da mata, ponto de reunião de sacis, lobisomens, bruxas, caiporas e até da mula-sem-cabeça. Sem meu socorro você estará perdido, porque não há mais tempo para voltar para casa, nem você sabe o caminho. Mas o meu auxílio eu só darei sob uma condição…
— Já sei, restituir a carapuça — adiantou Pedrinho.
— Isso mesmo. Restituir-me a carapuça e com ela a liberdade. Aceita?
Pedrinho sentia muito ver-se obrigado a perder um saci que tanto lhe custara a apanhar, mas como não tinha outro remédio senão ceder, jurou que o libertaria se o saci o livrasse dos perigos da noite e pela manhã o reconduzisse, são e salvo, à casa de Dona Benta.
— Muito bem — disse o saci. — Mas nesse caso você tem de abrir a garrafa e me soltar. Terei assim mais facilidade de ação. Você jurou que me liberta; eu dou minha palavra de saci que mesmo solto o ajudarei em tudo. Depois o acompanharei até o sítio para receber minha carapuça e despedir-me de todos.
Pedrinho soltou o saci e durante o resto da aventura tratou-o mais como um velho camarada do que como um escravo. Assim que se viu fora da garrafa, o capeta pôs-se a dançar e a fazer cabriolas com tanto prazer que o menino ficou arrependido de por tantos dias ter conservado presa uma criaturinha tão irrequieta e amiga da liberdade.
— Vou revelar os segredos da mata virgem — disse-lhe o saci — e talvez seja você a primeira criatura humana a conhecer tais segredos. Para começar, temos de ir ao “sacizeiro” onde nasci, onde nasceram meus irmãos e onde todos os sacis se escondem durante o dia, enquanto o sol está fora. O sol é o nosso maior inimigo. Seus raios espantam-nos para as tocas escuras. Somos os eternos namorados da lua. É por isso que os poetas nos chamam de filhos das trevas. Sabe o que é trevas?
— Sei. O escuro, a escuridão.
_ Pois é isso. Somos filhos das trevas, como os beija-flores, os sabiás e as abelhas são filhos do Sol.
Assim falando, o saci levou o menino para uma cerrada moita de taquaraçus existente num dos pontos mais espessos da floresta.
Pedrinho assombrou-se diante das dimensões daqueles gomos quase da sua altura e grossos que nem uma laranja de umbigo.
(LOBATO, Monteiro. O Saci.)
— Ele me deu Mescalito, um dia em que estávamos no deserto. Mas como eu era uma mulher vazia, Mescalito recusou-me. Tive um encontro horrível com ele. Foi aí que o Nagual viu que, em vez disso. tinha de me fazer conhecer o vento. Isso aconteceu, claro, depois que ele teve um presságio. Naquele dia ele tinha dito e repetido que, embora fosse feiticeiro, e tivesse aprendido a ver, se não tivesse um presságio não tinha meio de saber que caminho tomar. Havia dias que estava esperando uma certa indicação a meu respeito. Mas o poder não queria dá-la. Em desespero de causa, imagino, apresentou-me ao seu guaje e vi Mescalito.Eu a interrompi. A palavra que usou, guaje, cabaça, me deixava confuso. Examinada no contexto do que me estava contando, a palavra não tinha sentido, Achei que talvez estivesse falando por metáforas, ou que cabaça fosse um eufemismo.
— O que é um guaje, Dona Soledad?
O seu olhar denotou espanto. Ela pensou antes de responder.
— Mescalito é o guaje do Nagual — disse por fim.
Essa resposta me deixou ainda mais confuso. Eu estava vexado com o fato de que ela parecia sinceramente interessada em fazer sentido para mim. Quando pedi que explicasse mais detalhadamente, insistiu que eu já sabia de tudo. Era esse o estratagema predileto de Dom Juan para esquivar-se às minhas indagações. Eu lhe disse que Dom Juan me informara que Mescalito era uma divindade, ou uma força contida nos botões de peiote. Dizer que Mescalito era a sua cabaça não fazia sentido nenhum.
— O Nagual pode fazer você conhecer qualquer coisa por meio da sua cabaça — disse ela, depois de uma pausa. — É essa a chave para o poder dele. Qualquer pessoa pode dar-lhe peiote, mas somente um feiticeiro, por meio de sua cabaça, pode fazer você conhecer Mescalito.
— Como é que as meninas conseguiam fazer parar as coisas que agiam sobre ela?
— Bem, em primeiro lugar, o que agia sobre elas era a cabaça que o Nagual levava presa ao cinto.
— E o que há na cabaça?
— Os aliados que o Nagual leva consigo. Ele disse que o aliado passa por um funil na cabaça dele. Não me pergunte mais porque não sei mais nada sobre o aliado. Só o que lhe posso dizer é que o Nagual comanda dois aliados e os faz ajudá-lo. No caso das minhas meninas o aliado recuava, quando estavam prontas para se modificarem. Para elas, claro, era um caso de mudar ou morrer. Mas é esse o caso com todos nós, de uma maneira ou de outra. E a Gorda mudou mais do que qualquer outra pessoa. Ela era vazia, aliás, mais vazia do que eu, mas ela trabalhou seu espírito até tornar-se o poder em si, Não gosto dela. Tenho medo dela. Ela me conhece. Entra dentro de mim e meus sentimentos e isso me aborrece. Mas ninguém lhe pode fazer nada porque ela nunca está desprevenida. Ela não me odeia, mas acha que sou uma mulher má. Pode ser que tenha razão. Acho que ela me conhece bem demais, e eu não sou tão impecável quanto gostaria de ser; mas o Nagual me disse para não me preocupar com os meus sentimentos para com ela. Ela é como Elígio; o mundo não a toca mais
— O que é que você sabe sobre os aliados, Gorda? — perguntei.
— Só o que o Nagual me ensinou — respondeu, — Ele disse que os aliados eram forças que um feiticeiro aprende a controlar. Ele tinha dois dentro da cabaça dele e Genaro também.
— Como é que os guardavam dentro das cabaças?
— Isso ninguém sabe. O Nagual só sabia que é preciso encontrar uma cabaça pequena, perfeita, com um gargalo, antes que se possa domar os aliados.
— Onde se poder encontrar esse tipo de cabaça?
— Em qualquer lugar. O Nagual deixou dito comigo, caso sobrevivêssemos ao ataque dos aliados, que devíamos começar a procurar a cabaça perfeita, que deve ser do tamanho do polegar da mão esquerda. Era esse o tamanho da cabaça do Nagual.
— Você já viu a cabaça dele?
— Não, nunca. O Nagual disse que uma cabaça desse tipo não existe no mundo dos homens. Parece um embrulhinho que a gente pode ver dependurado dos cintos deles. Mas se você olhar para aquilo de propósito, não verá nada.
— A cabaça, depois de encontrada, tem de ser tratada com muito cuidado. Em geral os feiticeiros encontram cabaças assim nas trepadeiras no mato. Eles as apanham e secam e depois as cavam. E depois as alisam e lustram. Depois que o feiticeiro tiver a sua cabaça, tem de oferecê-la aos aliados e induzi-los a morarem lá. Se os aliados consentirem, a cabaça desaparece do mundo dos homens e os aliados se tornam um auxílio do feiticeiro. O Nagual e Genaro podiam fazer seus aliados fazerem tudo que precisava ser feito. Coisas que eles mesmo não conseguiam fazer. Tais como mandar o vento perseguir-me ou mandar aquele pinto correr dentro da blusa de Lídia.
(CASTANEDA, Carlos. O Segundo Círculo do Poder).
As pessoas que seguem a cartilha do catecismo sem tentar problematizar a origem, a história, as contradições das questões, colocando tudo numa área insossa da fé e do sagrado que não se discute costumam se irritar quando são levantadas questões acerca do dogma da Imaculada Conceição de Jesus por Maria.
Esse dogma é um tanto tardio, embora, é claro, se possa argumentar que ele já existia de forma marginal desde o cristianismo primitivo. Porém foi oficializado somente no século XVIII pelo Papa Pio IX em sua bula Ineffabilis Deus.
Dos Evangelhos da Bíblia, o mais antigo é também o mais conciso. O Evangelho de Marcos traz o núcleo fundamental da história. Jesus, com cerca de 30 anos, foi batizado por João Batista, tendo o Espírito descido e ele começado a pregar. O de Mateus e de Lucas trazem mais ou menos os mesmos fatos, com adições e subtrações. Somente o de João traz revelações novas sobre a infância de Jesus, seu nascimento e aprendizado, citando “o discípulo que Jesus amava” recostado a seu peito, provavelmente o próprio João, de confidências mais íntimas e inacessíveis aos outros apóstolos (!?).
Os Evangelhos falam abertamente dos irmãos de Jesus e citam a surpresa de seus conhecidos quando começou a falar as “coisas estranhas”, pregando o “Reino dos céus”. Me parece uma inversão querer abordar isso de forma relativa, ou levantar obscuras evidências filológicas para dizer que eram na verdade primos. Está bem claro nas próprias histórias, mas tudo é feito para tapar o buraco e garantir a virgindade de Maria. O dogma da imaculada conceição vem a tona por causa da consequência embaraçante do parto: mesmo tendo sido fecundada virgem pelo Espírito Santo, a santíssima teria perdido a virgindade ao dar a luz, então tascaram ali uma imaculada conceição.
A questão é uma má interpretação. Sabemos de forma geral que o catolicismo para se estabelecer precisou do sincretismo com várias tradições filosóficas e religiosas já existentes. Isso está na própria história da patrística. Mais recentemente, chega ao grande público produções midiáticas, como a do Código da Vince ou o documentário Zeitgeist, que citam de forma rápida as questões dos concílios, o estabelecimento do corpo dogmático da nova religião etc. Isso causa estranheza às pessoas que mal conhecem a religião para além das palavras que lhe foram passadas de forma geral, sem nenhum contato com os milênios de erudição, debates e problemáticas que fazem parte do cristianismo. O balanço é positivo: se não são a palavra final esclarecedora sobre o assunto, também não merecem ser tratadas de forma desqualificadas como “teorias da conspiração” sem fundamento, já que isso fecha o debate e leva à pressa, à superficialidade.
O problema é que tanto os crentes com essa postura como essa nova forma de ateísmo que surge hoje entre os jovens cometem erros recorrentes e graves. O surgimento do ateísmo se deu a partir de um imenso esforço teórico sintonizado com os tempos modernos, e foi preciso um monumental trabalho de reflexão para desconstruir as bases sólidas da civilização ocidental. As pessoas estão pegando toscamente o que acham ser o resultado disso (deus não existe) para carimbar qualquer menção ao assunto como se fosse uma intromissão do pastor fanático ou do padre opressor em suas vidas. É preciso entender, porém, que a coisa é muito mais complicada do que pensamos, sempre. E o pior é que põe no lugar disso um novo dogmatismo deslumbrado cientificista que fica, aliás, a margem da verdadeira ciência, que jamais cumpriu esse papel da forma que está sendo feita, de forma marketeira, por “autores” picaretas, como, por exemplo Richard Dawkins.
Ainda sobre o nascimento de Jesus, é pouco conhecida a hipótese do Jesus, Filho de Pantera, Yeshu ben Pantera, baseada em fontes arqueológicas e aventados por judeus, que acusa a Maria de ter sido tomada por um soldado romano, de nome Pantera, como era comum aos homens em campanhas se verem atraídos pelas belas donzelas judias. Esse homem teria sumido no mundo e o retrato depois de Jesus é um tanto esculachado, como um profanador das milenares tradições do povo judeu.
O sincretismo que mencionamos teria, portanto, sintonizado Maria, a mãe de Jesus, com outros mitos do eterno – feminino, da mãe natureza e da virgem, como a deusa Ártemis dos gregos. Mas a defesa de um parto virginal carnal e de uma virgindade carnal literal é uma subserviência desses que defendem a fé cega à própria materialidade do mundo.
O problema de todo pecado original e o da caverna de Platão é o da prisão do homem, o seu calabouço perceptivo e o de ser manipulado por forças superiores, julgando ingenuamente ter alguma autonomia. O Evangelho de Jesus justamente traz a boa nova otimista de que as coisas ocorrem para o bem, existe uma saída, uma religação com o mundo divino, com o reino dos céus. Evangelho quer dizer “anjo bom”, ou seja, que as forças estranhas e além da compresão que regem o homem não estão somente interessadas na sua opressão. No entanto ele diz “meu reino não é desse mundo”. E assim deve ser entendida a mensagem: nessa forma mítica, não material, como a única viagem que conta: a viagem da consciência. O entendimento do conceito fenomenológico e o legado do idealismo podem ajudar a entender o que está em jogo: O que Deus observa é a alma de cada um, o julgamento é das reações da mente segundo os estímulos do mundo externo, e não o mundo cotidiano em si. Quando se sonha estamos vivos mas “sós”, sem o mundo, assim como quando se morre e deve-se prestar as contas do relato da consciência. Ora, os místicos sempre afirmaram que o mundo é uma espécie de mentira, ou uma prisão: uma arena de batalha onde o homem é cuspido dos céus para o desenvolvimento da consciência. Por isso não se deve entender os fatos trágicos como castigos dos deuses, e nem a boa fortuna como recompensa.
Essa é a chave também para começar a leitura do Apocalipse, não o fim de um mundo geral supersciente, já que esse sequer existe: o mundo é um retrato da sua consciência, e o que julgamos ser a totalidade é apenas uma Idéia, uma representação. O fim do mundo apocaliptico deve ser entendido a partir, justamente, da viagem da consciência. O mundo acaba a todo instante para cada um e a todo momento, no decorrer de suas viagens.
Da mesma maneira, como falei antes, os episódios como a queda de Lúcifer também não devem ser entendidos pensando uma linha do tempo justaposta, evolutiva, mas sim como posicionamentos válidos dentro da “árvore da vida”, pois o tempo religioso é diferente do cronológico. Dessa forma, Lúcifer continua sendo um anjo num dos extremos dessa geodésica (o guardião do céu, que desafia o homem a partir de suas fraquezas para que se torne digno de sua missão) e o “diabo” em outra (quando já a queda e torna-se deus de um mundo sem essência, uma prisão, onde só a repetição, que são os pecados, os desvios da vontade divina, e não renovação infinita e companhia de Deus). O perdão infinito de Deus existe para expiar a culpa, que prende a consciência nas cadeias de repetição e impede o prosseguimento da viagem. Deus envolveria todas as possibilidades infinitas ocorridas no mundo, o verso e o averso, e a magnitude do universo não pode ter como parâmetro as parcas possibilidades de entendimento das criaturas.
Dessa forma, quando o pássaro do Espírito desce nas águas batismais e diz “esse é o meu filho amado, ouvi-o sempre”, não é preciso que tenha havido uma fecundação literal de Maria e uma não-paternidade de José para que a mensagem se cumpra. Jesus poderia ter sido o filho de deus no mito, ou seja, deixado de ser o Jesus carpinteiro, abandonado sua vida pessoal, para ser envolvido pelo Espírito e se tornar o Cristo. A esse respeito dizem os rosa-cruzes que existe o Espírito-Cristo, que se adonou de Jesus para livrar o homem do Espírito de Tribo, ou seja, voltá-los a unir todos numa unidade e entender que são fraternos. A revolução da Igreja foi justamente a de afirmar “somos um em Cristo”, e unir os diferentes povos (Ide..e espalhai O Evangelho) e as diferentes castas sociais, do escravo ao senhor. Livrar o homem desse microcosmo e da preocupação apenas com o próprio sangue e com o círculo íntimo egoista é a causa da polêmica e revolucionária mensagem em que Cristo diz que vai causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe, etc
No Presente da Águia de Castaneda existem alguns trechos que explicam como o homem comum pode ser envolvido pelo mito e tornar-se algo diferente do que era, dentro do sistema simbólico daquele ritual, Carlos deixou de ser Carlos para ser o “nagual” do grupo.
Ser envolvido pelo regulamento pode ser descrito como viver um mito. Dom Juan vivia um mito, mito que o dominou e o fez o nagual.
(…)
Falou que no início tal regulamento lhe era restrito ao reinado das palavras. Não podia imaginar como pudesse sair do domínio do mundo real e de seus meios. Sob a direção efetiva de seu benfeitor, contudo, e depois de uma provação traumatizante finalmente conse¬guiu captar a verdadeira natureza do regulamento, e aceitá-lo totalmente como um conjunto de diretivas pragmáticas e não um mito. Daí em diante, não teve problema algum em lidar com a realidade da terceira atenção. O único obstáculo no seu caminho surgiu do fato de ele estar convencido de que o regulamento era um mapa, e apenas um mapa que ele acreditava ter de procurar para encontrar uma abertura literal no mundo, uma passagem. De alguma forma ele tinha empacado sem necessidade no primeiro nível do desenvolvimento de um guerreiro
Junto à entrevista de Castaneda com as fotos, a revista publicou também o seguinte ensaio na mesma edição.
Vejam também esta resenha sobre o “Segundo Círculo do Poder” publicada em 1978.
As últimas lições do eterno aluno
Como o antropólogo Carlos Castaneda perdeu a sabedoria nas montanhas do México e aprendeu a sonhar acordado
Primeiro, ele enfiou na mochila os seus cadernos de aula. Atento, IH preocupado, aplicado, o bom aluno de antropologia viajou para o México c encheu muitas folhas de anotações sobre as plantas medicinais usadas pelos índios da região. Sonhava com os aplausos admirados de seus professores e, quem sabe, uma cadeira de titular que faria sua fortuna acadêmica até o fim da vida. Mas no meio do raminho do recém-formado Carlos Castaneda havia muitos espinhos — e também um feiticeiro de ar superior, idade incerta, fala misteriosa e sorriso debochado. Foi um encontro fatal: Juan Matus, o bruxo da tribo iaqui, seduziu seu discípulo para sempre. Transformou-se também no símbolo mais poderoso para uma legião de jovens ansiosos em mergulhar nos abismos obscuros da mente, da sabedoria extra-sensorial e da imaginação.
Durante muitos anos o velho e o jovem conversaram sobre a vida, as drogas, o poder, o medo e a morte. As anotações, rabiscadas medrosamente no meio da noite mexicana, ante a ironia sem fim do mestre, correram o mundo na forma de dois livros intrigantes e sensíveis, c um terceiro, desesperadamente “filosófico”, onde uma autoconfissão de fracasso reprovava o aluno na mais dramática e essencial das provas: a de se tornar um “homem de conhecimento”. As derradeiras correntes que atavam Castaneda aos pilares da “razão” rompem-se, agora, em “Porta para o Infinito” . São catorze “contos do poder” (como diz o título original em inglês) onde o cientista social se pulveriza nas angústias de sua própria lógica acadêmica e um escritor libertado brota numa prosa de transparente beleza, é como se o eterno aprendiz de feiticeiro tivesse finalmente saltado naquele abismo sem nome para recolher em seu fundo o indescritível dom da palavra.
São quase mil páginas, publicadas nos Estados Unidos entre 1968 e 1974. Ao longo desse tempo e dessa volumosa produção muita tinta correu no mundo. Don Juan, duvidavam alguns, jamais foi visto por outra pessoa que não Castaneda. Este, por sua vez, apagava-se cada vez mais como pessoa física, exatamente como tentava apagar os desenhos que reproduziam seus traços. Escondia-se atrás de seus estudos, bania a imprensa, mentia a ponto de não se poder saber com certeza se era brasileiro (como diz), peruano (como a imprensa diz) ou americano (sua nacionalidade universitária e literária). Tratava-se de manobras, segundo ele explica (veja a entrevista na página 88), que lhe permitiriam acentuar os principais traços de seu aprendizado sobrenatural: um desprezo pelo “senso comum”, um apego obsessivo em praticar atos “impecáveis”, uma indiferença diante do juízo alheio. Algo, cm suma. tão fantasmagórico como a possibilidade de um homem inventar a própria biografia.
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as é algo parecido a esta proeza que Castaneda tenta nos seus três primeiros livros. Talvez condenado a ser um eterno aluno, ele se deixa guiar por Don Juan a experiências que sua pele sente mas sua mente vomita. Um cachorro transparente mostra suas veias cheias de sangue, como vitrinas. Um inseto pegajoso, de asas peludas e boca desdentada, roça nele suas antenas repugnantes. O aluno “transforma-se” cm corvo, e sente falta de ar pela ausência de bico. Talvez ainda mais ameaçadores que estas aberrações “externas” são os fantasmas autoritários desenterrados de dentro da memória do aprendiz. Um deles aparece na forma de barulho dos chinelos e da voz da mãe: “Eu percebi então que nunca a amara”, chora ele.
Na sua luta para “ver” os “seres luminosos” e sustentar em seus frágeis ombros de cientista todo o mistério de um outro mundo. Castaneda tropeça e cai o tempo todo em crises de pavor, solidão e autocompaixão. O cientista demora a perceber que o ritual de sua iniciação se processa num palco privilegiado: as montanhas e os vales do México central, onde o sol torna o horizonte cor de laranja e a paisagem, a despeito de sua beleza, é .sempre triste e silenciosa. Estas montanhas escondem, nos seus desvãos, o que restou de uma cultura indígena que remonta a 3 000 anos e que quatro séculos de repressão religiosa reduziram aos mais desprezíveis rótulos de obscurantismo, ê dessas sombras que se nutrem os ensinamentos de Don Juan. Ele é um duende tão imponderável quanto sua lógica estranha, porém maciça. Teria 70 anos quando Castaneda o conheceu (estaria agora com 85), mas um de seus amigos, o feiticeiro Don Genaro, capaz de voar e saltar para uma montanha a 15 quilômetros de distância corrige tal idade: “Ele deve ter uns 300 anos”, é Don Genaro que dá a Castaneda. com seu pulo quilométrico, talvez a lição mais preciosa do aprendizado dos três primeiros livros: quando o inconformado antropólogo decide ser “impossível” o exagero atlético do bruxo, a visão cessa. A fé, ou a “vontade” que é a luz do guerreiro, fora abandonada. A ironia suprema de Don Juan sublinha esta e outras indecisões racionais de Castaneda: “Você não tem tempo e, no entanto, está cercado pela eternidade. Que paradoxo para a sua razão!”
A eternidade, diante da qual tudo cessa, c a morte, pela qual se deve ter uma soberba indiferença, banham os contos de “Porta para o Infinito” e iluminam o quase feiticeiro Castaneda. Ele aprende a “sair do corpo” (e se vê a si mesmo) e a sonhar um sósia; aprende, porém, que talvez ele não seja mais que o sonho de outra pessoa. Esses “labirintos circulares” tão caros a um outro mestre literário latino-americano, o argentino Jorge Luis Borges, plantam-se vertiginosamente na prosa de Castaneda, com sua torrente de visões em duplo (sombras que se metamorfoseiam em animais, ruídos que se transmutam em massas disformes e opacas), e as interrogações sobre os dois conceitos finais que, também em dupla, regem a vida: o tonal, a pessoa social, o guardião compreensivo, e o nagual (pronuncia-se naual), mortal e inalcançável pela descrição de palavras. No cenário surpreendente de um México urbano, Don Juan aparece de terno, pela primeira vez. comenta com elegância o cardápio de um restaurante e mais uma vez ensina ao espantado — ainda! — Castaneda que somente os seus preconceitos o impediam de imaginar um índio cm vestes ‘civilizadas”.
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mestre, apesar de tudo isso, acaba por ter orgulho do aluno. Deixa-o à beira de um despenhadeiro, num dia de crepúsculo, na fresta entre dois mundos: lá está o abismo e. depois deste, o desconhecido. As últimas páginas, onde os dois se despedem para sempre, equilibram-se admiravelmente entre o choro contido da despedida e o latido de um cão que ecoa pela montanha embaralhado na voz de um homem: ambos são escravos e companheiros de toda vida, de toda tristeza, de todo tédio que o dia-a-dia e a realidade ordinária espicaçam. “Nós agora somos poeira da estrada”, diz Don Juan afastando-se com Don Genaro. “Talvez um dia torne a entrar nos seus olhos.” No limite do desconhecido, sentindo-se o único homem do mundo, o ex-discípulo rende-se, redimido e purificado, ante a vertigem da descoberta dos poderes sem limite da imaginação. O cientista já aprendera que um astronauta pode ir à Lua. Mas o novo feiticeiro sabe agora que pode ir à Lua quando quiser, só que jamais trará de lá um saco de pedras.
(Fonte:: Revista Veja edição 356, 2 de julho de 1975)
Para a entrevista de Castaneda à Revista Veja que transcrevi e postei na Internet há mais de 10 anos (considerando que era um material de difícil acesso na época), escrevi a seguinte nota:
Um pouco depois da maliciosa publicação da matéria da revista Time – que desmentia Castaneda num momento em que este tornava-se notório e atingia o centro dos debates afirmando, baseada em obscuros documentos levantados, ser o autor peruano de Cajamarca, e não brasileiro, Castaneda concedeu esta entrevista à Revista Veja. A condição sine qua non para isso foi de que a entrevista deveria sair primeiro no Brasil. O rapaz que fez o free-lancer para a Veja, uma espécie de TIME brasileira, pôde então atestar que Castaneda falava perfeitamente português, com sotaque regional. Castaneda forneceu à revista negativos (fotos) que fez durante suas viagens ao México – provas documentais de seu trabalho antropológico e pesquisa de campo. Infelizmente a Veja optou por não polemizar, e colocou no sub-título não que Castaneda era brasileiro, mas sim que era um “homem só e sem pátria”. Após esta entrevista, Castaneda ficou cerca de 10 anos sem falar com a imprensa.
A entrevista permanece importante, já que é pouco conhecida dos estudiosos estrangeiros, que parecem não considerar a existência dela no desenrolar do debate acerca da naturalidade do escritor (brasileiro ou peruano).
Graças a disponibilidade do Acervo Digital da Revista Veja, consegui novo acesso às fotos que mencionei na nota, na época não pude não postá-las por ter lido a entrevisa num xerox de má-qualidade, feito na biblioteca da ECA-USP. É de se considerar também que presumivelmente a Revista Veja selecionou alguns dos negativos e não publicou todos. Os restantes podem, com sorte, ainda estar nos arquivos da Abril ou terem se extraviado através do tempo.
(fonte Revista Veja edição 356, 2 de julho de 1975)
O Olho de Hórus é uma imagem popular relacionada ao Egito Antigo, um símbolo de proteção por uma divindade, o deus falconeiforme Hórus, cujo olho tudo abrange, olhando o panorama fixa a atenção aguçada e vê, igualmente, qualquer detalhe.
Lembramos que os olhos, como órgãos externos, tem grande importância na religião, mesmo na semítica, em que há também há o símbolo do olho de Deus em torno da pirâmide. O escritor Castaneda enfatiza que a principal ligação dos olhos não é com o mundo sensível, e sim com o “intento”, e chega mesmo a descrever alguns exercícios de mudança de foco e atonalidade afim de suscitar uma quebra na atenção cotidiana, ou estados específicos de atenção mais propícios para conseguir “ver”.

O símbolo do Olho de Hórus é usado pelas tradições mágicas modernas, pela maçonaria, e mesmo pelos médicos, tendo sido usado com seu poder evocativo de cura e amuleto, como é explicado abaixo:
Mais pode ser lido aqui, aqui, aqui e aqui
Mas se você se deparar com o “documentário” Olho de Hórus do picareta Fernando Malkun, por favor evite, já que é demasiado desonesto intelectualmente.
Abaixo um trecho do Segundo Círculo do Poder de Carlos Castaneda, que pode, talvez, oferecer nova luz para a interpretação da mitologia em torno deste símbolo.
— O que mais você sentiu, Gorda, quando perdeu a sua forma, além de não ter bastante energia?
— O Nagual me disse que um guerreiro sem forma começa a ver um olho. Eu via um olho na minha frente sempre que fechava os olhos. A coisa chegou a um ponto que eu não podia mais descansar: o olho me acompanhava por onde eu fosse. Quase enlouqueci. Por fim imagino que me tenha acostumado. Agora eu nem noto, pois tornou-se parte de mim.
— O guerreiro sem forma usa aquele olho para começar a sonhar. Se você não tiver uma forma, não tem de adormecer para sonhar. O olho na sua frente o puxa toda vez que você quiser ir.
— Onde exatamente fica esse olho, Gorda?
Ela fechou os olhos e mexeu a mão de um lado para outro, bem em frente do rosto, abrangendo o espaço do rosto dela,
— Às vezes o olho é muito pequeno e às vezes é enorme — continuou ela. — Quando é pequeno, o seu sonhar é preciso. Quando é grande o seu sonhar é como voar sobre as montanhas e não ver grande coisa. Ainda não sonhei muito, mas o Nagual me disse que aquele olho é o meu trunfo. Um dia, quando eu realmente me tornar sem forma, não verei mais esse olho; o olho se tornará igual a mim, nada, e, no entanto estará ali, como os aliados. O Nagual disse que tudo tem de ser peneirado através de nossa forma humana, Quando não tivermos forma, então nada tem forma e no entanto tudo está presente. Eu não podia compreender o que ele queria dizer com isso, mas hoje vejo que ele tinha toda a razão. Os aliados são apenas uma presença e o olho também será. Mas a essa altura o olho é tudo para mim. Aliás, tendo esse olho, eu não devia precisar de mais nada a fim de provocar o meu sonho, mesmo quando estou desperta. Ainda não consegui isso. Talvez eu seja como você, um pouco obstinada e preguiçosa.
Abaixo, texto de autor independente sobre o tema.
Este é o paradoxo perfeito. Tudo parece normal; não houve intenção de cometer nenhum crime; não há cadáver, não há culpa. Tudo o que podemos ver é o sol nascendo e desaparecendo no poente, como de costume. Mas o que aconteceu? Ela foi rejeitada, não apenas por eles, mas, por si mesma. (Realmente, está sem uma personalidade.) O que perdeu? Simplesmente, a única parte verdadeira e vital de si mesma; seu próprio sentimento de auto-afirmação, que é sua própria capacidade de desenvolvimento, seu sistema básico. Infelizmente, porém, não está morta. A “vida” continua; portanto, ela deve continuar. A partir do momento em que se rende, e na medida dessa rendição, começa, sem ter nenhum conhecimento disso, a criar e manter uma pseudopersonalidade. Mas isto por pura conveniência — é uma personalidade sem desejos. Esta será amada (ou temida), enquanto ela é desprezada; será forte onde ela é fraca; executará todos os movimentos (oh, mas eles são caricaturas!), não para divertir-se ou por alegria, mas por sua sobrevivência; não simplesmente porque quer movimentar-se, mas porque precisa obedecer. Esta necessidade não é vida — não é a vida dela — é um mecanismo de defesa contra a morte. É, também, a máquina da morte. A partir desse momento será despedaçada por conflitos compulsivos (inconscientes) até ficar paralisada, cada momento, cada instante, anulando sua individualidade, sua integridade; e durante todo esse tempo está usando o disfarce de pessoa normal e todos esperam que se comporte como tal!
Numa palavra, eu digo que ficamos neuróticos buscando ter ou defendendo um pseudo-eu, um pseudo-sis-tema; e somos neuróticos ao ponto de não termos um eu.
(Anonymous. “Finding the real self: a letter with a foreword by Karen Horney.” Am. J. Psychoanal, 1949, p. 93, conforme citação feita, ao pé da página, no livro de Maslow, A., intitulado Toward a Psychology of Being. Princeton, Van Nostrand, 1962. apud Speeth, Kathleen – I trabalho de Gurdjieff)
Uma amiga minha, que praticava yôga regularmente, conta que, quando decidiu parar com as aulas, teve um sonho intenso. Sonhava ela que aparecia num local indeterminado, mas antigo, na companhia de dois mestres yogues, com aspecto e maneiras indianas. Conversaram sobre tudo, com grande felicidade, por um tempo até que um deles, sorrindo, perguntou: “você quer mesmo sair do grupo?”. Ao que ela respondeu afirmativamente, justificando-se acordou, tomando consciência do que tinha se passado e ao mesmo tempo repleta de uma grande sensação de paz depois desta “despedida”. A explicação que ela deu é que ela havia saído da “egrégora”.
Este interessante conceito é usado por algumas correntes iniciáticas. Está na cartilha do aclamado mestre DeRose, que dá a seguinte definição:
Egrégora é como um filho coletivo, produzido pela interação “genética” das diferentes pessoas envolvidas. Se não conhecermos o fenômeno, as egrégoras vão sendo criadas a esmo e os seus criadores tornam-se logo seus servos, já que são induzidos a pensar e agir sempre na direção dos vetores que
caracterizaram a criação dessas entidades gregárias. Serão tanto mais escravos quanto menos conscientes estiverem do processo. Se conhecermos sua existência e as leis naturais que as regem, tornamo-nos senhores dessas forças colossais.
Por axioma, um ser humano nunca vence a influência de uma egrégora caso se oponha frontalmente a ela. A razão é simples. Uma pessoa, por mais forte que seja, permanece uma só. A egrégora acumula a energia de várias, incluindo a dessa própria pessoa forte. Assim, quanto mais poderoso for
o indivíduo, mais força estará emprestando à egrégora para que ela incorpore às dos demais e o domine. A egrégora se realimenta das mesmas emoções que a criaram. (DeRose , Kharma & Dharma)
Embora transposta por DeRose para o contexto hindu de karma e dharma, a palavra, grega, é mais utilizada, ao que parece, pelos maçons. Estes consideram as leis de simpatia e antipatia que regem a comunicação humana. (Este contexto, aliás, foi muito importante no medievo e no Renascimento, Foucault em As palavras e as coisas tece bons comentários sobre ele.) A maçonaria tem 33 graus de aprendizagem e maestria, e considera especialmente cada um deles. Toda a ligação entre maçons é enfatizada, dentro de cada nível, e os segredos litúrgicos da transmissão e das reuniões não são passados a estranhos em parte por causa da noção de “egrégora”. Abaixo, mais algumas definições tiradas da web:
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O Castaneda, no seu duvidoso esforço final por direcionar produtivamente as aspirações dos leitores que queriam ser seguidores, promoveu seminários em que ensinava uns exercícios corporais que desenvolveu, baseado em várias fontes diferentes, chamados de Passes Mágicos ou Tensegridade. Um dos objetivos destas reuniões finais, segundo ele mesmo explica no livro Arte do Sonhar, era o de ocasionar a criação de uma tal “massa enérgica” no ambiente, com a concatenação das várias forças humanas reunidas em um objetivo comum, criaria-se uma concentração irresistível de energia, capaz de vencer os abismos e empurrar as ameaças para longe, dando propósito e propulsão aos guerreiros.
O escritor chileno Alejandro Jodorowsky, junto com o desenhista francês Jean Girard, trata da força envolvente do grupo no final da fenomenal série “O Incal”. Desta série eu tinha lido apenas o volume 1, (O Incal Negro), que era do meu irmão Daniel, colecionador de quadrinhos. Mas numa tarde tensa em que estava perto do Metrô Vergueiro, em São Paulo, fui até a Gibiteca Henfil e lá li os volumes restantes. O argumento é bastante denso, mas pode-se dizer que o protagonista, John Difool, é um detetive particular do futuro, que se envolve, num ambiente surreal, numa epopéia mirabolante quando encontra-se com a existência do Incal. Este é um artefato em forma de pirâmide, antigo e misterioso, com poderes mágicos, que cai em sua posse. Os inimigos, que querem aniquilar o universo com o não ser e a anti-matéria, passam a perseguir Difool em toda espécie de situação, no ambiente de ficção e futurismo corrompido que o traço de Moebius cria bem.
Difool é inepto e relapso, com vários vícios e defeitos, e está numa missão bem além do seu alcance ordinário. Os seus amigos, mais ambientados na querela intergaláctica, porém, esforçam-se para que a missão se cumpra de qualquer maneira. Bem, no final da saga o mistério do Incal é revelado, e o Ohr mostra a Difool que tudo fazia parte de um plano, sendo ele o Alfa e o Ômega daquele universo, o ser e o não-ser. Difool é o escolhido por ser uma encarnação da eterna testemunha, a chama da consciência individual, própria, do ser vivo, que difere do absoluto e deve testemunhá-lo e irrecusavelmente viver. No último quadrinho está a homenagem à força envolvente do grupo que falei. Para manter a vida, e não reencarnar novamente, Difool precisa recordar, ou não esquecer e o início disso acontece quando ele se lembra dos bons momentos passados pelas grandes amizades (último quadro). Abaixo a seqüência de quadros da situação descrita.








Felizmente, graças a internet, não precisamos mais ir nas gibitecas. Você encontra para download a série inteira no 4shared ou esnips.
Lendo uma versão do livro de Botânica Oculta do místico Paracelso, me deparei com o seguinte excerto:
Pesquisas posteriores no Google confirmaram este dado, embora haja alguma controvérsia da sua significação dentro das inúmeras vertentes interpretativas. A etimologia é interessante, especialmente quando consideramos o uso da palavra “ponto”. Um ponto oculto, quiçá parte do ser total do homem, que liga o homem ao universo, conhecido desde os primórdios por aquela antiga civilização, aquele antigo império indo-europeu, que existiu em plenitude antes dos alicerces das civilizações que, julgamos, deram origem à nossa. Mas que foi preservado de alguma forma pelas tradições místicas do Oriente.
Ferrater Mora, no seu excelente Dicionário de Filosofia, fornece duas etimologias para o termo, com duas leituras diferentes, uma mais espiritual e outra mais política:
Paracelso, porém, chama a atenção para a maestria dos mestres iogues (tá bom, yogues) hindus, que, através de milênios de aperfeiçoamento conseguiram mapear milhares de nervos do corpo humano e suas consequências e funções. O ocultista, aliás, é famoso por trazer pioneiramente estas informações das tradições orientais para o Ocidente, assim como o alemão Rosenkreuz, criador da fraternidade antiga rosacruz, após ter sido iniciado por mestres em Meca e na Índia. Na definição diz que liga “o homem ao universo”, e sendo um ponto, e levando em consideração essa preocupação de mapeamento do ser total, a associação com o ponto de aglutinação do Don Juan, me veio a tona. Seriam a mesma coisa? Abaixo, uma primeira definição que D. Juan teria dado ao discípulo no livro “O Fogo Interior”:
Esta definição é central em todos os esforços do livro. A tarefa do vidente, em última instância, seria a de saber que o ponto existe, para conseguir movê-lo e alcançar as áreas conscientização ocultas em nós, na segunda atenção. Os toltecas pretendem mapear todas as possibilidades de posição até atingir a “terceira atenção”. O ponto de aglutinação é localizado por eles no casulo luminoso (ou da árvore sagrada acima?)como atrás da omoplata direita, a distância de um braço. O ponto de aglutinação se moveria naturalmente, por exemplo, durante o sono.
Abaixo uma representação gráfica que tirei deste site.








