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	<title>Blog do Miguel</title>
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		<title>A busca aqueológica das pirâmides da Amazônia</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Feb 2010 22:57:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Miguel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ciência &#8211; Veja &#8211; 1° de Agosto de 1979
O enigma da floresta
Numa imensa planície amazônica, no alto rio Negro, três morros em forma de pirâmide — que o exame das fotos indica serem um capricho geológico







No sopé da Serra do Gurupira, no alto rio Negro, três morrotes dis­postos em forma triangular mere­ciam de dois passageiros [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ciência &#8211; Veja &#8211; 1° de Agosto de 1979</p>
<h1>O enigma da floresta</h1>
<p><strong><em>Numa imensa planície amazônica, no alto rio Negro, três morros em forma de pirâmide — que o exame das fotos indica serem um capricho geológico</em></strong></p>
<table cellspacing="0" cellpadding="0">
<tbody>
<tr>
<td align="left" valign="top"></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>No sopé da Serra do Gurupira, no alto rio Negro, três morrotes dis­postos em forma triangular mere­ciam de dois passageiros de um bimo­tor Comanche o tratamento no femini­no. &#8220;São elas&#8221;, diziam o arqueólogo prático Roldão Pires Brandão e o etnólogo José Alair da Costa Pires, rebatizado Ryoku Yuhan depois de converti­do ao budismo. Era quarta-feira da se­mana passada e os dois sobrevoavam a região onde afirmavam ter descoberto, dez dias antes, as pirâmides amazônicas em que muitos místicos acreditam e pelas quais vários pesquisadores bus­cam há centenas de anos. &#8220;Essas são, de fato, as formações que vimos&#8221;, garantiam eles. E a primeira visão mos­trava, claramente, três estruturas piramidais, cobertas de vegetação. Pelos cálculos do piloto, a mais alta delas tem acima de 200 metros — maior, portanto, que a milenar pirâmide egípcia de Quéops, de 146 metros.</p>
<p>À medida que o avião se aproxima va, porém, desfazia-se a certeza inicial de uma extraordinária, incomensurável descoberta arqueológica escondida pela sempre misteriosa e surpreendente Amazônia. Ali, onde dez anos atrás o Projeto Radam encontrou nada menos que um rio de 400 quilômetros até en­tão ignorado pela Geografia, talvez des­pontasse um rumo novo para tudo o que a História já registrou da presença humana sobre a Terra nos últimos milê­nios. Mas, quando o Comanche mudou o ângulo de visão, desvendou-se o mis­tério das pirâmides. A essa altura, Brandão e Yuhan já mudavam o prono­me para o masculino, chamando de &#8220;eles&#8221; aos morrotes. &#8220;Não devem ser estes aqui, não&#8221;, duvidava Brandão, imaginando que, na semana anterior, pudessem ter passado nas imediações de algum outro vale imenso do rio Ne­gro. Após quinze dias de penosa expedição pela selva, encontravam-se então fatigados, com os suprimentos no fim. Apenas viram, deixando a investigação para uma próxima viagem, já marcada para este mês.</p>
<p><strong>&#8220;IMPORTANTÍSSIMO&#8221;</strong> — &#8220;SÓ indo lá e vendo&#8221;, resumia Brandão a Jaime Sautchuck, de VEJA, ao fim do sobre­vôo. Personalista, desconfiado, inimigo do que chama de &#8220;arqueólogos de gabi­nete&#8221; (o contrário dele, que não é for­mado mas tem mais de vinte anos de pesquisas de campo), o perseverante Brandão tem respeitáveis razões para novas tentativas de comprovar sua tese sobre as pirâmides. Os morrotes, afinal, têm arestas bem definidas e o do meio, principalmente, aparenta quatro faces convincentes. Resta saber se são obra de uma civilização antiga, talvez pré-incaica, como acredita firmemente Yuhan, baseado em lendas e relatos ouvi­dos de remanescentes da civilização mogulala — que ali viveram há milha­res de anos e, sempre segundo Yuhan, em tempos menos remotos foram se­nhores dos incas.</p>
<p>De concreto, entretanto, o que existe no momento são as fotografias, exibi­das por VEJA, na sexta-feira passada, em São Paulo, ao geógrafo Aziz Nabib Ab&#8217;Saber, diretor do Instituto de Geo­grafia da USP e apontado como o maior entendido no assunto no Brasil. Embora descartasse desde o início qualquer significado arqueológico ao que via, Ab&#8217;Saber qualifica aqueles morrotes piramidais como &#8220;impor­tantíssimos&#8221; documentos geológicos. &#8220;Isso mostra de maneira irrefutável&#8221;, explica ele, &#8220;que durante o período qua­ternário<em> (de 1 a 3 milhões de anos atrás),</em> desde o fim do terciário<em> (de 5 a 10 milhões de anos atrás)</em> e por todos os períodos glaciais. aconteceram cli­mas secos na Amazônia.&#8221;</p>
<p>Na explicação de Ab&#8217;Saber, morrotes em formato de pirâmides são comuns em toda ponta de serra. &#8220;O nordeste está pleno desses tipos de<em> inselbergs&#8221; (ter­mo científico não traduzido, embora se use a expressão monte-ilha),</em> afirma ele, &#8220;só que no meio de uma paisagem mais próxima daquela em que aconteceram os processos, quer dizer, em condições semi áridas.&#8221; Ab&#8217;Saber cita, para reforçar sua informação, o serrote existente no município paraibano de Patos ou o que está retratado na bandeira de Alagoas. &#8220;Aquela feição é tão simbólica para o povo de toda a região que ate foi usada como símbolo&#8221;, comenta o professor. A diferença, com relação aos morrotes fotografados no alto rio Negro, é que houve, nestes, &#8220;uma modifi­cação climática brutal, abrangida pela umidificação c pelo florestamento relativamente recente&#8221;. Ainda assim, Ab&#8217; Saber não duvida: &#8220;Isso aí é um documento, uma herança de uma geomorfologia de clima seco e que hoje está sob uma roupagem de clima muito úmido&#8221;.</p>
<p><strong>OMBRO A OMBRO</strong> — Mas não seriam argumentos como os de Ab&#8217;Saber que iriam abalar as crenças do grupo das pirâmides. Na verdade, argumentos científicos não modificam o rumo de pesquisas seja do arqueólogo, que não e arqueólogo. Roldão Pires Brandão, de José Alair/Ryoku Yuhan ou ate do in ternacional escritor dinamarquês Erik von Däniken — &#8220;Eram os Deuses As­tronautas?&#8221;. Däniken, sem o exotismo das versões nacionais, persegue os mes mos sonhos da dupla pátria. Utiliza também algumas fontes comuns, como o obscuro índio Tatunka Nara que se diz descendente dos mogulalas. Em 1977, Dániken esteve na Amazônia es­pecialmente para entrevistar-se com Tatunka. Sua história, também sustentada por Yuhan, parte da denominação dos mogulalas sobre os incas e sua desgraça após a chegada dos espanhóis.</p>
<p>Daí os mogulalas ter-se-iam espalha do por várias regiões. Uma parte para a ilha de Páscoa, outra para o que é ho­je o Acre, alto rio Solimões, e mais um grupo, finalmente, para o norte do rio Negro, na região da serra do Gurupira. De acordo com Tatunka, há duas evidências de que os mogulalas estiveram, ou estão, nas cercanias do rio Negro. Pois Gurupira é um ser da mitologia de seu povo, encarregado de cuidar da ma ta. Já Paduari — nome de um rio próximo ao vale das supostas pirâmides —, que nada significa para os índios Waika habitantes da região, quer dizer, em mogulala, &#8220;rio das águas coloridas&#8221;. Tatunka refere-se também a crônicas escritas em locais secretos que contam toda a história de seu povo.</p>
<p>Segundo essas crônicas, os mogulalas estariam no continente americano há mais de 12 000 anos e, além dos es­panhóis, também ter-se-iam dispersado em função de um cataclismo ocorrido há 6 000 anos. Nada disso é novidade para Däniken. Na quinta-feira, sem que tivesse tido acesso às fotos, Dãniken preocupava-se em minimizar a desco­berta de Brandão. Não por serem mor rotes em vez de pirâmides. &#8220;Há muito tempo conheço a história dessas pirâ­mides&#8221;, garantiu ele a Carlos Struwe, de VEJA. Por incrível que pareça, Däniken, um famoso escritor, tem disputa do ombro a ombro com Brandão a pri­mazia de chegar primeiro ao sopé da serra do Gurupira. É bem verdade que Däniken não se dispõe a enfrentar pes­soalmente os incômodos da floresta amazônica, mas utiliza os serviços de seu amigo, aviador aposentado, Ferdinand Schmid, que comandava aviões DC 8 para a Swissair e agora ocupa seu tempo pilotando pela selva expedições financiadas por Däniken. Na última, em maio, quase chegou ao vale do Gurupira mas, de acordo com Brandão, o barco que o levava naufragou e todo o trabalho foi perdido.</p>
<p><strong>PONTOS DE ATRITO</strong> — Foi justamente essa tentativa — a terceira do grupo chefiado por Schmid — que animou Brandão a montar sua própria caravana. Na ocasião, ele se encontrava ao largo do rio Urubu, não muito distante de Manaus, onde esperava um dia achar um navio, possivelmente godo ou visigodo, que diz ter evidências de ha ver naufragado muito antes de Cristo. Brandão largou então suas andanças pelo Urubu, denunciou ao governo brasileiro a presença daqueles estrangeiros e, solerte, juntou-se a Yuhan, a Tatunka e mais uma dezena de trabalhadores braçais à cata das pirâmides. Se Brandão não chegou até elas, pelo menos sentiu-se animado a divulgar a desco­berta, credenciando-se então como o descobridor oficial das pirâmides ama­zônicas e salvador da honra nacional por &#8220;passar a perna nos suíços&#8221;, como declarou.</p>
<p>Este seria, aliás, mais um ponto de atrito entre esses persistentes caçadores de lendas, pois Däniken não acredita no zelo nacionalista de Roldão. Ele cita a segunda expedição comandada por Schmid, no ano passado, da qual Brandão participou sem qualquer restrição aos &#8220;suíços&#8221;. Segundo o escritor dina marquês, essa expedição só foi inter­rompida &#8220;quando a arma de Brandão disparou involuntariamente ferindo seu antebraço. Schmid e Tatunka voltaram então numa canoa de alumínio, junto com Brandão, para interná-lo num hos­pital de Barcelos&#8221;. A versão do pesquisador brasileiro é menos detalhada. &#8220;A expedição de Schmid fracassou&#8221;, conta Brandão sem especificar que também a acompanhava, &#8220;ante as corredeiras do rio Paduari e as dificuldades de loco­moção por terra”.</p>
<p><strong>APOIO </strong>— Por fim, Däniken também desconfia das habilitações de Brandão considerando-o despreparado para mis­sões tão importantes enquanto Brandão — ao contrário da maioria da comuni­dade internacional de cientistas — con­sidera Däniken &#8220;um pesquisador muito sério&#8221;. De todo modo, as buscas de Brandão prosseguem. Afora a próxima expedição ao alto rio Negro e o navio godo, ou visigodo, ele planeja chegar até uma cidade que garante existir na confluência dos rios Madeira e Amazo­nas, embaixo d&#8217;água. Para tanto, ele vi­sualiza uma cápsula de vidro e metal que o levará ao fundo do rio, a mais de 100 metros de profundidade. Esta se­ria a primeira de uma série de cidades submersas que Roldão pretende desco­brir nos próximos tempos.</p>
<p>Por mais delirantes que sejam os pro­jetos, Brandão mantém sua fé. E não es­tá sozinho. Seus principais financiado­res são Tadeu Martins Macedo, gerente geral do Hotéis OK, do Rio de Janeiro, e o general reformado Severino Som­bra, diretor da Fundação Educacional Severino Sombra, de Vassouras (RJ). Na semana passada, o general Sombra não escondia sua alegria: &#8220;Muita gente pensava que era sonho, utopia de Rol­dão; mas só com persistência e tenacida­de se conseguem descobrir coisas tão in­teressantes&#8221;. Àquela altura, o arqueólo­go prático dispunha, unicamente, da notícia de que existem formas pirami- dais num fundo de vale amazônico. Mas isso já alimentava os sonhos de seu amigo. &#8220;Agora, quando estiver fi­nalmente comprovada nossa idéia&#8221;, vaticinava Sombra, &#8220;várias teorias cairão por terra; ninguém imaginava que hou­vesse na Amazônia uma civilização tão adiantada.&#8221;</p>
<p>Por mais antigas e extraordinárias que sejam as buscas de tesouros e vestí­gios de antigas civilizações na Amazô­nia<em> (veja o quadro abaixo),</em> as supostas pirâmides agora anunciadas por Bran­dão talvez mereçam, como ele insiste, uma verificação mais convincente. Por enquanto existem as fotos feitas por VEJA, em que as pirâmides mudam pa­ra morrotes conforme o ângulo de visão — e nas quais, segundo Ab&#8217;Saber, exis­tem evidências de importância geológi­ca. Há, ainda, relatos de pilotos que já sobrevoaram a região e dizem ter visto, atrás da serra do Gurupira, formações que lembram ruínas e cavernas. Se per­tencem, tanto quanto as pirâmides, ao acervo de uma gente milenar. Brandão terá a oportunidade de confirmar — agora que contará com o apoio mais sólido do governo estadual e do Co­mando Militar da Amazônia.</p>

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<p><em>Para o geógrafo Aziz Ab &#8216;Saber, não há nenhum mistério rondando as pirâmides amazônicas: elas não seriam mais que um dos inumeráveis agrupamentos de morrotes formados por antigos restos de erosão não só no alto rio Negro, mas em outros pontos da Amazônia e do nordeste. Na foto ao alto, Ab &#8216;Saber identificou, ao fundo, no bordo do planalto das Guianas, alguns desses agrupamentos. Ao pé de uma das supostas pirâmides, o geógrafo estranhou a existência de uma clareira (foto ao lado), o que poderia fazer supor a ocorrência de vida humana no local. Tudo isso poderá ser ou não comprovado quando Brandão e Yuhan voltarem à região, neste mês, chefiando uma grande expedição</em></p>
<h2><em>A eterna busca da <a title="Lenda de El dorado" href="http://www.consciencia.org/el-dorado-paulo-setubal" target="_blank">lenda de Eldorado</a></em></h2>
<p>Abalada a hipótese de as pirâmi­des amazônicas terem sido construí­das pelo homem, murcha também a possibilidade, por muitos levantada na semana passada, de sua associa­ção com a lendária Eldorado — a região cheia de ouro e tesouros, que antigos relatos localizaram exata mente ali, entre o Amazonas e o Orenoco. Mas isso não significa que seu mito possa sofrer qualquer arranhadela, pois o sonho do acesso a riquezas miraculosas viceja de modo obsessivo na cultura popular do norte da América do Sul. É bem verdade que a lenda de Eldorado, cuja origem é atribuída a uma ceri­mônia dos índios chibchas, da Co­lômbia, durante a qual o cacique banhava o corpo recoberto com pó de ouro no sagrado lago de Guatavita, já desfrutou de maior prestí­gio. Houve tempos em que ela ain­da empurrava legiões de aventurei­ros para dentro da selva amazônica, de onde a maioria deles não volta­va. De certo modo. Roldão Pires Brandão, o &#8220;descobridor&#8221; das pirâ­mides, é um dos raros herdeiros desses visionários, ainda que o pre­texto de suas incursões seja a inves­tigação arqueológica.</p>
<p>Os estudiosos fixam até uma data para o germe da lenda de Eldorado: 1520, o ano em que o conquistador Hernán Cortez regressou à Espanha exibindo presentes recebidos no Mé­xico do poderoso Montezuma, entre os quais despontavam &#8220;um disco de ouro na forma do Sol, tão grande co­mo uma roda de carroça, outro grande disco de prata na forma da Lua, brilhando espetacularmente, vinte pássaros aquáticos de ouro, em fino artesanato&#8221;. Mas outros episó­dios históricos viriam reforçar o mi­to tanto na Europa como na Améri­ca. Em 1537, uma expedição chefia­da pelo também conquistador Gonzalo Jiménez de Quesada, partindo da Venezuela, pilhou uma povoação chibcha, cujas casas, embora de ma­deira, eram quase todas recobertas de finas placas de ouro. Muitas das famílias locais, além disso, pos­suíam coleções particulares de ouro em pó. Coincidentemente, seu chefe, alojado numa casa revestida de es­meraldas, banhava-se cm determina­do dia do ano no vizinho lago Guatavita, com o corpo recoberto de pó de ouro. Todas as riquezas apresa-das por Quesada haviam sido adqui­ridas pelos chibchas através do co­mércio ou da guerra. Seu valor, arbi­trado na época em mais de 150 000 pesos de ouro, é hoje incalculável. Mas o êxito de Quesada em nada contribuiu para arrefecer a procura de Eldorado — e ele próprio morreu convencido de que encontrara ape­nas uma pista de sua existência. As pirâmides de Brandão revelaram-se inúteis para alimentar por algum tempo essa fantasia. Contudo, será surpreendente se algum outro dia, nos confins amazônicos, o sonho não for retomado.</p>
<p>FONTE DA MATÉRIA: ACERVO DIGITAL VEJA &#8211; 1979.</p>
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		<title>Da primeira educação</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Feb 2010 17:21:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Miguel</dc:creator>
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Se tivesse filhos varões eu lhes desejaria a minha sorte; o bom pai que Deus me deu e que de mim só terá a mais profunda gratidão, desde o berço enviou-me a criar em uma de suas pobres aldeias e aí me manteve durante a infância e mesmo depois, acostumando-me à [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Da primeira educação</strong> &#8211; Montaigne</p>
<p>Se tivesse filhos varões eu lhes desejaria a minha sorte; o bom pai que Deus me deu e que de mim só terá a mais profunda gratidão, desde o berço enviou-me a criar em uma de suas pobres aldeias e aí me manteve durante a infância e mesmo depois, acostumando-me à mais baixa e vulgar maneira de viver. Não vos encarregueis jamais de sua alimentação e ainda menos deixai a vossas mulheres o encargo; deixai-os antes criarem-se ao acaso, sob as leis populares e naturais; entregai ao costume a tarefa de guiá-los à frugalidade e à austeridade; que tenham antes de descer da vida dura que subir a ela. Sua intenção (do pai) era também a de ligar ao povo, a essa espécie de homens que necessitam de nosso auxílio; desejava que eu olhasse mais para os que me estendem os braços do que para os que me voltam as costas. Foi por essa razão que me fez batizar por pessoas da mais baixa condição, a fim de que lhes fosse grato e as amasse.</p>
<p>Seu propósito não foi em absoluto mal sucedido; dedico-me de bom grado aos humildes, já porque maior mérito não há, já por uma natural compaixão que muito pode em mim&#8230;</p>
<p>(Idem).<br />
__<br />
Excerto dos <em>Ensaios.</em>. Trad. de Sérgio Milliet</p>
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		<title>Para bem viver</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Feb 2010 10:42:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Miguel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Para bem viver &#8211; Michel de Montaigne (1533-1592) 
&#8230;Assim viveram os sábios: e essa inimitável aplicação à virtude, que nos impressione em tal ou qual Catão, esse humor severo até à importunidade, assim se submeteu e se dobrou às leis da condição humana, às leis de Venus e de Baco.
A complacência e a condescendência assentam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p><strong>Para bem viver</strong> &#8211; Michel de Montaigne (1533-1592) </p>
<p>&#8230;Assim viveram os sábios: e essa inimitável aplicação à virtude, que nos impressione em tal ou qual Catão, esse humor severo até à importunidade, assim se submeteu e se dobrou às leis da condição humana, às leis de Venus e de Baco.</p>
<p>A complacência e a condescendência assentam bem às almas fortes e generosas. Epaminondas não considerava que misturar-se às danças dos rapazes de sua cidade, cantar e tocar, e trabalhar com eles, fosse coisa suscetível de diminuir a honra de suas gloriosas vitórias ou a perfeição de costumes que nele havia. E entre as muitas ações admiráveis de Cipião, o Antigo, personagem digna de ascendência celeste, nenhuma me parece mais preciosa do que vê-lo displicente e puerilmente divertir-se a juntar conchas e brincar de sela com Lélio à beira-mar; e quando fazia mau tempo entreli-nha-se a escrever comédias acerca das mais populares e vulgares ações dos homens&#8230;</p>
<p>.. .Nada é mais belo e legítimo do que desempenhar a contento o papel de homem; nem há ciência mais árdua que a de bem viver a vida; e das doenças a mais tenebrosa é a de odiar e desprezar o nosso ser&#8230; Ordeno à minha alma que contemple a dor e a volúpia com igual firmeza mas com severidade aquela e com alegria esta; e, segundo o que lhe podem dar, que procure tão cuidadosamente anular a primeira quanto aumentar a segunda.</p>
<p>(Idem).
</p></blockquote>
<p>Excerto dos Ensaios. Trad. de Sérgio Milliet.</p>
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		<title>Do gozo sadio dos prazeres do corpo &#8211; Montaigne</title>
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		<pubDate>Sun, 31 Jan 2010 17:22:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Miguel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Do gozo sadio dos prazeres do corpo &#8211; Michel de Montaigne
&#8230;Eu que vivo de um modo chão, detesto essa inumana sapiência que nos quer tornar inimigos e contemptores da cultura física. Considero tão grande injustiça contrariar as volúpias naturais quanto apreciá-las sem medida&#8230;
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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Do gozo sadio dos prazeres do corpo</strong> &#8211; Michel de Montaigne</p>
<p>&#8230;Eu que vivo de um modo chão, detesto essa inumana sapiência que nos quer tornar inimigos e contemptores da cultura física. Considero tão grande injustiça contrariar as volúpias naturais quanto apreciá-las sem medida&#8230;</p>
<p>Existem pessoas, como afirma Aristóteles, que os desprezam (os prazeres físicos) com feroz estupidez. Outros assim procedem por ambição. Por que não renunciam também a respirar? Por que não vivem apenas do que é seu, e não recusam a luz que é gratuita e não lhes custa nem invenção nem esforço ?&#8230; Odeio que nos digam de manter o espírito nas nuvens quando temos o corpo à mesa. Não quero que o espírito fique preso à mesa, nem que chafurde na comida, mas quero que nêsse mister se aplique. Quando danço, danço; quando durmo, durmo; e mesmo se, passeando em um lindo vergel, meus pensamentos se fixam em ocorrências estranhas, procuro conduzi-las pelo menos durante algum tempo, novamente ao passeio, ao vergel, à doçura da solidão e a mim mesmo.</p>
<p>A natureza proveu a que as ações úteis às nossas necessidades nos fossem igualmente voluptuosas; e a elas nos convida não somente pela razão mais ainda pelo apetite; é injustiça corromper-lhe as regras&#8230;<br />
-</p>
<p>Somos loucos varridos. &#8220;Êle passou a vida na ociosidade&#8221;, dizemos; ou &#8220;nada fiz hoje&#8221;. Pois então não vivemos? É essa não só a mais essencial mas ainda a mais digna de nossua ocupações. &#8220;Se me tivessem educado nas grandes ações eu mostraria do que sou capaz&#8221;. Mas se soubemos conduzir nossa vida realizamos a mais bela de todas as tarefas. Para mostra-se e agir não precisa a natureza da fortuna mostra-se igualmente em todos os degraus, na frente como atrás do pano. Soubemos acertar os nossos costumes? Pois fizemos mais do qne aqueles que souberam apenas compor livros. Soubemos descansar? Pois mais fizemos do que aqueles que tomaram impérios e cidades. A gloriosa obra-prima do homem é viver certo&#8230;</p>
<p>(Idem).</p>
<p>Trad. de Sérgio Milliet, Bib. do Pensamento Vivo.</p>
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		<title>Doenças e saúde</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Jan 2010 18:35:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Miguel</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Doenças e saúde</p>
<p>São ou doente sempre me deixei levar pelos apetites que me assaltam. Dou grande autoridade aos meus desejos e inclinações. Mão gosto de curar o mal pelo mal e detesto os remédios que importunam mais do que a doença. Estar sujeito a cólicas e se abster de comer ostras sáo dois males em vez de um; a enfermidade nos belisca de um lado, a regra nos apoquenta de outro. Desde que corremos o risco de errar, erremos de preferência após o prazer. O mundo é mal feito e só imagina coisa útil entre as penosas; é-llie suspeita a facilidade. Felizmente, em muitas coisas, meu apetite se acomodou com bastante facilidade a meu estômago; a acrimônia e o picante dos molhos agradavam-me quando jovem; aborre-cendo-os mais tarae o estômago, desapareceu incontinente a propensão. O vinho prejudica os enfermos, pois é a primeira coisa que me desgosta, de um invencível desgosto. Tudo o que como com desagrado me prejudica e nada me faz mal quando o como com fome e alegria. Nunca uma ação que me agradasse realmente me loi prejudicial; e meu prazer sempre teve razão contra quaisquer prescrições médicas&#8230;</p>
<p>.. .É preciso suportar com humildade as leis de nossa condição; somos feitos para envelhecer, enfraquecer, adoecer, a respeito da medicina&#8230;</p>
<p>É preciso aprender a suportar o que não é possível evitar. Assim como a harmonia do mundo nossa vida é composta de coisas contrárias, e de diversos tons, doces e ásperas, pontudas e chatas, moles e duras. Que poderia exprimir o músico que só gostasse de um tom? É necessário que saiba utilizar a todos e misturá-los; do mesmo modo nos cabe fazer com os bens e os males que são inerentes à nossa vida. Nosso ser não subsiste sem essa mistura em que cada parte é tão imprescindível quanto a outra&#8230;</p>
<p>(Idem).</p>
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		<title>Das Leis e dos Juristas &#8211; Montaigne</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Jan 2010 05:27:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Miguel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Excertos dos Ensaios de Montaigne
Das leis
.. .Tem a razão tantas formas que não sabemos a qual apegar-nos; assim também a experiência. A conseqüência que queremos tirar da observação dos acontecimentos não é segura, tanto mais quanto são eles sempre disse-melhantes. Não há qualidade alguma tão universal, nessa imagem das coisas, como a variedade, a diversidade&#8230;
Não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Excertos dos Ensaios de Montaigne<br />
<strong>Das leis</strong></p>
<p>.. .Tem a razão tantas formas que não sabemos a qual apegar-nos; assim também a experiência. A conseqüência que queremos tirar da observação dos acontecimentos não é segura, tanto mais quanto são eles sempre disse-melhantes. Não há qualidade alguma tão universal, nessa imagem das coisas, como a variedade, a diversidade&#8230;</p>
<p>Não me agrada entretanto a opinião daquele que imaginava, através de uma multidão de leis, orientar precisamente a autoridade dos juizes dentro de jurisdições predeterminadas; não percebia que há tanta liberdade e elasticidade na interpretação quanto na feitura das leis&#8230; Ainda deixamos tanta latitude para a opinião dos juizes, e sua decisão, que não houve jamais liberdade tão grande e licenciosa. Que adiantou aos nossos legisladores a escolha de cem mil exemplos e fatos específicos a fim de dar a cada um uma lei? Êsse número ainda não está em proporção com a variedade infinita das ações humanas. Multiplique-se o número por cem e nem assim acontecerá que entre os acontecimentos porvindouros nenhum exista que não possa, entre todos os exemplos escolhidos, emparelliar-se a tal ponto que não sobre lugar para a interpretação; sempre haverá circunstâncias e diferenças que exijam consideração especial no julgamento. Há pequena relação entre nossas ações, em perpétua mutação, e as leis que são fixas e imóveis. As leis mais úteis são as mais simples e gerais; e quanto menor número melhor; e em verdade creio que seria mais desejável não ter leis do que tê-las em tão grande quantidade como nos acontece.</p>
<p>A natureza no-las outorga sempre mais felizes do que aquelas que nós nos damos&#8230;</p>
<p>(Livro III, cap. 13: Da experiência).<br />
<strong><br />
Dos juristas</strong></p>
<p>Por que nossa linguagem comum, tão acessivel a qualquer uso, se torna obscura e ininteligível em um contrato ou testamento? E por que quem se exprime claramente no que quer que diga ou escreva não encontra então jeito de se expressar sem hesitações ou contradições? É sem dúvida porque os mestres nessa arte, aplicando-se com particular atenção na seleção das palavras solenes e das cláusulas requintadas, tanto pesam cada sílaba, tanto acertam cada juntura, que se atolam afinal e se embrulham numa infinidade de imagens e sutilezas. Não podem assim encaixá-los em nenhum regulamento ou prescrição nem torná-los de modo algum inteligíveis&#8230;</p>
<p>(Idem).<br />
Trad. de Milliet. Bib. do Pensamento vivo.</p>
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		<title>Do valor da vida  &#8211; Montaigne</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Jan 2010 17:40:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Miguel</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Do valor da vida<br />
</strong> &#8211; Montaigne<br />
.. .Essa expressão trivial &#8220;passatempo&#8221;, ou &#8220;passar o tempo&#8221;, traduz o pensar dessas pessoas prudentes que imaginam dar a melhor conta de sua vida, deixancio-a deslizar, passar, perder-se e, no que lhes diz respeito, ignorá&#8211;la, dela fugindo como de coisa aborrecida e desprezivel; eu a vejo diferente: aprazível e Loa, ainda que nessa sua última fase em que me encontro. E a natureza no-la pôs nas mãos em tais e tão favoráveis circunstâncias que só cabe censurar a nós mesmos o fato de nos oprimir ou de ser-nos inútil. Preparo-me entretanto para perdê-la sem lamentações, mas por ser perdivel em si e não por parecer molesta ou importuna. É preciso saber gozá-la e eu a gozo duplamente, pois a medida do prazer depende da maior ou menor aplicação que nele pomos. E nesta hora, em que vejo a minha já tão curta no tempo, tudo faço para aumentar-lhe o valor. Quero estancar-lhe a rapidez da fuga pela celeridade que ponho no agarrá-la; e pelo vigor colocado em seu aproveitamento quero compensar a pressa de seu escoar; à proporção que a posse da vida se faz mais curta é preciso torná-la mais profunda e cheia.</p>
<p>Outros sentem a doçura da prosperidade; eu a sinto como êles, mas não de passagem e escorregadia; é preciso estudá-la, saboreá-la e ruminá-la para render condignamente graças a quem no-la outorga. Gozam dos outros prazeres como fazem do sono: sem o perceberem. A fim de que o próprio sono não me escapasse, determinei outrora que mo turbassem para que eu o entrevisse. Analiso o meu prazer; não o coiiio sem mais. Sondo-o e adapto minha razão a êle. Encontro-me em situação tranqüila? Alguma volúpia me faz cócegas ? Não deixo que os sentidos a roubem; associo-lhes a minha alma, não para que se prenda mas para que se regozije; não para que se perca mas para que se ache; e a emprego a pesar e apreciar o prazer e a ampliá-lo. Avalia assim quanto deve a Deus a tranqüilidade de consciência em que vive, bem como a sua liberdade quanto a outras paixões interiores, e o fato de ter o corpo em boa saúde e gozando com moderação, mas plenamente, as funções amáveis e lisonjeiras com que Deus compensa as dores e com que sua justiça o contempla também. Avalia ela ainda quanto vale se achar alojada em ponto que, para onde quer que espie, encontra sempre um céu calmo. Nenhum desejo, nenhum temor,, nenhuma dúvida perturbam o ar e não há dificuldade que sua imaginação não vença sem abalo&#8230;</p>
<p>Por mim, amo a vida e a cultivo tal qual Deus ma outorgou. Não vivo a queixar-me da necessidade de comer e beber, nem a lamentar que não possamos nos alimentar com aquela simples droga com que Epemiredes se saciava, nem a deplorar que os filhos não nos nasçam estúpidamente pelos dedos ou pelos calcanhares, ou que o corpo tenha desejo e pruridos. Seriam queixas absurdas e iníquas. Aceito satisfeito o que a natureza fez por mim; congratulou-me com isso. Fazemos injúria ao grande Doador recusando-lhe os dons, anulando-os e defor-mando-os&#8230;</p>
<p>&#8230;A natureza é um doce guia, mas não menos prudente e justo. Por toda parte procuro-lhe a pista; baralhamo-la com caminhos artificiais. Não será erro estimar menos dignas as ações necessárias? Jamais me lirarão da cabeça que não haja conveniência no casamento do prazer com a necessidade, com a qual, segundo os antigos, os Deuses sempre conspiram. Por que desconjuntarmos uma construção cuja estrutura é de uma tão íntima e fraternal correspondência? Ao coíitrário, unamo-la por mútuos serviços; que o espírito desperte e vivifique o corpo lerdo, e que o corpo detenha e fixe a Jigeireza cio espírito. Não há peça indigna de nossos cuidados nêsse presente que Deus nos deu; devemos-lhe contas até do menor pelo. E não é tarefa absconsa guiar-se o homem segundo a sua condição; ela é simples e ingênua, e o Criador no-la impôs séria e expressamente.</p>
<p>&#8230;Não me refiro aqui a essas almas ve-neráveis, elevadas pela religião e pela fé a um constante e consciencioso meditar acêrca das coisas divinas. Não as misturo aos pequeninos que somos, divertidos com os nossos desejos e cogitações, pois elas desdenham de se interessar pelas nossas necessidades imperiosas; e, fluidas e ambíguas, tão-sòmente ao corpo assinam o cuidado e o uso do alimento sensual e temporal.</p>
<p>.. .Querem colocar-se fora de si e fugir ao homem, o que é loucura; em lugar de se transformarem em anjos, transformam-se em animais; caem em vez de subir. Êsses temperamentos transcendentes me apavoram tal qual os lugares altos e inacessíveis. Por isso nada me parece mais indigente na vida de Sócrates do que os seus êxtases, e nada é mais humano em Platão do que aquilo que levava a considerarem-no divino. E, nas nossas ciências, parecem-me mais terrestres e baixas aquelas que mais alto se colocam. Nada encontro mais humilde e mortal na vida de Alexandre do que suas fantasias em torno da deificação própria. Filotas o causticou em sua resposta, de um modo assaz espirituoso. Alexandre congratulara-se com êle, por carta, pelo fato de tê-lo alinhado entre os deuses o oráculo de Júpiter-Amon: &#8220;Sinto-me feliz em consideração a ti; mas parecem-me dignos de piedade os homens que terão de viver com um homem (e obedecer&#8211;lhe) que não se satisfaz com a medida humana e a ultrapassa&#8221;.</p>
<p>Saber fruir lealmente o seu próprio ser é perfeição absoluta e como que divina. Procuramos outras condições por ignorarmos o ignorarmos o uso das nossas; e saímos de nós mesmos por não sabermos o que se passa em nós. Não adianta usarmos pernas de pau pois não evitam que precisemos de nossas pernas para andar; nem no mais alto dos tronos deixaremos de usar o traseiro para sentar. As mais belas vidas são, a meu ver, aquelas que se emparelham, sem milagres nem extravagâncias, ao modelo vulgar e humano&#8230; Ora, a velhice precisa ser tratada com um pouco mais de carinho. Recomendemo-la a esse Deus protetor da saúde e da sabedoria, mas para que no-la permita alegre e sociável.</p>
<p>(Idem).</p>
<p>Fonte: Bib. do Pensamento Vivo.</p>
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		<title>Pica-Pau &#8211; A Vassoura Da Bruxa</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Jan 2010 01:00:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Miguel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Weber, analisando a modernidade, identifica como um dos seus motores a dessacralização do mundo e a separação das esferas de valor. Marx também, no Manifesto Comunista, ao recapitular a ascenção da burguesia, a profanadora todas as relações clássicas de poder &#8211; inclusive as familiares, que fundamentavam a civilização, através do comércio e do mercado. A [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Weber, analisando a modernidade, identifica como um dos seus motores a dessacralização do mundo e a separação das esferas de valor. Marx também, no Manifesto Comunista, ao recapitular a ascenção da burguesia, a profanadora todas as relações clássicas de poder &#8211; inclusive as familiares, que fundamentavam a civilização, através do comércio e do mercado. A razão instrumental é que se efetiva no mundo, como lembram Horkheimer e Adorno na belíssima análise do mito de Ulisses e as Sereias, na Dialética do Esclarecimento. Ao se efetivar, ela consegue neutralizar o mítico, o mágico e as potestates, mas evidentemente precisa abrir mão de algo, precisa se fechar, ou&#8230;se auto-mutilar.</p>
<p>Esse me parece ser o contexto candente do clássico episódio do Pica-Pau sobre a Vassoura da Bruxa. A Bruxa quer trocar o cabo da vassoura na fábrica, mas não quer pagar, e portanto não pode: está impossibilitada. Pica-Pau, dedicado funcionário, cobra os 50 centavos de todas as maneiras, inclusive com mensagens no céu. A velha magia precisa, pois, se render aos novos tempos, ao materialismo capitalista. Pica-Pau, normalmente um vagabundo, nunca deixa de ser o moço americano, já que inclusive se aproveita contra índios e bandoleiros do velho oeste, em outros episódios.</p>
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<p>Veja também:
<ul>
<li>
<a href="http://blog.cybershark.net/miguel/2005/12/05/destino-tedioso-e-presumvel/">Destiono tedioso e presumível</a></li>
<li>
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		<title>Do casamento &#8211; Montaigne</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Jan 2010 15:25:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Miguel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Do casamento &#8211; Michel de Montaigne
&#8230;Não sei de matrimônios que mais cedo falhem a desmoronem do que os realizados à base da beleza e dos desejos amorosos-; exigem fundamentos mais sólidos e constantes e atilada prudência; o arroubo impaciente de nada vale&#8230;
Um bom casamento, caso haja, deve recusar a companhia e as condições do amor [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Do casamento</strong> &#8211; Michel de Montaigne</p>
<p>&#8230;Não sei de matrimônios que mais cedo falhem a desmoronem do que os realizados à base da beleza e dos desejos amorosos-; exigem fundamentos mais sólidos e constantes e atilada prudência; o arroubo impaciente de nada vale&#8230;</p>
<p>Um bom casamento, caso haja, deve recusar a companhia e as condições do amor e ater-se às da amizade. É uma doce comunhão, cheia de constância, de confiança e de um número infinito de úteis e sólidos deveres e obrigações. Não quererá servir de amante a seu marido a mulher que lhe experimentar o gosto (do casamento). Pois se estiver alojada na afeição de seu esposo como esposa, muito mais honrosa e seguramente alojada estará&#8230;</p>
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		<title>Dos comentários &#8211; Michel de Montaigne</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Jan 2010 04:47:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Miguel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[No Blog que ninguém comenta, mais um excerto clássico de Montaigne.
Michel de Montaigne
Dos comentários
&#8230;Jamais dois homens julgaram igualmente a mesma coisa; é impossível verem-se duas opiniões exatamente semelhantes, não somente em homens diferentes mas ainda 110 mesmo homem em horas diversas. Geralmente encontro do que duvidar no ponto exato que escapou ao comentário. Tropeço mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No Blog que ninguém comenta, mais um excerto clássico de Montaigne.</p>
<p><strong>Michel de Montaigne<br />
Dos comentários</strong></p>
<p>&#8230;Jamais dois homens julgaram igualmente a mesma coisa; é impossível verem-se duas opiniões exatamente semelhantes, não somente em homens diferentes mas ainda 110 mesmo homem em horas diversas. Geralmente encontro do que duvidar no ponto exato que escapou ao comentário. Tropeço mais fácil-mente em terra chã, assim como certos cavalos que conheço cambaleiam mais comumente em caminho liso.</p>
<p>Quem não dirá que o comentário aumenta as dúvidas e a ignorância, se não há nenhum livro humano ou divino, de utilidade para o mundo, cuja interpretação elimine as dificuldades? 0 centésimo comentário envia-nos ao seguinte, mais espinhoso e escabroso do que o procedente. Quando convimos afinal em que um livro é completo, em que nada mais há que dizer dele?&#8230;Mais difícil é interpretar as interpretações do que as próprias coisas, e há maior número de livros acerca de livros que dc assuntos: nada mais fazemos do que nos entreglosar. Formigam os comentários; de autores há grande carestia&#8230;</p>
<p>(Livro III, cap. 13. <em>Da Experiência.</em>).<br />
Trad. de Sérgio Milliet.<br />
Biblioteca do Pensamento Vivo</p>
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