Atacama 2008 - colocando um ponto final…
Já se passou um tempão desde a volta, coloquei todas as fotos do mundo no flickr e acabei dando um jeito de nunca atualizar o blog da viagem.
Então, hoje é o dia. Ou seria, pois eu comunico oficialmente aos meus leitores assíduos que vou desencanar disso. Ao invés, vou dizer uma ou outra palavraninha sobre cada dia e simplesmente encerrar o assunto. Mais do que falta de tempo, estou com falta de vontade e inspiração. E de paciência.
No dia 16, fomos visitar vinhedos pela região de Mendoza e conhecemos o Terrazas de Los Andes. Compramos uma garrafa do maravilhoso Afincado Cabernet Sauvignon e tivemos um jantar magnífico, novamente no Trevi. Fomos dormir chapados!
dia 17. Arrumamos as coisas e partimos, voltando pra casa. Dia longo de estrada, dormimos próximo de Córdoba, antes de Santa Fé.
dia 18. A moto quebrou logo pela manhã. Acabei rebocando até Santa Fé, em 180km de trechos em que tudo o que eu tinha pra fazer era olhar uma corda esticada. Trocada a embreagem na única autorizada Yamaha, optamos por dormir em Santa Fé.
dia 19. Atravessamos a fronteira em Uruguaiana, sem nenhuma dor de cabeça. Foi delicioso entrar no Brasil novamente! Minha embreagem quebrou à 80km de São Borja, no RS.
dia 20. Conheci o Piegas e a turma do “Combôio de Lóqui” (sic) e consegui peças para consertar novamente a embreagem e poder arriscar a volta. O Leandro, a contragosto, seguiu pro encontro do XT-600 em Santa Maria e eu dormi mais uma noite às margens do Rio Uruguai.
dia 21. Sai perto das 05:00 da manhã de São Borja e cheguei em SP, 1500km, perto do começo da noite. A sensação de rever a Fri e a Má vai ficar pra sempre na minha lembrança. Sentir saudades é gostoso, mas abraçar quem vc tem saudades é inestimável!
O Leandro chegou bem em casa, logo depois do Carnaval. O Hall também teve uma volta tranqüila, coroada com a quebra da moto dele a menos de 100km de casa! De todos, foi o único que não pode chegar montado em seu cavalo de aço!
February 10, 2008
dia 15 - Mendoza
Acho que de todos os dias da viagem, esse foi o mais esotérico, by far!
Depois de um jantar ótimo na noite anterior, no italiano Trevi, onde bebemos duas garrafas de vinho, nocello na sobremesa e tomamos um expresso digno de lembranças, dormimos exaustos. Não tanto pela viagem, que fora curta entre La Serena e Mendoza, mas creio que por causa da travessia do Paso e pela exposição, ainda que rápida, a uma grande variação em altitude.
Acordamos tarde, descemos para o café e, entre uma conversa e outra, o Hall informou que estava retornando pra SP. Dormira muito mal, tivera pesadelos e estava com idéia fixa, inamovível, que precisava voltar.
Não havia o que discutir. Quando deixa de estar bom para um, forçar qualquer coisa é bobagem. Demos o apoio que ele poderia precisar, combinamos o roteiro que ele faria, possíveis lugares de problemas e procedimento para panes e coisas afins. Sequer almoçamos e lá se foi ele, estrada sob as rodas e a cabeça já distante, com a sua família.
Sobramos o Leandro e eu…
Assim que o Hall partiu, arrumamos nossas motos e resolvemos voltar em direção à fronteira, pela mesma estrada que havíamos vindo, para tirar fotos. Havia um dique do rio Mendoza que queríamos conferir, além da torcida por um tempo melhor, para mais fotos.
Pegamos a estrada e em cerca de uma hora estávamos na região do tal dique. O trânsito vinha pesado da turma veranista (era um domingo!) e nós vínhamos utilizando toda a vantagem que as motos têm em ultrapassagem. Uma moto precisa de infinitamente menos distância que um carro, além de acelerar melhor, freiar melhor e ser muito menor. Ultrapassar de moto, depois que se pegou a manha, é uma delícia!
Em um trecho de pista simples, com faixa contínua nos dois sentidos, eu ultrapassei um comboio de “pois-és” e, ao virar a curva, dei de cara com um comando da Policía de Mendoza, que me mandou encostar imediatamente. O Leandro, que optara por não ultrapassar, escapou ileso e parou uns 50m à frente.
Parei a moto, desliguei o farol, apaguei o motor, tirei luvas e capacetes e me preparei para o pior. O guarda veio, seco e ríspido, pediu documentação e a minha carteira de habilitação. Conferidos, pediu a habilitação brasileira (entregara a ele a Internacional) e informou que iria segurá-la.
Explicou que era uma faixa contínua, que não comportava ultrapassagem, que eu havia ultrapassado, que havia multa e que o procedimento era a retenção da carta até o pagamento da multa em Mendoza (100km dali). A multa era algo entre 500 e 700 pesos argentinos, ou seja, perto de 300 a 400 reais.
Joguei um verde, perguntei se poderia pagar a multa mais perto. Disse que não e continuou preenchendo o documento. O Leandro perguntou se estaria aberto o distrito, já que era domingo. Sim, estaria e continuava preenchendo… Comecei a apelar e perguntei se daria para pagar no cartão de crédito. Disse que não sabia, que eu me informasse por lá, e a caneta corria solta no talão…
Como tudo estava perdido mesmo, elogiei a região, disse que o dique era lindo e que eu me distraira. Não quis inventar nada não, já estava na roça mesmo… Pedi permissão para fotografar o dique enquanto ele acabava e o guarda me liberou para juntar-me ao Leandro, 50m pra frente dali.
Foto, conversa, foto, foto… O policial vem vindo, avisou o Leandro… foto, finge que não sabe, mais fotos… “Cabron, decidi perdonar Usted. Aca estan tuyos documientos. Bon viaje” ou algo assim. Meus olhos arregalaram. Saltaram pra fora. O guarda linha dura iria perdoar a falta grave!
Relaxados os três, começamos a bater papo. A polícia de Mendoza estava equipada com belíssimas BMW GS 650 como a do Hall e o guarda tinha a tristeza de ter que pilotar uma destas. Elogiamos as motos, ele elogiou a luva do Leandro. Olhou comprido. O Leandro mostrou os rasgos, disse que era de qualidade duvidosa, o guarda encolheu os ombros. De repente, um estalo na minha mente. Tirei da mala de tanque as minhas luvas de couro, com proteção em kevlar, e ofereci para ele experimentar.
Ato contínuo, pôs nas mãos, elogiou, olhou, olhou, falou, elogiou… perguntei se havia gostado mesmo, confirmou os elogios. São suas, disse. Não, não posso aceitar, retrucou. Eu insisti, um presente do Brasil. Ele esticou as mãos, olhou as luvas e abriu um sorriso inacreditável. Cumprimentou aos dois e partimos.
Aliviado, mas com as mãos peladas, partimos novamente. Tiramos muitas fotos na dique, depois no Valle Uspallata e no Rio Mendoza, onde tive o prazer de descer a moto quase até a água, num terreno pra lá de difícil pro meu nível (ínfimo) de habilidade off-road.
Logo víamos uma montanha nevada. Uma montanha não, A montanha. Não demorou para que percebêssemos que se tratava dele, do Sentinela de Piedra, o Monte Aconcágua. Fotos, fotos e mais fotos.
Em Punta de Vacas resolvemos continuar avançado e logo passávamos Penitentes. Ali, na barreira da Gendarmeria dissemos que gostaríamos de ir até Puente del Inca e fomos informados que poderíamos seguir tranquilamente até Las Cuevas, que fica depois da Aduana argentina-chilena.
Paramos em Puente, fotos do travertinão e um rápido lanche com direito a um enorme São Bernardo de companhia. Encostaram umas motos do Brasil próximos e estávamos curiosos se viriam puxar papo.
O primeiro deles passou batido por nós, entrou na lanchonete e saiu em seguida. Os outros estavam fora de vista. Erguemos os ombros. Cada um, cada um…
Minutos depois, outro do grupo se aproximou e puxou papo. Logo todos estavam ali, sentados juntos, conversando animadamente, como se fôssemos amigos desde sempre. Era um grupo de Goiás, de Rio Verde, que estava seguindo para o Atacama.
Saimos dali para um pouco mais acima, onde paramos em um Mirador para fotografar melhor o Aconcágua. Um pouco mais abaixo estava a estrada da portaria do Parque, que dava no acampamento de guarda-parques de Horcones. Depois de ver um videozinho sobre a montanha e seus perigos, liberaram-nos para subir os 2km de asfalto até o estacionamento. Bela vista. ‘Inda volto lá!
Na volta, passado 1km de Puente del Inca, paramos para conhecer el Sementerio del Andinista. foi meio emocionante encontrar a placa em homenagem ao Mozart Catão e ver a cruzinha no alto do cocuruto de pedra. Saí de lá bem mexido, sem querer falar nada nem olhar pra ninguém. É estranho o misto de respeito com medo que tomou conta de mim quando entrei ali. Poderia facilmente ser um deles. Porém entendo perfeitamente o que os levou a querer tentar…
Já ia findando a tarde quando resolvemos voltar. No início, seguia cauteloso, evitando as patrulhas na rodovia, mas logo percebi que não havia mais nenhuma e voltei a pilotar a moto normalmente.
Nem bem passaram 20km do “ponto das luvas”, em uma ultrapassagem igualzinha àquela que dera margem a quase ser multado, fomos novamente parados. Na hora em que estava encostando, olho para o guarda e desacredito - meu Deus, era o mesmo policial!
Agora fodeu, pensei. Ele nos deu uma colher de chá e nos pegou na mesma cagada… Com esses pensamentos eu estava tirando o capacete, quando percebi que ele estava do lado da moto. Extendeu a mão, com um sorriso estampado no rosto, e me cumprimentou efusivamente. Fez o mesmo com o Leandro.
O outro policial, carrancudo de tudo, só olhava. Pude perceber que era de uma patente mais alta que o nosso amigo. Ele nos mostrava para o seu oficial, dizendo que éramos os seus amigos “da luva”, que ele havia contado e lá lá lá lá…
Perguntou das fotos, até onde havíamos ido, se havíamos gostado, se estava tudo jóia, quando voltaríamos ao Brasil e mais um montão de coisas assim. Nem tocou no assunto da ultrapassagem. O outro policial, cara fechada.
Na hora de nos despedirmos, nos cumprimentou de novo e, inesperadamente, o outro também apertou nossas mãos. Então, do nada, abre um sorriso e diz: “quando voltarem à Argentina, não esqueçam de trazer uma luva para mim também”. Foi o fecho de ouro!
Voltamos tranqüilos para Mendoza, lan house, jantar, comemos Havanettes com expresso na Peatonal (Av. Sarmiento). Um dia longo, repleto de experiências.
de volta ao ninho
Boizé… já se passou uma semana que voltei ao lar e apenas hoje é que eu criei coragem de retomar as anotações de viagem. Mas não nego que houve um empurrãozinho da Carladuc, pois estava lendo os meus emails e brotou um pingback de um post dela que se refere a um dos meus. Curioso que sou, fui ver o que era e achei que estava na hora de voltar a colocar no ar as coisas.
Cheguei em casa no sábado, mas muita água rolou por baixo da ponte entre Mendoza e São Paulo. Vou manter o estilo de posts “diários”, que eu acredito que me ajude a organizar as informações para viagens futuras.
Na segunda ou terça de carnaval fomos atender um convite dos “Pês” e eu fiz uma mostra das fotos da viagem, devidamente baixadas no notebook da Fri. Fiz a mesma exposição pra turma daqui de casa no domingo e repeti a dose pro Leandro e pro Hall na última sexta-feira. Moral da história: num agüento mais ver as fotos da viagem. Porém, para poder colocar as que faltam no ar, estou baixando da câmera no meu micro de casa, pra queimar um DVD e levar pra loja, onde eu tenho largura de banda suficiente pra poder fazer upload no flickr… ou seja, nunca me livro delas!! argh!
Voltei pro escritório na quinta, mas sequer me dei ao trabalho de dar as caras por lá na sexta… o pessoal tocou tão bem e tão redondinho na minha ausência que deu gosto! Assumo o comando da nave apenas amanhã, mas não sei se estou muito ansioso. Nas palavras do Leandrão - “voltar pro escritório está sendo foda!”
Minhas aulas começam apenas em 25/02, mas estou bem mais ansioso. Terceiro ano, o ano da metade do curso. É um recorde pessoal!! As aulas da Mazi começam amanhã e combinamos que eu irei levá-la de moto. Ela está curtindo a idéia e já é a feliz proprietária de um capacete, capa de chuva, polainas e luvas.
Bom, enough said, ‘time to get back to the trip!
February 1, 2008
dia 14 - de La Serena à Mendoza (ARG)
Acordamos tarde, mas o café da manhã nos esperou e logo estávamos na estrada de novo. Nosso destino? Paso Los Caracoles, através do túnel Cristo Redentor.
Não minto - estava tenso, por causa do meu rádio. Passar com um rádio amador nas aduanas é sempre um momento de intenso stress.
Seguimos por uma estrada ótima (e pedagiada) até a saída para Los Andes e, de lá, para a fronteira internacional. Aqui, a estrada era de trânsito intenso e de mão dupla, o que tornava o avanço bastante lento. Além disso, estava em reparos, o que aumentava ainda mais o tempo de percurso.
Sobre os reparos, vale uma nota. Passam muitos e muitos caminhões aqui e os chilenos tiveram o bom senso de construir a pista em concreto. Cada ramo em reparo era escavado na terra em uma pofundidade de quase 1,5m, preenchido com cascalho bem grosso, areia e, depois, uma camada de mais de 30cm de concreto reforçado. Um exemplo!
À medida que subíamos, as montanhas dos Andes iam dando as caras ao fundo. A temperatura caía também, mas o sol forte ajudava a não perceber a queda.
Quando adentramos a subida em um intenso zigue-zague, foi uma emoção. Pilotar naqueles grampos de cabelo, deitando muito a moto a cada curva (ainda que a 45-55km/h), observando o trânsito que descia na mão contrária é uma sensação indescritível, que só é passível de cognição por aqueles que gostam e andam de moto…
Passamos os km de túnel bem no topo do Passo e logo estávamos em uma estação de fronteira do exército chileno. Ganhamos um carnê e fomos encaminhados para o controle conjunto de fronteira, alguns quilômetros à frente.
Aqui neste complexo, uma longa fila, alguns trâmites burocáticos simples, mais carimbos e podíamos seguir viagem. Fui o primeiro a passar e logo estava do outro lado, esperando pelos demais.
Um soldado da Gendarmeria Argentina puxou papo, interessado pela moto e logo éramos “brothers”. Ou Hermanos… Passar do Chile para a Argentina é necessário para que se perceba a diferença cultural entre os dois povos. O Argentino é alegre, brincalhão, curioso. O chileno, carrancudo, mal humorado. Na média, lógico.
Atravessada a zona de aduanas, à nossa esquerda, o Sentinela de Piedra, o tal do monte Aconcágua. As nuvens não nos permitiam vê-lo, mas descendo alguns km estávamos em Puente Del Inca, famoso início da trilha para muitos daqueles que ascenderam ao cume do teto das américas!
Em Punta de Vacas, mais um controle da Gendarmeria, com muitos sorrisos e muita “Suerte”. Estávamos ainda a 200km de Mendoza, mas em terra de altas montanhas e de muito respeito, pelo menos por mim.
Penitentes, outro ponto famoso para a ascensão e voa pra Mendoza. Ou corre!
Chegamos debaixo de muita chuva, eu estava ansiosíssimo… Em uma virada de praça, uma peça da minha bagagem se desprendeu e eu parei para pegá-la. Os demais não perceberam e seguiram em frente. Quando voltei para onde viraram, não os vi mais. Optei por ficar onde estava, sendo mais prático do que sair procurando a esmo. Quando viessem me procurar, a inteligência mandaria fazer o mesmo caminho… Não deu outra, em menos de 20 minutos o Leandro estava me buscando…
Pegamos um hotel simples, mas com estacionamento (distando só 3 quadras, pertinho, pertinho…), bem central, na Calle Las Heras, colado na San Martin.
Jantamos em um restaurante italiano excelente (Trevi), pegado ao hotel e com direito a 2 ótimas garrafas de vinho e também um nocello, cotesia do proprietário, um italiano da Sicília, que passava de mesa em mesa dando palpites e cumprimentando a freguesia.
Desmaiamos!
dia 13 - de Antofagasta à La Serena (CH)
Mais um dia longo de estrada. Na noite anterior, enquanto buscávamos um lugar pra comer - nota: há muitos deles em Antofagasta, que é uma cidade muito legal - cruzamos com um casal gaúcho numa CB-500, que vinham voltando para o Brasil, através do Atacama. Estiveram mais ao Sul do Chile e já estavam na contagem regressiva.
Jantamos em um restaurante pequeno e aconchegante (De Antaño, em uma casa da década de 1910) e pudemos nos deliciar com os maravilhosos peixes locais, com direito a entrada de mariscos e coisas afins. Quase não foi bom!
Saimos bem cedo, depois de um café minguado. Rodaríamos 900km nesse dia e era melhor acelerar para não chegarmos em La Serena durante a noite e ferrar a nossa procura por um hotel e, depois do merecido (e necessário) banho, por um restaurante.
Paramos após 50km para conhecer e fotografar a escultura conhecida como “Mão do Deserto”, uma enorme err… mão! que sai da areia no meio de lugar nenhum… um sonho de consumo bem ao estilo da Bienal de SP!
Muitas fotos, um cartão do mesmo casal gaúcho estrategicamente deixado entre as pedras e ‘bora acelerar que aí tem mais asfalto pra cobrir!
Completei 5000km de estrada nesse trecho, testemunhamos a mais bonita de todas as costas do Pacífico e passamos por uma longa tempestade de areia, devidamente fotografada!
Interessante também foi notar a gradual mudança no relevo, que foi saindo de desértico para uma savana e dali para uma espécie de cerrado e, então, para a presença de árvores maiores e maiores…
Da mesma maneira, os outrora inexistentes rios em sub 3400m passaram a se tornarem mais frequentes e maiores, mais caudalosos. As montanhas, pegadas no mar em Antofagasta e Tocopilla, afastaram-se bastante, dando espaço para mais propriedades de produção agropecuária e também havia praias de areia, de um azul muito, muito convidativo!
Em La Serena parece haver bastante cultivo de frutas e olivas, mas não nos sobrou tempo, nesta viagem, para conhecer. A cidade nos pareceu intensamente mais interessante que Antofagasta, com direito a belos prédios antigos, muita gente pelas ruas e ruas muito arborizadas. Uma tentação de lugar!
Logo encontramos um hotel que se adequava às nossas necessidades (precisamos sempre de estacionamento e estes são raros em La Serena) e buscamos um bom jantar.
Nossa primeira tentativa foi o mercado municipal, mas a insistência do garçom irritou bastante o Hall e optamos por uma mudança de lugar… boa escolha, comida muito boa e um ótimo Casillero Del Diablo pra fechar a noite. A última noite chilena merecia um ótimo vinho!
São Borja - terra de presidentes!
Primeiro dia de fevereiro e já cruzamos a fronteira de volta à nossa terra brasilis, depois de mais de 8000km de estrada, sendo 7000 deles em terras austrais!
Estamos no RS, em São Borja, cidade de fronteira com a Argentina, às margens do estupendo Rio Uruguai. Meus planos originais eram seguir daqui pra SP, saindo bem cedinho e tentando estar em casa no meio da noite.
Planos furados! Estou parado por aqui e vou aproveitar pra fazer upload de algumas fotos (algumas pq o link de up não é tão bom quanto o de download!), atualizar o diário de viagem e descansar um bocadinho.
Voltei a poder usar os acentos, portanto palavras sem acentuação ou são fruto de ignorância ortográfica ou mero esquecimento desta mente perturbada.
Estou morrendo de saudades da minha da Fri, da Má, de todos de casa. Quanto mais perto se está de chegar, mais a saudade aperta, mais aumenta a impaciência e maior é a vontade de correr de volta.
Mas, nem tudo é como se quer e muitas coisas numa viagem são um enorme exercício de paciência. Aliás, filosofando um pouquinho, acabei concluindo com o Hall que saudade não é o mero egoísmo de se querer a pessoa junto o tempo que se está longe. Suplanta em muito isso… saudade é querer dividir, é querer que o outro também viva aqueles momentos, veja aquelas coisas, coma aquelas comidas e beba aqueles vinhos… saudade é o enorme desejo de compartilhar as experiências.
Então, Fri, essa é pra vc:
“É noite, o carro está rugindo, parecendo fera…
Voando baixo em Campinas, na Via Anhangüera.
Já estou vendo ao longe a linda e doce Ribeirão
toda iluminada feito um céu no chão
na noite azulada de uma primavera…”
January 27, 2008
dia 12 - San Pedro de Atacama à Antofagasta (CH)
Na noite anterior, fora com o Hall para a estrada para experimentar a minha moto e ver se descobria a causa da barulheira… nao descobriu, concluiu que nao aumentava, mas que achava que daria pra continuar em frente. UFA! Avaliaremos ao longo do caminho!
Pois é… depois do merecido descanso e passeios escandalosos em San Pedro, já era a manha de partirmos. Acordamos perto das sete da manha e saimos completamente sonados para uma rapida visita de moto ao Valle De La Luna, distando poucos km da nossa pousada.
Esse é mais um dos passeios tradicionais da regiao, mas eu nao esperava muita coisa nao… Ledo engano! O lugar eh lindo e a luz da manha deixa-o ainda mais deslumbrante! As fotos no flickr falarao por mim…
Na volta, entrando na cidade, meu primeiro contato com os Carabineros Del Chile, a polícia local. Fomos parados, pediram nossos documentos e toda a rotina que vcs jah sabem. Soh que o bonitao aqui esquecera tudo na pousada, distando duas quadras dali!
Tomei um sabao do guarda, ameaçou de multa, mas ficou soh por isso! Que sorte!
Rapida saida pra umas comprinhas, achei um adesivo de SPA que caiu como uma luva na minha moto. Alias, falando dela, ela mudou seu nome de “La Tenebrosa” para “Jovencita”, depois de ter morrido em Londrina e renascido, com coracao novo. O adesivo de San Pedro se tornou a sua primeira tatuagem!
Ando com uma mania de me inclinar pra frente, na estrada, enquanto converso com ela, acariciando a sua carenagem, tratando-a como um cavalo. A unica diferenca eh que eu nao conseguiria comer um bife da minha moto, enquanto eu devoraria um cavalo inteiro!
Voltamos pra Pousada, despedidas dos nossos anfitrioes e muito, muito chao pelo deserto, rumo ao tal do Oceano Pacifico. O vento era algo insano e nao era uma visao incomum a moto na frente inclinada em mais de 20 graus para se manter em linha reta.
Atravessamos uma tempestade de poeira de boa proporçao - nao posso dizer que era uma tempestade de areia, pois vc nao ve areia em qase nenhum lugar do deserto do Atacama. Tudo que se encontram sao pedras, poh de pedras e mais pedras.
Muitas minas pelo caminho, em especial em Calama, no coraçao do altiplano. De Calama, seguimos rumo a Tocopilla, jah na costa do Pacifico. Fiquei emociado ao ve-lo e mais ainda com a Jovencita, que estava me levando ateh ele!
De Tocopilla seguimos ateh Atofagasta, capital da Region II (acho), onde iriamos dormir. Escolhemos uma estrada que beirava o oceano e acabamos tendo uma boa chance de descer ateh o mar e tirar fotos de nossas motos naquele lugar.
A moto do Hall atolou e foi divertido filma-lo tenntando tira-la daquela roubada… pelo menos para mim foi bastante divertido!
Algumas coisas que impressionaram muito nesse dia de viagem: a pujança mineral do deserto chileno, as praias de pedras no Pacifico e a completa ausencia de vida proximo ao oceano, alem de nenhum rio. A tal da ressurgencia de agua fria que cria o deserto eh malvada mesmo. O mar, porem, transborda em vida. Da pra ver pelas fotos!
Alem disso, abundam minas e mais minas em todo o trecho desde San Pedro. Ao longo da costa, percebem-se linhas que cortam os morros, num zigue-zaguear de caminhoes de minerio. Fiquei extremamente impressionado com isso!
Chegamos em Antofagasta ao anoitecer (anoitecer chileno, ou seja, depois das 21:30), arrumamos um tremendo dum muquifo pra dormir uma noite (os travesseiros cheiravam a vomito), saimos pra uma janta boa e desmaiamos!
Estou cuidando do upload das fotos e nao sei se eu terei paciencia de contar os proximos trechos ainda hjh - sao 22:21 em Mendoza e a fome estah me corroendo!
Cá estamos nós… Mendoza!!!!
Pois é… depois do meu post depressivo e de desabafo, esse aqui é nitidamente aquele em que conto que tudo está correndo bem e que eu nao precisei fugir do Deserto do Atacama!
Hoje será a nossa terceira noite aqui em Mendoza e eu estou amando esta cidade. Cheguei mesmo a sugerir pra Fri para que conseguisse uma transferencia pra cá, que eu topava “virar argentino”!
Enquanto baixo as fotos da camera para uma pasta aqui na máquina da lan, vou atualizando o diário de viagens… uma nota geek, antes… essa é a maior lan house q eu jah entrei - sao mais de 200 maquinas num unico salao!!
January 22, 2008
agora que postei tudo, as preocupacoes…
Pois eh, nem tudo sao flores.
Minha moto estah com um barulho estranho. O Hall notou ele ontem e se preocupou bastante. Falou que se for algo grave, teremos que abortar Iquique, Antofagasta e Mendoza e voltar pelo caminho mais curto.
Nao quero.
Se for um problema grave, que eu nao sei se saberemos agora (vamos mexer mais tarde, quando formos ao Valle de la Luna), minha intencao eh que eles sigam viagem e eu retorne pelo proprio Paso de Jama e dali para o Brasil.
Ha muitas cidades por aqui. Ha muitas cidades grandes no caminho. Se a moto quebrar de vez, ponho numa transportadora e mando pra SP. Pego um meio de transporte qualquer e tb me mando de volta pra SP. Nao eh um problema.
Nao quero carregar a responsabilidade de encurtar a viagem dos demais. Nao mesmo. Isso eh uma merda. Pelo que eu assuntei hj no onibus, voltando de Tatio, eles nao parecem gostar da minha ideia.
Ue, fodam-se se nao gostarem. Se for um problema grave, sou capaz de sair escondido, para que as coisas nao sejam de outra maneira. Sou teimoso pra cacete, sei que ha um risco de quebrar na estrada, mas nao quero encurtar a viagem de ninguem…
Por hoje, eh isso!
Vou tentar colocar titulos nas fotos, enquanto as ultimas 65 sobem…
dia 11 - San Pedro de Atacama
Nosso primeiro erro magistral - ontem contratamos com uma agencia a visita aos geysers de tatio e sabiamos que a van passaria em nossa pousada entre 04:00 e 04:20 para seguirmos viagem.
Colocamos nossos alarmes, mas ninguem se preocupou com o horario, efetivamente. Acordamos as 03:30 e estavamos nos preparando, quando nos tocamos do fuso horario. Haviamos acordado uma hora mais cedo!
A ida ao campo geotermal foi cansativa. Sao pouco mais de 90km em estrada muito ruim, com muito sono e com muito frio. Levamos duas horas! Acordei em varios trechos da estrada, mas logo apagava novamente.
Finalmente, chegamos! As primeiras fumarolas, os geysers propriamente ditos e as piscinas de aguas quentes. Que beleza! Pena que estava tudo coberto por nuvens, em um friozinho de 2°C. Mas valeu mesmo assim. Tirei diversas fotos, filmei algumas coisinhas, mas nao sei quando conseguirei postar. Estou fazendo o upload de mais 50 fotos, mas ainda tem 115 para acabar esse card e depois mais umas 100 no outro para chegar lah… hoje eu tenho certeza que nao dara tempo!
Tomamos cafe na frente da van - um sanduba de frios, nescafe quente (muito benvindo) e UM BOMBOM. Ao final de tudo, nossa guia chegou com muitos ovos cozidos, feitos ali mesmo, na agua de um dos geysers.
E espetacular de se ver. Acredita-se que o processo comece mais de 65km abaixo daquela saida, no proprio magma. Sabe-se que o magma aquece uma camada consideravelmente grossa de rochas e estas, em contato com um rio subterraneo frio, fazem com que a agua se vaporize. A agua vaporizada acaba tampada por outra camada superior de agua tambem fria. A pressao aumenta, a bagaca jorra que nem louca. Vale a pena.
Na volta, parada para fotografar bichos, vilarejos e outras coisitas mas. Chegamos em SPA proxima as 13:00. O Leandro foi dormir, o Hall foi as compras e eu vim pra ca, tirar o atraso. Agora o meu blog viajero estah em dia. Pena que as fotos nao possam acompanhar na mesma velocidade, ainda que a conexao aqui seja bem veloz.
Ainda nao almocei…
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