Certo dia, num daqueles marasmos que só a falta de uma guerra pode trazer, o rei Hindu Kaid pediu a seu ministro Sassa (não, não era o filho da concubina Sussa) que lhe arranjasse algo pra fazer. Algo que lhe lembrasse uma guerra, mas não tão trabalhoso.
Sassa então se recordou de um jogo vindo da Grécia antiga e trazido à Índia por Alexandre, o Grande. O jogo era meio complexo, mas Sassa deu uma boa adaptada e apresentou ao rei o primeiro jogo do que hoje chamamos de Xadrez.
O Rei ficou tão maravilhado que ofereceu a Sassa o que ele escolhesse! Minha filha em casamento? Leva a bruaca! Palácios de ouro? Me manda a planta! Suprimento vitalício de Lango-Lango? Mando fazer uma edição especial no formato da sua cabeça!
Mas Sassa, muito humildemente, retrucou que não queria nada disso. Só queria, assim, um pouquinho de arroz.
- Arroz, criatura? Ficou besta?
Pois é, só arroz. E nem era tanto assim. O novo jogo utilizava um tabuleiro de 8×8 casas. Sassa queria um grão de arroz (unzinho!) pra primeira casa, dois pra segunda, quatro pra terceira, 8 pra quarta e assim por diante. Só isso.
O rei deu aquela olhada pro alto, pensando “Nasce mesmo um idiota a cada minuto”, e mandou seus calculistas definirem o número total de grãos de arroz pra entregar a Sassa, já cogitando oferecer um saquinho pra que o rapaz não precisasse ir pra casa com o punhado de arroz na mão. Dali a pouco os calculistas voltaram, olhando pra baixo e meio sem jeito. A quantidade de arroz não iria caber num saquinho. Nem numa saca. Nem, na verdade, em todas as sacas que o reino pudesse produzir pelos próximos séculos.
A quantidade de arroz estipulada ficaria em 264 - 1, ou 18.446.744.073.709.551.615, grãos. Dizem alguns que Sassa não reteve sua cabeça por tempo o bastante pra comer nem um só dos grãos que lhe cabiam de direito (ou pra tirar molde pro Lango-Lango).
Corta para algum lugar, nos confins do mundo, início dos tempos. No templo de Brahma (sem trocadilhos com aquela água amarga que chamam de cerveja, por favor), monges deparam-se com três postes. Um deles atravessa 64 discos de ouro, de tamanhos escalonados, ordenados, de baixo para cima, do maior para o menor. Buda, então, os exorta a transferir os discos para um dos dois outros postes. Quando um dos monges mais apressados (devia ser novato) já ia correndo chamar mais gente pra ajudar (64 discos de ouro devem pesar umas boas onças), Buda acrescentou que só poderiam mover um disco de cada vez. E que não poderiam colocar um disco sobre outro menor. Sugeriu, ainda, que eles tivessem paciência. Pra começo de conversa, quando terminassem a tarefa o mundo chegaria ao fim. Vendo surgir uma lágrima furtiva no canto do olho do tal novato, Buda o tranquilizou.
O número mínimo de movimentos necessários para realizar a transferência seria 264 - 1. Se os monges conseguissem mover um disco por segundo (o que parece extremamente rápido, mesmo para um monge novato e assustado), o fim do mundo levaria algo em torno de 585 bilhões de anos (o que nos deixaria, atualmente, com aproximadamente 570 bilhões de anos pela frente).
Os monges respiraram fundo, procuraram seu nirvana interior e colocaram o disco menor em um dos postes vazios.