Este post está relacionado a um texto que a Carla publicou no blog dela (na verdade, eu já estava pensando em escrever sobre o assunto há um bom tempo, comecei a escrever um comentário pra Carla, daí resolvi publicar aqui). Não deve ser um post muito popular, mas tudo bem, meu público é restrito, eu faço um sushi pra eles e fica tudo numa boa :)
Bom, o padre que fez greve de fome contra a transposição do rio São Francisco já voltou a comer. Sem esperar que o projeto fosse abandonado, como ele havia prometido. Eu esperava que um “homem de Deus” mantivesse sua palavra, mas, convenhamos, isso seria condená-lo à morte certa. Não porque o projeto seja mesmo uma monstruosidade, nem porque o presidente Lula seja um canalha sem coração (não digo que não seja, isto simplesmente não é relevante neste caso). O fato é que um projeto desta magnitude, que vai afetar, de uma forma ou de outra, a vida de milhares de pessoas, não pode ficar nas mãos de qualquer um que resolva daqui em diante vai fazer uma dieta estrita de pão (bom, hóstia) e água. Sim, estou sendo (claramente) irônico, mas, falando sério, decisoes desta relevância têm de adotar critérios técnicos, científicos, sociais, não emotivos (nem políticos, aliás, embora acabe sendo inevitável). É fácil se sensibilizar com o bom pastor disposto a dar a vida pelo rio (ou, imagino - espero - por quem hoje usufrui dele), mas, sendo bastante pragmático, quanto ele estudou, de verdade, sobre o assunto? Ou, melhor ainda, quanto ele efetivamente mostrou que a transposição seria ruim? “Ele morou a vida toda à beira do São Francisco” não quer dizer absolutamente nada.
Devo admitir, pelo menos este padre chamou atenção para o tema. Mas acho que é o tipo errado de atenção. Ele não suscitou debate, ele simplesmente tentou colocar o presidente contra a parede e criou uma situação desconfortável em que quem é contra o gesto dele, ou a posição que ele defende, é tachado de insensível. A não ser que fosse extremamente inocente, ele deveria saber que o Lula nunca iria ceder à sua chantagem para abortar incondicional e imediatamente a transposição. Nenhum presidente o faria, seria politicamente inviável. Parar um projeto deste tamanho, com tanto já investido, pelo protesto de um homem? E, por favor, não me venham com Ghandi, Ghandi criou todo um movimento, mobilizou a população, não simplesmente sentou e disse “não como até os Ingleses irem embora”. Teria morrido de fome, ao som das risadas de Sua Majestade. Aliás, o fato de o padre ter voltado a comer, sem que o presidente tivesse aquiescido às suas exigências, me faz pensar se ele realmente pretendia ir às últimas conseqüências. Quando a fome aperta, haja hóstia!
Mas, até agora, ainda não disse qual a minha posição a respeito da transposição em si. Acontece que não tenho uma posição fechada sobre o assunto. Tenho opiniões, mas, se tivesse de dizer “sim” ou “não”, não saberia responder. Não acho que eu tenha embasamento o bastante (e olha que meu pai trabalha com recursos hídricos, já acompanhei muitas discussões sobre o tema), e acho o resto da população deveria tentar se informar melhor antes de achar que tem. É fácil se envolver emocionalmente, é fácil falar mal de um presidente de quem já não se gosta (e, convenhamos, ele fez por merecer), mas isto não deveria poluir o nosso julgamento. O terceiro link citado no post da Carla, por exemplo, tem frases como “[a transposição do S. Francisco] será uma tragédia para toda a sua população ribeirinha”, uma frase forte, mas quem lê deveria colocar a questão: vai mesmo ser uma tragédia para toda a sua população ribeirinha? Onde estão os dados que apoiam esta afirmação? E as fontes dos dados? As partes contra e a favor usam os mesmos dados?
Em particular, acho que o grande desafio de uma transposição, além da lisura do processo em si, é cuidar para que a distribuição da água, no destino, seja feita de forma adequada. Não adianta nada ter mais água se a população continua sem ter acesso a ela. Agora, se não houver água, sem dúvida não há distribuição, justa ou não, dela. Quanto a secar o São Francisco, sua vazão é de 2800 metros cúbicos por segundo; o projeto atual prevê desviar uma vazão de 26 metros cúbicos por segundo, menos de 1% da vazão do rio. Não sou especialista no ramo, mas a minha impressão é que não é isso que vai drenar o “Velho Chico” (que, devo dizer, me deu ótimas lembranças na infância, e por quem tenho o maior carinho). Aliás, salvo engano, eu diria que esta diferença de vazão já acontece, normalmente, ao longo do ano e mal seria sentida, se fosse.
Sei que já houve (há?) propostas de se fazer a transposição do rio Tocantins, num processo que seria mais caro, mais demorado, percorrendo um trajeto mais longo do rio até os estados de destino. E, curiosamente, ninguém acha ruim. Seria uma troca meio esquisita, ridícula até, porém mais politicamente viável. O pobre Tocantins não tem o carisma do São Francisco. Na pior das hipóteses, alguém arruma um coroinha pra passar o dia lá, se alimentando só de coca-cola quente e fandangos sabor presunto, e todos voltam felizes pra casa, cientes do dever cívico cumprido.