Era meados de 1800 e pouco, quando ainda passava Catavento, na TV Cultura. Minha avó era a diretora do programa. Quando eu vinha passar férias aqui em São Paulo, volta e meia ia com ela, pra passear pelo estúdio. Pois bem.
Num desses dias, eles precisavam de crianças como “extras” para um quadro. Minha avó sugeriu que eu fosse e eu, é claro, com meus 10 anos (no máximo), aceitei com entusiasmo! Ha! O Bacana que se cuide! Fui lá, todo feliz, e me juntei às outras 15 crianças que iam participar.
Já com tudo pronto para filmar, um sujeito com uma pintura colorida e engraçada no rosto e nas roupas dava as instruções. O Catavento havia ganho, recentemente, um prêmio, e o quadro seria sobre isso. Ele diria algo como “Amiguinhos, vocês sabiam que o Catavento ganhou um prêmio? É o prêmio X Y Z, que bla bla bla…” O que eu ouvi era mais pela linha de “Amiguinhos, vocês sabiam que o rbpzinho é um ator nato, um talento espantoso pronto para ser descoberto? E será lançado ao mundo aqui, no Catavento, neste quadro!” De qualquer modo, o plano era ele falar essas coisas, e ao final nós todos celebraríamos gritando o familiar “Eeeeeeeeeeeeeeee!” que todo grupo de crianças grita, quando está feliz (a julgar pelo que nos ensina a televisão). De resto, instruiu o sujeito, era só improvisarmos. Sermos naturais.
Interlúdio sentimental. No estúdio, naquele dia, meu afiado radar infantil havia localizado uma menina, mais ou menos da minha idade, que fez tilintar meu sentido-aranha. Muito bonita. Loira, aliás, se bem me lembro, o que já mostra uma pré-disposição desde aquela época. Enfim, uma cocota. Depois de a ver, comecei a andar estufando o peito e a falar mais grosso (o que, naquela idade, significava uns dois tons mais agudo que a voz dela).
Bom. A gravação começou. “Amiguinhos, vocês sabiam que o Catavento ganhou um prêmio?” Ah! Minha chance de alçar vôo nas artes dramáticas e, de quebra, impressionar a mina! Mulheres gostam de homens criativos e com iniciativa, certo?
Certo?
Fiz a cara mais Clark Gable que consegui, olhei de soslaio pra menina, sorri para um lado (sou assim, versátil), pensei “Ha! Vou dar o gancho!” e mandei ver: “É mesmo?? Qual??”
Silêncio.
…
Mais silêncio. Todos olhando pra mim. O sujeito colorido. A menina. Todas as outras crianças. O câmera.
Minha musa então se adiantou. Score! Contato visual! Por um segundo eu havia me assustado, mas eles deviam estar todos embasbacados com meu genial improviso! Mas por que o olhar dela parece conter tanto desprezo?
“Você não sabe qual é o prêmio??” Carregada de desdém, a voz dela não parecia tão angelical quanto eu havia imaginado.
“Bem… Sei…”
“Então perguntou pra quê??”
Ela virou então as costas e se afastou, seguida pelas outras crianças. O sujeito colorido suspirou e falou para tentarmos de novo.
Não lembro de mais nada daí em diante. Eu devo ter ficado olhando com cara de paspalho enquanto o sujeito colorido recitava o texto dele, e devo ter feito “Eeeeeeeeeeeeeeee” no final, embora provavelmente sem muito entusiasmo. Mas sinceramente não sei. Há um lapso na minha memória daquele momento até, mais ou menos, uns 3 anos depois. Só sei que o mundo não imagina do que escapou.